🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.
Welcome to Derry – Episódio 1
O retorno ao submundo de Stephen King, entre ecos de infância, culpa e monstros que nunca dormem.
Capítulo 1 – O Cinema, o Medo e o Início
O episódio abre no cinema, e não poderia haver escolha mais simbólica. A tela, o musical, a plateia — tudo soa como uma metáfora do próprio espectador que está prestes a ser engolido pela história. A música fala sobre subversão, e não é apenas uma canção: é um prenúncio. Em Derry, tudo o que parece inocente tem algo corrompido por baixo.
Logo vemos uma criança com uma chupeta — uma imagem incômoda, quase grotesca. Ele foge do lanterninha e, pela forma como se comporta, percebemos que há algo profundamente errado em casa. Derry sempre foi um lugar onde a infância não é abrigo, mas campo de batalha. E o menino, com seu olhar inquieto, parece sentir algo — uma influência invisível, uma presença que só quem nasceu ali reconhece.
“Em Derry, as crianças sentem o perigo antes que o vejam.”
Quando o garoto tenta fugir da cidade, há uma breve esperança. Ele pega carona com uma família aparentemente normal — o modelo clássico americano, sorriso perfeito, cordialidade ensaiada. Mas há algo no olhar. E é ali, no interior do carro, que o desconforto cresce até o insuportável. A cena do fígado cru é brutal, quase ritualística. A naturalidade com que aquela criança segura o órgão e o esfrega no rosto do menino é de um horror tão físico que dispensa sustos. É puro incômodo. Pouco a pouco, entendemos: não há saída de Derry. A estrada termina onde começa. E aquela “família” era apenas mais uma das máscaras da Coisa.
“O medo em Derry tem endereço fixo. E ninguém sai de lá sem pagar o pedágio.”
A revelação do bebê deformado — a primeira manifestação visível da criatura — é uma das melhores escolhas de direção do episódio. Em vez do palhaço Pennywise, temos algo mais ancestral, mais simbólico. Um corpo imperfeito, nascido do medo nuclear e das deformidades que assombravam os anos 50. É um monstro e um espelho. O horror de King sempre foi assim: não vem de fora, mas do reflexo.
Capítulo 2 – A Cidade que Respira Morte
Após o prólogo, um salto de quatro meses. A série apresenta o núcleo militar — cientistas, segredos e projetos paralelos. É uma boa decisão narrativa: Derry, afinal, sempre foi um ponto cego do governo. Se há algo inexplicável ali, é natural que o exército americano esteja observando, mesmo que sem entender. Entre os laboratórios, aviões e toda a normalidade de um quartel.
Chegando na escola surge um detalhe cômico e bizarro: uma pilha de latas de picles, colocada em um dos armários como forma de bullying. Um mistério cênico que provavelmente retornará. É o tipo de humor estranho que Stephen King espalha entre traumas e tragédias.
Um aluno aparece fantasiado de tartaruga — uma clara referência à mitologia de King, onde a tartaruga representa a força que se opõe à Coisa. E ao redor, panfletos sobre guerra nuclear. Tudo parece girar em torno do mesmo medo coletivo: destruição, mutação, perda. Derry é, mais uma vez, um espelho do mundo.
“Enquanto o mundo teme bombas, Derry teme o que vive debaixo da calçada.”
Capítulo 3 – O Novo Clube dos Perdedores
Logo conhecemos o novo núcleo infantil. Duas meninas, uma conversa banal de escola — e a sensação de que algo maior está à espreita. O grupo de crianças é um aceno direto ao livro e aos filmes anteriores. Cada gesto, cada relação espelha o passado, como se Derry estivesse condenada a repetir a própria história.
Há uma cena belíssima no banheiro, que remete diretamente à icônica sequência de Beverly Marsh. O encanamento, o som da água, o murmúrio vindo do ralo — e, claro, a presença invisível de algo que espreita. A música que toca é a mesma do cinema, fechando o ciclo e sugerindo que tudo está conectado.
É também neste ponto que o tema da culpa começa a se desenhar. Lily, uma das protagonistas, carrega a culpa pela morte do pai e pelo desaparecimento de Matt. A pulseira com uma tartaruga que ela usa é um lembrete constante — um símbolo de promessa quebrada. A troca de brinquedos entre ela e Matt, mostrada em flashback, é uma das cenas mais delicadas e tristes do episódio.
“A culpa é o fantasma que Derry mais gosta de alimentar.”
Capítulo 4 – Ecos, Canos e o Retorno da Coisa
A série constrói com cuidado o terror cotidiano. O bullying na escola, as brincadeiras cruéis (como as latas de picles no armário), a humilhação silenciosa — tudo isso é amplificado pela presença invisível da Coisa. O medo não vem dos gritos, mas do som dos canos, da água que vaza, da música que reaparece onde não deveria.
É uma escolha inteligente: o terror de Derry sempre foi mais psicológico do que físico. E quando o sobrenatural finalmente se manifesta, ele já encontrou terreno fértil na dor humana.
A sequência do abajur grotesco e a manipulação dos medos individuais mostram como a série compreende o espírito do original. Pennywise não é apenas um monstro — é o catalisador das neuroses de toda uma cidade.
Capítulo 5 – A Biblioteca e o Teste Militar
As cenas na biblioteca são um déjà vu proposital. Os livros, as mesas, as crianças tentando se proteger em meio ao conhecimento — é a recriação perfeita da segurança ilusória do primeiro filme. Paralelamente, o núcleo militar volta à cena, e fica claro que o que estamos vendo é um teste. Algo está sendo estudado, a confiabilidade do major. A ideia de que o terror de Derry é um fenômeno observável e, quem sabe, controlável, é uma possibilidade das mais perturbadoras do episódio.
“Quando o medo vira experimento, a humanidade já desistiu de entender.”
Capítulo 6 – O Cinema e o Banho de Sangue
O episódio se encerra onde começou: no cinema. O ciclo se fecha, mas agora o tom é outro. O público não assiste — o público morre. A direção dessa sequência é brilhante, claustrofóbica e simbólica. A série não tem medo de quebrar a lógica do elenco principal logo de cara. Ela mata metade das crianças. Destrói a zona de conforto do espectador e deixa claro: ninguém está a salvo.
É um final corajoso, violento e poético. Um lembrete de que, em Derry, a inocência é a primeira vítima.
“O mal em Derry nunca dorme. Ele apenas troca de forma.”
Welcome to Derry começa como todo bom pesadelo: com a sensação de que já estivemos ali antes. E, de certa forma, estivemos mesmo. Porque há lugares — e histórias — que simplesmente se recusam a morrer.



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