Gamertag


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Jornada Gamer — O retorno a 2010: conquistas, memórias e o direito de querer mais

2010 não é exatamente uma data. É mais uma referência, um ponto perdido no calendário que escolhi para representar uma época da minha vida. Uma época em que os videogames ocupavam um espaço muito particular na minha rotina e em que eu ainda estava aprendendo a ser o adulto que, de repente, precisava ser.

Curiosamente, o caminho que me levou de volta àquele período não foi uma vontade deliberada de sentir nostalgia. Foi uma combinação de cansaço, frustração, ausência de jogos capazes de me prender e, mais uma vez, minha jornada em busca de conquistas.

É engraçado como às vezes precisamos voltar muitos anos para encontrar algo que nos faça sentir que estamos avançando.

Capítulo 1 — A ausência de um jogo que me faça ficar

Tenho passado um período relativamente longo sem encontrar um jogo que realmente consiga me prender. Não estou falando de jogos ruins, tampouco de falta de opções. Minha biblioteca está cheia de títulos interessantes, muitos deles esperando há anos pela oportunidade de serem iniciados. O problema é encontrar alguma coisa que desperte aquela vontade genuína de voltar no dia seguinte.

A ausência de uma experiência semelhante à que tive com Diablo III continua fazendo uma diferença enorme. E essa ausência se mistura com o cansaço mental de um ano que tem sido consideravelmente mais complicado do que eu imaginava. Mudanças de rotina, responsabilidades, questões pessoais e uma quantidade de acontecimentos que frequentemente parecem disputar os mesmos espaços dentro da minha cabeça.

Quando finalmente encontro algum tempo para jogar, nem sempre encontro disposição para começar uma experiência nova. Às vezes, aprender sistemas, compreender mecânicas e me comprometer com uma narrativa parece exigir uma energia que simplesmente não tenho disponível naquele momento.

Atualmente, na Steam, tenho dedicado parte desse tempo a Cities: Skylines, que merece um artigo próprio, e Bloons TD 6, um tower defense cuja natureza praticamente infinita permite sessões pontuais, sem a necessidade de acompanhar uma história ou lembrar exatamente onde parei.

São jogos que funcionam muito bem dentro de determinadas circunstâncias, mas nenhum deles preenche completamente aquele espaço que Diablo III ocupava.

Warhammer: Chaosbane chegou a oferecer parte dessa sensação. Gostei bastante do jogo, de sua estrutura e de sua proposta. Entretanto, ele não conseguiu reproduzir aquele ciclo quase hipnótico de grinding que Diablo III proporcionava com suas caçadas, fendas, equipamentos e pequenas recompensas sucessivas.

Chaosbane continua sendo uma jornada em andamento, mas não é necessariamente um jogo ao qual consigo retornar todos os dias.

Às vezes, o problema não é encontrar um jogo bom. É encontrar um jogo que consiga disputar espaço com o cansaço de estar vivendo.

Capítulo 2 — Yu-Gi-Oh! e o primeiro reencontro

Foi nesse cenário que aconteceu meu primeiro retorno ao passado. Voltei a jogar Yu-Gi-Oh! GX Tag Force, um jogo com o qual passei bastante tempo por volta de 2007 e 2008.

Minha memória daquele período está ligada ao PlayStation 2, embora agora, por questões de compatibilidade com o RetroAchievements, estou utilizando a versão de PSP.

Essa diferença de plataformas também me fez lembrar de uma característica muito comum daquela geração. Consoles de mesa e portáteis frequentemente recebiam jogos de uma mesma franquia, às vezes com propostas semelhantes, outras vezes com adaptações bastante diferentes. Era uma espécie de convivência entre versões domésticas e portáteis, algo que atravessou gerações como Super Nintendo e Game Boy Advance, GameCube e Nintendo DS, além de PlayStation e PSP.

Nesse caso, até agora, me parece o exato mesmo jogo. A experiência tem despertado lembranças muito próximas daquelas que eu guardava. E o fato de existir uma lista de conquistas acrescenta uma camada completamente nova a um jogo que já era bastante longo.

Yu-Gi-Oh! é um daqueles títulos nos quais podemos investir uma quantidade absurda de tempo. Construir baralhos, experimentar estratégias, disputar partidas e acompanhar sua progressão já são atividades suficientes para prolongar a experiência. Com conquistas, essa duração ganha objetivos adicionais.

E talvez seja justamente disso que eu esteja precisando.

Não necessariamente de um jogo para terminar rapidamente, mas de uma experiência que possa permanecer comigo durante meses, recebendo visitas ocasionais, sem exigir que eu esteja inteiramente comprometido com ela todos os dias.

Um jogo de conforto. Um lugar ao qual eu possa retornar.

Capítulo 3 — Nintendo Wii: o videogame que acompanhou minha passagem para a vida adulta

Mas o reencontro mais significativo dessa jornada não aconteceu com Yu-Gi-Oh!. Aconteceu com o Nintendo Wii.

O Wii ocupa um espaço muito específico na minha história. Ele não foi apenas mais um videogame que comprei ou uma plataforma na qual acumulei horas de diversão. Foi o console que acompanhou uma das transições mais importantes da minha vida.

Foi o videogame da época em que saí da casa dos meus pais, me casei, me tornei pai e passei a assumir definitivamente as responsabilidades da minha própria casa.

Existe uma sensação muito particular nessa passagem. Em algum momento, percebemos que não existe mais uma figura adulta para quem possamos simplesmente transferir as decisões difíceis. A responsabilidade agora está conosco.

Eu já trabalhava, já tinha uma filha, já era casado e tinha minha casa. Algumas dessas responsabilidades chegaram relativamente cedo, por circunstâncias pessoais e familiares. Mas isso não muda o fato de que eu estava vivendo aquela transformação.

O Nintendo Wii estava ali.

Ele acompanhou aquele período em que precisei entender que eu era o adulto da minha própria vida. E talvez por isso suas lembranças tenham um peso diferente das lembranças de outros consoles.

Quando comecei minha jornada por conquistas, uma das coisas que mais me incomodaram foi perceber que praticamente toda aquela história permanecia invisível.

Eu joguei muitos jogos no Wii. Passei horas em universos diferentes, concluí desafios, descobri mecânicas e construí lembranças. Entretanto, nada disso ficou registrado em uma gamertag, em uma lista de conquistas ou em algum histórico organizado que eu pudesse revisitar.

É claro que as experiências aconteceram independentemente de terem sido registradas. Mas quem acompanha meus textos sabe o quanto gosto de marcos, ciclos e registros. Gosto de voltar alguns anos depois e observar quem eu era, o que fazia e o que havia conquistado naquele momento.

Descobrir que o RetroAchievements estava começando a oferecer conquistas para jogos de Nintendo Wii despertou imediatamente uma vontade de revisitar aquela biblioteca.

Eu ainda tenho meu Wii. Tenho também uma coleção de jogos daquela plataforma. Em teoria, já possuía praticamente tudo o que precisava para começar.

Em teoria.

Capítulo 4 — Antes de jogar, precisamos fazer tudo funcionar

Como quase tudo neste ano, a tarefa não seria tão simples quanto parecia.

O primeiro obstáculo foi descobrir que os arquivos dos jogos que eu utilizava no Wii não eram necessariamente compatíveis com a estrutura exigida pelo emulador e pelo sistema de conquistas.

Isso me levou a uma atividade que eu conhecia muito bem de outros tempos: pesquisar formatos, compreender ferramentas, identificar compatibilidades e descobrir como converter arquivos.

Foi meu primeiro verdadeiro retorno a 2010.

De repente, eu estava novamente pesquisando questões técnicas relacionadas ao Nintendo Wii, tentando entender formatos de imagem de disco, revisões de jogos, versões específicas e peculiaridades de um ecossistema que conheci em uma época bastante diferente da atual.

Naquele período, eu ainda não tinha as mesmas condições financeiras que teria alguns anos depois, especialmente a partir da geração Nintendo 3DS. Minha relação com os jogos também foi marcada pelas limitações econômicas daquele momento e pelo universo de modificações, cópias e ferramentas alternativas que cercava o Wii.

Revisitar esse ambiente técnico trouxe lembranças de uma internet em que frequentemente era necessário pesquisar bastante antes de conseguir fazer alguma coisa funcionar.

Depois de encontrar uma maneira de converter os arquivos, imaginei que finalmente poderia começar a jogar.

Naturalmente, estava enganado.

Descobri que o RetroAchievements também exige versões específicas dos jogos. Não basta possuir o título correto. Dependendo do conjunto de conquistas, é necessário utilizar uma determinada região, revisão ou dump reconhecido pelo sistema.

Isso já havia acontecido comigo anteriormente em jogos de Nintendo e Mega Drive. Algumas versões traduzidas que tentei utilizar não eram reconhecidas, obrigando-me a recorrer às versões originais compatíveis.

No Wii, entretanto, a situação exigiu um pouco mais de pesquisa.

Era preciso identificar o arquivo certo, no formato certo, na revisão certa, e garantir que tudo fosse reconhecido corretamente.

Nada particularmente assustador para um dinossauro da internet como eu.

Mas existe uma ironia bastante evidente nisso tudo: meu objetivo era simplesmente jogar.

E eu já havia dedicado uma quantidade considerável de tempo à preparação antes mesmo de pegar o controle.

Talvez uma das características mais persistentes de quem cresceu explorando computadores seja esta: às vezes, fazer o jogo funcionar acaba se tornando um jogo à parte.

Capítulo 5 — Uma biblioteca pequena, mas cheia de possibilidades

Depois de resolver as questões técnicas, comecei a pesquisar quais jogos de Nintendo Wii já possuíam conjuntos de conquistas disponíveis.

A lista ainda era relativamente curta. Nada que se comparasse à quantidade de títulos disponíveis para plataformas mais antigas e consolidadas dentro do RetroAchievements.

Entretanto, havia ali material suficiente para iniciar uma nova etapa da minha jornada.

Não estou interessado em transformar essa experiência em uma corrida para acumular a maior quantidade possível de jogos. Minha intenção é revisitar alguns títulos, redescobrir suas particularidades e observar como a presença de conquistas altera minha relação com experiências que já conheci.

Escolhi alguns jogos, procurei suas versões compatíveis e finalmente comecei.

E, de maneira quase irônica, o primeiro jogo dessa nova fase não foi um dos grandes títulos de disco do Wii.

Foi um jogo de WiiWare.

Um daqueles títulos digitais menores que faziam parte de uma época em que a distribuição digital nos consoles ainda estava encontrando sua identidade.

O escolhido foi Final Fantasy Crystal Chronicles: My Life as a King.

O jogo terá um artigo próprio, no qual pretendo falar de suas mecânicas, sua proposta e da experiência de revisitá-lo. Aqui, entretanto, quero me concentrar em algo diferente.

Porque bastou começar a jogar para perceber que eu não estava apenas retornando a um videogame antigo.

Eu estava encontrando uma versão anterior de mim mesmo.

Capítulo 6 — O mundo ficou rápido demais, e eu nem percebi

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o ritmo.

My Life as a King demora para começar.

Não necessariamente por algum problema técnico, mas porque pertence a uma época em que a apresentação, a introdução das mecânicas e a construção inicial da experiência seguiam uma cadência diferente.

E o mais curioso é que eu não me lembrava dessa lentidão.

Provavelmente porque, quando joguei originalmente, não a percebia como lentidão.

O jogo simplesmente tinha aquele ritmo, e eu estava acostumado a ele.

Hoje, vivendo em São Paulo, com uma rotina acelerada, responsabilidades profissionais, deslocamentos e uma quantidade absurda de estímulos disputando atenção, percebi que minha relação com o tempo também mudou.

Isso me surpreendeu porque sempre me considerei relativamente resistente à aceleração da vida digital.

Gosto de músicas com introduções longas. Gosto de documentários extensos, vídeos demorados, narrativas que se permitem desenvolver sem a necessidade de apresentar alguma novidade a cada trinta segundos.

Não tenho o hábito de acelerar áudios ou vídeos. Não sinto necessidade de consumir tudo em velocidade multiplicada.

De certa forma, imaginava estar imune à lógica dos vídeos curtíssimos, das músicas que precisam chegar imediatamente ao refrão e dos conteúdos que disputam nossa atenção antes que tenhamos tempo de decidir se queremos oferecê-la.

Mas bastou iniciar um jogo antigo para perceber que não estou completamente imune.

Eu senti a lentidão.

Talvez em uma intensidade menor do que outras pessoas sentiriam, mas senti.

E essa percepção foi desconfortável porque mostrou que o mundo acelerado também conseguiu modificar alguma coisa dentro de mim, mesmo sem minha autorização consciente.

O mais interessante é que, depois de algum tempo, comecei a me adaptar novamente.

O jogo continuava no mesmo ritmo. Quem precisava desacelerar era eu.

Às vezes, descobrimos que o passado não ficou mais lento. Fomos nós que aprendemos a correr depressa demais.

Capítulo 7 — Conquistas como uma nova maneira de descobrir um velho jogo

Uma das decisões que tenho tomado nessa jornada é não transformar cada jogo em uma lista de tarefas a serem cumpridas antecipadamente.

Eu gosto de conquistas. Gosto dos registros, dos objetivos adicionais e daquela pequena satisfação de ver uma notificação surgir na tela depois de alguma ação.

Mas não quero que a busca por conquistas destrua a experiência de jogar.

Por isso, comecei My Life as a King sem estudar previamente toda a lista de achievements.

Minha intenção é jogar naturalmente, descobrir o que o jogo oferece e, depois, verificar quais objetivos ficaram pendentes.

Isso permite que as conquistas sejam descobertas ao longo da experiência, em vez de funcionarem como uma espécie de roteiro obrigatório que determina cada movimento.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Algumas conquistas começaram a aparecer, acrescentando uma sensação de novidade a um universo que eu já havia visitado muitos anos antes.

O interessante é que eu praticamente não me lembrava do jogo.

Algumas coisas pareciam familiares, mas muitas outras precisavam ser redescobertas. Voltei a consultar informações, procurar explicações, ler guias e compreender sistemas que minha memória simplesmente não havia preservado.

Isso também me fez lembrar de outra característica das gerações mais antigas: a relação com informações externas ao jogo.

Houve um tempo em que manuais físicos eram parte fundamental da experiência. Eles explicavam comandos, apresentavam personagens, contextualizavam histórias e frequentemente ofereciam informações que o próprio jogo não se preocupava em ensinar.

My Life as a King já faz parte de um outro momento, existe NPCs que são praticamente tutoriais em forma de fofoca. E regras que o jogo te força a ver.

Hoje, grande parte desse conhecimento está incorporada à interface, aos tutoriais e aos sistemas internos dos jogos.

Revisitar um título antigo também significa recuperar aquela disposição de pesquisar, experimentar e compreender suas regras.

Ainda estou completamente no começo de My Life as a King. Nem sequer desbloqueei todas as classes disponíveis.

Mas já existe algo que eu não estava encontrando havia algum tempo: vontade de continuar.

Não uma obrigação. Não uma necessidade de terminar rapidamente. Apenas aquela sensação agradável de ter encontrado uma experiência que merece receber mais alguns minutos do meu dia.

Capítulo 8 — O valor das conquistas não está apenas nos números

Existe uma possibilidade bastante real de que, se eu tivesse retornado a My Life as a King sem conquistas, acabasse abandonando o jogo depois de pouco tempo.

Não porque ele tenha deixado de ser interessante, mas porque já o conheço e porque existem muitos outros títulos disponíveis disputando minha atenção.

As conquistas acrescentam um objetivo que não existia na experiência original.

Elas ampliam o horizonte do jogo.

Agora não estou apenas retornando para lembrar como tudo funcionava. Estou construindo um novo registro, estabelecendo novos desafios e acrescentando uma camada de progressão a uma experiência que já fazia parte da minha história.

O mesmo acontece com Yu-Gi-Oh! GX Tag Force.

Posso passar alguns dias sem jogar, retornar quando tiver vontade e continuar avançando em objetivos que permanecem registrados.

Essa característica tem sido particularmente importante neste ano, porque minha disponibilidade mental não é constante.

Há dias em que consigo jogar por horas. Há outros em que simplesmente não tenho disposição para isso.

Ter jogos que aceitam esse ritmo, sem exigir uma dedicação diária, tornou-se uma parte importante da maneira como estou reorganizando minha relação com os videogames.

É curioso perceber que uma ferramenta frequentemente associada à competição, à obsessão por números e à necessidade de completar absolutamente tudo esteja funcionando, para mim, como uma maneira de jogar com mais tranquilidade.

Eu não preciso conquistar tudo imediatamente.

Preciso apenas ter alguma coisa que faça valer a pena retornar.

Capítulo 9 — Revisitar o passado não significa aceitar menos

É aqui que toda essa jornada começa a ultrapassar os limites dos videogames.

Porque percebi uma característica bastante particular na maneira como estou aceitando revisitar experiências antigas.

Eu estou disposto a voltar ao passado.

Mas não estou disposto a aceitar uma experiência inferior àquela que já tive.

Essa distinção parece pequena, mas para mim é fundamental.

Eu não aceito que Diablo IV me ofereça uma experiência inferior àquela que Diablo III proporcionava. Não apenas pela nostalgia ou por uma comparação injusta entre jogos diferentes, mas porque conheço a sensação de satisfação que aquele tipo de jogo é capaz de entregar.

Conheço o prazer de passar horas fazendo caçadas, fendas, procurando equipamentos e desenvolvendo personagens.

Se uma continuação não consegue me oferecer uma experiência que considere equivalente ou superior, não existe motivo para insistir apenas porque ela é mais nova.

Mas essa exigência também vale para o próprio Diablo III.

Eu não quero retornar ao jogo aceitando menos do que ele já oferece em outras plataformas.

Se existem versões com suporte a controle e sistemas de conquistas, essas características passam a fazer parte da experiência que considero desejável.

Joguei Diablo III no Nintendo Switch utilizando controle. Conheço a comodidade dessa maneira de jogar. Também conheço o valor que os achievements acrescentam à minha jornada atual.

Por isso, uma versão para computador que não reúna essas características acaba parecendo, para mim, uma experiência incompleta.

Não estou dizendo que ela seja inferior para todos os jogadores. Estou dizendo que é inferior para aquilo que procuro hoje.

E não vejo motivo para abrir mão de recursos que sei que poderiam tornar minha experiência melhor.

Com My Life as a King acontece justamente o contrário.

Estou retornando a um jogo antigo, de uma plataforma antiga, utilizando ferramentas modernas que acrescentam algo que não existia originalmente.

O jogo continua sendo aquele que conheci no Nintendo Wii, mas agora possui conquistas, rastreamento de progresso e novos objetivos.

Ele está me oferecendo uma experiência mais completa do que aquela que tive na época.

Estou disposto a pesquisar, converter arquivos, identificar revisões, procurar formatos compatíveis e dedicar tempo à configuração.

Mas estou fazendo tudo isso para ganhar alguma coisa.

Não para perder.

Eu posso aceitar o esforço necessário para recuperar uma experiência do passado. O que não aceito é fazer todo esse esforço para receber menos do que já tive.

Capítulo 10 — Uma reflexão que não pertence apenas aos videogames

Talvez essa seja a parte mais importante de todo este texto.

Porque essa conclusão conversa de uma maneira muito particular com outras questões que venho enfrentando ao longo deste ano.

Tenho pensado bastante sobre o valor das experiências, sobre aquilo que oferecemos, aquilo que recebemos e sobre o quanto estamos dispostos a insistir em situações que já não nos proporcionam o que proporcionavam antes.

E percebo que minha relação com os videogames não está completamente separada da maneira como enxergo o restante da vida.

Eu aceito revisitar lugares antigos. Aceito reencontrar experiências que fizeram parte da minha história. Aceito investir tempo, energia e dedicação para recuperar alguma coisa que foi importante.

Mas preciso sentir que existe algum ganho nesse retorno.

Que a experiência atual acrescenta alguma coisa à anterior. Que aquilo que estou vivendo agora não exige que eu diminua minhas expectativas, abandone necessidades ou aceite uma versão empobrecida do que já conheci.

Não se trata de exigir perfeição.

Também não significa que tudo precise ser extraordinário o tempo inteiro.

Significa reconhecer que existem coisas que aprendemos a valorizar e que não faz sentido fingir que deixaram de ser importantes apenas para conseguirmos permanecer em determinado lugar.

O Nintendo Wii representa uma época da minha vida em que eu estava aprendendo a assumir responsabilidades. Agora, muitos anos depois, retorno àquela plataforma trazendo uma quantidade enorme de experiências acumuladas.

Não sou mais o mesmo jogador.

Não sou mais o mesmo homem.

Tenho outras exigências, outras limitações, outros interesses e outra compreensão sobre o valor do meu tempo.

Mas continuo procurando aquela sensação de descobrir alguma coisa que faça meus olhos brilharem.

Talvez seja isso que eu esteja tentando recuperar.

Não exatamente o ano de 2010. Não exatamente os jogos daquele período.

Mas a parte de mim que ainda conseguia se entregar a uma experiência sem carregar o peso de todas as outras coisas que estavam acontecendo ao redor.

E o mais interessante é perceber que essa parte ainda existe.

Talvez esteja mais cansada. Talvez precise de mais estímulos ou de objetivos diferentes. Talvez não consiga dedicar tantas horas consecutivas a um jogo quanto conseguia antigamente.

Mas ainda existe.

Ela continua querendo experimentar, descobrir, se surpreender e encontrar sensações intensas.

Continua querendo viver experiências que sejam realmente importantes.

Capítulo 11 — O início de uma nova jornada dentro da Jornada Gamer

Este texto não é exatamente uma análise de jogo. Também não é um balanço numérico da minha gamertag, embora as conquistas estejam presentes em praticamente todas as decisões que descrevi.

É um pequeno registro de uma mudança de direção.

Depois de algum tempo procurando uma experiência que substituísse o espaço deixado por Diablo III, acabei encontrando possibilidades justamente em jogos que já conhecia.

Yu-Gi-Oh! GX Tag Force tornou-se uma jornada de longo prazo. Cities: Skylines e Bloons TD 6 continuam ocupando seus próprios espaços na Steam. Warhammer: Chaosbane permanece como uma experiência que ainda quero explorar.

E agora o Nintendo Wii retorna à minha rotina.

Não apenas como um console de lembranças, mas como uma plataforma que pode receber novos objetivos, novas conquistas e novas histórias.

My Life as a King foi a primeira escolha. Outras virão, conforme os conjuntos de conquistas forem surgindo e conforme eu conseguir organizar os jogos compatíveis.

Não sei quantos títulos vou jogar. Não sei quantas conquistas vou conseguir. Também não sei se essa nova fase vai durar semanas, meses ou anos.

Mas gosto da ideia de que uma parte da minha história, até então invisível nos registros digitais, possa finalmente ganhar novos capítulos.

Talvez a nostalgia tenha aberto a porta.

Mas não foi ela, sozinha, que me fez entrar.

Foi a possibilidade de viver algo conhecido de uma maneira melhor.

Conclusão — O passado não precisa ser o lugar onde aceitamos menos

Existe uma ironia bastante bonita em tudo isso.

O Nintendo Wii foi o videogame que acompanhou minha entrada definitiva na vida adulta. Agora, muitos anos depois, ele retorna justamente em um momento no qual essa mesma vida adulta parece exigir de mim muito mais do que eu gostaria de oferecer.

Naquela época, eu estava aprendendo a ser responsável pela minha própria vida.

Hoje, estou tentando aprender a não deixar que todas essas responsabilidades consumam completamente as partes de mim que ainda desejam se divertir.

Talvez por isso tenha sido tão importante perceber que eu ainda consigo sentir prazer ao iniciar um jogo antigo, descobrir uma mecânica esquecida ou receber uma conquista por alguma coisa que fiz.

São pequenas experiências, eu sei.

Mas nem toda experiência importante precisa ser grandiosa.

Às vezes, ela está simplesmente em reencontrar alguma coisa que nos acompanhou durante uma época difícil e descobrir que, apesar de todas as mudanças, ainda existe alguma alegria esperando ali.

Eu não quero voltar a ser quem era em 2010.

Não quero recuperar as dificuldades, as limitações ou as circunstâncias daquele período.

Quero apenas levar comigo aquilo que havia de bom, acrescentando tudo o que aprendi desde então.

Porque revisitar o passado não deveria significar aceitar menos.

Deveria significar ter a oportunidade de experimentar novamente aquilo que foi importante, agora com mais consciência, mais recursos e, quem sabe, um pouco mais de liberdade.

Não estou voltando a 2010 porque acredito que minha vida era melhor naquele tempo. Estou voltando porque algumas coisas daquele período ainda podem tornar minha vida melhor agora.

E assim começa mais um capítulo desta jornada.

Uma jornada de conquistas, emulação, memórias, descobertas e reencontros.

Uma jornada que continua sendo muito mais sobre aquilo que sinto enquanto jogo do que sobre os números que aparecem na minha gamertag.

Sejam bem-vindos ao adendo Nintendo Wii da Jornada Gamer.

Nos vemos no próximo jogo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Harry Potter e o Enigma do Príncipe — Capítulo 30: O Funeral de Dumbledore

Capítulo I — Como um capítulo em que não acontece nada consegue fazer acontecer tanta coisa?

Eu terminei Harry Potter e o Enigma do Príncipe impressionado.

E talvez uma das maiores demonstrações da qualidade deste livro esteja justamente em seu último capítulo.

Porque, objetivamente, quase nada acontece.

Não existe uma grande batalha.

Não existe um novo ataque.

Não existe uma perseguição.

Não existe uma descoberta comparável à das Horcruxes.

Não existe uma nova lembrança de Tom Riddle.

Não existe um grande mistério sendo solucionado.

Existe um funeral.

Dumbledore morreu.

E o mundo para por alguns instantes para reconhecer que Dumbledore morreu.

Só que esse funeral consegue fazer uma coisa que talvez nenhuma batalha conseguisse.

Ele reúne praticamente toda a história que veio antes dele.

Personagens.

Criaturas.

Instituições.

Relações.

Lugares.

Memórias.

Tudo aquilo que foi construído ao longo de seis livros parece convergir para aquele gramado.

Alguns personagens demonstram sua importância pelas coisas que fazem enquanto estão vivos. Dumbledore demonstra a sua também pela quantidade de mundos diferentes que param quando ele morre.

Capítulo II — Hogwarts depois de Dumbledore

Existe algo diferente em Hogwarts.

Não poderia ser de outra maneira.

O castelo continua de pé.

As torres continuam lá.

A Floresta Proibida continua cercando parte dos terrenos.

O lago continua diante da escola.

Os corredores continuam existindo.

Mas alguma coisa fundamental desapareceu.

Dumbledore não está mais ali.

Durante praticamente toda a saga, ele representou uma espécie de última barreira.

As coisas poderiam dar errado.

Voldemort poderia crescer.

O Ministério poderia falhar.

Comensais poderiam atacar.

Mas existia Dumbledore.

Agora não existe mais.

E isso muda a sensação de Hogwarts sem precisar derrubar uma única parede.

O castelo continua inteiro. Mesmo assim, Hogwarts nunca pareceu tão desprotegida.

Capítulo III — Todo mundo veio

Então começa o funeral.

E talvez essa seja uma das cenas mais bonitas que li até agora na série.

Porque todo mundo está ali.

O Ministério da Magia.

A Ordem da Fênix.

Os professores.

Os alunos.

Bruxos de Hogsmeade.

Hagrid.

Grope.

E não apenas humanos.

O alcance de Dumbledore ultrapassa completamente as divisões do mundo bruxo.

Existem criaturas ali que normalmente não participariam de uma cerimônia humana.

Mesmo elas vieram.

Não é simplesmente um funeral de diretor de escola.

Parece o funeral de alguém que servia como ponto de contato entre mundos que raramente conseguem permanecer juntos.

Capítulo IV — Os centauros

E então aparecem os centauros.

Isso me atingiu particularmente porque imediatamente me levou de volta ao primeiro livro.

À Floresta Proibida.

Àquela primeira vez em que Harry entrou naquele lugar e encontrou criaturas que pareciam existir em uma parte completamente diferente do universo de Hogwarts.

Os centauros são orgulhosos.

Distantes.

Possuem seus próprios costumes.

Sua própria relação com os humanos.

E raramente abandonam a floresta dessa maneira.

Mesmo assim, estão ali.

Prestando homenagem a Dumbledore.

É como se uma peça colocada no primeiro livro estivesse retornando cinco livros depois apenas para dizer:

nós também sabemos quem morreu.

Quando até aqueles que preferem permanecer longe dos homens deixam seu próprio mundo para prestar homenagem, começamos a compreender o tamanho da ausência deixada.

Capítulo V — O lago também responde

E não são apenas os habitantes da floresta.

Os sereianos também prestam suas homenagens.

Isso torna a cerimônia ainda maior.

A floresta responde.

O lago responde.

Hogsmeade responde.

O Ministério responde.

A Ordem responde.

Hogwarts responde.

É quase como se todo o espaço físico que aprendemos a conhecer durante seis livros estivesse participando daquele funeral.

E gosto muito disso porque Dumbledore sempre pareceu enxergar o mundo de maneira mais ampla do que boa parte dos outros bruxos.

Agora diferentes partes desse mundo aparecem para reconhecê-lo.

Capítulo VI — Hagrid carrega Dumbledore

E existe Hagrid.

Claro que existe Hagrid.

Talvez não pudesse ser outra pessoa.

Foi Dumbledore quem acreditou em Hagrid quando sua vida em Hogwarts foi destruída.

Foi Dumbledore quem permitiu que permanecesse na escola.

Foi Dumbledore quem confiou nele.

Foi Hagrid quem apareceu no primeiro livro para buscar Harry e apresentá-lo ao mundo bruxo.

Agora Hagrid está ali, carregando o corpo de Dumbledore.

Existe alguma coisa circular nisso que me pega muito.

Hagrid foi uma das primeiras pessoas daquele mundo que Harry conheceu.

E agora é ele quem carrega para o funeral o homem que, de alguma maneira, estava por trás da chegada de Harry àquele mundo.

Capítulo VII — Seis livros chegando ao mesmo lugar

Talvez seja isso que mais tenha me impressionado no capítulo.

Cada pedaço dos livros anteriores parece explodir aqui.

Não através de uma grande revelação.

Mas através de presença.

Nós conhecemos aquelas pessoas.

Conhecemos aquelas criaturas.

Conhecemos aquele castelo.

Conhecemos o lago.

Conhecemos a floresta.

Conhecemos Hogsmeade.

E agora todas essas coisas possuem uma história acumulada.

Se esse funeral acontecesse no primeiro livro, seria apenas uma cerimônia cheia de personagens estranhos.

No sexto, cada presença significa alguma coisa.

Talvez seja esse o privilégio de acompanhar uma história longa: chega um momento em que o autor não precisa mais explicar quem está presente. Basta mostrar quem veio.

Capítulo VIII — Harry não está apenas enterrando Dumbledore

Enquanto o funeral acontece, Harry começa a compreender aquilo que precisa fazer.

E aqui está a verdadeira transformação do capítulo.

Dumbledore não deixou apenas um vazio.

Deixou uma missão.

Harry sabe sobre as Horcruxes.

Sabe por que Voldemort continua praticamente impossível de matar.

Sabe que sua alma foi dividida.

Sabe que algumas partes já foram destruídas.

Sabe que outras continuam existindo.

E sabe que Dumbledore passou seus últimos meses procurando por elas.

Agora não existe Dumbledore para continuar procurando.

Portanto, alguém precisa continuar.

Harry entende que esse alguém é ele.

Capítulo IX — As aulas de Dumbledore eram uma herança

Agora fica ainda mais claro o verdadeiro significado das aulas particulares deste livro.

Dumbledore não estava simplesmente contando a Harry a história de Voldemort.

Não era curiosidade histórica.

Não era uma biografia.

Ele estava entregando conhecimento.

Método.

Padrões.

Ferramentas.

Harry aprendeu que Tom Riddle colecionava troféus.

Aprendeu que valorizava objetos historicamente importantes.

Aprendeu sobre sua relação com Hogwarts.

Aprendeu sobre sua família.

Aprendeu sobre as Horcruxes.

Aprendeu a tentar imaginar quais objetos Voldemort escolheria.

E finalmente acompanhou Dumbledore numa busca real.

Dumbledore estava preparando Harry para um trabalho que talvez já soubesse que poderia não terminar sozinho.

A verdadeira herança que Dumbledore deixa para Harry não cabe em um objeto. É saber o suficiente para continuar fazendo perguntas quando o professor já não está ali para respondê-las.

Capítulo X — Quatro Horcruxes

Harry tenta organizar aquilo que sabe.

Ainda devem existir Horcruxes a serem encontradas e destruídas.

Uma das suspeitas é Nagini.

Existe o medalhão de Sonserina, cuja verdadeira localização agora é desconhecida por causa de R.A.B.

E ainda existem outras peças que Harry precisará identificar e encontrar.

O problema deixou de ser abstrato.

Existe uma lista incompleta.

Existem pistas.

Existem objetos escondidos.

E existe Voldemort esperando no final.

Harry entende que não pode simplesmente voltar para mais um ano normal de Hogwarts fingindo que nada disso existe.

Capítulo XI — Draco Malfoy

Existe também uma mudança interessante na maneira como Harry olha para Draco.

Harry passou praticamente o livro inteiro perseguindo Malfoy.

Desconfiando dele.

Tentando provar que era Comensal da Morte.

Tentando descobrir sua missão.

E Harry estava certo.

Mas viu algo na Torre de Astronomia que modifica um pouco aquela imagem.

Draco não conseguiu matar Dumbledore.

Quando finalmente chegou o momento de executar pessoalmente aquilo que passou o ano tentando fazer à distância, ele hesitou.

Dumbledore conversou com ele.

Ofereceu ajuda.

Ofereceu proteção.

E Draco começou a baixar a varinha.

Harry viu isso.

Então agora existe quase uma pena.

Não significa que Draco seja inocente.

Katie quase morreu.

Rony quase morreu.

Comensais entraram em Hogwarts graças a ele.

Pessoas foram feridas.

Mas Harry também viu que Draco não era exatamente aquilo que Voldemort exigia que ele fosse.

Harry passou o ano tentando provar que Draco era capaz de matar Dumbledore. No fim, descobriu que estava certo sobre a missão e errado sobre a capacidade de Draco de concluí-la olhando para ele.

Capítulo XII — O Príncipe Mestiço era Snape

E existe ainda a revelação que dá nome ao livro.

Severo Snape era o Príncipe Mestiço.

É impossível não voltar mentalmente ao começo do ano.

Harry encontrou um livro velho.

Começou a seguir as anotações.

Passou a produzir poções melhores que Hermione.

Aprendeu feitiços.

Defendeu aquele autor quando Hermione desconfiava dele.

Sentiu quase uma amizade imaginária com alguém que nunca conheceu.

E era Snape.

O homem que Harry mais odiava dentro de Hogwarts era também o professor secreto que ele mais gostou de seguir naquele ano.

E agora esse mesmo homem matou Dumbledore.

O título do livro finalmente foi respondido.

Mas a resposta veio no pior momento possível.

Capítulo XIII — R.A.B.

Existe uma coisa que Harry ainda não consegue resolver.

R.A.B.

A verdadeira Horcrux foi retirada da caverna antes de Dumbledore chegar.

Alguém descobriu o segredo de Voldemort.

Alguém encontrou a caverna.

Alguém conseguiu chegar ao medalhão.

E deixou para trás uma mensagem dizendo que pretendia destruí-lo para que Voldemort estivesse mortal quando finalmente encontrasse seu adversário.

Harry não sabe quem é essa pessoa.

Não sabe onde está o verdadeiro medalhão.

Não sabe sequer se R.A.B. conseguiu destruí-lo.

Portanto, Dumbledore morre deixando não apenas uma missão, mas um mistério dentro dela.

A busca pelas Horcruxes já começa com uma peça desaparecida.

Capítulo XIV — Gina

E então Harry toma uma decisão que eu já imaginava que poderia acontecer.

Ele termina com Gina.

Não porque deixou de gostar dela.

Muito pelo contrário.

É justamente porque gosta.

Harry sabe aquilo que precisa fazer.

Vai atrás das Horcruxes.

Vai continuar a missão de Dumbledore.

E inevitavelmente continuará indo em direção a Voldemort.

Ele não quer transformar Gina em um alvo ainda maior.

Então aquele pequeno período de felicidade que finalmente conseguiu viver termina quase imediatamente.

É triste porque Harry mal teve tempo de possuir aquilo.

Depois de tantos capítulos pensando nela.

Depois do medo da reação de Rony.

Depois do beijo.

Depois de finalmente ficarem juntos.

Agora Harry escolhe abrir mão.

Porque a guerra voltou a determinar aquilo que ele pode ou não pode manter em sua vida.

Harry finalmente encontrou alguma coisa que gostaria de levar consigo. E justamente por isso acredita que precisa deixá-la para trás.

Capítulo XV — O casamento continua

Mas existe uma coisa muito bonita acontecendo paralelamente a tudo isso.

O casamento de Gui e Fleur continua marcado.

Gui foi atacado por Greyback.

Seu rosto ficou profundamente marcado.

Não sabemos ainda todas as consequências que aquele ataque terá.

Mas Fleur continua ali.

Cuidando dele.

Amando-o.

Querendo se casar com ele.

E isso confirma aquilo que o capítulo anterior já havia mostrado de maneira muito bonita.

Fleur não estava com Gui porque ele era bonito.

A beleza podia fazer parte da atração, obviamente.

Mas não era a sustentação daquele relacionamento.

Quando a aparência de Gui muda, o amor de Fleur não muda junto.

O casamento continua.

E acho muito bonito que um livro tão dominado pela morte termine lembrando que existe também um casamento esperando para acontecer.

Capítulo XVI — Um funeral e um casamento

Existe uma oposição muito forte aqui.

Dumbledore morreu.

Gui e Fleur vão se casar.

Uma relação termina definitivamente pela morte.

Outra decide continuar apesar daquilo que a guerra tentou destruir.

Harry termina com Gina.

Fleur permanece com Gui.

Tonks insiste em permanecer com Lupin.

Cada personagem parece responder de maneira diferente à mesma pergunta:

o que fazemos com nossos vínculos quando o mundo se torna perigoso?

Harry acredita que precisa afastar Gina para protegê-la.

Lupin acredita que precisa afastar Tonks para protegê-la.

Fleur rejeita completamente essa lógica e permanece ao lado de Gui.

Tonks também rejeita a decisão que Lupin tenta tomar por ela.

O livro não entrega uma resposta simples.

Mas coloca todas essas escolhas lado a lado.

Capítulo XVII — Rony e Hermione

Então chegamos àquilo que talvez seja mais importante para o próximo livro.

Harry pretende continuar a missão.

Ele sabe que precisa encontrar as Horcruxes.

E aparentemente acredita que essa será sua responsabilidade.

Só que Rony e Hermione não permitem que a frase termine dessa maneira.

Eles vão junto.

Isso é enorme.

Porque voltamos, de certa forma, ao começo de tudo.

Harry.

Rony.

Hermione.

O trio.

Só que agora não são mais três crianças tentando descobrir o que existe depois de um alçapão dentro de Hogwarts.

Eles estão falando sobre sair atrás de pedaços da alma de Voldemort.

Seis livros aconteceram entre essas duas versões deles.

No primeiro livro, Rony e Hermione acompanharam Harry por um corredor proibido. No fim do sexto, escolhem acompanhá-lo para uma guerra.

Capítulo XVIII — Harry não volta sozinho

E existe algo importante nisso porque Dumbledore acabou de desaparecer da vida de Harry.

A figura que parecia saber mais.

Aquele que conduzia.

Aquele que explicava no final.

Aquele que enxergava o tabuleiro inteiro.

Harry perdeu tudo isso.

Mas não perdeu Rony e Hermione.

Eles não possuem as respostas de Dumbledore.

Não possuem seu poder.

Não possuem sua experiência.

Mas possuem algo que Voldemort parece nunca ter compreendido muito bem.

Eles escolhem ficar.

Não porque exista obrigação.

Não porque Harry ordenou.

Não porque uma profecia mencione seus nomes.

Simplesmente porque Harry vai e eles decidiram que ele não irá sozinho.

Capítulo XIX — Hogwarts talvez tenha terminado para Harry

E isso também muda completamente a expectativa para o próximo livro.

Até agora existe uma estrutura que acompanha praticamente toda a saga.

Férias.

Volta para Hogwarts.

Aulas.

Mistério.

Confronto.

Fim do ano letivo.

Mas agora Harry não está pensando em voltar para uma vida escolar normal.

Existe uma missão maior.

As Horcruxes precisam ser encontradas.

Voldemort precisa voltar a ser mortal.

Só então poderá ser derrotado definitivamente.

O mundo ficou grande demais para permanecer limitado aos corredores da escola.

E talvez isso seja inevitável.

Dumbledore morreu.

Harry cresceu.

E Hogwarts já não consegue protegê-lo da história que está acontecendo lá fora.

Capítulo XX — O menino que chegou e o homem que precisa partir

Talvez seja impossível chegar ao fim deste livro sem pensar no Harry que conhecemos em A Pedra Filosofal.

Um menino vivendo debaixo de uma escada.

Sem saber que era bruxo.

Sem amigos.

Sem conhecer Hogwarts.

Sem compreender por que seus pais morreram.

Sem sequer saber direito quem era Voldemort.

Hagrid apareceu.

Harry descobriu aquele mundo.

Encontrou Rony.

Encontrou Hermione.

Encontrou Hogwarts.

Encontrou Dumbledore.

Agora, seis livros depois, Dumbledore está sendo enterrado.

E Harry está pensando em deixar Hogwarts para terminar aquilo que seu professor começou.

Existe uma passagem de responsabilidade muito forte aqui.

Harry não sabe tudo.

Está muito longe disso.

Mas agora sabe o suficiente para entender que não pode esperar outra pessoa resolver.

Capítulo XXI — O fim de O Enigma do Príncipe

E assim termina Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

Com Dumbledore morto.

Snape revelado como o Príncipe Mestiço.

Draco tendo cumprido quase toda sua missão, mas incapaz de dar o golpe final.

Uma Horcrux falsa.

Um misterioso R.A.B.

Horcruxes ainda espalhadas.

Nagini entre as suspeitas.

O verdadeiro medalhão desaparecido.

Harry terminando com Gina.

Gui e Fleur mantendo seu casamento.

E Rony e Hermione decidindo seguir Harry.

É um final estranhamente bonito para um livro que termina tão destruído.

Porque não existe vitória.

Mas também não existe desistência.

Dumbledore morreu.

E mesmo assim aquilo que ele começou continuará.

Considerações Finais

Eu realmente estou impressionado com a capacidade deste capítulo de ser tão impactante sem praticamente precisar de ação.

Depois da caverna, da invasão de Hogwarts, da morte de Dumbledore e da perseguição a Snape, seria muito fácil terminar o livro tentando superar tudo isso com mais algum acontecimento gigantesco.

Mas não.

O livro para.

E nos obriga a ficar no funeral.

Nos obriga a olhar para quem veio.

Os centauros.

Os sereianos.

A Ordem da Fênix.

O Ministério.

Os professores.

Os alunos.

Os moradores de Hogsmeade.

Hagrid.

Grope.

Cada presença recupera alguma parte da história que percorremos até aqui.

É como se seis livros comparecessem ao funeral de Dumbledore.

E enquanto todos estão se despedindo dele, Harry está entendendo que não pode simplesmente se despedir daquilo que Dumbledore estava fazendo.

A missão continua.

Voldemort dividiu sua alma.

Ainda existem Horcruxes.

Existe um medalhão verdadeiro desaparecido.

Existe R.A.B.

Existe Nagini.

Existem outros objetos ainda a serem encontrados.

E Harry sabe que seu próximo caminho passa por eles.

Por isso termina com Gina.

Por isso talvez não exista mais um ano normal em Hogwarts.

Por isso o próximo livro já parece diferente antes mesmo de começar.

Só que Harry não estará sozinho.

Rony e Hermione vão com ele.

E acho muito bonito que, depois de um funeral tão gigantesco, o livro termine essencialmente com uma promessa de companhia.

A morte de Dumbledore poderia representar apenas a perda do guia.

Mas acaba representando também o momento em que Harry entende que precisa seguir sem ele.

Não sozinho.

Sem ele.

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

E talvez esse seja o ponto perfeito para entrar no último livro.

Harry começou essa história descobrindo que pertencia a algum lugar.

Agora precisa sair desse lugar para terminar aquilo que começou muito antes de ele sequer saber que era bruxo.

Dumbledore está morto.

Hogwarts já não parece invulnerável.

Voldemort continua vivo.

As Horcruxes continuam escondidas.

Mas Harry finalmente sabe o que precisa fazer.

E Rony e Hermione já disseram que irão com ele.

No primeiro livro, Harry encontrou em Hogwarts um lugar para onde voltar. No fim do sexto, ele descobre que crescer talvez seja justamente saber quando chegou a hora de partir.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Harry Potter e o Enigma do Príncipe — Capítulo 29

Capítulo I — Dumbledore está morto

Não tenho muito o que falar sobre o capítulo 29.

E acho que isso acontece porque o capítulo também não parece particularmente interessado em avançar.

Ele precisa primeiro compreender aquilo que acabou de acontecer.

Dumbledore está morto.

Os Comensais da Morte conseguiram entrar em Hogwarts.

Snape matou Dumbledore.

Draco conseguiu executar seu plano.

Existiram batalhas dentro do castelo.

Existem feridos.

E agora, depois de dois capítulos praticamente sem permitir que Harry respirasse, finalmente todo mundo precisa parar e juntar os pedaços.

Literalmente cada pessoa possui uma parte diferente da história.

Harry sabe o que aconteceu na Torre de Astronomia.

Os outros sabem o que aconteceu dentro do castelo.

E o capítulo 29 é basicamente o momento em que essas histórias finalmente se encontram.

Depois de uma tragédia, existe sempre um segundo momento doloroso: aquele em que os sobreviventes precisam reconstruir juntos exatamente como ela aconteceu.

Capítulo II — Cada um viu uma parte

Gosto da estrutura do capítulo justamente porque ninguém possui a história inteira.

Harry estava com Dumbledore.

Antes disso, Rony, Hermione e os outros estavam em Hogwarts.

Os membros da Ordem estavam combatendo os Comensais.

Professores estavam tentando defender o castelo.

Enquanto tudo isso acontecia, Draco estava na Torre de Astronomia com Dumbledore.

Depois Snape chegou.

Harry viu o final.

Agora cada pessoa precisa contar aquilo que sabe.

É quase uma investigação realizada depois que já conhecemos o pior resultado possível.

Não estamos tentando descobrir se o plano funcionou.

Sabemos que funcionou.

Estamos descobrindo como.

Capítulo III — O Armário Sumidouro funcionou

O plano de Draco agora pode ser compreendido por inteiro.

O Armário Sumidouro da Sala Precisa estava conectado ao outro armário na Borgin & Burkes.

Draco passou meses tentando reparar essa conexão.

Quando finalmente conseguiu, abriu uma passagem diretamente para dentro de Hogwarts.

Os Comensais não precisaram atravessar as proteções externas do castelo.

Eles simplesmente apareceram dentro dele.

E isso confirma definitivamente que Harry não passou o ano perseguindo uma fantasia.

Draco estava envolvido.

Draco possuía uma missão.

Draco estava trabalhando dentro da Sala Precisa.

Draco estava tentando matar Dumbledore.

Harry estava certo sobre praticamente toda a estrutura da conspiração.

O problema é que descobrir que estava certo não possui gosto algum de vitória agora.

Existem momentos em que estar certo não oferece satisfação alguma, porque aquilo que provou nossa razão foi exatamente a tragédia que queríamos impedir.

Capítulo IV — A batalha que Harry atravessou correndo

No capítulo anterior, Harry praticamente não teve tempo de entender o que estava acontecendo dentro de Hogwarts.

Ele corria atrás de Snape.

Via pessoas lutando.

Via corpos.

Via feitiços.

Mas nada daquilo conseguia fazê-lo interromper a perseguição.

Agora finalmente sabemos melhor o que aconteceu durante aqueles minutos.

Os membros da Ordem da Fênix e professores enfrentaram os Comensais da Morte.

Algumas pessoas saíram relativamente bem.

Outras não.

E entre os feridos está Gui Weasley.

Capítulo V — Greyback atacou Gui

Gui foi atacado por Fenrir Greyback.

E isso imediatamente cria uma preocupação enorme.

Greyback não é simplesmente um lobisomem qualquer.

Nós já conhecemos sua história.

Foi ele quem atacou Lupin quando Lupin ainda era criança.

Ele escolhe vítimas deliberadamente.

Transforma a licantropia numa arma.

Só que existe uma diferença importante neste ataque.

Greyback não estava transformado quando atacou Gui.

Portanto, ninguém sabe exatamente quais serão as consequências.

Gui está vivo.

Mas seu rosto foi gravemente ferido.

E existe o medo de que algum aspecto da condição de Greyback possa ter sido transmitido mesmo assim.

É mais uma consequência física da guerra.

Hogwarts foi invadida.

Dumbledore morreu.

E outras pessoas carregam agora no corpo aquilo que aconteceu naquela noite.

Capítulo VI — Fleur

E então acontece uma cena que gostei bastante.

Porque existe uma expectativa sobre Fleur.

Gui está desfigurado.

Existe a possibilidade de carregar consequências permanentes do ataque de Greyback.

Molly, que nunca pareceu acreditar completamente naquele relacionamento, praticamente presume que talvez agora Fleur não queira mais se casar com ele.

Fleur reage quase ofendida.

Aquilo não muda nada.

Ela continua querendo Gui.

Continua amando Gui.

E a ideia de abandoná-lo porque seu rosto foi destruído simplesmente não faz sentido para ela.

Na verdade, é uma cena que finalmente desmonta boa parte da imagem superficial que os Weasley construíram sobre Fleur.

Ela pode ser vaidosa.

Pode ser arrogante.

Pode irritar Molly e Gina.

Mas seu relacionamento com Gui não era superficial.

Foi preciso que Gui perdesse parte da aparência para que os outros percebessem que Fleur nunca esteve com ele apenas por causa dela.

Capítulo VII — E então Tonks explode

Mas a conversa sobre Fleur e Gui produz outra revelação.

Tonks.

Durante praticamente todo o livro existe alguma coisa errada com ela.

Tonks perdeu aquela energia que possuía em A Ordem da Fênix.

Seu cabelo perdeu as cores.

Ela parece abatida.

Triste.

Distante.

Seu Patrono mudou.

Lupin já havia explicado a Harry que grandes alterações emocionais poderiam modificar um Patrono.

Harry tentou montar sua própria teoria.

Pensou em Sirius.

Imaginou que Tonks pudesse ter sido apaixonada por ele e que sua morte tivesse provocado aquela transformação.

Não era Sirius.

Era Lupin.

Capítulo VIII — Tonks ama Lupin

Finalmente tudo faz sentido.

Tonks está apaixonada por Remo Lupin.

E Lupin está tentando afastá-la.

Não porque não exista sentimento.

Mas porque acredita que ele próprio não deveria estar com ela.

Lupin se considera velho demais.

Pobre demais.

E perigoso demais.

É lobisomem.

Carrega uma condição que marcou praticamente toda sua vida.

E acredita que Tonks deveria escolher alguém melhor.

Só existe um pequeno problema nessa lógica.

Tonks não quer outra pessoa.

Ela quer Lupin.

E isso torna toda aquela história que acompanhamos silenciosamente durante o livro muito mais clara.

O Patrono.

O cabelo.

A tristeza.

A mudança de comportamento.

Tudo estava ligado a ele.

Capítulo IX — “Velho demais, pobre demais, perigoso demais”

A justificativa de Lupin combina perfeitamente com o personagem que conhecemos.

Ele não diz simplesmente que não ama Tonks.

Seu argumento é que ela merece algo melhor.

E existe algo profundamente triste nisso.

Porque Lupin passou a vida inteira sendo tratado como alguém que deveria permanecer à margem.

Sua condição dificultou trabalho.

Dificultou estabilidade.

Dificultou pertencimento.

Agora essa exclusão parece ter sido incorporada pelo próprio Lupin.

Ele não precisa mais que outra pessoa diga que não é adequado para Tonks.

Ele mesmo diz.

Velho demais.

Pobre demais.

Perigoso demais.

Lupin praticamente constrói uma lista de motivos pelos quais acredita não merecer ser escolhido.

Tonks responde da maneira mais simples possível:

a escolha é dela.

Lupin passou tanto tempo ouvindo do mundo aquilo que não poderia ter que começou a recusar sozinho até aquilo que alguém decidiu livremente oferecer.

Capítulo X — Fleur e Tonks estão dizendo a mesma coisa

E gosto muito de essas duas situações aparecerem juntas.

Gui foi atacado por Greyback.

Seu rosto mudou.

Existe medo sobre aquilo que o ataque poderá causar.

Mesmo assim, Fleur diz que continua querendo se casar com ele.

Lupin é um lobisomem.

É pobre.

É mais velho.

Acredita representar um risco.

Mesmo assim, Tonks diz que o quer.

São duas mulheres diante de dois homens marcados, de maneiras diferentes, por Greyback.

E ambas estão dizendo praticamente a mesma coisa:

você não decide por mim aquilo que eu sou capaz de amar.

A diferença é que Gui aceita o amor de Fleur.

Lupin ainda tenta decidir por Tonks que ela deveria procurar outra pessoa.

Talvez por isso a cena de Fleur funcione quase como um argumento vivo contra Lupin.

Capítulo XI — O Patrono finalmente faz sentido

E finalmente podemos voltar a uma das pequenas perguntas que o livro deixou desde o começo.

Por que o Patrono de Tonks mudou?

Agora sabemos.

Harry interpretou a pista corretamente até certo ponto.

A mudança realmente estava ligada a uma transformação emocional profunda.

Ele apenas escolheu a pessoa errada.

Não era o luto romântico por Sirius.

Era Lupin.

E isso também mostra como Rowling deixou esse mistério acontecendo silenciosamente enquanto nossa atenção estava completamente voltada para Draco, Snape, Dumbledore e Voldemort.

Não era uma questão central.

Mas estava ali o tempo inteiro.

Capítulo XII — E Hogwarts?

Enquanto todos tentam reconstruir aquilo que aconteceu, surge uma questão muito maior.

O que acontece agora com Hogwarts?

Dumbledore morreu.

Comensais da Morte conseguiram invadir o castelo.

Alunos estiveram no meio de uma batalha.

Professores e membros da Ordem precisaram enfrentar invasores dentro da escola.

A ideia de Hogwarts como lugar protegido foi destruída.

O Ministro da Magia virá ao castelo.

Os professores precisam discutir o futuro da escola.

E ninguém sabe sequer se Hogwarts continuará funcionando.

Isso é enorme.

Porque durante toda a saga Hogwarts foi muito mais do que uma escola.

Foi a casa de Harry.

Foi o lugar para onde ele sempre voltou.

Foi praticamente o símbolo de que existia um espaço onde Voldemort não controlava tudo.

Agora Dumbledore morreu dentro dela.

Os Comensais entraram nela.

E ninguém consegue garantir que ainda seja seguro permanecer ali.

A morte de Dumbledore não deixou apenas uma cadeira vazia na direção. Deixou Hogwarts sem a certeza de que suas paredes ainda significam proteção.

Capítulo XIII — O capítulo depois da explosão

Talvez por isso eu não tenha tanto a dizer sobre o capítulo 29.

Ele não possui uma grande revelação comparável aos capítulos anteriores.

Não possui uma perseguição.

Não possui uma Horcrux.

Não possui uma grande batalha acontecendo diante de Harry.

Não possui outro Avada Kedavra.

Ele é o capítulo depois da explosão.

Aquele em que olhamos ao redor e contamos os danos.

Quem está vivo?

Quem está ferido?

Como os Comensais entraram?

O que aconteceu em cada corredor?

Quem viu o quê?

O que acontecerá com Hogwarts?

E talvez fosse impossível continuar a história sem esse momento.

Depois de tanta coisa acontecendo tão rapidamente, alguém precisava juntar as peças.

Considerações Finais

O capítulo 29 é basicamente um capítulo de consequências.

Dumbledore continua morto.

E talvez essa seja a informação que torna todo o restante quase secundário.

Os personagens reconstroem a invasão.

Descobrem como os Comensais entraram.

Contam suas partes da batalha.

Descobrimos quem foi ferido.

Sabemos que o Ministro da Magia irá até Hogwarts.

E surge uma pergunta que seria impensável durante boa parte da saga:

Hogwarts continuará aberta?

A escola sobreviveu fisicamente à invasão.

Mas perdeu aquilo que talvez fosse sua maior proteção.

Dumbledore.

A grande novidade emocional do capítulo acaba ficando com Tonks e Lupin.

E finalmente todas aquelas pequenas pistas fazem sentido.

A Tonks abatida.

Seu cabelo sem cor.

Seu comportamento.

O Patrono diferente.

Harry estava certo ao perceber que existia uma causa emocional.

Só estava errado sobre Sirius.

Era Lupin.

E achei especialmente boa a maneira como essa revelação aparece ao lado de Fleur e Gui.

Greyback marcou a vida de Lupin quando ele ainda era criança.

Agora marcou fisicamente Gui.

Lupin acredita que sua condição o torna inadequado para Tonks.

Gui poderia imaginar que suas novas cicatrizes o tornariam menos desejável para Fleur.

Mas Fleur escolhe Gui.

Tonks escolhe Lupin.

Talvez seja uma pequena resposta emocional a um capítulo dominado pela perda.

Enquanto Voldemort e seus seguidores deixam Hogwarts espalhando morte, medo e feridas, algumas pessoas respondem às próprias cicatrizes se recusando a abandonar umas às outras.

Ainda assim, nada consegue retirar o peso central do capítulo.

Dumbledore está morto.

E agora todos precisam começar a descobrir como será o mundo depois dele.

O capítulo 29 não precisa criar outra tragédia. Sua função é muito mais silenciosa: obrigar todos a olhar para aquilo que restou depois da anterior.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Harry Potter e o Enigma do Príncipe — Capítulo 28

Capítulo I — Harry volta a se mover

O capítulo 28 começa exatamente onde precisava começar.

Dumbledore está morto.

Snape lançou o Avada Kedavra.

Draco e os Comensais da Morte estão fugindo.

E Harry continua debaixo da Capa da Invisibilidade, completamente paralisado pelo último feitiço que Dumbledore lançou sobre ele.

Então a paralisia desaparece.

E isso, por si só, confirma aquilo que Harry acabou de testemunhar.

O feitiço terminou porque Dumbledore morreu.

Harry recupera o corpo no mesmo instante em que perde definitivamente o homem que o impedia de agir.

E sua reação não poderia ser outra.

Ele corre.

Não pensa.

Não organiza um plano.

Não procura ajuda.

Não fica na torre.

Harry quer Snape.

Quando Dumbledore morre, Harry recupera os movimentos. O problema é que tudo aquilo que passa a movê-lo é raiva.

Capítulo II — Hogwarts está em guerra

Enquanto Harry desce pelo castelo, finalmente vemos a dimensão do plano de Draco.

Os Comensais da Morte realmente entraram em Hogwarts.

A Ordem da Fênix está lutando.

Professores estão lutando.

Existem alunos desesperados.

Existem pessoas caídas.

Feitiços atravessam corredores.

Aquilo que durante vários livros pareceu ser o lugar seguro da história agora virou um campo de batalha.

Mas Harry praticamente não participa daquela batalha.

Ele atravessa tudo.

Vê os duelos.

Vê pessoas caídas.

Vê o caos.

Mas nada consegue fazê-lo parar.

Porque, para Harry, naquele momento, toda a guerra possui apenas um rosto.

Severo Snape.

Capítulo III — Harry não está tentando vencer uma batalha

Isso torna a sequência muito interessante.

Harry não está pensando estrategicamente.

Não está tentando ajudar a Ordem.

Não está tentando compreender quem está ferido.

Não está tentando proteger Hogwarts como um todo.

Ele está perseguindo o homem que acabou de matar Dumbledore diante de seus olhos.

É vingança.

Pura e simples.

E depois de tudo que Harry acabou de viver, é perfeitamente compreensível que sua cabeça tenha reduzido o mundo àquela perseguição.

Snape matou Dumbledore.

Snape está fugindo.

Harry quer alcançá-lo.

Hogwarts inteiro está em guerra, mas para Harry existe apenas uma batalha acontecendo: aquela entre ele e o homem que matou Dumbledore.

Capítulo IV — Harry finalmente alcança Snape

A perseguição continua até os terrenos de Hogwarts.

Harry finalmente consegue chegar perto de Snape.

E então tenta atacá-lo.

Só que existe um problema.

Harry simplesmente não consegue acertá-lo.

Cada feitiço é bloqueado.

Cada tentativa é interrompida.

Snape parece saber o que Harry fará antes mesmo que consiga completar o ataque.

E isso é quase humilhante.

Harry está completamente tomado pela raiva.

Ataca com tudo que consegue pensar.

Snape continua bloqueando.

Existe uma diferença brutal de experiência entre os dois.

Harry é talentoso.

Já enfrentou situações absurdas.

Mas Snape é um bruxo adulto extremamente habilidoso, conhece Harry e sabe exatamente quais erros ele comete em combate.

Capítulo V — As aulas de Snape voltam no pior momento possível

E existe uma ironia excelente nessa luta.

Snape passou o começo do ano ensinando Defesa Contra as Artes das Trevas.

Uma das coisas em que insistiu foi a importância dos feitiços não verbais.

Harry teve dificuldade.

Continuou dependendo muito da necessidade de pronunciar os encantamentos.

Agora está tentando duelar justamente contra Snape.

E Snape lê cada movimento.

Harry praticamente anuncia aquilo que fará.

Snape consegue reagir antes que o ataque se complete.

É como se Harry estivesse sendo derrotado pela própria aula que não conseguiu dominar completamente.

Na sala de aula, Harry podia se irritar com Snape e ignorar suas lições. Num duelo real, cada lição ignorada volta para cobrá-lo.

Capítulo VI — Sectumsempra

Então Harry tenta utilizar uma das armas mais perigosas que conhece.

Sectumsempra.

O mesmo feitiço que quase matou Draco.

O feitiço encontrado nas anotações do Príncipe Mestiço.

E Snape não apenas bloqueia.

Ele reage.

Porque Harry acaba de cometer um erro gigantesco sem saber.

Está tentando usar contra Snape um feitiço que pertence ao próprio Snape.

E então finalmente recebemos a resposta para a pergunta que dá nome ao livro.

Severo Snape é o Príncipe Mestiço.

Capítulo VII — Snape é o Príncipe Mestiço

Caceta.

Então era Snape.

O livro inteiro esteve construindo essa pergunta.

Quem era aquele aluno brilhante?

Quem fazia anotações tão melhores do que as instruções oficiais?

Quem conhecia Poções daquele jeito?

Quem inventava feitiços?

Quem criou Sectumsempra?

E agora tudo se encaixa.

Snape.

O professor que Harry odeia desde seu primeiro ano foi também o professor invisível que Harry passou este ano admirando.

Isso é uma ironia maravilhosa.

Harry rejeitava Snape dentro da sala de aula enquanto aprendia avidamente com o Snape adolescente através das margens de um livro.

Harry confiou no Príncipe Mestiço de uma maneira que jamais confiaria em Severo Snape.

E eram a mesma pessoa.

Harry passou o ano admirando a inteligência de um homem que passou a vida odiando, simplesmente porque não sabia que as duas pessoas eram a mesma.

Capítulo VIII — Agora Sectumsempra também faz sentido

A revelação reorganiza imediatamente o capítulo anterior.

Quando Harry utilizou Sectumsempra contra Draco, Snape chegou e soube exatamente como desfazer seus efeitos.

Naquele momento, isso já era uma pista enorme.

Agora sabemos por quê.

Snape conhecia a contramaldição porque Sectumsempra era seu.

Ele criou o feitiço.

Isso também torna o livro muito mais interessante.

Aquelas páginas não eram apenas anotações de um aluno talentoso.

Eram praticamente um registro da mente adolescente de Severo Snape.

Seu talento para Poções.

Sua capacidade de alterar receitas.

Seu interesse por feitiços.

E também seu contato com uma magia muito mais sombria.

Hermione estava certa em desconfiar daquele livro.

Talvez nem ela imaginasse o quanto.

Capítulo IX — Prince

E a investigação de Hermione também estava muito mais próxima da resposta do que Harry imaginava.

Eileen Prince.

A mulher que Hermione encontrou durante suas pesquisas não era uma coincidência qualquer.

Ela era a mãe de Snape.

O sobrenome Prince vinha dela.

Snape era mestiço.

Daí:

Half-Blood Prince.

O Príncipe Mestiço.

E novamente a tradução para o português torna essa pista um pouco menos natural porque “Príncipe” parece imediatamente um título.

No inglês, “Prince” funciona simultaneamente como a palavra e como o sobrenome familiar que Snape utilizou para construir aquela identidade.

A resposta estava praticamente diante de Hermione.

Só faltava a ligação entre Eileen Prince e Severo Snape.

Capítulo X — “Não me chame de covarde”

Mas a luta entre Harry e Snape não é apenas mágica.

Ela se torna profundamente pessoal.

Harry chama Snape de covarde.

E isso atinge alguma coisa.

Snape reage com uma raiva enorme.

Volta a James Potter.

Volta à juventude.

Volta ao ressentimento que claramente nunca desapareceu.

Para Snape, Harry continua carregando o rosto do pai.

E aquela antiga humilhação que vimos na Penseira ainda existe dentro dele.

Snape lembra que James não o enfrentava sozinho.

Que havia vantagem numérica.

E exige que Harry não o chame de covarde.

É impressionante como, mesmo depois de tantos anos, James ainda consegue aparecer em praticamente toda grande explosão emocional de Snape envolvendo Harry.

Aquilo nunca foi resolvido.

Snape carrega essa raiva até hoje.

Capítulo XI — O homem que Harry quer matar continua ensinando

Existe algo quase absurdo na perseguição.

Snape acabou de matar Dumbledore.

Harry quer destruí-lo.

E, mesmo enquanto bloqueia seus ataques, Snape continua apontando os erros de Harry.

Harry precisa aprender a fechar a mente.

Precisa parar de anunciar seus feitiços.

Precisa controlar aquilo que pretende fazer.

É uma continuação grotesca da relação professor-aluno.

Harry está tentando matar seu antigo professor.

E o antigo professor praticamente continua corrigindo sua técnica enquanto o derrota.

Isso torna a impotência de Harry ainda maior.

Ele não consegue sequer transformar sua raiva em dano.

Snape controla completamente o confronto.

Capítulo XII — Snape foge

No fim, Harry não consegue detê-lo.

Snape foge.

Draco foge.

Os Comensais fogem.

A passagem criada pelo Armário Sumidouro cumpriu seu objetivo.

Eles entraram em Hogwarts.

Dumbledore morreu.

E agora conseguem escapar.

Harry fica para trás.

Com raiva.

Com a revelação sobre o Príncipe Mestiço.

E, principalmente, com a realidade daquilo que aconteceu na Torre de Astronomia.

Capítulo XIII — O corpo de Dumbledore

Então Harry volta.

E vê Dumbledore.

Agora não existe mais perseguição para impedir que ele pense.

Não existe Snape na frente dele.

Não existe feitiço para lançar.

Existe apenas o corpo.

Dumbledore está morto.

E perto dele Harry encontra o medalhão.

A Horcrux.

Ou aquilo que deveria ser a Horcrux.

Harry abre o objeto.

E encontra uma mensagem.

Capítulo XIV — A Horcrux é falsa

Aqui o capítulo consegue ser cruel novamente.

O medalhão não é a Horcrux.

Alguém chegou antes de Dumbledore.

Alguém descobriu o segredo de Voldemort.

Alguém encontrou aquela caverna.

Alguém atravessou aquelas defesas.

E alguém retirou a verdadeira Horcrux.

No lugar dela, deixou um medalhão falso.

Dentro dele existe uma mensagem dirigida ao Lorde das Trevas.

O autor diz que descobriu seu segredo.

Diz que roubou a verdadeira Horcrux.

E expressa a esperança de que, quando Voldemort finalmente encontrar seu adversário, tenha voltado a ser mortal.

A assinatura contém apenas iniciais.

R.A.B.

Harry não sabe quem é.

Eu também ainda não.

Mas agora existe mais uma pessoa dentro dessa história.

Alguém que sabia sobre as Horcruxes antes de Harry.

Alguém que decidiu agir contra Voldemort.

E alguém que conseguiu chegar àquela Horcrux antes de Dumbledore.

Harry e Dumbledore passaram o ano seguindo os rastros de Voldemort. Na caverna, descobriram tarde demais que alguém já havia seguido aquele mesmo rastro antes deles.

Capítulo XV — E então a caverna fica ainda pior

Essa descoberta torna tudo aquilo que aconteceu no capítulo 26 ainda mais revoltante.

Dumbledore cortou a própria mão.

Atravessou o lago.

Bebeu aquela poção terrível.

Implorou para Harry parar.

Foi obrigado a continuar bebendo.

Ficou desesperadamente sedento.

Enfrentou os Inferi.

Saiu da caverna praticamente sem conseguir andar.

Harry precisou carregá-lo.

E tudo aquilo foi para pegar um objeto falso.

É impossível para Harry não sentir raiva.

A missão que parecia finalmente colocar os dois um passo à frente de Voldemort terminou sem destruir absolutamente nenhuma Horcrux.

Pior.

Dumbledore voltou extremamente vulnerável justamente na noite em que Draco conseguiu colocar os Comensais da Morte dentro de Hogwarts.

É uma sequência terrível de acontecimentos.

Capítulo XVI — Mas alguém conseguiu

Por outro lado, a mensagem cria um mistério enorme.

Porque existe uma informação muito importante escondida naquele fracasso.

A verdadeira Horcrux foi retirada.

Isso não significa necessariamente que tenha sido destruída.

A mensagem diz que o autor pretendia destruí-la.

Mas Harry não possui como saber se conseguiu.

Ainda assim, alguém descobriu o segredo de Voldemort.

E isso parece extremamente difícil.

Dumbledore precisou investigar Tom Riddle durante anos.

Precisou reunir memórias.

Precisou conseguir a lembrança verdadeira de Slughorn.

Precisou compreender os objetos escolhidos por Voldemort.

Então quem é R.A.B.?

Como descobriu?

Como encontrou a caverna?

Como atravessou as proteções?

Onde está o medalhão verdadeiro?

E conseguiu destruí-lo?

Dumbledore morreu deixando Harry com uma missão.

Agora essa missão ganhou mais um mistério.

Capítulo XVII — O título finalmente responde

E no meio de toda essa tragédia, o livro finalmente responde à pergunta estampada na capa.

Quem é o Príncipe Mestiço?

Severo Snape.

E gosto muito da ironia dessa revelação.

Porque o título nos fez imaginar que o Príncipe seria alguma figura misteriosa ligada diretamente à grande trama de Voldemort.

Mas ele esteve presente desde A Pedra Filosofal.

Harry o conhecia.

Nós o conhecíamos.

Só não conhecíamos aquela versão dele.

O livro de Poções apresentou a Harry um Snape sem rosto.

Sem voz.

Sem a história com James.

Sem humilhações.

Sem preconceito prévio.

E Harry adorou aprender com ele.

Talvez essa seja uma das ironias mais interessantes do livro inteiro.

Harry precisou não saber que estava aprendendo com Snape para descobrir o quanto poderia admirar aquilo que Snape sabia.

Considerações Finais

O capítulo 28 não dá praticamente nenhum espaço para Harry processar a morte de Dumbledore.

Ele transforma imediatamente o luto em movimento.

Harry corre.

Persegue.

Ataca.

Tenta alcançar Snape.

E falha.

Snape bloqueia tudo.

E durante essa luta recebemos finalmente a resposta sobre o Príncipe Mestiço.

Era ele.

Severo Snape.

O mesmo homem que Harry passou anos odiando.

O mesmo homem que acabou de matar Dumbledore.

O mesmo homem cujas anotações Harry passou meses admirando.

E isso reorganiza completamente nossa visão daquele livro.

Sectumsempra era de Snape.

As correções de Poções eram de Snape.

Os feitiços eram de Snape.

A inteligência que Harry admirava era de Snape.

Mas o capítulo ainda encontra uma maneira de piorar tudo.

A Horcrux é falsa.

Dumbledore passou por todo aquele sofrimento na caverna para recuperar um medalhão que já havia sido substituído.

E morreu poucas horas depois.

Agora Harry possui um objeto falso.

Uma mensagem.

Três letras.

R.A.B.

E uma Horcrux verdadeira em algum lugar desconhecido.

Em apenas dois capítulos, Harry perdeu Dumbledore, confirmou que Draco estava certo em sua conspiração, viu Snape aparentemente revelar sua verdadeira lealdade, descobriu a identidade do Príncipe Mestiço e soube que a missão da caverna não recuperou a verdadeira Horcrux.

Mas talvez a pior perda seja outra.

Até aqui, sempre que Harry encontrava um mistério grande demais, existia Dumbledore.

Alguém acima dele que sabia mais.

Alguém que poderia reunir as peças.

Alguém que talvez já estivesse dez passos adiante.

Agora Harry tem apenas as peças.

Um medalhão falso.

Uma assinatura desconhecida.

Outras Horcruxes ainda espalhadas.

E nenhuma possibilidade de subir até a sala do diretor para perguntar o que fazer em seguida.

A última descoberta de Harry ao lado de Dumbledore foi que Voldemort podia ser derrotado. A primeira descoberta sem Dumbledore é que agora será Harry quem terá de descobrir como continuar.

domingo, 2 de agosto de 2026

Harry Potter e o Enigma do Príncipe — Capítulo 27

Capítulo I — Não. Simplesmente não.

Então chegamos aqui.

Eu ainda estou tentando absorver o que aconteceu neste capítulo.

Porque existe uma diferença enorme entre imaginar que alguma coisa ruim está prestes a acontecer e efetivamente assistir aquilo acontecer.

O capítulo anterior já terminava da pior maneira possível.

Dumbledore estava completamente debilitado.

Harry precisava praticamente carregá-lo para fora da caverna.

E nós sabíamos de uma coisa que Dumbledore ainda não sabia completamente:

Draco havia terminado aquilo que passou o ano inteiro tentando consertar.

Portanto, voltar para Hogwarts nunca pareceu uma boa ideia.

Mesmo assim, eu não estava preparado para isso.

Dumbledore morreu.

E Harry viu.

Sem conseguir fazer absolutamente nada.

Existem mortes que acontecem diante de um personagem. E existem mortes que o obrigam a assistir enquanto até a possibilidade de tentar impedir lhe é retirada.

Capítulo II — Dumbledore precisa de Snape

Harry consegue retirar Dumbledore da caverna.

O diretor está muito mal.

Aquela poção fez um estrago enorme.

O homem que poucas páginas antes criou um círculo gigantesco de fogo para afastar os Inferi agora mal consegue se sustentar.

Harry pensa imediatamente na enfermaria.

Madame Pomfrey.

É o caminho óbvio.

Mas Dumbledore pede outra pessoa.

Snape.

Precisa ser Severo.

E depois de tudo que aconteceu no capítulo anterior, esse pedido possui um peso enorme.

Harry acabou de descobrir que Snape foi quem ouviu parte da profecia e levou a informação até Voldemort.

Acabou de discutir violentamente com Dumbledore justamente porque não consegue compreender como ele ainda pode confiar naquele homem.

Mesmo assim, no momento em que está vulnerável, Dumbledore pede:

Snape.

Sua confiança continua absoluta.

E isso torna o final do capítulo ainda pior.

Capítulo III — A Marca Negra sobre Hogwarts

Harry consegue aparatar com Dumbledore até Hogsmeade.

Madame Rosmerta os encontra.

E então eles olham para Hogwarts.

Existe uma Marca Negra sobre o castelo.

O símbolo dos Comensais da Morte.

Um aviso associado à morte.

Imediatamente, toda a exaustão da caverna perde importância.

Alguma coisa aconteceu em Hogwarts.

Dumbledore consegue vassouras e parte com Harry em direção ao castelo.

E existe uma crueldade enorme na construção dessa sequência.

Harry e Dumbledore acabaram de sobreviver à caverna.

Conseguiram recuperar aquilo que acreditam ser uma Horcrux.

Deveriam estar voltando de uma vitória.

Em vez disso, encontram Hogwarts marcado pelo símbolo de Voldemort.

Eles sobreviveram à fortaleza de Voldemort apenas para descobrir que, enquanto estavam fora, a guerra entrou em casa.

Capítulo IV — A Torre de Astronomia

Harry e Dumbledore chegam à Torre de Astronomia, exatamente onde está a Marca Negra.

Dumbledore manda Harry vestir a Capa da Invisibilidade.

E dá uma ordem clara.

Não tire.

Harry obedece.

Dumbledore então manda que ele vá buscar Snape.

Novamente Snape.

Sempre Snape.

O homem em quem Dumbledore insiste em confiar.

Harry começa a se mover.

Então alguma coisa acontece.

Um barulho.

Uma presença.

E antes que Harry consiga reagir, seu corpo fica completamente imóvel.

Ele foi atingido por um feitiço de paralisia.

Mas não por Draco.

Por Dumbledore.

Capítulo V — Dumbledore escolheu proteger Harry

Esse detalhe é fundamental.

Dumbledore percebe o perigo chegando.

Possui pouquíssimo tempo para reagir.

Está enfraquecido.

Está sem condições ideais para um duelo.

E precisa escolher o que fazer primeiro.

Sua escolha é Harry.

Dumbledore utiliza aquele instante para garantir que Harry permaneça escondido e incapaz de interferir.

E essa decisão possui uma consequência imediata.

Draco chega.

Expelliarmus.

A varinha de Dumbledore voa.

Draco Malfoy desarma Alvo Dumbledore.

Dumbledore poderia talvez ter utilizado aquele instante para se defender.

Em vez disso, utilizou-o para proteger Harry.

No momento em que precisava escolher entre sua própria defesa e impedir Harry de entrar naquela luta, Dumbledore escolheu Harry.

Capítulo VI — Finalmente Draco conta tudo

E então acontece algo que eu estava esperando praticamente desde o começo do livro.

Draco explica seu plano.

Finalmente.

Todas aquelas peças aparentemente desconectadas começam a ocupar seus lugares.

A Sala Precisa.

Os desaparecimentos do Mapa do Maroto.

Crabbe e Goyle utilizando Poção Polissuco.

As garotas no corredor.

Os objetos derrubados como sinais.

As longas horas trabalhando.

A comemoração ouvida por Trelawney.

Draco estava consertando um Armário Sumidouro.

E existe outro armário conectado a ele na Borgin & Burkes.

Era esse o caminho.

Era essa a porta.

Draco não precisava destruir as defesas externas de Hogwarts.

Não precisava atravessar os portões.

Não precisava vencer os encantamentos de Dumbledore.

Ele precisava apenas criar uma passagem que começasse dentro do castelo.

E conseguiu.

Capítulo VII — O plano de Draco era realmente engenhoso

Preciso reconhecer:

o plano é muito bom.

Durante o livro inteiro, Draco parecia simplesmente desaparecer dentro da Sala Precisa.

Agora entendemos que ele estava trabalhando em uma vulnerabilidade gigantesca da segurança de Hogwarts.

Um Armário Sumidouro dentro da escola.

Outro na Borgin & Burkes.

Uma conexão entre os dois.

E quando finalmente consegue reparar o armário, os Comensais da Morte possuem uma entrada direta para Hogwarts.

A grande fortaleza de Dumbledore não foi invadida pela porta.

Foi invadida por uma passagem esquecida dentro dela própria.

Draco não precisou derrubar os muros de Hogwarts. Precisou apenas descobrir uma porta que ninguém mais lembrava que existia.

Capítulo VIII — Katie Bell e Rony finalmente entram no mesmo plano

Mas Draco também confirma outra coisa.

O colar amaldiçoado.

Foi ele.

O hidromel envenenado.

Também foi ele.

Harry estava certo.

Desde o começo.

Draco realmente recebeu uma missão relacionada a Dumbledore.

E aquelas duas tentativas quase mataram outras pessoas.

Katie Bell foi atingida por um plano que não tinha ela como alvo.

Rony quase morreu bebendo algo que também não era destinado a ele.

Existe uma diferença enorme entre o plano do Armário Sumidouro e essas duas tentativas.

O armário é sofisticado.

Paciente.

Inteligente.

As outras tentativas foram desesperadas.

Indiretas.

E extremamente irresponsáveis com qualquer pessoa que pudesse entrar no caminho.

Draco passou o ano tentando matar Dumbledore sem precisar estar diante dele.

Agora está.

E isso muda tudo.

Capítulo IX — Madame Rosmerta

Outra peça finalmente aparece.

Madame Rosmerta estava sob a Maldição Imperius.

Draco a utilizou como intermediária.

Isso explica como conseguiu operar fora de Hogwarts sem precisar sair constantemente do castelo.

E existe outro detalhe que achei particularmente interessante.

A comunicação.

Draco utilizou moedas encantadas.

Exatamente como Hermione havia feito para a Armada de Dumbledore.

Uma ideia criada pelos protagonistas no livro anterior reaparece agora adaptada por Draco para sua própria operação.

É um ótimo detalhe porque mostra que Draco não está simplesmente improvisando magia.

Ele observa.

Aprende.

Adapta.

E utiliza contra Hogwarts técnicas que nasceram dentro do próprio Hogwarts.

Capítulo X — Dumbledore já sabia

E então Dumbledore revela algo surpreendente.

Ele sabia que Draco estava tentando matá-lo.

Talvez não conhecesse cada detalhe do plano.

Mas sabia da missão.

Sabia do perigo.

Sabia que Voldemort havia colocado Draco naquela situação.

Isso também muda nossa leitura de várias conversas anteriores.

Harry passou o ano inteiro tentando convencer Dumbledore.

Dumbledore nunca pareceu particularmente alarmado.

Agora entendemos que não era necessariamente porque não acreditava em Harry.

Ele sabia mais do que dizia.

E explica também por que não confrontou Draco diretamente.

Se Voldemort descobrisse através da Legilimência que Draco havia sido abordado e que seu plano estava comprometido, poderia matá-lo.

Dumbledore estava tentando encontrar uma maneira de protegê-lo.

Capítulo XI — Dumbledore tenta salvar o homem que veio matá-lo

Essa conversa é talvez a parte mais impressionante do capítulo antes da chegada de Snape.

Dumbledore está desarmado.

Extremamente enfraquecido.

Draco aponta uma varinha para ele.

Comensais da Morte estão dentro de Hogwarts.

Harry está paralisado a poucos metros.

E Dumbledore conversa.

Calmamente.

Sem implorar.

Sem ameaçar.

Sem humilhar Draco.

Ele tenta salvá-lo.

Diz que existem alternativas.

Diz que pode protegê-lo.

Pode proteger sua família.

Draco não precisa fazer aquilo.

E pouco a pouco fica evidente aquilo que o livro vinha mostrando havia algum tempo.

Draco não consegue.

Ele conseguiu colocar Comensais da Morte dentro de Hogwarts.

Conseguiu amaldiçoar Katie indiretamente.

Conseguiu enviar o hidromel envenenado.

Conseguiu desarmar Dumbledore.

Mas matar uma pessoa olhando para ela é outra coisa.

Draco passou o ano tentando matar Dumbledore à distância. Quando finalmente precisa olhar para o homem que deve matar, sua missão se torna muito mais difícil.

Capítulo XII — Draco Malfoy não é Voldemort

E talvez essa seja a maior diferença entre Draco e Tom Riddle.

Tom criança já demonstrava prazer em controlar e aterrorizar outras pessoas.

Tom adulto matou para conseguir aquilo que desejava.

Matou seu pai.

Seus avós.

Hepzibah Smith.

Transformou assassinatos em etapas de seus objetivos.

Draco, apesar de tudo aquilo que fez durante o livro, ainda hesita.

Ele baixa a varinha.

Não completamente.

Mas existe um momento em que parece possível que Dumbledore consiga alcançá-lo.

E talvez seja justamente por isso que Voldemort colocou Draco nessa missão.

Não apenas para punir Lucius.

Mas para obrigar o filho a atravessar uma linha da qual talvez nunca pudesse voltar.

Capítulo XIII — Os Comensais chegam

Então o tempo acaba.

Os Comensais da Morte chegam à torre.

Entre eles está Fenrir Greyback.

O mesmo homem que atacou Lupin quando ele era criança.

Aquele que transforma crianças em alvos deliberadamente.

A presença dele torna a cena imediatamente mais ameaçadora.

Os Comensais pressionam Draco.

Ele precisa terminar aquilo.

Precisa matar Dumbledore.

Mas Draco continua sem conseguir.

E então chega o homem que Dumbledore pediu desde o início.

Severo Snape.

Capítulo XIV — “Severo... por favor...”

Aqui o capítulo me destruiu.

Porque tudo aquilo que foi construído sobre Snape durante seis livros converge para alguns segundos.

Harry acredita que Snape é um traidor.

Dumbledore acredita nele.

Harry acabou de descobrir que Snape entregou a profecia a Voldemort.

Dumbledore continua acreditando nele.

Snape fez um Voto Perpétuo com Narcissa.

Dumbledore continua acreditando nele.

Harry ouviu Snape oferecendo ajuda a Draco.

Dumbledore continua acreditando nele.

Agora Snape está diante de Dumbledore.

E Dumbledore diz:

“Severo... por favor...”

Depois de tudo aquilo, parece uma súplica.

O homem que confiou em Snape quando Harry implorou para que não confiasse agora parece pedir ajuda justamente a ele.

E então Snape ergue a varinha.

Avada Kedavra.

Capítulo XV — Snape mata Dumbledore

Não existe negociação.

Não existe resgate.

Não existe revelação salvadora.

O feitiço atinge Dumbledore.

E Harry vê seu corpo cair da torre.

Sem vida.

Alvo Dumbledore está morto.

E talvez a parte mais cruel seja Harry continuar paralisado.

Ele está ali.

Vê tudo.

Ouve tudo.

Quer agir.

Quer gritar.

Quer atacar Snape.

Mas não consegue mover um músculo.

A última magia que Dumbledore utilizou antes de ser desarmado continua protegendo Harry até o instante de sua própria morte.

A última coisa que Dumbledore fez com sua varinha não foi tentar salvar a si mesmo. Foi impedir Harry de tentar salvá-lo.

Capítulo XVI — Harry estava certo sobre Snape?

E aqui existe uma sensação terrível.

Porque Harry passou praticamente o livro inteiro dizendo:

não confiem em Snape.

Ninguém queria ouvi-lo.

Rony relativizou.

Hermione relativizou.

Lupin disse que confiava em Snape porque Dumbledore confiava.

E o próprio Dumbledore encerrou repetidamente qualquer discussão afirmando que confiava nele.

Agora Harry acabou de assistir Snape matar Dumbledore.

Com um Avada Kedavra.

É impossível imaginar o tamanho da raiva que isso deve produzir nele.

Porque não existe apenas o luto.

Existe a sensação de que tentou avisar.

E existe ainda a descoberta recente de que Snape levou a profecia a Voldemort.

Na cabeça de Harry, as peças provavelmente acabaram de se encaixar da pior maneira possível.

Capítulo XVII — Mas existe alguma coisa que continua me incomodando

Mesmo depois de assistir a tudo isso, existe uma pergunta que não desaparece.

Por que Dumbledore confiava tanto em Snape?

Não era uma confiança casual.

Não era falta de informação.

Dumbledore sabia que Snape havia sido Comensal da Morte.

Sabia que ele levou a profecia a Voldemort.

Sabia muito mais sobre ele do que Harry.

Mesmo assim, confiava absolutamente.

E, quando retorna da caverna quase sem forças, a pessoa que pede para encontrar é justamente Snape.

Então chega aquele momento.

“Severo... por favor...”

E Snape o mata.

Talvez a explicação seja simplesmente que Dumbledore estava errado.

Talvez Harry estivesse certo desde o começo.

Neste ponto da leitura, é exatamente isso que a cena parece dizer.

Mas depois de um livro inteiro construído em torno da pergunta sobre a lealdade de Snape, ainda existe algo naquele “por favor” que me deixa desconfortável.

Não sei o que significa.

E neste momento não quero inventar uma resposta que o livro ainda não me deu.

Só sei que não consigo ignorar.

Considerações Finais

O capítulo 27 é devastador.

E não apenas porque Dumbledore morreu.

Ele resolve praticamente toda a investigação de Draco em poucos minutos.

Harry estava certo.

Draco recebeu uma missão.

Draco estava por trás do colar amaldiçoado.

Estava por trás do hidromel.

Utilizou Madame Rosmerta sob Imperius.

Utilizou moedas encantadas para comunicação.

Passou o ano consertando um Armário Sumidouro dentro da Sala Precisa.

E criou uma passagem entre Hogwarts e a Borgin & Burkes.

Era isso.

Finalmente sabemos.

Mas descobrir o plano de Draco deixa de parecer importante diante daquilo que acontece depois.

Dumbledore estava desarmado.

Draco não conseguiu matá-lo.

E Dumbledore continuou tentando salvá-lo até o fim.

Então Snape chegou.

O homem que Dumbledore defendeu durante todo o livro.

O homem que Harry nunca conseguiu aceitar.

O homem que levou a profecia a Voldemort.

O homem que fez o Voto Perpétuo.

Dumbledore olha para ele.

Pede.

E Snape lança o Avada Kedavra.

Talvez o detalhe mais doloroso seja perceber que Harry não pôde sequer cometer a loucura de tentar impedir.

Dumbledore garantiu isso.

Harry ficou invisível.

Paralisado.

Protegido.

E obrigado a assistir.

No capítulo anterior, Harry precisou carregar Dumbledore para fora da caverna.

Por alguns minutos, parecia que os papéis haviam se invertido e que agora Harry precisava proteger seu professor.

Mas na Torre de Astronomia descobrimos que Dumbledore ainda estava protegendo Harry.

Até o último instante em que conseguiu fazer magia.

E agora ele caiu.

Literalmente.

O homem que durante seis livros representou a sensação de que, enquanto estivesse em Hogwarts, ainda existiria alguém capaz de colocar alguma ordem no caos não está mais lá.

Dumbledore morreu.

E Harry viu quem o matou.

Talvez a morte de Dumbledore seja tão devastadora porque não elimina apenas um personagem. Ela elimina a sensação de que, em algum lugar acima de Harry, ainda existia alguém que sabia o que fazer.