Gamertag

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A house is not a home

A saudade às vezes pode ser explicada em apenas uma imagem.

 
Depois de jogar Diablo 3 por quase 2 mil horas no Nintendo Switch não esperava que a experiência no PC fosse me pegar, porém não foi o jogo, foram as pessoas, esse pequeno grupo de pessoas jogando um jogo que a aquela altura já estava pra lá de velho, porém nem tudo se explica.

Uma vez ouvi Lionel citando uma frase de seu pai: 

"Aproveite a volta pra casa,
porque um dia não poderá mais fazer isso. 
A casa não vai sair do lugar,
mas as pessoas podem não mais estar lá."
 
É o mesmo aqui, o jogo ainda está lá.. 
a temporada ainda acontece, 
mas o Shaolin não estará online para falarmos de builds e lore, 
o Faísca não vai entrar para fazermos fendas e mais fendas, 
eu não repetirei a minha piada recorrente de Sarahp...

Tudo isso ficou por 2021, um ano que começou enlouquecedor e terminou "casa".
 

domingo, 2 de novembro de 2025

Welcome to Derry S1E1

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 1

O retorno ao submundo de Stephen King, entre ecos de infância, culpa e monstros que nunca dormem.

Capítulo 1 – O Cinema, o Medo e o Início

O episódio abre no cinema, e não poderia haver escolha mais simbólica. A tela, o musical, a plateia — tudo soa como uma metáfora do próprio espectador que está prestes a ser engolido pela história. A música fala sobre subversão, e não é apenas uma canção: é um prenúncio. Em Derry, tudo o que parece inocente tem algo corrompido por baixo.

Logo vemos uma criança com uma chupeta — uma imagem incômoda, quase grotesca. Ele foge do lanterninha e, pela forma como se comporta, percebemos que há algo profundamente errado em casa. Derry sempre foi um lugar onde a infância não é abrigo, mas campo de batalha. E o menino, com seu olhar inquieto, parece sentir algo — uma influência invisível, uma presença que só quem nasceu ali reconhece.

“Em Derry, as crianças sentem o perigo antes que o vejam.”

Quando o garoto tenta fugir da cidade, há uma breve esperança. Ele pega carona com uma família aparentemente normal — o modelo clássico americano, sorriso perfeito, cordialidade ensaiada. Mas há algo no olhar. E é ali, no interior do carro, que o desconforto cresce até o insuportável. A cena do fígado cru é brutal, quase ritualística. A naturalidade com que aquela criança segura o órgão e o esfrega no rosto do menino é de um horror tão físico que dispensa sustos. É puro incômodo. Pouco a pouco, entendemos: não há saída de Derry. A estrada termina onde começa. E aquela “família” era apenas mais uma das máscaras da Coisa.

“O medo em Derry tem endereço fixo. E ninguém sai de lá sem pagar o pedágio.”

A revelação do bebê deformado — a primeira manifestação visível da criatura — é uma das melhores escolhas de direção do episódio. Em vez do palhaço Pennywise, temos algo mais ancestral, mais simbólico. Um corpo imperfeito, nascido do medo nuclear e das deformidades que assombravam os anos 50. É um monstro e um espelho. O horror de King sempre foi assim: não vem de fora, mas do reflexo.

Capítulo 2 – A Cidade que Respira Morte

Após o prólogo, um salto de quatro meses. A série apresenta o núcleo militar — cientistas, segredos e projetos paralelos. É uma boa decisão narrativa: Derry, afinal, sempre foi um ponto cego do governo. Se há algo inexplicável ali, é natural que o exército americano esteja observando, mesmo que sem entender. Entre os laboratórios, aviões e toda a normalidade de um quartel.

Chegando na escola surge um detalhe cômico e bizarro: uma pilha de latas de picles, colocada em um dos armários como forma de bullying. Um mistério cênico que provavelmente retornará. É o tipo de humor estranho que Stephen King espalha entre traumas e tragédias.

Um aluno aparece fantasiado de tartaruga — uma clara referência à mitologia de King, onde a tartaruga representa a força que se opõe à Coisa. E ao redor, panfletos sobre guerra nuclear. Tudo parece girar em torno do mesmo medo coletivo: destruição, mutação, perda. Derry é, mais uma vez, um espelho do mundo.

“Enquanto o mundo teme bombas, Derry teme o que vive debaixo da calçada.”

Capítulo 3 – O Novo Clube dos Perdedores

Logo conhecemos o novo núcleo infantil. Duas meninas, uma conversa banal de escola — e a sensação de que algo maior está à espreita. O grupo de crianças é um aceno direto ao livro e aos filmes anteriores. Cada gesto, cada relação espelha o passado, como se Derry estivesse condenada a repetir a própria história.

Há uma cena belíssima no banheiro, que remete diretamente à icônica sequência de Beverly Marsh. O encanamento, o som da água, o murmúrio vindo do ralo — e, claro, a presença invisível de algo que espreita. A música que toca é a mesma do cinema, fechando o ciclo e sugerindo que tudo está conectado.

É também neste ponto que o tema da culpa começa a se desenhar. Lily, uma das protagonistas, carrega a culpa pela morte do pai e pelo desaparecimento de Matt. A pulseira com uma tartaruga que ela usa é um lembrete constante — um símbolo de promessa quebrada. A troca de brinquedos entre ela e Matt, mostrada em flashback, é uma das cenas mais delicadas e tristes do episódio.

“A culpa é o fantasma que Derry mais gosta de alimentar.”

Capítulo 4 – Ecos, Canos e o Retorno da Coisa

A série constrói com cuidado o terror cotidiano. O bullying na escola, as brincadeiras cruéis (como as latas de picles no armário), a humilhação silenciosa — tudo isso é amplificado pela presença invisível da Coisa. O medo não vem dos gritos, mas do som dos canos, da água que vaza, da música que reaparece onde não deveria.

É uma escolha inteligente: o terror de Derry sempre foi mais psicológico do que físico. E quando o sobrenatural finalmente se manifesta, ele já encontrou terreno fértil na dor humana.

A sequência do abajur grotesco e a manipulação dos medos individuais mostram como a série compreende o espírito do original. Pennywise não é apenas um monstro — é o catalisador das neuroses de toda uma cidade.

Capítulo 5 – A Biblioteca e o Teste Militar

As cenas na biblioteca são um déjà vu proposital. Os livros, as mesas, as crianças tentando se proteger em meio ao conhecimento — é a recriação perfeita da segurança ilusória do primeiro filme. Paralelamente, o núcleo militar volta à cena, e fica claro que o que estamos vendo é um teste. Algo está sendo estudado, a confiabilidade do major. A ideia de que o terror de Derry é um fenômeno observável e, quem sabe, controlável, é uma possibilidade das mais perturbadoras do episódio.

“Quando o medo vira experimento, a humanidade já desistiu de entender.”

Capítulo 6 – O Cinema e o Banho de Sangue

O episódio se encerra onde começou: no cinema. O ciclo se fecha, mas agora o tom é outro. O público não assiste — o público morre. A direção dessa sequência é brilhante, claustrofóbica e simbólica. A série não tem medo de quebrar a lógica do elenco principal logo de cara. Ela mata metade das crianças. Destrói a zona de conforto do espectador e deixa claro: ninguém está a salvo.

É um final corajoso, violento e poético. Um lembrete de que, em Derry, a inocência é a primeira vítima.

“O mal em Derry nunca dorme. Ele apenas troca de forma.”

Welcome to Derry começa como todo bom pesadelo: com a sensação de que já estivemos ali antes. E, de certa forma, estivemos mesmo. Porque há lugares — e histórias — que simplesmente se recusam a morrer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Setembro: A Morte do Game Pass

Jornada Gamer – Setembro: A Morte do Game Pass

Uma reflexão sobre jogos, preços, despedidas e o fim de uma fase digital. Setembro sempre leva alguma coisa embora.

Cena melancólica gamer, em ambiente escuro com reflexo de tela

Capítulo 1 – Setembros e Funerais Figurados

É engraçado pensar como alguns meses trazem em si a morte como tema. E não falo de luto literal, mas de versões nossas que deixamos para trás. Neste blog, já compartilhei momentos em que precisei me reinventar – por necessidade, por esgotamento, por ciclo. Setembro, com sua luz de fim de tarde e suas folhas amarelas, costuma ser o mês onde algo morre. Em 2025, o falecido foi o Game Pass. Ou melhor: o meu uso dele.

“A cada setembro, uma versão de mim se despede em silêncio.”

Capítulo 2 – O Começo: Brinde, Biblioteca e Esperança

Comprei o MetaQuest, e como brinde, ganhei um período gratuito do Game Pass. Parecia promissor. Uma biblioteca variada, acesso no PC e possibilidade de explorar jogos que não compraria normalmente. Mesmo sem um Xbox desde a época do 360, confesso que senti uma pontada de desejo de voltar. Quase comprei um Series S.

Mas o entusiasmo durou pouco. Ainda em 2025, o console teve dois aumentos de preço. Para mim, um sinal de alerta. E em 1º de outubro, veio o golpe final: o Game Pass Ultimate dobrou de preço. O que antes era uma boa ideia, virou um produto fora do meu perfil.

Capítulo 3 – O Custo da Biblioteca Alheia

No modelo atual, o Game Pass simplesmente não compensa para mim. Invisto melhor meu tempo e meu dinheiro em outros lugares: jogos grátis da Epic, títulos da Amazon Prime Gaming, e promoções na Steam que, sinceramente, ainda me emocionam.

Aliás, o curioso é que o Game Pass, que uma vez foi símbolo de democratização do acesso, agora parece querer voltar ao modelo tradicional. E se for para pagar caro por jogos que não são meus, prefiro comprar os que me interessam de verdade.

“Não basta acesso fácil. Precisa haver conexão emocional.”

Capítulo 4 – Troféus, Memórias e Consoles Parados

Eu até tinha planos de revisitar alguns jogos maiores pelo Game Pass. Jogos que tenho em outras plataformas e que queria ver com outros olhos. Pensava até em colecionar mais conquistas por lá, aumentar minha lista do Xbox. Mas a verdade é: ela vai parar por aqui. Assim como parou a da PSN há anos.

Hoje, há mais chance de eu consertar meu PlayStation 3 e farmar troféus nostálgicos do que comprar um Xbox novo. Isso diz muito sobre onde estão minhas raízes.

Capítulo 5 – Encerramento Temporário (ou Não)

Minha jornada pelo ecossistema Microsoft durou pouco mais de dois meses. E me despeço sem rancor, mas com consciência. A experiência não foi ruim — apenas não se encaixa mais.

Talvez eu volte. Talvez os preços mudem. Talvez o modelo mude. Mas neste setembro, ficou claro: para mim, não compensa mais.

“Encerrar ciclos também é jogar — com coragem.”

O Game Pass morreu para mim. Pelo menos por agora. E assim termina mais um trecho da minha Jornada Gamer.

Setembro de 2025. Jogando menos, escolhendo mais. Com menos hype, mas mais verdade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Pooh and Piglet


“Hoje foi um dia difícil”, disse Pooh, com a voz baixa.
Uma pausa se instalou no ar, carregada de silêncio.
“Quer falar sobre isso?” perguntou Piglet, com ternura nos olhos.
Pooh hesitou, e após alguns segundos, respondeu: “Não, acho que não.”
“Não tem problema”, disse Piglet suavemente, e se aproximou para sentar ao lado do seu amigo.
“O que você está fazendo?” perguntou Pooh, curioso.
“Nada, na verdade”, disse Piglet. “Só estou aqui. Eu sei como são os dias difíceis, e muitas vezes também não tenho vontade de falar sobre eles.”
Piglet então continuou, com uma sabedoria tranquila: “Mas sabe, Pooh, os dias difíceis se tornam muito mais leves quando sabemos que temos alguém ao nosso lado. E eu sempre estarei aqui para você.”
E enquanto Pooh, mergulhado em seus pensamentos, processava o peso do seu Dia Difícil, Piglet permanecia ali, quieto, balançando as perninhas com simplicidade e lealdade. Pooh, com o coração um pouco mais leve, pensou que seu melhor amigo nunca havia estado tão certo. 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Papo na Fogueira - De volta ao começo

Capítulo 1 – A volta do trio e o fio invisível

A fogueira nos esperava, paciente como sempre. Finalmente, o time estava completo — eu, André e Alexandre, a tríade que se forma quando o mundo lá fora parece pesar demais para segurar sozinho. Não foi fácil alinhar agendas, nem corpos: André ainda se recuperava de uma gripe persistente, mas fez questão de estar ali. Como se estivesse cansado de ficar calado com a própria mente. Como se a fogueira fosse o último remédio antes da recuperação completa.

Nossa chegada foi marcada por sorrisos que já conhecem o caminho. Cada um trouxe algo: uma piada repetida, uma garrafa, um olhar cansado, um abraço demorado. Eu, dessa vez, cheguei preparado. Já havia deixado ao lado do meu notebook um copo d’água, um pedaço de pão, e uma pequena caixa com tâmaras — talvez tentando alimentar algo em mim que não fosse só a alma.

Há uma liturgia não dita nesse encontro. E antes que qualquer tema surja, antes que o silêncio se transforme em confissão, fazemos a dança do cotidiano: “como você tá?”, “e o trabalho?”, “ainda não resolveu aquilo?”, “e aquele projeto lá?”. Essas frases, por mais banais que pareçam, são um ritual de reaproximação. Como se disséssemos uns aos outros: “ainda estou aqui, mesmo não estando tanto”.

Foi nesse compasso lento que Alexandre puxou um fio. Frágil, quase imperceptível. Um pensamento solto, jogado como quem não quer ferver a água, mas acaba acendendo o fogo. Ele se perguntou — e nos perguntou — como teria sido sua vida se, em certos momentos, tivesse feito escolhas diferentes.

"Há dores que não vêm de feridas abertas, mas de caminhos não trilhados."
— Autor desconhecido

Essa dúvida bateu em mim como uma pedra atirada com carinho. Como se ele tivesse me desarmado com um simples pensamento, sem saber que aquilo já me visitava em segredo há muito tempo. Eu me considero especialista em discussões que não existem mais, em respostas que nunca foram ditas, em guerras vencidas pelo silêncio. Passo horas vivendo na terra do “e se”. E se eu tivesse dito aquilo? E se eu tivesse escolhido o outro caminho? E se eu tivesse apenas ficado mais um pouco? Essas versões minhas, esses multiversos de mim, se sentaram conosco em volta da fogueira naquela noite.

Olhei para o fogo e me vi sendo muitos. Alguns mais felizes, outros apenas menos feridos. Alguns corajosos, outros mudos, mas todos convivendo dentro de mim como fantasmas que se recusam a atravessar. É um peso estranho esse de carregar destinos que nunca foram. E mesmo assim, sentem.

"A vida é feita de escolhas. E mesmo quando não escolhemos, já estamos decidindo."
— Clarice Lispector

O céu estrelado não parecia se importar com meus abismos internos. Mas ali, naquela primeira fagulha de conversa, percebi que essa noite prometia mais do que memórias: prometia confrontos. Não entre nós. Mas entre mim e minhas versões que não consegui enterrar.

Capítulo 2 – O multiverso de mim mesmo

Quando Alexandre jogou aquela ideia na fogueira, como quem sopra uma brasa para ver se ainda há calor, eu senti algo dentro de mim se acender. Ele falou de vidas que poderiam ter sido. De decisões que, se tivessem sido outras, teriam mudado absolutamente tudo. E isso… me encontrou.

Eu já vivi mais versões de mim mesmo do que consigo contar. Versões que se formaram durante anos e desapareceram em segundos. Versões que tomaram decisões diferentes, que responderam com mais coragem ou ficaram em silêncio por medo. Cada uma dessas versões segue comigo — como um coral de vozes que eu escuto sempre que o mundo cala.

“O passado é um país estrangeiro. Lá, tudo é feito de outro jeito.”
— L. P. Hartley

Eu sou especialista em responder discussões que não existem mais. Em refazer caminhos já trilhados. Em me culpar por não ter enxergado a placa que dizia “aqui termina o que você chamava de futuro”. A vida seguiu. Mas o que seguiu comigo foram essas versões que me visitam à noite, me sussurrando todas as escolhas que eu poderia ter feito. Algumas, eu sei, mudariam tudo.

E quando eu penso em tudo isso, não é só arrependimento. É luto. Luto por mim mesmo. Por pedaços meus que foram embora com aquelas decisões. Por pessoas que, talvez, nunca tivessem cruzado meu caminho se eu tivesse apenas dito “não”. Ou dito “sim”.

Há perdas que vêm da ausência, e outras que nascem do excesso. E, por vezes, me percebo convivendo com o fantasma daquilo que não vivi — e daquilo que vivi por impulso. O amor, por exemplo… talvez minha dor mais insistente. Eu ainda carrego a sensação de que só tive uma chance real. Uma chance de viver algo completo, recíproco, festivo. E ela se perdeu. Talvez porque não era pra ser. Talvez porque eu não sou.

"A pior solidão é aquela sentida ao lado da esperança."
— Diário não publicado

E o que me fere hoje não é a ausência daquele amor. É ver, com olhos mais maduros, como aquelas pessoas se tornaram verbais, intensas, apaixonadas… com terceiros. Com outros. E nunca comigo. Nunca por mim. Eu era apenas uma ponte. Um momento. Uma peça que completava o quebra-cabeça da carência — e depois era descartada com naturalidade.

Isso… isso me quebrou de um jeito profundo. Porque eu fui sincero. Dividi o que ninguém sabia. Mostrei mapas internos. E ganhei o silêncio. A ausência. A substituição. E hoje, vejo postagens que talvez falem de mim. Algumas são violentas. Outras, distantes. E eu me pergunto: por que compartilhei tanto com alguém que não aguentou nem ficar?

A fogueira ainda queimava, mas eu já estava mergulhado nesse universo paralelo. Nesse mundo onde cada chama era uma versão minha. Alguns de nós estavam bem. Outros, em frangalhos. Mas todos carregavam a mesma certeza: eu não fui escolhido. Eu não fui festejado. Eu não fui lembrado em voz alta.

André e Alexandre seguiram a conversa. Mudaram de assunto, riram, dividiram novos temas. Mas eu? Eu fiquei ali, olhando para as brasas, escutando vozes solitárias de muitas de minhas versões. Talvez seja esse o multiverso mais difícil de suportar.

Capítulo 3 – Quando todo mundo vai embora

O fogo ainda resistia, lançando pequenas faíscas ao vento como quem avisa: “Ainda estou aqui, mas não por muito tempo”. André e Alexandre se despediram com aquele tipo de abraço que diz “a gente se vê”, mas que sempre me deixa com a sensação de que talvez ninguém volte. Eles foram. E eu fiquei.

Fiquei com minhas versões, meus multiversos, minhas memórias que se arrastam pelo chão como brasas que recusam o esquecimento. Era eu, o fogo, e todos os pedaços de mim que ainda queimavam — mesmo depois de todas as partidas.

“A maioria das pessoas vai embora antes do fim da festa. E algumas nem lembram que foram convidadas.”
— Diário não publicado

A presença dos dois tinha feito parecer que eu estava inteiro por algumas horas. Rimos, divagamos, filosofamos como de costume. Mas bastou o silêncio retornar para eu perceber que, na verdade, estive fragmentado o tempo todo. Apenas disfarcei bem.

Quando todos vão embora, o mundo mostra o que sobra: o eco. O eco das palavras não ditas. O eco das decisões não tomadas. O eco daquilo que ainda vive dentro da gente porque ninguém mais quis levar. E é esse som abafado, abafado pelas paredes internas, que ecoa mais alto que qualquer grito.

Há uma solidão que nasce da ausência dos outros. Mas há outra, mais cruel, que nasce da presença constante do que não se pode dividir. E essa… essa é minha companheira mais fiel.

“Eu não tenho medo do escuro. Tenho medo do que aparece quando a luz apaga.”
— Papo na Fogueira

Naquela noite, eu percebi que todos os meus vínculos estavam em combustão. Não só o amor que eu não tive. Mas as amizades que se distanciaram. Os contatos que esfriaram. As alianças que racharam por dentro, silenciosamente. Eu estava cercado de fumaça — dentro e fora de mim.

E é curioso como até o fogo, símbolo da conversa, da luz, do ritual, se tornou um reflexo da minha vida: consumindo tudo ao redor e me deixando com cinzas nas mãos. Eu tentei me reconectar. Tentei acender de novo alguma fagulha com quem restou. Mas às vezes… ninguém espera por você quando tudo vira cinzas.

Naquele instante, entendi que a minha dor não era a ausência de alguém. Era o abandono das minhas versões, a desistência silenciosa dos que um dia disseram ficar. E tudo isso agora queimava comigo. A lenha que alimentava o fogo… era eu.

Capítulo 4 – O que fica quando tudo queima

A fogueira já era brasa. O céu, mais escuro. A fumaça subia preguiçosa, como se também tivesse cansado de iluminar memórias. Ainda ali, sozinho, pensei que o calor do fogo é como certos sentimentos: mesmo depois de apagados, deixam marcas na pele, no peito, no tempo.

Olhei para o círculo de pedras onde nos sentamos. Três cadeiras, três vozes, três mundos que se encontraram naquela noite. E percebi que, apesar do silêncio que veio depois, algo essencial havia acontecido: dessa vez, a conversa foi convergente.

“Às vezes, tudo que a gente precisa é de alguém que escute... sem pressa de apagar o fogo.”
— Papo na Fogueira

Nenhum de nós impôs verdades. O fio puxado por Alexandre encontrou tecidos que eu já conhecia, mas nunca tinha costurado na frente de ninguém. E foi bonito ver cada um de nós adicionando pontos, cores, jeitos diferentes de ver — como se a dor, dessa vez, não separasse, mas construísse algo comum.

André ouviu mais do que falou, mas em sua escuta havia presença. Alexandre devolvia ideias com o cuidado de quem oferece um cobertor. E eu, entre os escombros das versões que citei, me senti menos só.

A conversa caminhou por outros temas. Demos risada. Fizemos planos improváveis. Nos permitimos leveza, mesmo entre tantas ruínas. E no fim, Alexandre lançou uma pergunta final — daquelas que abrem um buraco na alma e a gente finge que não ouviu. Mas ouvimos.

Essa pergunta não está no texto. É um segredo entre nós e a fogueira.

Voltando para casa, entendi que o tempo daquela noite foi estranho: parece que não vimos as horas passarem, e ao mesmo tempo, foi como se tivéssemos vivido dez anos em poucas horas. E talvez seja essa a grande beleza dos encontros reais — a distorção do tempo quando ele é bem vivido.

“Não vimos o tempo passar... porque usamos o tempo para estar.”
— Diário pós-fogueira

Sim, a vida ainda arde. Ainda há cinzas. Mas também há brasas que se recusam a apagar. E enquanto houver calor, haverá caminho.