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quinta-feira, 26 de março de 2026

Saudades de ser alguém — quando a ausência não é física, é sentida

Existe um tipo de saudade que não está ligada a pessoas específicas.

Ela não tem nome, não tem rosto, não tem um ponto exato no tempo onde você possa dizer “foi aqui que começou”. Ela é mais difusa. Mais silenciosa. Mais constante.

É a saudade de um sentimento.

A saudade de ser alguém… na vida de alguém.

Essa semana, esse pensamento não me deixou em paz. Ele não chegou com violência. Não foi uma dor aguda. Foi algo mais lento. Mais persistente. Como uma presença que se instala sem pedir permissão e vai ocupando espaço dentro de mim aos poucos.

E quanto mais eu tentava ignorar… mais ele ficava evidente.

"A pior ausência não é a de quem foi embora. É a de quem deixou de fazer diferença."

Capítulo 1 — Entre a chegada e o silêncio

Eu sinto falta de uma coisa muito específica.

Não é de grandes declarações. Não é de momentos grandiosos. É de algo simples. Pequeno. Quase cotidiano.

Voltar para casa… e, naquele intervalo entre chegar e o sono começar a vencer, receber uma mensagem.

“Já tô com saudade.”

“Hoje senti sua falta.”

“Queria que você estivesse aqui.”

Não era sobre a frase em si.

Era sobre o que ela carregava.

O reconhecimento de que eu existia… para alguém.

De que a minha ausência não passava despercebida.

De que, em algum lugar, alguém notava quando eu não estava ali.

"Às vezes, tudo o que a gente precisa é saber que alguém percebe quando a gente não está."

Capítulo 2 — O NPC da própria vida

Hoje, o que eu sinto é diferente.

É como se eu tivesse sido deslocado para um papel secundário… dentro da própria vida das pessoas.

Como um NPC em um jogo de mundo aberto.

Presente, mas irrelevante.

Visível, mas ignorado.

Sem missão.

Sem arco.

Sem impacto.

As pessoas passam. Interagem superficialmente. Seguem suas histórias. E eu continuo ali… como parte do cenário.

Não existe uma narrativa onde eu sou necessário.

Não existe uma linha onde minha presença altera o curso de algo.

E isso… é um tipo de invisibilidade que não dói de uma vez só.

Ela vai se acumulando.

"Ser esquecido em silêncio machuca mais do que ser deixado em voz alta."

Capítulo 3 — A ausência de reflexo no outro

Tem algo que me incomoda de uma forma difícil de explicar.

É não me ver refletido na vida de ninguém.

Não ver uma postagem que me mencione.

Não ouvir alguém dizer que algo lembrou de mim.

Não perceber, em nenhuma camada da vida de alguém, que eu estou ali… de verdade.

É como se eu não deixasse rastro.

Como se minha passagem fosse neutra demais para gerar qualquer tipo de impacto.

E isso começa a gerar um tipo de dúvida perigosa.

Será que eu realmente estou aqui… do jeito que eu acho que estou?

Ou eu só existo para mim mesmo?

"A gente começa a se perder quando deixa de existir no olhar do outro."

Capítulo 4 — O mundo que continua sem você

Existe uma crueldade silenciosa em observar que tudo continua.

As pessoas seguem suas rotinas.

Os dias acontecem.

As conversas continuam.

As vidas avançam.

E nada… absolutamente nada… parece exigir a sua presença.

Você não é necessário.

Você não é esperado.

Você não é sentido.

E talvez essa seja a parte mais difícil de todas.

Não é a ausência de alguém.

É a percepção de que a sua ausência… não gera ausência em ninguém.

"Quando o mundo não sente a sua falta, você começa a questionar o seu lugar nele."

Capítulo 5 — Saudade de ser importante

Eu sinto saudade.

Mas não de alguém específico.

Eu sinto saudade de ser importante.

De ser porto seguro.

De ser lar.

De ser alguém que faz diferença no dia de outra pessoa.

De ser lembrado… sem precisar pedir.

De ser sentido… sem precisar avisar.

De existir… além de mim mesmo.

Porque hoje… o que eu sinto é que tudo acontece do mesmo jeito.

Comigo ou sem mim.

E isso transforma a existência em algo… estranho.

Quase como assistir a própria vida de fora.

"Não é a solidão que pesa. É a sensação de ser substituível."

Conclusão — Entre existir e ser sentido

Talvez exista uma diferença que eu nunca tinha percebido com tanta clareza.

Existir… e ser sentido.

Eu existo.

Mas não sei se sou sentido.

E essa dúvida… talvez seja o que mais dói.

Porque no fundo, todo mundo quer isso.

Ser importante para alguém.

Fazer falta.

Ser lembrado.

Ser escolhido.

E talvez essa saudade que eu sinto…

não seja de uma pessoa.

Mas de uma versão minha…

que fazia diferença na vida de alguém.

"Todo mundo quer ser lembrado. Mas, no fundo, a gente só quer ser sentido."

quinta-feira, 27 de março de 2025

Entre Gatilhos e Invisibilidade

Entre Gatilhos e Invisibilidade

Entre Gatilhos e Invisibilidade

Reflexões de quem carrega memórias que já não deveriam pesar.

“Às vezes não é a lembrança que machuca, mas a sensação de ainda não ter sido esquecido.”

Hoje eu me peguei pensando sobre gatilhos. Sobre como algo que já foi bom pode se tornar sufocante. Como uma música que trazia conforto pode se transformar em incômodo. E como, com o tempo, tudo que antes significava tanto... simplesmente se apaga.

Eu costumo seguir em frente. Me desapego. Uma música que me lembrava alguém, depois de um tempo, vira apenas música. Um lugar, apenas cenário. Não que isso aconteça do dia pra noite. Às vezes demora, dói, mas acontece. E eu consigo dizer, com certa tranquilidade, que hoje não há mais nada vinculado a pessoas que já se foram. Nada que me prenda. Nenhuma memória que ainda seja corrente.

O problema — ou a dor — é estar do outro lado disso. É conviver com quem ainda não conseguiu quebrar esses laços. E talvez nem queira.

Já estive com pessoas que carregavam seus passados como se fossem mochilas eternas. Cada gesto meu despertava um reflexo antigo. Uma lembrança que não era minha. Um toque que não tocava no presente, mas em alguém que esteve ali antes de mim. Era como sentar ao lado de alguém e sentir que, de fato, havia mais alguém entre nós. Mesmo que invisível.

E então eu comecei a me apagar. Aos poucos. Tentando evitar palavras, silenciar reações, moldar minha presença para não despertar dores que nem eram minhas. Entrei em pequenas gaiolas, uma por uma. Cada passo medido. Cada riso contido. Cada afeto filtrado por memórias que não eram minhas — mas que me cercavam como fantasmas.

“Nada que eu fizesse era sobre mim. Tudo era sobre o que já havia sido.”

É difícil construir qualquer coisa onde tudo já está ocupado por ruínas antigas. Onde a pessoa ao seu lado está mais presa ao passado do que disposta a viver o presente. E o mais triste é perceber que, por mais que você tente, por mais que se entregue, você nunca será lembrança. Nunca será página. Nem rodapé.

O que fica, no fim, é a sensação de ter sido apenas uma interferência. Um eco breve. Alguém que tentou entrar, mas chegou tarde demais, quando todos os lugares já estavam ocupados.

E essa talvez seja uma das formas mais profundas de solidão: estar ao lado de alguém e, mesmo assim, se sentir como se nunca tivesse realmente existido ali.