Papo na Fogueira — Quatro Encontros e Uma Fogueira
Por Dário Junior
Introdução
Agosto foi estranho. E intenso. E sim, eu sei que estive um pouco ausente por aqui nessa série — mas dessa vez, não por falta de papo. Os encontros aconteceram, as conversas seguiram, e talvez por isso mesmo eu tenha precisado guardá-las só pra mim, por um tempo. E não foi por nenhum motivo aparente, apenas egoísmo meu mesmo, Nem tudo é para ser compartilhado. Além disso alguns pensamentos demandam tempo e deixei que maturassem em silêncio, como se algumas palavras só fizessem sentido depois que o eco delas passasse.
Hoje, diante da fogueira, sozinho, percebo o quanto cada uma dessas terças foi me moldando. E, pela primeira vez, decidi costurar quatro encontros em um só relato. Quatro terças, quatro arranjos diferentes da mesma fogueira — como se cada combinação de presenças tivesse revelado uma versão diferente de mim.
Dessa vez também quebrarei outro protocolo, sei que normalmente essa série se foca na humanidade de Alexandre contrastando com a sabedoria de André, mas falar disso seria igual dizer que a chuva é molhada, dessa vez eu falarei sobre mim, sobre a minha visão em cada uma dessas fogueiras e espero não entediá-los com isso, no próximo encontro, volto à programação normal.
“Às vezes, é preciso ouvir tudo antes de saber o que realmente se quer dizer.”
Capítulo 1 — Nós Três
O último encontro com nós três reunidos foi quase um ritual de cura. Falamos de fé, de desafios, de milagres pequenos demais pra virar manchete, mas grandes o suficiente pra mudar o dia de alguém. Rimos de coisas bobas e lembramos de dores sérias. E, entre um gole e outro, senti algo raro: pertencimento.
A verdade é que a vida me ensinou a desconfiar de absolutamente tudo. Herdei cicatrizes de histórias mal contadas na cidade onde cresci, de promessas que viraram abandono e de gente que eu chamava de irmão e que me largou no meio do caminho. Amores que se foram cedo demais, barato demais. E isso me fez me isolar, da cidade, das pessoas, de mim mesmo.
Mas estar com o Alexandre e o André é um lembrete visceral de que o ser humano ainda pode surpreender… pra melhor. A tríade da fogueira é minha pequena resistência ao cinismo. É a refutação de praticamente todas as verdades que construí sobre as pessoas, sobre a humanidade. E sempre que estamos juntos, penso no quanto o mundo seria mais suportável se mais pessoas pudessem viver algo assim.
“O tempo me roubou muita coisa, mas me devolveu vocês.”
Capítulo 2 — Eu e Alexandre
Na semana seguinte, André não pôde estar. E eu e Alexandre fizemos um retorno à nossa essência mais antiga: a música.
Falamos de gravações, de sons mal mixados, de projetos inacabados que ainda vivem em alguma pasta esquecida. Trocamos músicas novas, rimos de nossas tentativas juvenis de ser algo, de parecer algo. E por algumas horas, aquele papo foi mais que memória — foi reconciliação.
Havia tempos que meu lado músico estava trancado. Como se houvesse um porão dentro de mim, onde instrumentos estavam empoeirados, esperando que alguém acendesse a luz. Alexandre, com seu humor ácido e leveza primaveril, acendeu.
É difícil que vocês entendam isso por texto, até pela minha inabilidade de conseguir escrever na qualidade que essa história merece, mas Alexandre é uma espécie de profeta, sempre dizendo algo que só fará sentido em dias, meses, até anos depois. Porém, suas profecias não são abragentes, são pessoais, ele toca em pontos escuros e esquecidos como a luz de uma vela em uma sala escura. E foi num desses calabouços mentais que estava o músico que já fui, respirando por aparelhos, porém ainda sobrevivendo.
“Algumas partes nossas só acordam quando encontram a frequência certa em outra pessoa.”
Capítulo 3 — Eu e André
Na semana seguinte, quem não pôde foi Alexandre. E a fogueira, então, me colocou frente a frente com André — essa mente fascinante que sempre me obriga a pensar em mais de uma camada.
André tem uma visão extremamente peculiar do mundo à sua volta. Mais que isso, ele ainda consegue encapsular seu pensamento num pacote claro de ideias, nenhuma escrita em fogo, porém numa clareza de pensamento e dialética que causaria impacto em qualquer filósofo que tivesse o privilégio de ouví-lo. Mas assim como eu, ele se cansou de falar em qualquer lugar, nem todo ouvido é plateia.
Falamos sobre exposição, sobre redes sociais, sobre gente que mente bonito, mas vive mal. Sobre perfis impecáveis e vidas aos cacos. Sobre como algumas pessoas preferem viver nas sombras — não por medo, mas por sabedoria.
André tem esse dom de me arrastar para a superfície do pensamento técnico, mas me deixar boiando em reflexões humanas. Falamos também de raízes, de origens, de simplicidade. E quando olhamos o relógio, a noite já tinha passado — como se o tempo também tivesse parado pra ouvir.
“Nem todo mundo que não aparece está fugindo. Às vezes, só aprendeu a escolher o silêncio.”
Capítulo 4 — Eu Sozinho
Hoje, estou só. Sem Alexandre. Sem André. Só eu e o fogo.
E embora exista uma pontinha de lamento, há também uma imensa gratidão. Porque é raro ter um lugar assim. Um ponto fixo no tempo. Uma chama que resiste mesmo quando os corpos se ausentam.
Terças seguem sendo para mim dias de reflexão. E a de hoje é justamente sobre o impacto desses dias em minha vida. Verdades absolutas me foram quebradas. Ideias evoluíram. Espaços criados. Porém da pra resumir tudo isso em apenas uma palavra: Vida.
Já faz tempo que estamos juntos — nós três — e percebo como mudamos. Como crescemos. E como seguimos envelhecendo lado a lado, mesmo com ritmos e ausências diferentes.
A fogueira segue sendo esse lugar onde a vida faz sentido em volta do calor. Onde o mundo lá fora pode estar caótico, mas aqui… Aqui ainda existe algo sagrado.
“Algumas amizades são tão profundas que não precisam estar presentes pra aquecer. Bastam existir.”
Que venham os próximos encontros.






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