Capítulo I — De volta aos dramas adolescentes
O capítulo 14 destoa bastante de tudo aquilo que O Enigma do Príncipe vinha construindo até aqui.
Depois de capítulos marcados pela guerra, pelo colar amaldiçoado, pelas suspeitas envolvendo Draco Malfoy e pelas memórias sobre a infância de Lord Voldemort, J.K. Rowling decide nos lembrar de uma coisa muito simples:
esses personagens ainda são adolescentes.
Adolescentes confusos.
Ciumentos.
Inseguros.
Completamente incapazes de falar claramente sobre aquilo que sentem.
O resultado é um capítulo quase inteiramente dedicado a relacionamentos, beijos, sentimentos mal compreendidos e pequenas vinganças emocionais.
Não é necessariamente um capítulo ruim.
Ele cumpre a função de mostrar o amadurecimento afetivo dos personagens e oferece um contraste importante com a gravidade do restante da história.
Mas espero sinceramente que esses conflitos não sejam prolongados por muitos capítulos, como já aconteceu em livros anteriores.
A guerra pode estar acontecendo do lado de fora, mas para um adolescente o fim do mundo também pode começar com um beijo dado à pessoa errada.
Capítulo II — O convite de Hermione
Como pano de fundo para o capítulo, temos a festa de Natal organizada pelo Clube do Slugue.
Desta vez, Slughorn parece determinado a garantir a presença de Harry.
A festa foi marcada justamente para uma noite em que ele não terá treino de quadribol, eliminando a desculpa que vinha utilizando para evitar as reuniões do professor.
Rony inicialmente continua fazendo pouco caso do clube.
Ele critica as reuniões, as pessoas escolhidas e o interesse de Slughorn em reunir alunos considerados importantes ou promissores.
Então Hermione revela que os convidados podem levar acompanhantes.
E mais do que isso:
ela diz que estava pensando em convidar Rony.
A revelação transforma imediatamente o clima entre os dois.
Aquilo que poderia ter sido um convite simples se torna um momento constrangedor, especialmente porque nenhum dos dois possui maturidade suficiente para conversar abertamente sobre o que está acontecendo.
Durante a aula de Herbologia, o clima permanece estranho.
Harry percebe.
Observa os dois.
Tenta entender o que está acontecendo.
Mas Rony e Hermione continuam se comunicando através de provocações, silêncios e indiretas.
É quase impressionante como dois personagens capazes de enfrentar monstros, Comensais da Morte e professores perigosos se tornam completamente inúteis quando precisam falar sobre sentimentos.
Capítulo III — Harry, Gina e um sentimento inesperado
Enquanto isso, Harry enfrenta uma confusão particular.
Ao encontrar Gina beijando Dino Thomas, ele sente algo que não consegue explicar imediatamente.
Sua primeira reação é tentar racionalizar.
Talvez esteja apenas sendo protetor.
Talvez esteja preocupado por ela ser a irmã de seu melhor amigo.
Talvez seja apenas estranheza por vê-la em um relacionamento.
Mas nenhuma dessas explicações parece suficiente.
Harry sente ciúme.
E essa percepção o incomoda.
Durante muito tempo, Gina foi apenas a irmã mais nova de Rony.
Uma presença familiar na Toca.
A menina tímida que mal conseguia falar quando ele estava por perto.
Agora ela cresceu.
Tornou-se mais confiante.
Mais independente.
E Harry começa finalmente a enxergá-la de uma maneira diferente.
Às vezes, uma pessoa não muda de lugar em nossa vida. Somos nós que finalmente aprendemos a olhar para ela.
Capítulo IV — A explosão de Rony
Rony reage ao beijo entre Gina e Dino de forma completamente desproporcional.
Ele tenta assumir o papel de irmão protetor.
Fica furioso.
Critica Gina.
Age como se tivesse autoridade sobre a vida amorosa dela.
Gina, naturalmente, não aceita.
E responde atingindo exatamente o ponto mais sensível do irmão.
Ela diz que Rony está agindo daquela maneira porque nunca beijou ninguém.
Em seguida, lembra que Harry já havia saído com Cho Chang e que Hermione havia se relacionado com Vítor Krum.
É nesse momento que toda a insegurança de Rony emerge.
A reação dele não é apenas sobre Gina.
Também não é apenas sobre Dino.
É sobre sua própria sensação de inadequação.
Rony constantemente se compara às pessoas ao redor.
Harry é famoso.
Hermione é brilhante.
Seus irmãos são talentosos e conhecidos.
E agora ele descobre que até no campo amoroso parece estar atrasado em relação aos amigos.
O problema é que, em vez de admitir sua insegurança, ele transforma tudo em raiva.
E, de alguma maneira absurda, passa a descontar essa raiva em Hermione.
Ela não fez nada contra ele.
Seu relacionamento com Krum aconteceu anos antes.
Rony sequer havia manifestado seus sentimentos por ela.
Ainda assim, ele age como se tivesse sido traído.
Algumas pessoas não sabem dizer que estão feridas. Então fazem de tudo para ferir alguém de volta.
Capítulo V — Quando o ciúme invade o campo
Toda essa confusão emocional começa a afetar diretamente o desempenho de Rony no quadribol.
Ele já vinha enfrentando dificuldades nos treinos.
Agora joga cada vez pior.
Erra defesas simples.
Perde a confiança.
Fica ainda mais irritado consigo mesmo.
Chega ao ponto de dizer a Harry que pretende abandonar o time.
Harry, como capitão, percebe que o maior problema de Rony não é técnico.
É psicológico.
Ele possui capacidade para ser um bom goleiro.
O que não possui é confiança suficiente para acreditar nisso.
E chega então o dia da partida contra a Sonserina.
Rony está nervoso.
A pressão é enorme.
E Harry decide utilizar uma estratégia pouco convencional.
Capítulo VI — A sorte que não estava no copo
Durante o café da manhã, Hermione vê Harry mexendo no suco de Rony.
A reação dela é imediata.
Ela acredita que Harry colocou algumas gotas de Felix Felicis na bebida.
A poção da sorte.
Rony também percebe.
E passa a acreditar que, durante algumas horas, tudo dará certo para ele.
A mudança é instantânea.
Não porque a poção esteja agindo.
Mas porque Rony acredita que ela está.
Durante o jogo, ele atua de maneira excepcional.
Defende os ataques da Sonserina.
Joga com confiança.
Ajuda a Grifinória a conquistar a vitória.
Somente depois da partida Harry revela a verdade:
não havia colocado Felix Felicis no copo.
A poção continuava intacta.
Tudo o que Harry fez foi permitir que Rony acreditasse que estava protegido pela sorte.
E essa crença foi suficiente para que ele deixasse de sabotar a si mesmo.
Rony não precisava de sorte para jogar bem. Precisava apenas acreditar, por algumas horas, que não conseguiria fracassar.
É provavelmente a ideia mais interessante de todo o capítulo.
Harry não melhorou a habilidade de Rony.
Não modificou sua vassoura.
Não enfeitiçou os adversários.
Ele apenas retirou temporariamente o peso da insegurança.
Quando Rony acreditou que o fracasso não era uma possibilidade, conseguiu demonstrar a capacidade que sempre possuiu.
Capítulo VII — A briga com Hermione
Depois da partida, Hermione confronta Harry.
Ela acredita que ele trapaceou ao dar a poção da sorte para Rony.
Harry então mostra o frasco intacto e explica o que realmente aconteceu.
A revelação deveria encerrar o conflito.
Mas Rony reage mal.
Em vez de perceber que Hermione estava preocupada com a honestidade da partida, ele interpreta a reação dela de outra forma.
Rony acredita que Hermione não confiava em sua capacidade.
Para ele, o protesto dela significa que só poderia ter jogado tão bem com ajuda mágica.
É uma interpretação injusta.
Mas também nasce de todas as inseguranças que ele vem acumulando.
Rony já está magoado com Hermione por causa de Vítor Krum.
Ela sequer sabe que está sendo julgada por isso.
Então qualquer frase se transforma em combustível para uma briga que nenhum dos dois consegue explicar honestamente.
Hermione não diz que sente algo por Rony.
Rony não admite que está com ciúmes.
E os dois passam a agir como se simplesmente estivessem irritados um com o outro.
Capítulo VIII — Lila Brown
Durante a comemoração pela vitória da Grifinória, Rony toma uma decisão que parece possuir muito mais relação com Hermione do que com a própria Lila Brown.
Ele começa a beijá-la diante de todos.
Hermione vê.
E entende imediatamente o que aquilo significa.
Talvez Rony realmente se sinta atraído por Lila.
Talvez esteja apenas tentando provar que também consegue se relacionar com alguém.
Talvez queira atingir Hermione.
Provavelmente existe um pouco de tudo isso.
Mas o resultado é o mesmo:
Hermione fica ferida.
E Rony, em sua tentativa de superar a própria insegurança, acaba criando um problema muito maior.
Existem beijos que começam por desejo. Outros começam porque alguém está olhando.
Considerações Finais
O capítulo 14 é um capítulo inteiramente adolescente.
A Grifinória enfrenta a Sonserina.
Rony encontra confiança para jogar.
Harry começa a perceber seus sentimentos por Gina.
Hermione demonstra interesse por Rony.
Rony descobre o relacionamento passado de Hermione com Krum.
E Lila Brown acaba envolvida numa confusão emocional que provavelmente ainda está apenas começando.
Depois de tantos capítulos em que a narrativa avançou por meio de mistérios, ataques e memórias sobre Voldemort, aqui a história avança através de olhares, ciúmes e coisas que ninguém possui coragem de dizer.
O capítulo funciona como um lembrete de que amadurecer não significa apenas aprender feitiços mais difíceis ou enfrentar inimigos mais perigosos.
Também significa descobrir sentimentos que não sabemos controlar.
Rony não entende por que está com raiva de Hermione.
Hermione não consegue dizer claramente o que esperava dele.
Harry ainda tenta convencer a si mesmo de que sente apenas uma preocupação fraternal por Gina.
E todos eles acabam transformando sentimentos simples em situações muito mais complicadas do que precisariam ser.
É uma representação bastante honesta da adolescência.
Mas espero que o livro não permaneça preso nisso por muito tempo.
Existe uma guerra acontecendo.
Draco continua envolvido em alguma coisa.
Dumbledore está preparando Harry para enfrentar Voldemort.
E depois de tantos capítulos avançando de forma tão consistente, seria frustrante ver a narrativa parar por tempo demais apenas porque seus personagens ainda não aprenderam a conversar.
Talvez a adolescência seja justamente isso: sentir tudo com intensidade demais e compreender tudo tarde demais.





