Gamertag


Mostrando postagens com marcador arrependimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arrependimento. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Junho, o começo do fim

Junho sempre foi um mês estranho para mim.

Existem meses que passam despercebidos, dissolvidos dentro da rotina, misturados entre boletos, trabalho, compromissos e pequenos esquecimentos cotidianos. Junho nunca foi um desses meses.

Junho sempre chega carregando uma espécie de sombra.

Não uma sombra repentina. Não uma tragédia que surge sem aviso. Pelo contrário. É uma sombra anunciada. Uma sombra que eu conheço tão bem que consigo apontar exatamente onde ela começa.

A primeira semana de junho sempre me lembra que faltam cerca de quarenta e cinco dias para aquele julho.

Aquele julho que dividiu a minha vida em antes e depois.

E eu não preciso fazer esforço para lembrar.

O Facebook lembra.

O Google Fotos lembra.

As postagens antigas lembram.

As músicas lembram.

As fotografias lembram.

E talvez a pior parte seja que eu também lembro.

Por ser uma pessoa que gosta de ciclos, estou sempre vendo os aniversários de cada fase, para me revisitar, reler, rever.

"Existem datas que não vivem no calendário. Vivem dentro da gente."

Capítulo 1 — A frase que envelheceu diferente

Eu me lembro perfeitamente de um pensamento naquele julho de 2021.

Lembro da sensação.

Lembro da convicção.

Lembro do orgulho.

Lembro da certeza.

E lembro de ter pensado em algo que, durante muito tempo, considerei absolutamente verdadeiro.

Eu me disse que você sairia daqui e não encontraria alguém melhor do que eu.

Durante anos, carreguei essa frase dentro de mim como uma espécie de vitória moral.

Não porque eu desejasse mal a ninguém.

Mas porque acreditava genuinamente que havia oferecido o meu melhor.

Tempo.

Presença.

Apoio.

Cuidado.

Construção.

Entrega.

E olhando para trás, continuo acreditando nisso.

Mas existe um problema enorme em acreditar apenas nessa parte da história.

Porque hoje percebo que eu estava certo.

E, ao mesmo tempo, completamente errado.

"Às vezes a vida nos permite estar certos nos fatos e errados nas conclusões."

Capítulo 2 — O poder da ilusão

O que eu não compreendia naquela época é que existe uma força muito mais poderosa do que qualquer atitude concreta.

A idealização.

A ilusão.

A narrativa que escolhemos contar para nós mesmos.

Porque quando alguém decide transformar uma pessoa em sonho, a realidade deixa de importar.

E isso não acontece por maldade.

Nem por lógica.

Acontece porque é assim que funciona a paixão.

A paixão não é um contador.

Ela não soma investimentos.

Ela não calcula esforço.

Ela não mede presença.

Ela escolhe, e depois reorganiza o mundo inteiro para justificar essa escolha.

Dentro de uma ilusão, uma pizza comprada pela pessoa certa vale mais do que milhares de reais vindos da pessoa errada.

Não porque a pizza vale mais.

Mas porque a narrativa já foi escolhida.

E depois que a narrativa é escolhida, tudo passa a servir a ela.

"A memória raramente é um arquivo. Quase sempre é uma editora."

Capítulo 3 — A guerra impossível

Talvez a conclusão mais dolorosa que eu tenha chegado neste junho seja entender que algumas disputas nascem perdidas.

Não por falta de mérito.

Não por falta de esforço.

Não por falta de amor.

Mas porque você está disputando espaço contra algo que não existe.

Você não está disputando espaço contra uma pessoa.

Está disputando espaço contra uma versão idealizada dela.

Contra um sonho.

Contra uma fantasia.

Contra uma memória cuidadosamente preservada.

E não existe argumento racional capaz de vencer isso.

Porque o sonho não precisa se defender.

O sonho não precisa prestar contas.

O sonho nunca chega atrasado.

O sonho nunca decepciona.

O sonho nunca envelhece.

O sonho permanece congelado exatamente no ponto em que a pessoa decidiu adorá-lo.

E como competir com isso?

Como competir com alguém que não existe mais?

Como competir com uma lembrança?

Como competir com um vazio preenchido por imaginação?

Não dá.

Simplesmente não dá.

"O amor pode disputar espaço com outra pessoa. Com uma fantasia, raramente."

Capítulo 4 — O lugar que eu ocupava

E talvez seja justamente aí que mora a parte mais triste de toda essa reflexão.

Porque quando finalmente entendi isso, algumas peças antigas começaram a se encaixar.

Não foi sobre mim.

Nunca foi.

Eu estava tentando construir algo novo enquanto outra história ainda era tratada como a grande história.

Eu estava tentando ocupar um espaço que, na prática, continuava reservado.

Mesmo vazio.

Mesmo abandonado.

Mesmo destruído.

Continuava reservado.

E quando olho para o passado hoje, talvez seja essa a dor que mais aparece.

Não a rejeição.

Não o fim.

Não a perda.

Mas a percepção tardia de que aquela disputa jamais poderia ser vencida.

Porque eu estava tentando ser realidade.

E a realidade tem uma enorme desvantagem diante da fantasia.

Ela existe.

E tudo aquilo que existe inevitavelmente apresenta defeitos.

"A fantasia nunca perde para a realidade porque ela se recusa a jogar o mesmo jogo."

Conclusão — Junho continua chegando

Talvez seja por isso que junho continue sendo o começo do fim.

Porque ele não me lembra apenas do que aconteceu.

Ele me lembra do que eu demorei anos para compreender.

Existem pessoas que não estão apaixonadas por alguém.

Estão apaixonadas por uma história que construíram.

E enquanto essa construção permanecer de pé, todo o resto será sempre comparado contra algo impossível.

Hoje eu olho pro passado com mais raiva.

Porém com menos necessidade de provar alguma coisa.

Com menos vontade de vencer uma disputa que nunca foi justa.

Porque finalmente entendi que algumas histórias não fracassam por falta de amor.

Elas fracassam porque chegam num lugar onde alguém já escolheu qual narrativa deseja preservar.

E contra uma narrativa escolhida, não existe argumento.

Existe apenas aceitação.

E talvez crescer seja exatamente isso.

Parar de disputar espaço com fantasmas.

"Algumas pessoas superam o passado. Outras apenas aprendem a decorá-lo melhor."

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Versões de mim - uma jornada interna com trilha sonora.

Setembro, minhas versões mortas

"♫ As entradas do meu rosto🎶
♫ E os meus cabelos brancos🎶
♫ Aparecem a cada ano🎶
♫ No final do mês de Agosto🎶"

Setembro é o mês em que mais se fala sobre saúde mental. Cartazes, campanhas, frases de efeito — todos nos lembrando da importância de olhar para dentro, cuidar, ouvir, estar presente. E sim, eu concordo: é importante. Mas, ao mesmo tempo, não consigo evitar essa imagem quase metafórica de versões de mim mesmo que morreram ao longo do caminho. Algumas se foram em silêncio, outras foram assassinadas por contextos, decisões ou pessoas. Vistas de longe, parecem apenas fases. Mas olhando de perto... eram vidas inteiras.

"Algumas mortes não envolvem caixões, mas ainda assim exigem luto."

Boa parte da minha vida eu vivi no modo automático. Sem planos, sem projeções, sem preparar terreno. Apenas seguindo o impulso do agora, da oportunidade, da emoção que mandava. E é curioso olhar hoje para tudo isso com a lente do futuro — sabendo como certas histórias terminaram. Eu percebo que, talvez, muita coisa pudesse ter sido diferente se eu estivesse minimamente preparado para o que viria. Mas o preparo exige uma consciência que nem sempre a gente tem. E exige também uma frieza que não combina com quem sente demais.

"♫ You and I will ride tonight🎶
♫ 'Till the past is out of sight🎶
♫ We don't have to look back now🎶"

Eu recebi pessoas na minha vida como quem abre a porta num temporal: sem filtro, sem guarda-chuva, sem teto. Algumas chegaram como cometas — brilhantes, intensas, barulhentas — e sumiram na mesma velocidade com que surgiram. E mesmo assim, deixaram rastros. E hoje, vendo algumas dessas pessoas de longe — ou pior, vendo o que dizem, o que postam, o que insinuam — eu me pego com um gosto amargo. Um tipo de arrependimento misturado com perplexidade: "Por que eu confiei tanto? Por que dividi tanto de mim?"

"♫ Pra que mentir, fingir que perdoou?🎶
♫ Tentar ficar amigos sem rancor🎶
♫ A emoção acabou🎶
♫ (Que coincidência é o amor)🎶
♫ A nossa música (nunca mais tocou)🎶"

Há postagens que parecem falar de mim. De forma indireta, enviesada, algumas até com uma violência que me espanta. Porque o que eu dei foi afeto, foi escuta, foi cuidado. E o que recebo agora, anos depois, é um eco vazio de alguém que talvez nunca tenha me enxergado. Isso mexe comigo. Não pela crítica em si, mas pela constatação do quanto eu me doei para o nada. O quanto, sem perceber, eu apenas preenchi um espaço de carência. Um buraco que não era meu, mas que eu aceitei habitar como se fosse.

“Algumas pessoas poderiam não ter passado pela minha vida.”

É duro escrever isso, mas é verdade. Algumas presenças foram erros de percurso. São quase como cicatrizes que eu não precisava ter. E por mais que digam que tudo é aprendizado, algumas lições têm um custo alto demais. O preço de noites em claro, de memórias que ainda doem, de uma confiança que hoje é mais difícil de entregar.

"♫ Nesses meses foram tantos nomes🎶
♫ Tantos problemas e tantos🎶
♫ Telefones pra esquecer🎶"

É estranho viver em um mês que fala tanto de cuidar da vida e sentir que várias das minhas já foram. Versões minhas morreram no meio de encontros que não deveriam ter acontecido. Em vínculos que nunca foram recíprocos. Em silêncios que gritavam e eu fingi não ouvir. Em decisões que eu não tomei por medo, ou por falta de preparo, ou simplesmente por não ter entendido os sinais.

Hoje eu entendo. E dói mais ainda entender tarde. Porque quando você percebe que aquilo era um aviso, já foi. Já aconteceu. Já machucou.

"♫ Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado🎶
♫ O habitante do meu corpo, deste estranho dublê de retratos🎶
♫ Talvez até eu já vivesse em algum corpo emprestado🎶"

Setembro me faz pensar nas minhas mortes invisíveis. Nas minhas desistências disfarçadas. Nas pessoas que passaram como tempestade e deixaram meus móveis virados por dentro. E na minha própria responsabilidade nisso tudo. Porque fui eu quem abriu a porta.

"♫ Chatterton suicidou🎶
♫ Kurt Cobain suicidou🎶
♫ Getúlio Vargas suicidou🎶
♫ Nietzsche enlouqueceu🎶
♫ E eu!🎶
♫ Não vou nada bem🎶"

Não escrevo isso como denúncia. Escrevo como luto. Escrevo porque, entre as campanhas de prevenção e os abraços virtuais, eu carrego os rostos de versões minhas que não voltam mais. Algumas mais jovens. Outras mais esperançosas. Todas genuínas. Todas minhas.

E, no fundo, é isso que mais me entristece: ter perdido partes de mim tentando cuidar de partes dos outros.

"♫ Eu já dei a outra alma aos bruxos e vampiros🎶
♫ Eu quero que eles façam a festa enquanto eu me retiro🎶"