Capítulo I — Esse capítulo me enganou
O capítulo 24 me enganou completamente.
Ele começa com toda a aparência de que seria mais um daqueles capítulos de Harry Potter dominados pelos dramas adolescentes que tanto me incomodam.
Harry, Rony e Hermione conversam sobre o sucesso da missão envolvendo Slughorn.
A verdadeira lembrança foi conseguida.
Dumbledore e Harry finalmente sabem o segredo das Horcruxes.
Pela primeira vez existe uma maneira concreta de derrotar Voldemort.
Só que rapidamente tudo isso sai do centro da conversa.
Rony e Lilá terminaram.
Gina e Dino também terminaram.
E Harry imediatamente volta àquela guerra interna que vem enfrentando havia alguns capítulos.
Ele gosta de Gina.
Agora Gina está solteira.
Mas Gina é irmã de Rony.
E Rony é seu melhor amigo.
Quadribol também está próximo.
Tudo parecia perfeitamente preparado para mais um capítulo inteiro de namoro, ciúme e conflitos adolescentes.
E eu já estava preparado para reclamar novamente.
Só que o capítulo 24 tinha outros planos.
Alguns capítulos começam parecendo intervalo. Então, sem qualquer aviso, lembram que ainda estamos em uma história sobre uma guerra.
Capítulo II — Harry e Gina
Não dá para ignorar que alguma coisa mudou definitivamente na maneira como Harry olha para Gina.
Aquilo que inicialmente parecia uma sensação estranha quando ele a viu beijando Dino já não pode mais ser tratado apenas como proteção de irmão postiço.
Harry gosta dela.
E agora que o relacionamento terminou, essa possibilidade deixa de ser completamente abstrata.
O problema possui nome.
Rony Weasley.
Harry não sabe como seu melhor amigo reagiria à ideia de vê-lo com Gina.
Então passa a imaginar situações, possibilidades e consequências.
É exatamente aquele drama adolescente que já apareceu tantas vezes nos últimos livros.
E durante algumas páginas realmente achei que ficaríamos apenas nisso.
Felizmente, não ficamos.
Capítulo III — Draco Malfoy está chorando
Tudo muda quando Harry encontra Draco Malfoy no banheiro da Murta Que Geme.
E existe alguma coisa diferente naquela cena desde o início.
Draco não está simplesmente conspirando.
Não está provocando alguém.
Não está exibindo sua arrogância habitual.
Ele está destruído.
Harry percebe Draco conversando com Murta.
E percebe também que alguma coisa está claramente dando errado com aquilo que Malfoy vem tentando fazer durante todo o livro.
Isso combina com todas as pistas anteriores.
Draco disse a Snape que seu plano estava demorando.
Passa horas escondido na Sala Precisa.
Utiliza Crabbe e Goyle como vigias.
Está cada vez mais isolado.
E agora Harry o encontra emocionalmente abalado dentro de um banheiro.
Existe uma pressão enorme sobre Malfoy.
Só que Harry não tem muito tempo para compreender isso.
Draco percebe sua presença.
E começa o confronto.
Capítulo IV — Sectumsempra
Harry e Draco começam a trocar feitiços.
E a situação rapidamente deixa de ser uma simples briga escolar.
Quando Draco tenta lançar uma maldição extremamente perigosa contra Harry, Harry reage utilizando um feitiço que encontrou anotado no livro do Príncipe Mestiço.
Um feitiço que ele nunca havia testado.
Um feitiço cujo efeito ele sequer conhecia.
Sectumsempra.
E então tudo muda.
Draco é atingido.
Seu corpo se abre em cortes.
Sangue começa a se espalhar.
Malfoy cai.
E Harry fica completamente aterrorizado.
Até esse momento, o livro do Príncipe era praticamente um aliado.
Melhorava poções.
Apresentava atalhos.
Ensinava feitiços.
Transformou Harry no melhor aluno de Poções da turma.
Agora descobrimos que, entre suas páginas, também existe magia extremamente sombria.
Harry confiou tanto no Príncipe que utilizou uma palavra desconhecida contra uma pessoa antes mesmo de descobrir o que aquela palavra fazia.
Capítulo V — Pela primeira vez, o livro cobra seu preço
Essa cena muda completamente minha percepção sobre o livro do Príncipe Mestiço.
Hermione vinha alertando Harry desde o início.
Harry sempre respondeu utilizando os resultados como argumento.
As anotações funcionavam.
As poções ficavam melhores.
Os feitiços eram úteis.
Então qual seria o problema?
Agora existe uma resposta.
Harry não sabe quem escreveu aquele livro.
Não conhece as intenções daquela pessoa.
E, principalmente, não sabe o que os feitiços anotados ali fazem.
Utilizar Sectumsempra sem conhecer seu efeito foi uma irresponsabilidade enorme.
Isso não transforma Draco em inocente no confronto.
Ele também estava utilizando magia extremamente perigosa contra Harry.
Mas existe uma diferença importante.
Harry lançou uma maldição sem sequer saber qual seria o resultado.
E pela primeira vez parece compreender o risco da confiança quase absoluta que depositou no Príncipe.
Capítulo VI — Snape sabe exatamente o que fazer
Snape chega.
E sua reação imediatamente chama atenção.
Ele sabe como salvar Draco.
Utiliza uma contramaldição.
Repete o encantamento.
Consegue fechar os ferimentos.
E manda Malfoy para a enfermaria.
Esse detalhe não passa despercebido.
Snape parece compreender perfeitamente aquilo que aconteceu.
Depois, volta sua atenção para Harry.
E começa a tentar descobrir de onde aquele feitiço veio.
Harry percebe o perigo.
Snape tenta penetrar seus pensamentos.
Harry procura resistir e esconder aquilo que realmente importa.
O livro.
De repente, aquele objeto que Harry carregava praticamente como um tesouro precisa desaparecer.
Capítulo VII — O livro volta para a Sala Precisa
Harry consegue ganhar tempo.
Pega emprestado o livro de Poções de Rony.
E leva o exemplar do Príncipe Mestiço até a Sala Precisa.
É curioso que justamente a sala que Harry tenta desesperadamente invadir para descobrir o segredo de Draco se torne o lugar onde ele próprio esconde seu maior segredo.
Harry encontra um local para guardar o livro entre uma quantidade absurda de objetos escondidos.
Marca mentalmente o lugar.
E abandona ali o Príncipe Mestiço.
Pelo menos por enquanto.
Existe quase uma separação simbólica nessa cena.
Harry passou meses confiando naquela voz escrita nas margens.
Agora finalmente precisa afastá-la.
Não porque Hermione venceu uma discussão.
Mas porque Harry viu sangue suficiente para compreender sozinho.
Alguns avisos só se tornam convincentes quando deixam de estar escritos nas margens e aparecem diante de nós em sangue.
Capítulo VIII — Snape e o prazer de tornar uma punição pior
Harry merece uma punição.
Isso, para mim, não está realmente em discussão.
Ele utilizou um feitiço desconhecido e quase matou outro aluno.
O problema é Snape.
Porque Snape nunca parece satisfeito apenas em punir.
Ele precisa encontrar uma maneira de tornar a punição pessoal.
Harry recebe detenções.
E uma delas acontece justamente durante a partida de quadribol.
Depois, durante a detenção, Snape coloca Harry para trabalhar com antigos registros de punições.
Entre eles estão registros envolvendo James Potter e Sirius Black.
E aqui volto para algo que me incomoda profundamente na personalidade de Snape.
Não é apenas antipatia.
Não é apenas rigor.
Existe crueldade em determinadas escolhas.
James e Sirius estão mortos.
Snape sabe disso.
Sabe também o peso que Sirius possui para Harry.
Mesmo assim, transforma as memórias das punições deles em parte do castigo.
Para mim, isso ultrapassa bastante a ideia de um professor simplesmente aplicando uma consequência disciplinar.
Snape frequentemente parece sentir prazer em descobrir exatamente onde consegue machucar alguém emocionalmente.
Punir um erro é uma coisa. Escolher deliberadamente a ferida que tornará a punição mais dolorosa é outra completamente diferente.
Capítulo IX — E novamente o quadribol paga a conta
Existe também uma coisa quase engraçada na relação de Harry com o quadribol ao longo dos livros.
Harry não consegue simplesmente disputar um campeonato normalmente.
Sempre acontece alguma coisa.
Professor.
Detenção.
Suspensão.
Ferimento.
Proibição.
Alguma circunstância externa inevitavelmente interfere.
E isso começa a tirar um pouco do espírito competitivo do esporte para mim.
Porque professores possuem poder suficiente para interferir diretamente na escalação de uma equipe.
Uma detenção no dia de uma partida não pune apenas Harry.
Pune a Grifinória inteira.
Afeta um campeonato entre casas.
Altera o resultado esportivo.
E Hogwarts parece simplesmente considerar isso absolutamente normal.
É evidente que Harry precisava ser punido pelo que fez com Draco.
Mas marcar a punição exatamente durante uma partida transforma uma sanção individual em uma interferência direta numa competição coletiva.
O livro não parece particularmente preocupado com isso.
Hogwarts muito menos.
Capítulo X — Harry perde a partida
Harry precisa aceitar.
Não estará no jogo.
E isso também significa abrir mão de sua função como capitão justamente em uma partida decisiva.
Enquanto seus companheiros estão jogando, ele está preso com Snape lendo registros antigos.
Talvez seja uma das detenções mais dolorosas possíveis para Harry naquele momento.
Não apenas pela ausência do quadribol.
Mas porque ele não sabe o que está acontecendo.
Não pode ajudar.
Não pode comandar.
Não pode sequer assistir.
Quando finalmente é liberado, precisa descobrir sozinho qual foi o resultado.
Capítulo XI — A Grifinória ganhou sem Harry
Quando Harry retorna à sala comunal, encontra uma festa.
A Grifinória venceu.
Mesmo sem ele.
E gosto desse detalhe.
Harry é um excelente jogador.
É o capitão.
É importantíssimo para a equipe.
Mas a Grifinória não depende exclusivamente dele.
O time conseguiu vencer.
E a comemoração está acontecendo quando alguma coisa completamente diferente toma conta de Harry.
Gina corre em sua direção.
E Harry simplesmente a beija.
Capítulo XII — Finalmente, Harry e Gina
Depois de páginas e páginas de hesitação, ciúme e preocupação com a reação de Rony, tudo acontece praticamente sem planejamento.
Harry beija Gina diante de todo mundo.
E somente depois olha ao redor.
Dino não parece particularmente feliz.
Romilda Vane também não.
E então existe Rony.
O grande obstáculo imaginário que Harry construiu durante todo esse tempo.
Rony olha para ele.
Não parece exatamente encantado com a situação.
Mas também não parece disposto a impedir nada.
É quase uma autorização silenciosa.
Ou talvez simplesmente a percepção de que Gina fará aquilo que quiser independentemente da opinião dele.
Gina então chama Harry para saírem dali.
E assim termina um capítulo que começou me fazendo acreditar que seria apenas mais uma sequência de drama adolescente.
Ironicamente, ele termina justamente concretizando o romance.
Capítulo XIII — Mas o verdadeiro acontecimento foi Sectumsempra
Apesar do beijo entre Harry e Gina encerrar o capítulo, para mim o acontecimento realmente importante continua sendo Sectumsempra.
Porque ele modifica completamente o mistério do Príncipe Mestiço.
Até agora, a grande pergunta era:
Quem escreveu esse livro?
Agora existe outra.
Que tipo de pessoa escreveu esse livro?
Alguém extremamente inteligente.
Alguém brilhante em Poções.
Alguém capaz de melhorar receitas publicadas nos livros escolares.
Alguém que inventava feitiços.
Mas também alguém que conhecia — e aparentemente criava — magia capaz de produzir ferimentos terríveis.
O Príncipe Mestiço deixa de ser apenas um aluno genial do passado.
Existe alguma coisa muito mais sombria por trás daquelas anotações.
E existe ainda um detalhe impossível de ignorar.
Snape reconheceu imediatamente o que precisava fazer.
Não sei ainda exatamente o que isso significa.
Mas depois deste capítulo fica impossível não guardar essa informação.
Considerações Finais
O capítulo 24 me enganou.
Começou parecendo exatamente o tipo de capítulo que menos gosto em Harry Potter.
Namoros.
Términos.
Ciúmes.
Harry pensando em Gina.
Rony tentando escapar de Lilá.
Quadribol.
Tudo apontava para uma pausa depois da enorme revelação sobre as Horcruxes.
Então Harry encontra Draco no banheiro.
E o livro muda completamente de tom.
Sectumsempra é provavelmente a maior consequência até agora da confiança de Harry no livro do Príncipe.
E existe algo importante aqui.
Hermione estava certa em desconfiar.
Mas Harry também possuía motivos para confiar.
O livro funcionava.
Ele realmente continha informações extraordinárias.
O problema nunca foi as anotações estarem erradas.
Talvez o problema seja justamente o contrário.
Elas funcionam perfeitamente.
Inclusive quando Harry não sabe o que está pedindo que elas façam.
Isso torna o Príncipe Mestiço muito mais interessante.
Existe inteligência naquele livro.
Existe talento.
Existe conhecimento.
Mas agora sabemos que também existe magia das trevas.
E Snape, de alguma maneira, parece conhecer essa magia.
Ao mesmo tempo, Draco parece cada vez mais quebrado pela missão que recebeu.
Harry e Gina finalmente ficam juntos.
A Grifinória consegue vencer sem Harry.
E Harry termina o capítulo tendo conseguido algo que desejava enquanto perde, pelo menos temporariamente, uma das coisas que mais valorizou durante este ano: o livro do Príncipe.
No fim, aquele velho exemplar de Poções deixou de ser apenas a ferramenta que transformou Harry no melhor aluno de Slughorn.
Agora existe sangue entre suas páginas.
O perigo do livro do Príncipe Mestiço nunca esteve em ensinar Harry coisas que não funcionavam. Estava em funcionar mesmo quando Harry não fazia ideia do que estava fazendo.







