Capítulo I — Finalmente, Harry Potter
Depois de dois capítulos inteiros longe do protagonista, Harry Potter e o Enigma do Príncipe finalmente nos devolve Harry. E o faz de uma maneira muito interessante.
A autora começa nos lembrando quem Harry é e o mundo em que ele vive. Somos reapresentados ao seu quarto na Rua dos Alfeneiros, aos seus pertences mágicos, aos objetos acumulados ao longo dos cinco livros anteriores e, principalmente, ao novo estado do mundo bruxo.
O Profeta Diário, que durante boa parte de A Ordem da Fênix serviu como instrumento político de Cornélio Fudge, espalhando calúnias contra Harry e Dumbledore, agora não pode mais negar a realidade.
Lord Voldemort voltou.
Foi visto.
Foi testemunhado.
E o Ministério da Magia não consegue mais sustentar a mentira.
Talvez uma das maiores ironias seja justamente esta: o jornal que antes ridicularizava Harry agora precisa noticiar exatamente aquilo que ele dizia desde o início.
A verdade pode ser ignorada durante algum tempo, mas raramente pode ser escondida para sempre.
Capítulo II — Um novo Dumbledore
Uma das coisas mais interessantes deste capítulo é perceber a mudança radical na postura de Alvo Dumbledore.
Em A Ordem da Fênix, o diretor era definido quase inteiramente pelo silêncio.
Ele evitava Harry.
Não o olhava.
Não conversava.
Não explicava.
Esse afastamento marcou profundamente a leitura do quinto livro e acabou tendo consequências desastrosas para todos os envolvidos.
Já aqui, no terceiro capítulo do sexto livro, Dumbledore surge praticamente de imediato.
E mais do que isso: ele vem pessoalmente buscar Harry.
Não envia membros da Ordem.
Não manda uma mensagem.
Ele próprio aparece na Rua dos Alfeneiros.
É impossível não perceber que existe uma tentativa de reconstrução da relação entre os dois.
Talvez Dumbledore tenha aprendido alguma coisa com os erros do livro anterior.
Capítulo III — Dumbledore e os Dursley
A visita de Dumbledore aos Dursley é simplesmente maravilhosa.
Existe um humor extremamente refinado na maneira como ele trata toda a família.
Sem levantar a voz.
Sem ameaçar.
Sem demonstrar qualquer agressividade.
Ainda assim, Dumbledore consegue deixar os Dursley completamente desconfortáveis durante toda a conversa.
Especialmente quando comenta, com sua tradicional educação, que eles falharam miseravelmente em oferecer a Harry qualquer tipo de carinho ou acolhimento durante dezesseis anos.
É uma das raras ocasiões em que alguém externo verbaliza aquilo que o leitor acompanha desde o primeiro livro.
E Dumbledore faz isso da forma mais elegante possível.
O diretor parece quase se divertir com a situação.
Existe aqui um Dumbledore muito mais leve, espirituoso e até um pouco travesso.
Algo que não víamos havia bastante tempo.
Capítulo IV — O legado de Sirius Black
Mas nem tudo no capítulo é leve.
Ainda paira sobre a narrativa o peso da morte de Sirius.
Dumbledore informa a Harry que ele se tornou o herdeiro oficial do padrinho.
Isso inclui não apenas a fortuna dos Black, mas também a própria casa no Largo Grimmauld e, talvez mais importante, o elfo doméstico Monstro.
A preocupação de Dumbledore faz bastante sentido.
Caso Monstro tivesse passado para Bellatrix Lestrange ou para outro membro da família Black alinhado a Voldemort, informações extremamente sensíveis sobre a Ordem da Fênix poderiam ser reveladas.
O pequeno teste realizado por Dumbledore comprova que Monstro pertence agora a Harry.
Mas a reação de Harry também é muito significativa.
Ele não quer a casa.
Não quer o elfo.
Não quer nada que o faça lembrar Sirius.
As feridas deixadas pelo quinto livro ainda estão muito abertas.
Harry continua em luto.
E qualquer lembrança do padrinho ainda lhe causa dor.
Capítulo V — A proteção de sangue
Outro ponto importante do capítulo é a explicação definitiva sobre a proteção existente na casa dos Dursley.
Finalmente entendemos, de forma muito mais clara, por que Harry sempre precisou voltar à Rua dos Alfeneiros.
Enquanto puder chamar aquele lugar de lar e enquanto permanecer ligado ao sangue de Petúnia, Harry continua protegido contra Voldemort.
Dumbledore explica também que essa será a última vez.
Muito em breve Harry completará dezessete anos.
Quando isso acontecer, ele será considerado maior de idade no mundo bruxo.
E a antiga proteção deixará de existir.
É mais um lembrete de que estamos nos aproximando do fim.
Harry está deixando definitivamente a infância para trás.
Considerações Finais
O terceiro capítulo de Harry Potter e o Enigma do Príncipe funciona quase como uma ponte.
Ele encerra emocionalmente várias consequências de A Ordem da Fênix e prepara o terreno para aquilo que virá.
Mais do que isso, ele nos apresenta um novo Dumbledore.
Um Dumbledore presente.
Próximo.
Falante.
Quase paternal.
Depois do silêncio doloroso do quinto livro, essa mudança é extremamente perceptível.
E, sinceramente, bastante bem-vinda.
Às vezes, a maior demonstração de afeto não está em proteger alguém do sofrimento, mas em finalmente caminhar ao lado dessa pessoa.





