Gamertag

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban — Capítulo 4

Capítulo I — O Caldeirão Furado como intervalo de vida

O capítulo 4 começa de um jeito que me prende imediatamente: Harry já está no Caldeirão Furado, e isso muda o “ar” das férias. É como se ele estivesse em um meio-termo — ainda não é Hogwarts, ainda não é a liberdade completa, mas também já não é o sufoco dos Dursleys. Ele está num intervalo de vida, num corredor entre mundos, onde o mundo mágico começa a respirar mais perto dele e a rotina deixa de ser medo para virar possibilidade.

E essa possibilidade se materializa no Beco Diagonal. Pela primeira vez, o livro desacelera para descrever lojas, nomes, vitrines, especialidades. Ele mostra o que cada lugar vende como se estivesse finalmente permitindo que o leitor passeie. Não é só “o lugar onde se compra coisas de bruxo”. É um ecossistema completo. Um comércio com personalidade. Um mapa com cheiro.

Há capítulos que não avançam a trama — eles expandem o mundo, e isso também é movimento.

Capítulo II — Lojas, nomes e a sensação de déjà-vu

As descrições do Beco Diagonal têm um efeito curioso em mim: eu reconheço. Não por memória literária, mas por memória de jogo. Eu tenho certeza de que vi vários daqueles nomes em Hogwarts Legacy — e isso cria um tipo de alegria silenciosa. Não é só nostalgia, é encaixe. É como se o livro estivesse, aos poucos, explicando as ruas que eu já percorri em outra mídia.

E o mais interessante é que o livro não descreve apenas as lojas como cenário; ele descreve como um lugar real que vende coisas reais. Isso dá densidade ao mundo. Deixa claro que a magia não é só feitiço e ameaça. Ela é economia. Ela é consumo. Ela é materialidade. Um mundo onde as pessoas compram, escolhem, comparam, desejam. E isso, paradoxalmente, faz Hogwarts e todo o “extraordinário” parecer mais palpável.

Um universo fica mais real quando ele tem loja, preço e vitrine — porque aí ele deixa de ser mito e vira cidade.

Capítulo III — Liberdade com prazo e a consciência do longo prazo

Harry vive, por alguns dias, uma liberdade rara: ele pode andar pelo Beco Diagonal, pode fazer seus deveres com mais calma, pode existir fora da vigilância agressiva dos Dursleys. Ao mesmo tempo, ele se depara com uma verdade que parece simples, mas é adulta: ele tem dinheiro — porém precisa pensar no futuro.

O dinheiro que ele tem é herança dos pais. Ele não vai “ganhar mais”. Não há salário, não há reposição, não há fonte nova. Por mais que pareça muito, quando você olha a longo prazo ele se torna um recurso finito, um estoque que só sofre retiradas. E esse pensamento é o tipo de coisa que transforma Harry, por instantes, em um garoto comum — um garoto com condição boa, sim, quase como um “menininho mais rico”, mas ainda assim preso à mesma lógica que qualquer pessoa entende cedo ou tarde: gastar é fácil, sustentar é o problema.

É uma maturidade discreta no meio da fantasia. Não é um discurso, é um comportamento. E eu gosto disso, porque humaniza. Harry não é só “o escolhido”. Ele é alguém que precisa calcular o amanhã.

A liberdade mais estranha é aquela que vem com planilha invisível: você pode, mas precisa pensar.

Capítulo IV — O trio se recompõe e o mundo volta a ter rosto

Perto do último dia, o capítulo começa a se aquecer com algo que sempre muda tudo: a presença dos amigos. Harry encontra rostos conhecidos fazendo compras para Hogwarts, e no último dia ele encontra Rony e Hermione — e aí o trio se completa como se o livro lembrasse, de forma natural, que a história de Harry não é só dele.

Eles conversam, compartilham as coisas, e a sensação é de retorno. Não porque a paz esteja garantida, mas porque existe um tipo de pertencimento que só existe quando eles estão juntos. E esse detalhe é importante: por alguns dias, Harry viveu algo que parece “normal” no mundo mágico — andar, comprar, estudar, planejar — mas normalidade de verdade, para ele, parece ser ter gente ao lado.

Hogwarts não é só lugar. Hogwarts também é gente.

Capítulo V — Suspense por trás da rotina

A partir daí, a sensação de tranquilidade começa a ficar… suspeita. Os Weasleys, com a família inteira, e Hermione, estão hospedados no Caldeirão Furado. E para irem até a estação, para pegar o trem para Hogwarts, serão enviados dois carros. Um detalhe que, num outro contexto, poderia parecer apenas organização. Mas aqui ganha peso. Harry estranha. Tudo parece calculado demais.

E ele descobre por quê. Quase sem querer — escondido, ouvindo conversa — Harry capta o que os adultos tentavam manter distante dele: Sirius Black, provavelmente, está atrás dele. Há um bruxo que fugiu de uma prisão. Há um nome que carrega perigo. E, de repente, tudo o que era “passeio no Beco Diagonal” se revela como uma bolha provisória prestes a estourar.

Quando a proteção fica grande demais, é porque o perigo também ficou.

Capítulo VI — Hogsmeade como perda antes mesmo de existir

Ao voltar para o quarto, Harry lamenta. A reação dele não é exatamente pânico, e isso me chama atenção. Ele não descreve medo puro; descreve sensações. Uma estranheza. Um desconforto. Um “o que eu vi foi presságio ou coincidência?”. É como se ele estivesse tentando organizar internamente um aviso que veio sem manual.

E, no meio disso, existe uma tristeza muito específica: Hogsmeade. Ele ainda nem foi, mas já sente que talvez não possa ir. A ideia de que tudo será vigiado por ele estar correndo perigo transforma um desejo simples em uma perda antecipada. E isso é cruel de um jeito quieto: tirar de alguém algo que ele mal começou a sonhar.

Algumas perdas acontecem antes do acontecimento — quando o medo toma o lugar da possibilidade.

Capítulo VII — “O lugar onde está Alvo Dumbledore”

Mesmo com a revelação, Harry se sente seguro com uma ideia muito clara: Hogwarts é o lugar onde está Alvo Dumbledore. E essa frase, que parece simples, vira quase um pilar emocional. É como se Dumbledore fosse mais do que diretor. Ele é símbolo. É fronteira. É uma espécie de garantia moral de que o mundo não vai permitir que o pior aconteça — ou, pelo menos, não sem luta.

“O lugar onde está Alvo Dumbledore” é, na prática, o lugar onde Harry acredita que o caos tem limite. É o espaço em que a ameaça, por maior que seja, encontra alguém que entende as regras ocultas do jogo. E isso, para alguém como Harry, que passou a vida inteira sendo vulnerável, é uma forma de descanso: não o descanso físico, mas o descanso de não precisar carregar tudo sozinho.

Segurança, às vezes, é só isso: saber que existe alguém maior que o seu medo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban — Capítulo 3

Capítulo I — O medo imediato da queda

O capítulo 3 começa tenso de um jeito diferente dos anteriores. Não é uma tensão construída aos poucos — é imediata. Harry acabou de fazer magia fora da escola, perdeu o controle, e a primeira reação não é raiva nem rebeldia: é medo.

Ele acredita que será expulso. A ideia não é abstrata, ela é concreta. Harry foge da casa dos tios sem plano, sem destino claro, sem saber como vai se sustentar. Todo o dinheiro que ele possui está em Londres, longe demais para quem acabou de sair andando pela estrada com uma mala.

O que o livro mostra muito bem aqui é esse tipo específico de desespero: não é o pânico de quem está em perigo imediato, é o pânico de quem enxerga o futuro se fechando.

O medo mais cruel não é o do castigo, é o de não ter mais para onde ir.

Capítulo II — O Noitibus e o caos como solução

É nesse estado de suspensão que o Noitibus surge. Um aparecimento quase absurdo, deslocado, como se o mundo mágico tivesse decidido intervir antes que Harry afundasse completamente.

Eu me lembro dessa parte do filme com clareza. É uma cena clássica, daquelas que ficam na memória. No livro, a descrição do funcionamento do Noitibus beira uma sequência de ação: curvas impossíveis, freadas bruscas, uma sensação constante de descontrole.

É fácil imaginar que isso funcione ainda melhor no cinema, porque o que está sendo descrito é puro movimento. O Noitibus não resolve o problema com calma; ele atropela o problema até que outro cenário apareça.

Às vezes, a salvação não chega organizada. Ela chega em alta velocidade.

Capítulo III — Nome falso, identidade frágil

Assim que entra no Noitibus, Harry é reconhecido. A cicatriz entrega quem ele é. E isso aumenta ainda mais o pânico.

Temendo que o Ministério da Magia esteja atrás dele, Harry mente. Diz que seu nome é Neville. É um detalhe pequeno, mas carregado de significado. Pela primeira vez, Harry tenta se esconder não fisicamente, mas simbolicamente — apagando o próprio nome.

O desejo dele é simples: chegar ao Beco Diagonal. Não por turismo, não por curiosidade, mas por sobrevivência. Ele quer chegar ao Banco Gringotes, acessar a herança deixada pelos pais, garantir que conseguirá se manter se tudo der errado.

Quando o nome vira risco, até a identidade pede abrigo.

Capítulo IV — O encontro inesperado com o poder

O capítulo muda completamente de tom quando Harry chega ao destino e encontra ninguém menos que o próprio Ministro da Magia esperando por ele. A expectativa é clara: punição, expulsão, consequência.

Mas nada disso acontece. Harry não é expulso. Pelo contrário: providenciam um quarto para ele. Um quarto alugado. Uma solução temporária. Tudo parece… fácil demais.

Harry questiona a magia que fez. Espera ser repreendido. Mas lhe dizem que foi uma magia simples, que a situação foi resolvida, que a tia dele já foi “desinflada”, e que os Dursleys o aceitarão de volta desde que ele passe o restante das férias em Hogwarts.

Quando a punição não vem, o alívio costuma dar lugar à desconfiança.

Capítulo V — O silêncio que grita

O que torna tudo mais estranho não é o perdão — é o que não é dito. Harry pergunta sobre Sirius. Sobre a matéria que circula. E recebe silêncio.

Ele pede para ir a Hogsmeade, e o próprio Ministro da Magia recomenda que não vá. Não há explicação completa. Não há contexto. Apenas conselhos vagos e decisões tomadas por outros.

No fim, Harry fica com um quarto reservado na própria taberna do Caldeirão Furado. Um espaço seguro, mas provisório. Um lugar que não é casa, mas também não é rua.

Quando todos parecem gentis demais, algo importante está sendo escondido.

Capítulo VI — Estranheza como estado permanente

O capítulo termina com uma sensação incômoda. Tudo deu certo rápido demais. Fácil demais. Limpo demais.

Harry sente isso. O leitor sente isso. Existe uma estranheza pairando sobre cada gesto, cada resposta incompleta, cada decisão tomada por autoridades que claramente sabem mais do que estão dizendo.

Não há explosão. Não há clímax. Apenas a certeza de que algo está errado — e de que essa história está prestes a deixar de ser confortável.

Algumas calmarias não acalmam. Elas avisam.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban — Capítulo 2

Capítulo I — O “mais do mesmo” que pesa mais

O capítulo 2 tem aquela sensação de continuidade que, à primeira vista, parece simples: “é mais do mesmo”. Harry continua na casa dos Dursley, continua preso àquele tipo de convivência que não é convivência — é tolerância forçada. E continua com um desejo específico, quase pequeno perto de todo o resto, mas que carrega uma esperança real: conseguir autorização para ir a Hogsmeade.

Eu sigo ansioso por isso. Não apenas pelo destino em si, mas pela ponte que isso cria com a minha memória do jogo. Quero ver se Hogsmeade vai aparecer de fato e como o livro vai descrever esse lugar que, em Hogwarts Legacy, foi quase um centro de gravidade: a vila onde comprei varinha, vassoura, poções, plantas, pergaminhos — a primeira vila que vira familiar, que vira referência, que vira “um lugar seguro”. A expectativa não é só turística; ela é afetiva. É como se eu estivesse esperando reencontrar um lugar onde já estive, só que por outra linguagem.

Certas expectativas não nascem do que vem pela frente, mas do que a memória já construiu por dentro.

Capítulo II — A chegada da tia Guida e o tipo específico de veneno

No meio dessa tensão silenciosa, Harry descobre que a irmã do tio Válter vai passar um tempo na casa. E a tia Guida já chega com a energia de quem não visita: invade. Ela não parece apenas desagradável. Ela parece tóxica, pesada, do tipo que transforma o ambiente inteiro em um julgamento constante.

Ela critica Harry, diminui, provoca. E o texto desenha algo muito real: existe um tipo de pessoa que não ofende por acidente. Ofende com precisão. Pessoas assim sabem exatamente qual frase encosta no lugar sensível. Elas não atiram palavras no escuro — elas miram.

Harry tenta se controlar. Tenta manter algum tipo de compostura, talvez por medo das consequências, talvez por esperança de conseguir a permissão de Hogsmeade, talvez por simples exaustão. Mas a presença dela não é apenas incômoda — é um teste contínuo.

Existem pessoas que não conversam — elas apertam feridas para ver reação.

Capítulo III — O limite é um lugar onde a pessoa chega empurrada

O que mais me pega nesse capítulo é o modo como ele retrata o empurrão até o limite. Harry vai sendo testado, testado, testado. E isso me toca de um jeito muito pessoal. Porque eu já estive em situações parecidas: momentos em que alguém vai insistindo, insistindo, insistindo — até que, em algum ponto, a nossa contenção deixa de ser escolha e vira simplesmente impossibilidade.

Existe uma diferença enorme entre “perder o controle” e “ser levado a perder o controle”. E o livro captura esse processo com uma clareza desconfortável: a reação não nasce do nada. Ela é construída. Ela é provocada. Ela é cultivada por alguém que parece querer exatamente isso: a explosão, o erro, o momento em que você vira culpado por tudo.

Nem toda explosão é impulso. Algumas são a última defesa de quem foi encurralado.

Capítulo IV — Pais, gatilho e a magia que escapa

O estopim acontece quando a tia Guida fala dos pais de Harry — principalmente do pai. E aí algo muda. Porque insultar Harry já é cruel, mas insultar a memória de quem ele perdeu é outro tipo de violência. É tocar numa ausência e transformá-la em ataque. É humilhar alguém pelo que ele não pode recuperar.

Harry perde o controle. E a magia escapa. Não como truque, não como feitiço planejado, mas como transbordamento. A tia Guida começa a flutuar como um balão. E, assim que isso acontece, uma lembrança do filme me atravessa — eu acredito que essa cena exista na adaptação. As minhas memórias dos filmes são nebulosas, espalhadas em fragmentos: uma cena aqui, outra ali. Mas essa imagem é forte.

E é interessante perceber como o livro, nesse momento, faz a magia parecer menos “poder” e mais “sintoma”. A magia não é só ferramenta, ela é resposta emocional quando a linguagem comum falha. Quando não há espaço para defender-se com palavras, o corpo e a magia falam.

Há dores que não cabem em resposta educada. Elas transbordam.

Capítulo V — Fuga: quando sair é a única forma de continuar inteiro

Depois disso, Harry faz algo que soa inevitável: ele pega suas coisas e foge de casa. Não como ato de rebeldia teatral, mas como instinto de preservação. Ele não aguenta mais aquele ambiente de ofensas e humilhações. A casa, que nunca foi abrigo, se torna insuportável.

E tem um detalhe que pesa aqui: Harry sai com tudo o que tem. É uma fuga com bagagem, com permanência implícita, com uma espécie de “não dá mais para voltar”. Ele não está saindo para respirar e retornar. Ele está saindo porque, naquele momento, ficar é aceitar ser esmagado.

O capítulo termina nesse gesto. Harry do lado de fora, carregando o que consegue, deixando para trás um lugar que nunca o quis. E, a partir daqui, a história tem um cheiro diferente. Porque agora não é mais só sobre querer voltar para Hogwarts. É sobre não ter para onde ir — e, ainda assim, seguir.

Às vezes, fugir não é covardia. É a forma mais honesta de continuar vivo por dentro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban — Capítulo 1

Capítulo I — Um começo que não volta ao começo

A primeira coisa que chama atenção no início de O Prisioneiro de Azkaban é o que ele não faz. Diferente dos dois livros anteriores, ele não gasta tanto tempo reafirmando, explicando e reapresentando quem é Harry Potter, como se precisasse reconquistar o leitor do zero. Há uma passagem breve, quase eficiente demais, apenas para lembrar o essencial: Harry vive com os Dursleys, e a vida ali continua sendo uma mistura de contenção, vigilância e proibição.

Essa mudança de ritmo diz muito. Não parece um “recomeço”, parece uma continuação que confia no que já foi estabelecido. Como se o livro assumisse que o leitor já sabe quem ele é — e, mais do que isso, que Harry também já sabe. O drama aqui não está em descobrir o mundo mágico pela primeira vez. Está em sobreviver ao intervalo entre um mundo e outro.

Há histórias que não recomeçam — apenas seguem, com novas cicatrizes.

Capítulo II — Deveres escondidos e magia clandestina

Harry, como sempre, é proibido de estudar magia na casa dos Dursleys. Essa regra se torna quase um ritual anual: férias significam afastamento, e afastamento significa tentativa de apagamento. Ainda assim, ele dá seu jeito. Esconde um livro, lê às escondidas, faz trabalhos de casa porque Hogwarts manda deveres mesmo durante o período de férias — e isso por si só é algo curioso, porque reforça que o mundo mágico não é apenas aventura: é disciplina, é cobrança, é formação.

Harry fica esperando o retorno como quem espera respirar de novo. Ele está no quarto, não exatamente preso, não exatamente castigado, mas ainda isolado do que faz sentido para ele. É uma liberdade limitada, uma espécie de concessão que não toca na raiz do problema: a casa dos Dursleys nunca é lar, é apenas permanência forçada.

Há proibições que não existem para impedir ações, mas para lembrar a alguém que não pertence.

Capítulo III — A noite, a coruja e o tipo de paz possível

Existe um detalhe que torna este começo curiosamente confortável: Harry está à noite na cama, lendo e fazendo seus deveres. Não é uma cena explosiva, não é uma sequência dramática. É um cotidiano silencioso, quase íntimo. A coruja pode ser liberada à noite. Há pequenas permissões que dão a sensação de que, pelo menos desta vez, o verão não será um castigo completo.

E aí entram as notícias. Os Weasleys estão no Egito. Há cartas chegando. Cartões de aniversário de Rony, Hermione e Hagrid. Essas mensagens não são apenas informação — são prova de vínculo. Harry continua existindo para alguém. Continua sendo lembrado. Isso muda o peso do silêncio do quarto.

Às vezes, o que salva um dia inteiro é só saber que alguém lembrou de você.

Capítulo IV — Hogsmeade, sorriso e memória do jogo

Entre as cartas, chega uma de Hogwarts dizendo algo que, por si só, já muda o clima: os alunos estão permitidos a visitar Hogsmeade. E aqui eu sorrio.

Por quê? Porque eu conheço Hogsmeade por Hogwarts Legacy. É a vila que, no jogo, vira quase um eixo: o lugar onde comprei minha varinha, minha vassoura, poções, plantas, pergaminhos. É uma das primeiras vilas que se visita, e depois disso se torna recorrente, familiar, segura.

Então existe algo muito particular nesse momento: eu quero ver o livro descrevendo um lugar onde eu “estive” inúmeras vezes, ainda que de outra forma. Quero ver como a literatura pinta o que o jogo me deixou como memória visual e afetiva. E, ao mesmo tempo, há um desejo simples e humano: tomara que Harry consiga a permissão. Não porque isso muda o mundo, mas porque muda a experiência dele.

Certos lugares não são só cenário. São promessa de respirar fora da dor.

Capítulo V — Humor de bruxo: queimados que não queimam

O capítulo traz também uma passagem que é, ao mesmo tempo, estranha e hilária: a ideia de bruxos sendo queimados. O texto trata isso de um jeito tão leve que parece quase absurdo. Nenhum bruxo sofreu nada, porque eles usavam chamas “geladas”, que faziam no máximo cócegas. E uma bruxa gostava tanto disso que foi “queimada” quarenta e sete vezes.

Eu acho que o número é esse — e, mesmo que não fosse, o espírito da passagem é claro. Existe um humor muito específico aqui: o mundo trouxa tentando punir algo que não entende, e o mundo bruxo respondendo não com vingança, mas com ironia. É o tipo de detalhe que deixa Hogwarts mais vivo, porque mostra que a magia não serve apenas para grandes batalhas. Ela existe também no anedótico, no ridículo, no cotidiano.

O humor, às vezes, é só a inteligência se recusando a se desesperar.

Capítulo VI — Presentes que revelam o mundo

Os Weasleys seguem no Egito, e Harry recebe presentes que carregam o tempero desse universo. De Rony, um presente que acende quando algo está acontecendo — como se até a amizade viesse com utilidade mágica. De Hermione, um kit de manutenção de vassoura, que tem aquela aura dela: cuidado, método, atenção ao detalhe.

E de Hagrid… de Hagrid vem o inesperado. Um livro que sai correndo pelo quarto. A cena tem aquela assinatura típica dele: o carinho vem acompanhado de caos. Hagrid nunca entrega algo comum. Ele entrega algo que vive, que reage, que assusta, que dá trabalho.

Se não me falha a memória, eu me lembro dessa cena no filme: o livro tentando morder, andando pelo quarto como se fosse uma aranha ou um caranguejo. Mas eu teria que rever para encaixar essa imagem com exatidão. Ainda assim, a lembrança existe. E, de novo, o livro e o filme começam a se sobrepor na memória como camadas diferentes da mesma história.

Hagrid tem esse dom: até quando ajuda, ele bagunça o mundo — do melhor jeito.

Capítulo VII — Um capítulo confortável antes da virada

No fim, este primeiro capítulo tem algo raro: conforto. Não porque a vida de Harry esteja boa, mas porque há menos castigo explícito e mais um tipo de espera suportável. Ele está no quarto, sim. Sem acesso às coisas de magia, sim. Mas não está esmagado pela punição como em outros momentos.

É como se o livro estivesse respirando antes de avançar. Como se dissesse: “calma, ainda dá tempo de lembrar do que é normal antes de quebrar tudo de novo”. E isso funciona.

O ano letivo começa em 1º de setembro, como sempre. E essa frase, simples, carrega uma espécie de destino inevitável: Hogwarts está chegando. E com Hogwarts, sempre vem algo que muda tudo.

Em Hogwarts, o calendário é fixo. O perigo, não.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

February 14th - Valentine's Day

O Dia de São Valentim de 2026 veio logo depois de uma sexta-feira 13. Talvez não houvesse combinação mais honesta para o meu estado atual.

1. O amor depois do terror

O Dia de São Valentim chegou logo após uma sexta-feira 13. O dia do amor vindo imediatamente depois do dia do terror. Se existe metáfora mais fiel ao meu momento, eu desconheço.

Em 2026, eu estou quebrado no quesito acreditar no amor romântico. Não no carinho humano. Não na amizade. Mas naquele amor exposto, afirmado, declarado. Aquele amor que não pede licença para existir.

Algumas datas não nos encontram. Elas nos expõem.

São Valentim, segundo a tradição, foi um bispo que realizava casamentos proibidos pelo imperador. Um homem que defendia o amor mesmo quando o poder o condenava. Há algo de belo nisso. E há algo de profundamente irônico também.

Porque parte de mim, neste momento, desejaria o contrário. Quem me dera existisse um imperador que proibisse a afeição. Que tornasse ilegal aquilo que me atravessa.

2. O amor que me quebrou

O meu último amor romântico me quebrou. Não com violência. Não com escândalo. Mas com facilidade. Com rapidez. Com motivos mundanos.

Fui descartado como quem reorganiza prioridades. Como quem troca de plano. Como quem fecha uma aba.

E então veio a parte mais difícil. Eu a vi se apaixonar completamente por outra pessoa. Se entregar. Falar sobre respeito, confiança, conexão, romantismo, intensidade.

Eu vi ela desejar a última história da vida. Eu vi ela oferecer a alguém um amor que eu nunca tive. E que eu sempre quis.

O que dói não é perder alguém. É assistir alguém oferecer a outro aquilo que você sonhou receber.

Talvez seja ego ferido. Talvez seja inveja. Talvez seja apenas tristeza. Mas aquilo me quebrou.

3. A sensação de não ser digno

O que mais me atravessou não foi o fim. Foi a comparação pública.

A minha melhor versão não foi digna de ser amada daquela forma. Pelo menos é assim que parece. Não houve declarações públicas. Não houve admiração gritante. Não houve aquela sensação de ser escolhido com intensidade.

Na verdade, olhando para trás, eu não sei se alguma vez fui amado dessa forma. De maneira exposta. De maneira orgulhosa. De maneira celebrada.

Existe uma diferença brutal entre ser gostado e ser admirado.

E talvez o que mais doa seja essa impressão persistente: eu sou alguém para ser, no máximo, gostado. Nunca amado de forma escancarada. Sussurrado. Nunca gritado.

4. O espelho quebrado

Existe uma parte enorme de mim que adoraria viver esse tipo de amor. Ser visto. Ser escolhido. Ser admirado.

Mas há coisas que não se pedem. Há coisas que não se negociam. Há coisas que só podem existir quando nascem orgânicas. E talvez o meu espelho esteja quebrado.

Porque eu não consigo me enxergar como alguém que seria admirado em público. Não consigo me ver como alguém que geraria declarações. Parece que minha presença ocupa sempre o lugar discreto. O lugar seguro. O lugar confortável.

Às vezes não é o mundo que não nos vê. É o reflexo que nos diminui.

Eu vejo por todo lado pessoas declarando, expondo, celebrando seus amores. Mesmo anonimamente, é possível perceber admiração. "Há flores em tudo que eu vejo..." Só não são para mim.

5. O amor morto em Crystal Lake

Neste Dia de São Valentim, logo após uma sexta-feira 13, eu me sinto mais próximo de um amor que morreu em Crystal Lake do que de um amor nascendo cheio de carinho e admiração.

O lago da infância, o lago do terror cinematográfico, hoje vira metáfora. Não é Jason que me assombra. É a sensação de não ter sido suficiente.

Não é o monstro que mata. É a crença de que nunca fomos dignos de ser escolhidos.

E ainda assim, existe algo que eu preciso reconhecer: querer ser amado não é fraqueza. Desejar admiração não é vaidade. Sentir falta de intensidade não é imaturidade.

Talvez o meu espelho esteja rachado. Mas isso não significa que eu seja invisível. Significa apenas que, hoje, eu ainda não consigo me ver inteiro.

E talvez, neste Dia de São Valentim, a única coisa que eu precise admitir é que o amor romântico não morreu. O que morreu foi uma expectativa.

Nem todo amor termina em abandono. Alguns terminam em reconstrução silenciosa.

 
 
Há dias em que o palco está iluminado, o texto decorado, a alma exposta — 
e ainda assim não há ninguém para assistir.
 E o mais difícil não é atuar sozinho. 
É perceber que ninguém estava esperando a cena.