Capítulo 1 – A volta do trio e o fio invisível
A fogueira nos esperava, paciente como sempre. Finalmente, o time estava completo — eu, André e Alexandre, a tríade que se forma quando o mundo lá fora parece pesar demais para segurar sozinho. Não foi fácil alinhar agendas, nem corpos: André ainda se recuperava de uma gripe persistente, mas fez questão de estar ali. Como se estivesse cansado de ficar calado com a própria mente. Como se a fogueira fosse o último remédio antes da recuperação completa.
Nossa chegada foi marcada por sorrisos que já conhecem o caminho. Cada um trouxe algo: uma piada repetida, uma garrafa, um olhar cansado, um abraço demorado. Eu, dessa vez, cheguei preparado. Já havia deixado ao lado do meu notebook um copo d’água, um pedaço de pão, e uma pequena caixa com tâmaras — talvez tentando alimentar algo em mim que não fosse só a alma.
Há uma liturgia não dita nesse encontro. E antes que qualquer tema surja, antes que o silêncio se transforme em confissão, fazemos a dança do cotidiano: “como você tá?”, “e o trabalho?”, “ainda não resolveu aquilo?”, “e aquele projeto lá?”. Essas frases, por mais banais que pareçam, são um ritual de reaproximação. Como se disséssemos uns aos outros: “ainda estou aqui, mesmo não estando tanto”.
Foi nesse compasso lento que Alexandre puxou um fio. Frágil, quase imperceptível. Um pensamento solto, jogado como quem não quer ferver a água, mas acaba acendendo o fogo. Ele se perguntou — e nos perguntou — como teria sido sua vida se, em certos momentos, tivesse feito escolhas diferentes.
"Há dores que não vêm de feridas abertas, mas de caminhos não trilhados."
— Autor desconhecido
Essa dúvida bateu em mim como uma pedra atirada com carinho. Como se ele tivesse me desarmado com um simples pensamento, sem saber que aquilo já me visitava em segredo há muito tempo. Eu me considero especialista em discussões que não existem mais, em respostas que nunca foram ditas, em guerras vencidas pelo silêncio. Passo horas vivendo na terra do “e se”. E se eu tivesse dito aquilo? E se eu tivesse escolhido o outro caminho? E se eu tivesse apenas ficado mais um pouco? Essas versões minhas, esses multiversos de mim, se sentaram conosco em volta da fogueira naquela noite.
Olhei para o fogo e me vi sendo muitos. Alguns mais felizes, outros apenas menos feridos. Alguns corajosos, outros mudos, mas todos convivendo dentro de mim como fantasmas que se recusam a atravessar. É um peso estranho esse de carregar destinos que nunca foram. E mesmo assim, sentem.
"A vida é feita de escolhas. E mesmo quando não escolhemos, já estamos decidindo."
— Clarice Lispector
O céu estrelado não parecia se importar com meus abismos internos. Mas ali, naquela primeira fagulha de conversa, percebi que essa noite prometia mais do que memórias: prometia confrontos. Não entre nós. Mas entre mim e minhas versões que não consegui enterrar.
Capítulo 2 – O multiverso de mim mesmo
Quando Alexandre jogou aquela ideia na fogueira, como quem sopra uma brasa para ver se ainda há calor, eu senti algo dentro de mim se acender. Ele falou de vidas que poderiam ter sido. De decisões que, se tivessem sido outras, teriam mudado absolutamente tudo. E isso… me encontrou.
Eu já vivi mais versões de mim mesmo do que consigo contar. Versões que se formaram durante anos e desapareceram em segundos. Versões que tomaram decisões diferentes, que responderam com mais coragem ou ficaram em silêncio por medo. Cada uma dessas versões segue comigo — como um coral de vozes que eu escuto sempre que o mundo cala.
“O passado é um país estrangeiro. Lá, tudo é feito de outro jeito.”
— L. P. Hartley
Eu sou especialista em responder discussões que não existem mais. Em refazer caminhos já trilhados. Em me culpar por não ter enxergado a placa que dizia “aqui termina o que você chamava de futuro”. A vida seguiu. Mas o que seguiu comigo foram essas versões que me visitam à noite, me sussurrando todas as escolhas que eu poderia ter feito. Algumas, eu sei, mudariam tudo.
E quando eu penso em tudo isso, não é só arrependimento. É luto. Luto por mim mesmo. Por pedaços meus que foram embora com aquelas decisões. Por pessoas que, talvez, nunca tivessem cruzado meu caminho se eu tivesse apenas dito “não”. Ou dito “sim”.
Há perdas que vêm da ausência, e outras que nascem do excesso. E, por vezes, me percebo convivendo com o fantasma daquilo que não vivi — e daquilo que vivi por impulso. O amor, por exemplo… talvez minha dor mais insistente. Eu ainda carrego a sensação de que só tive uma chance real. Uma chance de viver algo completo, recíproco, festivo. E ela se perdeu. Talvez porque não era pra ser. Talvez porque eu não sou.
"A pior solidão é aquela sentida ao lado da esperança."
— Diário não publicado
E o que me fere hoje não é a ausência daquele amor. É ver, com olhos mais maduros, como aquelas pessoas se tornaram verbais, intensas, apaixonadas… com terceiros. Com outros. E nunca comigo. Nunca por mim. Eu era apenas uma ponte. Um momento. Uma peça que completava o quebra-cabeça da carência — e depois era descartada com naturalidade.
Isso… isso me quebrou de um jeito profundo. Porque eu fui sincero. Dividi o que ninguém sabia. Mostrei mapas internos. E ganhei o silêncio. A ausência. A substituição. E hoje, vejo postagens que talvez falem de mim. Algumas são violentas. Outras, distantes. E eu me pergunto: por que compartilhei tanto com alguém que não aguentou nem ficar?
A fogueira ainda queimava, mas eu já estava mergulhado nesse universo paralelo. Nesse mundo onde cada chama era uma versão minha. Alguns de nós estavam bem. Outros, em frangalhos. Mas todos carregavam a mesma certeza: eu não fui escolhido. Eu não fui festejado. Eu não fui lembrado em voz alta.
André e Alexandre seguiram a conversa. Mudaram de assunto, riram, dividiram novos temas. Mas eu? Eu fiquei ali, olhando para as brasas, escutando vozes solitárias de muitas de minhas versões. Talvez seja esse o multiverso mais difícil de suportar.
Capítulo 3 – Quando todo mundo vai embora
O fogo ainda resistia, lançando pequenas faíscas ao vento como quem avisa: “Ainda estou aqui, mas não por muito tempo”. André e Alexandre se despediram com aquele tipo de abraço que diz “a gente se vê”, mas que sempre me deixa com a sensação de que talvez ninguém volte. Eles foram. E eu fiquei.
Fiquei com minhas versões, meus multiversos, minhas memórias que se arrastam pelo chão como brasas que recusam o esquecimento. Era eu, o fogo, e todos os pedaços de mim que ainda queimavam — mesmo depois de todas as partidas.
“A maioria das pessoas vai embora antes do fim da festa. E algumas nem lembram que foram convidadas.”
— Diário não publicado
A presença dos dois tinha feito parecer que eu estava inteiro por algumas horas. Rimos, divagamos, filosofamos como de costume. Mas bastou o silêncio retornar para eu perceber que, na verdade, estive fragmentado o tempo todo. Apenas disfarcei bem.
Quando todos vão embora, o mundo mostra o que sobra: o eco. O eco das palavras não ditas. O eco das decisões não tomadas. O eco daquilo que ainda vive dentro da gente porque ninguém mais quis levar. E é esse som abafado, abafado pelas paredes internas, que ecoa mais alto que qualquer grito.
Há uma solidão que nasce da ausência dos outros. Mas há outra, mais cruel, que nasce da presença constante do que não se pode dividir. E essa… essa é minha companheira mais fiel.
“Eu não tenho medo do escuro. Tenho medo do que aparece quando a luz apaga.”
— Papo na Fogueira
Naquela noite, eu percebi que todos os meus vínculos estavam em combustão. Não só o amor que eu não tive. Mas as amizades que se distanciaram. Os contatos que esfriaram. As alianças que racharam por dentro, silenciosamente. Eu estava cercado de fumaça — dentro e fora de mim.
E é curioso como até o fogo, símbolo da conversa, da luz, do ritual, se tornou um reflexo da minha vida: consumindo tudo ao redor e me deixando com cinzas nas mãos. Eu tentei me reconectar. Tentei acender de novo alguma fagulha com quem restou. Mas às vezes… ninguém espera por você quando tudo vira cinzas.
Naquele instante, entendi que a minha dor não era a ausência de alguém. Era o abandono das minhas versões, a desistência silenciosa dos que um dia disseram ficar. E tudo isso agora queimava comigo. A lenha que alimentava o fogo… era eu.
Capítulo 4 – O que fica quando tudo queima
A fogueira já era brasa. O céu, mais escuro. A fumaça subia preguiçosa, como se também tivesse cansado de iluminar memórias. Ainda ali, sozinho, pensei que o calor do fogo é como certos sentimentos: mesmo depois de apagados, deixam marcas na pele, no peito, no tempo.
Olhei para o círculo de pedras onde nos sentamos. Três cadeiras, três vozes, três mundos que se encontraram naquela noite. E percebi que, apesar do silêncio que veio depois, algo essencial havia acontecido: dessa vez, a conversa foi convergente.
“Às vezes, tudo que a gente precisa é de alguém que escute... sem pressa de apagar o fogo.”
— Papo na Fogueira
Nenhum de nós impôs verdades. O fio puxado por Alexandre encontrou tecidos que eu já conhecia, mas nunca tinha costurado na frente de ninguém. E foi bonito ver cada um de nós adicionando pontos, cores, jeitos diferentes de ver — como se a dor, dessa vez, não separasse, mas construísse algo comum.
André ouviu mais do que falou, mas em sua escuta havia presença. Alexandre devolvia ideias com o cuidado de quem oferece um cobertor. E eu, entre os escombros das versões que citei, me senti menos só.
A conversa caminhou por outros temas. Demos risada. Fizemos planos improváveis. Nos permitimos leveza, mesmo entre tantas ruínas. E no fim, Alexandre lançou uma pergunta final — daquelas que abrem um buraco na alma e a gente finge que não ouviu. Mas ouvimos.
Essa pergunta não está no texto. É um segredo entre nós e a fogueira.
Voltando para casa, entendi que o tempo daquela noite foi estranho: parece que não vimos as horas passarem, e ao mesmo tempo, foi como se tivéssemos vivido dez anos em poucas horas. E talvez seja essa a grande beleza dos encontros reais — a distorção do tempo quando ele é bem vivido.
“Não vimos o tempo passar... porque usamos o tempo para estar.”
— Diário pós-fogueira
Sim, a vida ainda arde. Ainda há cinzas. Mas também há brasas que se recusam a apagar. E enquanto houver calor, haverá caminho.


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