Capítulo I — Um começo que se recusa a andar
O capítulo 11 começa devagar. Não no sentido de ser fraco, mas como quem deliberadamente pisa no freio da narrativa. A história parece não querer avançar, como se precisasse criar um falso conforto antes de empurrar o leitor novamente para o desconforto. O braço de Harry melhora, o perigo imediato passa, e isso cria a ilusão de normalidade. Uma normalidade que nunca dura em Hogwarts.
Harry sai à procura dos amigos e não encontra ninguém. Esse detalhe é pequeno, mas diz muito. A ausência já começa a preparar o terreno para o isolamento que atravessa todo o capítulo. Quando finalmente os encontra, é em um lugar simbólico: o banheiro. Espaço de segredo, de conspiração, de coisas feitas às escondidas. Hermione e Ron estão ali, mergulhados na Poção Polissuco, esse artefato que não apenas transforma corpos, mas dilui identidades.
Há capítulos que não começam com ação, mas com silêncio. E o silêncio quase sempre antecede o erro.
Capítulo II — Roubar Snape é sempre pessoal
A necessidade de ingredientes específicos empurra a narrativa para um território previsível e, ao mesmo tempo, tenso: a sala de poções de Snape. Não é apenas um roubo. É uma invasão simbólica. Roubar Snape é desafiar a autoridade que mais parece pronta para esmagar qualquer desvio.
O plano se constrói com uma simplicidade quase infantil, mas que carrega riscos enormes. Harry provoca uma explosão no caldeirão, cria o caos necessário para que Hermione aja. Snape, como esperado, explode também — não apenas de raiva, mas de certeza. Para ele, não há dúvida: Harry Potter é o culpado.
Essa parte do capítulo reforça algo que já vinha sendo construído: Harry não precisa mais fazer nada para ser suspeito. A narrativa começa a tratar a culpa como algo pré-existente, uma mancha que se projeta sobre qualquer ação dele.
Quando a culpa já foi decidida, qualquer distração vira prova.
Capítulo III — O clube de duelos e o conforto inesperado
O clube de duelos surge quase como um alívio narrativo. Para mim, ele vem acompanhado de um sorriso imediato. Existe uma memória vaga, misturada com o filme, de Snape e Lockhart duelando — uma cena que sempre carregou um humor estranho, quase deslocado.
Mas, curiosamente, o que mais me atravessa aqui não é o filme. É o jogo. Hogwarts Legacy aparece como um espaço de conforto, de segurança emocional. O clube de duelos do livro se conecta diretamente com aquele ambiente do jogo onde experimentar feitiços não é punição, mas aprendizado.
Há algo de muito interessante nessa sobreposição. Alguns feitiços descritos aqui simplesmente não existem no jogo. E isso não frustra — pelo contrário, anima. Abre possibilidades. Cria a sensação de que esse universo ainda não está fechado, de que ainda há espaço para expansão, para novos jogos, novas mecânicas, novas formas de viver Hogwarts.
Quando um universo ainda guarda feitiços inéditos, ele continua vivo.
Capítulo IV — A cobra, a língua e o peso do preconceito
O duelo entre Harry e Draco mantém viva a rivalidade que já conhecemos. Nada aqui é novo — até que é. Draco conjura uma cobra. E Harry fala com ela.
No primeiro livro, a ofidioglossia aparece como algo quase inocente. Harry sente compaixão por uma cobra criada em cativeiro. Há empatia, curiosidade, surpresa. É um dom que surge sem rótulo, sem julgamento.
Aqui, tudo muda. O mesmo dom agora carrega um peso histórico. Um peso simbólico. Ofidioglotas são associados a bruxos das trevas, a Salazar Slytherin, àquilo que não deve ser celebrado. Sem perceber, Harry atravessa uma linha invisível. O olhar dos outros muda. O medo se instala.
Harry ganha mais uma marca. Não física, mas social. Uma mágoa que se soma às anteriores. Ele não escolheu esse dom, mas agora precisa carregá-lo como evidência de algo que ele não é.
Há dons que só são aceitos enquanto parecem inofensivos.
Capítulo V — Suspeita, solidão e o corpo paralisado
Tentando fazer a coisa certa, Harry decide pedir desculpas a Justino. Mas a narrativa já não permite mais gestos simples. Os alunos acreditam que Justino será a próxima vítima. O medo contamina tudo.
No corredor, Harry encontra Justino e Nick Quase-Sem-Cabeça paralisados. A cena é silenciosa, pesada, definitiva. Não há ataque em andamento, mas há consequência. Tudo aponta para o Basilisco.
E, mais uma vez, Harry está sozinho. Pirraça surge, faz escândalo, chama atenção, reúne pessoas. O caos se forma em torno de um corpo imóvel e de um garoto que já não precisa de provas contra si.
Às vezes, estar no lugar errado é suficiente para ser culpado.
Capítulo VI — Dumbledore, memória e portas secretas
A chegada da professora McGonagall encerra o capítulo com um deslocamento físico e simbólico. Harry é levado para trás de uma gárgula, rumo à sala de Dumbledore. Um espaço de autoridade máxima, mas também de mistério.
Essa passagem desperta em mim uma memória fraca, quase nebulosa. Em Hogwarts Legacy, usamos a Poção Polissuco para entrar na sala do diretor Black. Não tenho certeza absoluta, mas tudo indica que a referência é essa mesma: o acesso escondido, o ritual, a sensação de atravessar um limite.
O capítulo termina sem respostas, mas com um peso maior sobre Harry. Mais suspeito. Mais marcado. Mais sozinho. A narrativa não corre. Ela se fecha. E prepara o terreno para algo que já não pode mais ser contido.
Algumas portas não se abrem para salvar — apenas para revelar o que já estava condenado.





