Gamertag


quinta-feira, 11 de junho de 2026

Ocarina of Time e a Armadilha de Epicuro

O Prazer Extraordinário

Não é de hoje que quintas-feiras carregam um significado estranho dentro da minha vida.

Durante muitos anos elas foram apenas mais um dia da semana. Um pedaço comum do calendário perdido entre a correria do trabalho, as obrigações da rotina e os pequenos compromissos que fazem os dias parecerem iguais.

Mas isso mudou.

Primeiro veio o prazer.

Lá em 2021, quando comecei a jogar mais no computador, descobri que toda quinta-feira a Epic Games distribuía um jogo gratuito.

Algumas semanas traziam presentes incríveis.

Outras traziam jogos que eu jamais instalaria.

Mas isso pouco importava.

Havia algo quase infantil em abrir a loja toda quinta-feira para resgatar o presente daquela semana.

Era um pequeno ritual.

Um prazer simples.

Depois veio a dor.

E ela chegou por volta de 2023.

Foi quando quintas-feiras começaram a acumular ausências, silêncios, expectativas frustradas e lembranças que eu preferiria não revisitar.

De repente, o mesmo dia que me entregava um presente também me entregava uma ausente.

O mesmo calendário passou a carregar duas histórias completamente diferentes.

E nesta semana, especificamente nesta semana, eu finalmente entendi algo que vinha sendo construído há muito tempo.

"Às vezes não é a ausência que dói. É finalmente entender o que ela significa."

Capítulo 1 — Epicuro estava certo

Coincidentemente, por conta do aniversário de minha jornada gamer com conquistas, eu acabei por revisitar alguns textos antigos do blog.

Um deles foi escrito a pouco mais de um ano e também publicado numa quinta-feira, se chamava Flores, Amores, Prazeres e dissabores - Epicuro.

Naquele texto eu falava sobre Epicuro.

E sobre uma ideia que, na época, precisava ser escrita e que ainda hoje, me parece brutalmente verdadeira.

Epicuro dizia que existe uma armadilha no prazer extraordinário.

Porque quando alguém experimenta algo que considera perfeito, absoluto ou incomparável, corre o risco de perder a capacidade de apreciar aquilo que é comum.

E o problema é que a vida acontece justamente no comum.

Ela acontece nos cafés simples. Imagine nunca mais ter prazer num copo de café por conta de uma visita à Starbucks.

Acontece nas conversas de segunda-feira.

Nas mensagens de boa noite.

Nos domingos sem grandes acontecimentos.

Nos dias ordinários.

Epicuro defendia que uma vida bem vivida era muito mais valiosa do que uma coleção de momentos extraordinários isolados.

E durante muito tempo eu concordei com isso, mesmo algumas vezes aceitando algumas armadilhas e melhorando a qualidade de vida.

Nesta semana eu percebi algo importante.

"O extraordinário impressiona. O ordinário sustenta."

Capítulo 2 — O prazer da ilusão

Antes de continuar, existe uma coisa importante que preciso admitir.

Ilusões podem gerar prazer.

E muito prazer.

Como leitor, eu sei disso.

Como jogador, mais ainda.

Eu já me emocionei em Hogwarts.

Já vivi aventuras em Hyrule.

Já lutei contra demônios em Santuário.

Já acompanhei histórias em livros, quadrinhos, filmes, séries e jogos que jamais aconteceram.

E ainda assim me marcaram profundamente.

A ilusão não deixa de gerar emoção apenas porque não é real.

Ela continua gerando.

O problema surge quando alguém passa a tratar a ilusão como parâmetro permanente da realidade.

Porque a realidade nunca compete em condições justas contra um sonho.

O sonho pode ser perfeito.

A realidade não.

"A fantasia não precisa sobreviver ao cotidiano. A realidade precisa."

Capítulo 3 — Ocarina of Time

E foi aqui que tudo fez sentido para mim.

Durante o Nintendo Direct desta semana, a Nintendo anunciou o remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time.

Na verdade, ela nem precisou mostrar quase nada.

Uma tapeçaria.

Uma narração.

Alguns segundos.

E foi suficiente.

Porque para quem viveu o final dos anos 90, Ocarina of Time não é apenas um jogo.

É uma memória.

É um marco.

É um sentimento.

É o prazer extraordinário.

E aqui está a parte curiosa.

Ocarina of Time possui inúmeros defeitos.

Hoje eles são óbvios.

A câmera envelheceu.

Os controles envelheceram.

As mecânicas envelheceram.

Mas nada disso importa.

Porque o jogo ocupa um lugar que nenhum outro jogo conseguiu ocupar.

E eu nem jogo Ocarina of Time há anos.

Talvez cinco.

Talvez seis.

Mas continuo falando dele com carinho. Classificando como o ápice.

Continuo lembrando dele com emoção.

Continuo incapaz de analisar enxergando seus defeitos com o mesmo peso que vejo os defeitos dos jogos atuais.

E então eu entendi.

Ele é meu prazer extraordinário.

"Algumas experiências deixam de ser experiências e viram referência."

Capítulo 4 — O jogo que veio depois

E foi nesse momento que a segunda parte da semana se conectou.

Na segunda-feira, vi você tentar falar mal de outra história.

E falhar completamente.

Toda crítica parecia elogio.

Toda lembrança parecia encantamento.

Toda reclamação parecia saudade.

E eu percebi que estava vendo exatamente o mesmo fenômeno.

Aquilo não era uma pessoa.

Aquilo era o seu  "Ocarina of Time" emocional.

O prazer extraordinário.

A experiência transformada em referência absoluta.

O padrão impossível.

O lugar onde todos os defeitos deixam de importar.

E foi nesse momento que eu finalmente entendi algo sobre mim mesmo.

E na sua história, eu fui o jogo que veio depois.

Talvez eu tivesse mais conteúdo.

Talvez eu tivesse mais maturidade.

Talvez eu tivesse mais verdade.

Talvez eu tivesse mais lealdade.

Talvez eu tivesse mais presença.

Mas eu nunca fui o prazer extraordinário.

E contra isso não existe competição possível.

"Você não perde para alguém melhor. Você perde para alguém que virou mito."

Capítulo 5 — A armadilha de Epicuro

Foi então que a teoria de Epicuro finalmente fechou o círculo.

Porque ele nunca disse que o prazer extraordinário era falso.

Ele apenas dizia que ele podia se tornar uma armadilha.

Uma prisão.

Uma lente que impede alguém de enxergar o restante da vida.

E talvez tenha sido exatamente isso que te aconteceu.

Eu passei anos tentando entender por que tudo parecia pequeno.

Por que tudo parecia insuficiente.

Por que tudo parecia sem brilho.

E agora eu acho que finalmente entendi.

Era mais que ausência de prazer.

Era espera.

Uma espera eterna pela volta de algo considerado perfeito.

E enquanto essa espera existir, nada mais parecerá suficiente.

Nada mais parecerá extraordinário.

Nada mais será capaz de competir.

"Quem vive esperando o retorno do paraíso deixa de perceber as flores que nasceram no caminho."

Conclusão — O valor do ordinário

Talvez o mais curioso de toda essa reflexão seja que eu não quero ser o  "Ocarina of Time" de ninguém.

Não quero ser uma ilusão.

Não quero ser uma memória congelada.

Não quero ser um mito.

Porque mitos não vivem o cotidiano.

Não enfrentam boletos.

Não atravessam crises.

Não sustentam uma vida.

Mas também não quero ser o lugar mediano.

O jogo de celular jogado em pé no metrô que distrai por um tempo.

O jogo de aventura jogado pós Ocarina of Time onde não importa o quanto seja melhor, nunca causará o mesmo impacto.

O que eu oferecia era além do extraordinário.

Era o ordinário.

Era presença.

Era lealdade.

Era verdade.

Era parceria.

Era investimento emocional.

Era construção.

E talvez esse seja justamente o tipo de coisa que Epicuro tentava nos ensinar a valorizar.

Porque o extraordinário impressiona.

Mas é o ordinário que permanece.

"A maior armadilha do prazer extraordinário é fazer você esquecer que a felicidade mora no comum."

Nenhum comentário:

Postar um comentário