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segunda-feira, 14 de julho de 2025

Papo na Fogueira - segunda de Julho

Papo na Fogueira – A Fogueira Que Não Veio (Julho)

Julho começou gelado. E dessa vez, o frio também acendeu silêncios.

1. Introdução

Nova fogueira vazia. Julho se iniciou extremamente frio — e esta frieza não se encontra apenas no clima. O número de imprevistos da vida adulta tem crescido e, com isso, nossos encontros ao redor da fogueira acabaram entrando numa pausa involuntária.

Costumo chamar pausas assim de pausas da sorte. Minha mente anda extremamente pesada nesses últimos dias, e acredito que, se a reunião tivesse ocorrido, eu teria sido uma presença com pouca contribuição às nossas questões filosóficas. O cansaço mental tem sido profundo, a ponto de me fazer duvidar se consigo realmente organizar meus próprios pensamentos.

2. Julho, perdas e silêncio

Junho é, para mim, um mês marcado por perdas. E neste ano não foi diferente. Há uma pergunta recorrente que me persegue nesses momentos: “Qual é o meu lugar na vida das pessoas?” — e ainda que seja uma pergunta difícil, ela insiste em bater à porta nos períodos de dor emocional.

Bauman nos fala sobre a sociedade líquida e descartável das redes sociais, onde afastar-se de alguém se tornou tão simples quanto um clique. Já me aconteceu isso milhares de vezes. E, ainda assim, é engraçado perceber o quanto ainda me incomoda. Como pessoas que não deveriam ter mais relevância emocional ainda conseguem me atingir?

“Às vezes me pergunto por que perdi minutos preciosos da minha existência com pessoas que só me drenaram.”

Não estou falando da fogueira. Esse tipo de relação é outra coisa. Aqui, a vida vale mais a pena. As conversas são edificantes. Aqui não existe liquidez — existe permanência.

3. A terça que virou ritual

Apesar da ausência de fogo e vozes, mantive meu ritual. As terças-feiras tornaram-se um momento sagrado de introspecção. Mesmo quando estou sozinho, a terça é dia de parar. De lembrar o que foi a semana. De pesar ônus e bônus, revezes e vitórias.

É estranho como, mesmo ausentes, Alexandre e André permanecem. Consigo imaginar as perguntas que fariam, os comentários que soltariam, os olhares que lançariam para as entrelinhas que, sozinho, talvez eu não enxergasse. A fogueira não aconteceu, mas a terça ainda existiu. E foi de pensamento.

“Semanalizar a vida foi uma das dádivas que o fogo me deu. E mesmo sozinho, continuo voltando para essa clareira invisível.”

4. Conclusão

Hoje, a fogueira não acendeu. E talvez tenha sido melhor assim. Não por desistência, mas por respeito. À pausa. À mente. Ao frio que vem de fora — e o que vem de dentro. Na próxima terça, voltaremos. E talvez, com o coração um pouco mais aquecido, eu consiga compartilhar não apenas silêncios, mas novas reflexões.

Que essa ausência também seja parte do ritual.


Publicado como parte da série “Papo na Fogueira”, uma tradição semanal de conversas filosóficas, pausas necessárias e reflexões ao redor do fogo — mesmo quando ele não acende.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Papo na Fogueira - primeira de Julho

Papo na Fogueira – Quando o Silêncio É a Fogueira

Primeira semana de julho. E, dessa vez, não houve brasa. Mas houve peso. Houve pausa. Houve algo.

Capítulo 1 – A Fogueira Que Não Veio

Essa semana, o ritual não aconteceu. A fogueira não se acendeu. Os bancos permaneceram vazios. Nenhum chá foi servido, nenhuma risada despretensiosa interrompeu a noite. E por mais estranho que isso soe, talvez tenha sido melhor assim.

Vim de um final de semana extremamente pesado. Junho terminou como uma avalanche silenciosa — daquelas que vão se acumulando em forma de ruído mental, até que tudo se torna exaustão. E durante a segunda-feira, e parte da terça, pensei diversas vezes em pedir o adiamento. Mas... não pedi. Não sabia ao certo o que seria melhor: conversar sobre tudo isso, ou justamente falar de qualquer outra coisa para escapar do redemoinho que minha cabeça se tornou.

“Há dias em que até decidir é exaustivo.”

E nessa indecisão que não se verbaliza, o universo resolveu por mim. O papo não aconteceu. Imprevistos, atrasos, outros pequenos colapsos de rotina. E tudo foi se dissolvendo lentamente até que a reunião foi, de forma não oficial, cancelada. Ou adiada. Ou silenciada.

Na prática, eu dormi cedo. Cedo demais. Apaguei. Eu, que sempre tenho dificuldade com isso, apaguei antes da hora. E talvez isso diga muito. O cansaço não era só físico. Era de pensamento. De expectativa. De cobrança. E, pela primeira vez, senti que a ausência da fogueira foi, de algum modo, um presente.

Capítulo 2 – A Pausa Que Cura

Agora, olhando com perspectiva, percebo que o universo me deu exatamente o que eu precisava: uma pausa sem culpa. Um silêncio sem obrigação. Uma brecha sem explicações. Era como se alguém, lá em cima, dissesse: “Você precisa parar. Agora.”

Eu precisava dessa baixa rotação. De desligar. De silenciar tudo. De não precisar contar nada. Nem entender nada. Apenas existir por algumas horas em paz. Ou, ao menos, sem barulho interno demais.

“Nem todo capítulo precisa ser escrito em voz alta.”

Essa ausência momentânea, então, virou parte da jornada. Não há fogueira sem pausa. Não há fala sem silêncio. E essa terça-feira vazia me ensinou mais do que muitos encontros cheios de palavras. Me ensinou a respeitar o cansaço. Me ensinou a parar antes de quebrar.

Na próxima semana, a fogueira acenderá de novo. E talvez, com a mente mais descansada, eu consiga falar sobre tudo isso com mais clareza. Ou talvez não. Talvez só queira escutar. Ou rir. Ou divagar sobre qualquer assunto que não doa. Mas o importante é: estaremos lá.

Conclusão – O Silêncio Também É Ritual

Hoje, a fogueira não se acendeu. Mas, paradoxalmente, ela existiu. Existiu no descanso. No tempo suspenso. No respeito à mente cansada. E isso também é parte da tradição. Porque nem toda semana pede fogo. Algumas pedem sombra.

Que venha a próxima terça. Que a brasa retorne. Que o papo continue. Mas que a pausa de hoje não seja esquecida. Porque ela também nos ensinou algo.

“Às vezes, é no dia em que ninguém fala... que a fogueira realmente nos escuta.”