Antes de seguir para o próximo livro, eu preciso parar.
Não é uma pausa técnica. Não é porque acabou um volume grande e agora eu preciso apenas reorganizar as postagens, revisar rascunhos ou preparar a entrada em O Enigma do Príncipe. É uma pausa emocional.
A Ordem da Fênix mexeu absurdamente comigo.
Quando você, leitor inexistente deste blog, estiver lendo isso, eu provavelmente já estarei alguns capítulos adiante. Talvez já esteja mergulhado no sexto livro, talvez já tenha encontrado outras dores, outras revelações, outras cenas que vão me deslocar por motivos que talvez nem tenham tanto a ver com Harry Potter.
Mas antes disso, eu precisava registrar este intervalo.
Porque existem leituras que a gente termina.
E existem leituras que terminam alguma coisa dentro da gente.
"Alguns livros não doem pelo que contam. Doem pelo lugar onde encostam."
Capítulo 1 — A leitura atrasada e o tempo real da memória
Eu tenho lido Harry Potter de uma forma quase ritualística.
Um capítulo por dia.
Um rascunho por capítulo.
Depois, com mais calma, volto ao texto, reviso, corrijo, tento transformar aquela primeira impressão em algo mais próximo de um texto real. Não exatamente frio, não exatamente distante, mas menos bruto do que a anotação feita logo depois da leitura.
Isso cria um atraso natural entre o que eu leio e o que aparece aqui.
Mas talvez esse atraso combine com o blog.
Porque este espaço nunca foi exatamente sobre velocidade.
Ele sempre foi mais sobre processamento.
Eu vejo um episódio de uma série, jogo alguma coisa, leio um capítulo, sinto algo, e depois tento entender o que aquilo fez comigo. Às vezes consigo escrever no mesmo dia. Às vezes preciso esperar.
Com A Ordem da Fênix, eu precisei esperar.
Não porque faltasse assunto.
Mas porque havia assunto demais dentro de mim.
"Nem todo atraso é descuido. Às vezes é só a alma pedindo tempo para não sangrar em público."
Capítulo 2 — Dumbledore e a violência do silêncio
O primeiro grande problema deste livro, para mim, foi Dumbledore.
Mais especificamente: o silêncio de Dumbledore.
Eu sei que dentro da lógica da história existem justificativas. Eu sei que ele tenta proteger Harry. Eu sei que havia medo, estratégia, Voldemort, conexão mental, risco e tudo aquilo que o próprio livro explica depois.
Mas explicação não anula consequência.
E o silêncio de Dumbledore me agride pessoalmente.
Porque eu conheço esse tipo de silêncio.
Conheço bem demais.
Conheço o silêncio vindo de pessoas que dizem se importar.
Conheço o silêncio de quem some achando que está evitando um problema, enquanto do outro lado alguém desmorona tentando entender o que aconteceu.
O silêncio é violento para quem fica recebendo apenas ausência.
Ele abre mil interpretações.
Será que a pessoa está mal?
Será que está com raiva?
Será que desistiu?
Será que está indo embora?
Será que existe outra história acontecendo e você apenas não foi informado?
O silêncio destrói confiança porque transforma a mente do outro em tribunal, prisão e sala de tortura ao mesmo tempo.
"O silêncio de quem importa nunca é neutro. Ele sempre faz barulho dentro de quem ficou esperando."
Capítulo 3 — Quando o silêncio mata um futuro
A morte de Sirius é devastadora por muitos motivos.
Mas, para Harry, não morre apenas uma pessoa.
Morre uma possibilidade.
Morre a casa que talvez existisse.
Morre o adulto que talvez pudesse acolhê-lo.
Morre a chance de sair da casa dos Dursley.
Morre uma versão de futuro onde Harry não seria apenas sobrevivente, aluno, escolhido, órfão ou arma contra Voldemort.
Ele poderia ser afilhado.
Poderia ser família.
Poderia ser alguém esperado em uma casa.
E isso me pegou de um jeito muito específico.
Porque eu entendo literalmente o que é o silêncio causar a morte de um futuro.
Entendo o que é uma ausência não explicada corroer uma possibilidade até ela deixar de existir.
Entendo o que é olhar para trás e perceber que não foi apenas uma conversa que faltou. Foi uma vida inteira que talvez pudesse ter sido diferente se alguém tivesse falado.
Dumbledore se calou.
Harry interpretou sozinho.
Voldemort usou essa brecha.
Sirius morreu.
E essa sequência me atingiu muito além do livro.
"Às vezes não é a mentira que destrói uma história. É aquilo que nunca foi dito a tempo."
Capítulo 4 — O livro e aquilo que não era sobre o livro
Talvez seja injusto com A Ordem da Fênix dizer que ele mexeu comigo por culpa apenas dele.
Porque livros não entram em nós em estado puro.
Eles entram no momento em que estamos vivendo.
Entram atravessados pelas nossas dores, pela nossa memória, pelas ausências da semana, pelas mensagens que não vieram, pelas conversas que morreram, pelos silêncios que já estavam gritando antes mesmo da página ser aberta.
Eu li esse livro em um período onde o silêncio não era apenas um tema literário.
Era uma presença real.
Dumbledore não foi a única pessoa em silêncio naquele período.
E talvez por isso tenha sido tão difícil separar Harry de mim.
Eu sabia que estava lendo ficção.
Mas meu corpo reagia como quem estava reconhecendo um padrão antigo.
E é engraçado como a mente faz essas associações.
Você está lendo sobre um menino bruxo, uma profecia, um padrinho, uma guerra mágica, uma sala no Ministério.
Mas, de repente, não está mais.
Está lendo sobre você.
Sobre aquilo que não te disseram.
Sobre aquilo que você precisou adivinhar.
Sobre o futuro que morreu porque alguém decidiu que o silêncio era uma forma aceitável de cuidado.
"A ficção nos engana dizendo que fala de outros mundos. Quando percebemos, ela já entrou no nosso."
Capítulo 5 — Respirar antes de continuar
Por isso eu precisei parar.
Antes de seguir para O Enigma do Príncipe, antes de abrir outro ciclo, antes de fingir que era apenas mais um livro terminado, eu precisei respirar.
Colocar a cabeça em ordem.
Deixar a dor assentar.
Porque às vezes continuar lendo também pode ser uma forma de fuga.
E eu não queria fugir dessa vez.
Eu queria registrar.
Queria deixar marcado aqui, para talvez daqui a alguns anos eu voltar a este texto e lembrar não apenas do que eu achei de A Ordem da Fênix, mas de quem eu era quando li.
O que estava acontecendo.
Que ausências estavam ao meu redor.
Que silêncio estava me ferindo.
Que parte de mim reconheceu em Harry não apenas um personagem em luto, mas alguém tentando entender por que os adultos que deveriam protegê-lo escolheram não falar.
"Revisitar um livro é também reencontrar a versão de nós que sofreu lendo aquelas páginas."
Conclusão — A Ordem da Fênix mexeu comigo mais do que deveria
A Ordem da Fênix mexeu comigo muito mais do que deveria.
E talvez essa frase esteja errada.
Talvez não exista esse “deveria”.
Talvez cada leitura mexa exatamente onde consegue mexer.
Talvez um livro seja grande não apenas pelo que constrói em sua própria narrativa, mas pela forma como encontra frestas dentro de quem lê.
Para mim, este livro foi sobre raiva.
Sobre abandono.
Sobre luto.
Sobre a violência do silêncio.
Sobre um futuro morto antes de nascer.
E sobre a dor de perceber que algumas escolhas feitas em nome da proteção podem destruir justamente aquilo que tentavam salvar.
Agora eu sigo para O Enigma do Príncipe.
Mas não sigo igual.
Carrego Sirius.
Carrego Harry.
Carrego Dumbledore em silêncio.
E carrego também os silêncios que não pertencem a Hogwarts, mas que fizeram essa leitura doer como se pertencessem.
"No fim, talvez todo livro importante seja isso: uma história dos outros que encontra uma ferida nossa e aprende o caminho de volta."


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