Capítulo I — O “mais do mesmo” que pesa mais
O capítulo 2 tem aquela sensação de continuidade que, à primeira vista, parece simples: “é mais do mesmo”. Harry continua na casa dos Dursley, continua preso àquele tipo de convivência que não é convivência — é tolerância forçada. E continua com um desejo específico, quase pequeno perto de todo o resto, mas que carrega uma esperança real: conseguir autorização para ir a Hogsmeade.
Eu sigo ansioso por isso. Não apenas pelo destino em si, mas pela ponte que isso cria com a minha memória do jogo. Quero ver se Hogsmeade vai aparecer de fato e como o livro vai descrever esse lugar que, em Hogwarts Legacy, foi quase um centro de gravidade: a vila onde comprei varinha, vassoura, poções, plantas, pergaminhos — a primeira vila que vira familiar, que vira referência, que vira “um lugar seguro”. A expectativa não é só turística; ela é afetiva. É como se eu estivesse esperando reencontrar um lugar onde já estive, só que por outra linguagem.
Certas expectativas não nascem do que vem pela frente, mas do que a memória já construiu por dentro.
Capítulo II — A chegada da tia Guida e o tipo específico de veneno
No meio dessa tensão silenciosa, Harry descobre que a irmã do tio Válter vai passar um tempo na casa. E a tia Guida já chega com a energia de quem não visita: invade. Ela não parece apenas desagradável. Ela parece tóxica, pesada, do tipo que transforma o ambiente inteiro em um julgamento constante.
Ela critica Harry, diminui, provoca. E o texto desenha algo muito real: existe um tipo de pessoa que não ofende por acidente. Ofende com precisão. Pessoas assim sabem exatamente qual frase encosta no lugar sensível. Elas não atiram palavras no escuro — elas miram.
Harry tenta se controlar. Tenta manter algum tipo de compostura, talvez por medo das consequências, talvez por esperança de conseguir a permissão de Hogsmeade, talvez por simples exaustão. Mas a presença dela não é apenas incômoda — é um teste contínuo.
Existem pessoas que não conversam — elas apertam feridas para ver reação.
Capítulo III — O limite é um lugar onde a pessoa chega empurrada
O que mais me pega nesse capítulo é o modo como ele retrata o empurrão até o limite. Harry vai sendo testado, testado, testado. E isso me toca de um jeito muito pessoal. Porque eu já estive em situações parecidas: momentos em que alguém vai insistindo, insistindo, insistindo — até que, em algum ponto, a nossa contenção deixa de ser escolha e vira simplesmente impossibilidade.
Existe uma diferença enorme entre “perder o controle” e “ser levado a perder o controle”. E o livro captura esse processo com uma clareza desconfortável: a reação não nasce do nada. Ela é construída. Ela é provocada. Ela é cultivada por alguém que parece querer exatamente isso: a explosão, o erro, o momento em que você vira culpado por tudo.
Nem toda explosão é impulso. Algumas são a última defesa de quem foi encurralado.
Capítulo IV — Pais, gatilho e a magia que escapa
O estopim acontece quando a tia Guida fala dos pais de Harry — principalmente do pai. E aí algo muda. Porque insultar Harry já é cruel, mas insultar a memória de quem ele perdeu é outro tipo de violência. É tocar numa ausência e transformá-la em ataque. É humilhar alguém pelo que ele não pode recuperar.
Harry perde o controle. E a magia escapa. Não como truque, não como feitiço planejado, mas como transbordamento. A tia Guida começa a flutuar como um balão. E, assim que isso acontece, uma lembrança do filme me atravessa — eu acredito que essa cena exista na adaptação. As minhas memórias dos filmes são nebulosas, espalhadas em fragmentos: uma cena aqui, outra ali. Mas essa imagem é forte.
E é interessante perceber como o livro, nesse momento, faz a magia parecer menos “poder” e mais “sintoma”. A magia não é só ferramenta, ela é resposta emocional quando a linguagem comum falha. Quando não há espaço para defender-se com palavras, o corpo e a magia falam.
Há dores que não cabem em resposta educada. Elas transbordam.
Capítulo V — Fuga: quando sair é a única forma de continuar inteiro
Depois disso, Harry faz algo que soa inevitável: ele pega suas coisas e foge de casa. Não como ato de rebeldia teatral, mas como instinto de preservação. Ele não aguenta mais aquele ambiente de ofensas e humilhações. A casa, que nunca foi abrigo, se torna insuportável.
E tem um detalhe que pesa aqui: Harry sai com tudo o que tem. É uma fuga com bagagem, com permanência implícita, com uma espécie de “não dá mais para voltar”. Ele não está saindo para respirar e retornar. Ele está saindo porque, naquele momento, ficar é aceitar ser esmagado.
O capítulo termina nesse gesto. Harry do lado de fora, carregando o que consegue, deixando para trás um lugar que nunca o quis. E, a partir daqui, a história tem um cheiro diferente. Porque agora não é mais só sobre querer voltar para Hogwarts. É sobre não ter para onde ir — e, ainda assim, seguir.
Às vezes, fugir não é covardia. É a forma mais honesta de continuar vivo por dentro.







