Capítulo I — O livro continua andando para frente
Se existe algo que o capítulo 10 reforça é a sensação de que realmente estamos diante de um Harry Potter diferente dos anteriores.
A história anda.
Os personagens andam.
Os mistérios andam.
Pouquíssimas páginas parecem desperdiçadas.
Talvez seja cedo para afirmar categoricamente, mas até aqui O Enigma do Príncipe parece ter encontrado um equilíbrio narrativo muito melhor entre desenvolvimento de personagem e avanço de trama.
As coisas simplesmente acontecem.
E acontecem o tempo todo.
Capítulo II — O livro do Príncipe Mestiço
Nas aulas de Poções, Harry continua utilizando as anotações deixadas pelo misterioso Príncipe Mestiço.
E os resultados continuam impressionantes.
As instruções rabiscadas nas margens parecem melhores do que as instruções oficiais dos próprios livros didáticos.
Hermione claramente não gosta disso.
Existe quase um conflito filosófico nela.
Para Hermione, os livros são autoridade.
Os livros estão certos.
As regras existem por um motivo.
Ver Harry superando o conteúdo oficial utilizando anotações feitas por um desconhecido parece quase uma afronta ao modo como ela entende o conhecimento.
Rony, por outro lado, não possui nenhum problema moral em copiar as respostas.
Seu problema é puramente técnico:
ele simplesmente não consegue entender a letra do antigo dono.
É um daqueles pequenos momentos de humor que funcionam muito bem dentro do capítulo.
Hermione questiona a legitimidade das respostas.
Rony apenas gostaria de conseguir lê-las.
Capítulo III — Finalmente, as aulas de Dumbledore
Mas o verdadeiro coração do capítulo começa quando Harry sobe para sua primeira aula particular com Dumbledore.
Talvez esse seja um dos momentos que melhor simbolizam a diferença entre o sexto e o quinto livro.
No quinto livro, Dumbledore era silêncio.
Era distância.
Era ausência.
Harry passava páginas e páginas sem entender o que estava acontecendo e sem receber explicações.
Agora é o oposto.
Dumbledore fala.
Explica.
Mostra.
Ensina.
Ainda existem segredos, claro.
Mas existe também uma relação de confiança que parecia completamente perdida em A Ordem da Fênix.
Talvez Dumbledore tenha finalmente entendido o erro que cometeu no livro anterior.
Capítulo IV — A família de Voldemort
Através da Penseira, Harry e Dumbledore visitam a memória de um antigo funcionário do Ministério da Magia.
E é aqui que o capítulo se torna fascinante.
Porque pela primeira vez a história deixa de investigar Voldemort como vilão e começa a investigar Tom Riddle como pessoa.
Como criança.
Como família.
Como origem.
Nós encontramos uma casa decadente.
Uma família quebrada.
Violência.
Ódio.
Humilhação.
E uma atmosfera quase sufocante.
Harry rapidamente percebe que está diante dos parentes de Voldemort.
Seu avô.
Seu tio.
Sua mãe.
E pela primeira vez o sobrenome Gaunt ganha importância real dentro da história.
Capítulo V — A tragédia de Mérope Gaunt
Talvez a parte mais triste de todo o capítulo seja a história implícita de Mérope.
Ela não é contada diretamente.
Ela é montada.
Peça por peça.
Harry e o leitor precisam juntar os fragmentos.
Tudo indica que Mérope utilizou uma poção do amor para conquistar Tom Riddle, o trouxa.
Uma possibilidade que ganha ainda mais força justamente porque acabamos de conhecer a Amortentia no capítulo anterior.
A conexão parece proposital.
Quando a poção deixa de existir, o relacionamento também desaparece.
Tom a abandona.
Ela permanece sozinha.
Grávida.
Sem família.
Sem apoio.
Enquanto isso, seu pai e seu irmão acabam presos.
Existe algo profundamente trágico nessa história.
Porque ela parece construída sobre a ausência completa de amor verdadeiro.
Talvez seja exatamente isso que torna tão simbólico o nascimento de Voldemort.
O homem incapaz de compreender o amor talvez tenha sido gerado justamente a partir de uma tentativa artificial de criá-lo.
Capítulo VI — O anel
No final da memória, Harry reconhece um objeto importante:
o anel dos Gaunt.
Um objeto aparentemente simples.
Mas Harry imediatamente percebe algo.
Ele já viu aquele anel antes.
Na mão de Dumbledore.
Na noite em que ele foi buscá-lo na Rua dos Alfeneiros.
E é aí que surge mais um mistério.
Harry pergunta sobre o anel.
Dumbledore confirma.
Sim.
Era o mesmo anel.
Mas ele não explica mais nada.
Existe também a questão da mão de Dumbledore.
Machucada.
Escurecida.
Danificada de alguma forma.
Algo aconteceu.
Algo importante.
E Dumbledore ainda não está pronto para contar o que foi.
Considerações Finais
O capítulo 10 é excelente justamente porque ele muda completamente o tipo de história que Harry Potter está contando.
Até aqui, Voldemort era quase uma força da natureza.
Um monstro.
Uma ameaça.
Agora ele começa a se tornar uma pessoa.
Uma pessoa terrível.
Mas ainda assim uma pessoa com infância, família e passado.
E talvez essa seja uma das maiores diferenças entre derrotar um inimigo e compreender um inimigo.
Dumbledore aparentemente acredita que Harry precisará das duas coisas.
Antes de derrotar um homem, talvez seja preciso primeiro entender como ele se tornou quem é.





