Capítulo I — Quando a razão perde a batalha
O capítulo 32 é curto.
Muito curto.
Mas ele é um daqueles capítulos que existem para empurrar a história para o precipício.
Durante boa parte do livro, Harry vinha sendo pressionado de todos os lados.
Perdeu a confiança em Dumbledore.
Foi chamado de mentiroso.
Foi castigado.
Foi vigiado.
Foi isolado.
Foi manipulado.
E agora acredita ter visto Sirius sendo torturado.
Nesse ponto, Harry já não está raciocinando como normalmente faria.
Ele está agindo como alguém desesperado.
E talvez seja justamente isso que torna o capítulo tão perigoso.
O medo costuma ser o momento em que a inteligência para de dirigir e a emoção assume o volante.
Capítulo II — Hermione sendo Hermione
Uma das coisas mais interessantes do capítulo é que Hermione continua sendo a única pessoa tentando pensar friamente.
Harry quer correr imediatamente para o Ministério.
Ele não quer verificar nada.
Não quer confirmar nada.
Não quer esperar nada.
Ele quer agir.
Hermione, por outro lado, faz a pergunta que qualquer pessoa racional faria:
E se Sirius não estiver lá?
E se tudo isso for uma armadilha?
E se Voldemort estiver exatamente esperando essa reação?
Ela não diz isso diretamente naquele momento.
Mas toda a lógica da Hermione aponta para essa direção.
Antes de sair correndo para uma batalha, descubra se a batalha realmente existe.
É uma postura muito mais inteligente.
E provavelmente a única razão pela qual eles não acabam correndo imediatamente para o Ministério.
Capítulo III — O Monstro finalmente mostra quem é
Existe algo muito desconfortável na cena envolvendo o Monstro.
Até aqui ele era desagradável.
Hostil.
Rancoroso.
Mas neste capítulo ele parece quase satisfeito.
Como alguém que sabe mais do que deveria saber.
Como alguém que está vendo um plano funcionar.
A forma como ele ri.
A forma como responde.
A forma como fala de Sirius.
Tudo parece errado.
E Harry percebe isso imediatamente.
O leitor também.
É um daqueles momentos em que você sente que alguma peça importante acabou de se mover no tabuleiro.
Mas ainda não consegue enxergar exatamente qual.
Capítulo IV — A verdadeira face de Umbridge
Se existia alguma dúvida sobre Dolores Umbridge, este capítulo a elimina completamente.
Até então ela era uma personagem autoritária.
Cruel.
Abusiva.
Mesquinha.
Mas ainda existia uma espécie de fachada burocrática.
Uma aparência de alguém apenas cumprindo ordens.
Isso acaba aqui.
Quando ela admite ter enviado os dementadores atrás de Harry, tudo muda.
Porque agora não estamos mais falando de alguém que apenas acredita na propaganda do Ministério.
Estamos falando de alguém que deliberadamente colocou a vida de uma criança em risco.
Por conveniência política.
Por ambição.
Por obsessão.
O problema de algumas pessoas não é o poder que recebem. É o que elas descobrem sobre si mesmas quando finalmente o possuem.
Capítulo V — O momento mais assustador de Umbridge
Curiosamente, para mim, a cena mais assustadora do capítulo nem é a confissão dos dementadores.
É quando ela considera usar uma Maldição Imperdoável.
Porque ali cai completamente qualquer máscara.
Durante todo o livro ela vive repetindo regras.
Decretos.
Protocolos.
Normas.
Leis.
Mas basta encontrar resistência para ela cogitar fazer exatamente aquilo que condena nos outros.
É uma hipocrisia assustadora.
E extremamente realista.
Muitas vezes os personagens mais perigosos não são os que quebram as regras.
São os que usam as regras enquanto elas servem aos seus interesses.
E as abandonam assim que deixam de servir.
Capítulo VI — O código entre Harry e Snape
Existe também uma cena muito interessante envolvendo Snape.
Harry, em desespero, tenta enviar uma mensagem para ele.
E a primeira impressão é que Snape simplesmente ignora tudo.
Como sempre.
Como faz desde o primeiro livro.
Mas existe algo estranho nessa conversa.
Algo que não parece se encaixar.
E Rowling escreve a cena de forma que o leitor fique exatamente tão confuso quanto Harry.
É uma escolha narrativa muito inteligente.
Porque nós estamos presos ao ponto de vista dele.
Só sabemos aquilo que Harry sabe.
E Harry, naquele momento, está emocionalmente destruído.
Ele não está interpretando nada com clareza.
Capítulo VII — A mentira de Hermione
Hermione acaba se tornando a grande heroína silenciosa do capítulo.
Mais uma vez.
Quando percebe que não existe saída, ela improvisa.
Ela inventa uma arma.
Ela inventa uma ameaça.
Ela inventa um motivo.
Tudo para tirar Umbridge daquela sala.
Tudo para ganhar tempo.
Tudo para criar uma oportunidade.
É uma das características mais fortes da personagem.
Quando a magia falha, Hermione usa inteligência.
Quando a força falha, Hermione usa estratégia.
Quando ninguém sabe o que fazer, Hermione inventa um caminho.
Capítulo VIII — O último passo antes da queda
No fim das contas, o capítulo inteiro serve para colocar as peças exatamente onde elas precisam estar.
Harry acredita que Sirius corre perigo.
Umbridge acredita que está no controle.
Hermione está improvisando desesperadamente.
Snape permanece uma incógnita.
E a história abandona definitivamente qualquer pretensão de normalidade escolar.
As provas ficaram para trás.
As aulas ficaram para trás.
Os decretos ficaram para trás.
Agora estamos entrando na reta final da Ordem da Fênix.
E tudo indica que as consequências serão enormes.
Algumas armadilhas são construídas para prender corpos. As mais perigosas são construídas para prender decisões.
Considerações Finais
O capítulo 32 é curto, mas extremamente eficiente.
Ele não entrega respostas.
Não resolve mistérios.
Não encerra conflitos.
Pelo contrário.
Ele aumenta a tensão até o limite.
Harry está convencido de que Sirius está em perigo.
Umbridge acabou de mostrar sua face mais monstruosa.
Hermione está sustentando um plano improvisado com fita adesiva e esperança.
E nós sabemos que dificilmente tudo isso terminará bem.
É o tipo de capítulo que existe apenas para uma função:
empurrar a história para o abismo e obrigar o leitor a continuar.





