Gamertag

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Versões de mim - uma jornada interna com trilha sonora.

Setembro, minhas versões mortas

"♫ As entradas do meu rosto🎶
♫ E os meus cabelos brancos🎶
♫ Aparecem a cada ano🎶
♫ No final do mês de Agosto🎶"

Setembro é o mês em que mais se fala sobre saúde mental. Cartazes, campanhas, frases de efeito — todos nos lembrando da importância de olhar para dentro, cuidar, ouvir, estar presente. E sim, eu concordo: é importante. Mas, ao mesmo tempo, não consigo evitar essa imagem quase metafórica de versões de mim mesmo que morreram ao longo do caminho. Algumas se foram em silêncio, outras foram assassinadas por contextos, decisões ou pessoas. Vistas de longe, parecem apenas fases. Mas olhando de perto... eram vidas inteiras.

"Algumas mortes não envolvem caixões, mas ainda assim exigem luto."

Boa parte da minha vida eu vivi no modo automático. Sem planos, sem projeções, sem preparar terreno. Apenas seguindo o impulso do agora, da oportunidade, da emoção que mandava. E é curioso olhar hoje para tudo isso com a lente do futuro — sabendo como certas histórias terminaram. Eu percebo que, talvez, muita coisa pudesse ter sido diferente se eu estivesse minimamente preparado para o que viria. Mas o preparo exige uma consciência que nem sempre a gente tem. E exige também uma frieza que não combina com quem sente demais.

"♫ You and I will ride tonight🎶
♫ 'Till the past is out of sight🎶
♫ We don't have to look back now🎶"

Eu recebi pessoas na minha vida como quem abre a porta num temporal: sem filtro, sem guarda-chuva, sem teto. Algumas chegaram como cometas — brilhantes, intensas, barulhentas — e sumiram na mesma velocidade com que surgiram. E mesmo assim, deixaram rastros. E hoje, vendo algumas dessas pessoas de longe — ou pior, vendo o que dizem, o que postam, o que insinuam — eu me pego com um gosto amargo. Um tipo de arrependimento misturado com perplexidade: "Por que eu confiei tanto? Por que dividi tanto de mim?"

"♫ Pra que mentir, fingir que perdoou?🎶
♫ Tentar ficar amigos sem rancor🎶
♫ A emoção acabou🎶
♫ (Que coincidência é o amor)🎶
♫ A nossa música (nunca mais tocou)🎶"

Há postagens que parecem falar de mim. De forma indireta, enviesada, algumas até com uma violência que me espanta. Porque o que eu dei foi afeto, foi escuta, foi cuidado. E o que recebo agora, anos depois, é um eco vazio de alguém que talvez nunca tenha me enxergado. Isso mexe comigo. Não pela crítica em si, mas pela constatação do quanto eu me doei para o nada. O quanto, sem perceber, eu apenas preenchi um espaço de carência. Um buraco que não era meu, mas que eu aceitei habitar como se fosse.

“Algumas pessoas poderiam não ter passado pela minha vida.”

É duro escrever isso, mas é verdade. Algumas presenças foram erros de percurso. São quase como cicatrizes que eu não precisava ter. E por mais que digam que tudo é aprendizado, algumas lições têm um custo alto demais. O preço de noites em claro, de memórias que ainda doem, de uma confiança que hoje é mais difícil de entregar.

"♫ Nesses meses foram tantos nomes🎶
♫ Tantos problemas e tantos🎶
♫ Telefones pra esquecer🎶"

É estranho viver em um mês que fala tanto de cuidar da vida e sentir que várias das minhas já foram. Versões minhas morreram no meio de encontros que não deveriam ter acontecido. Em vínculos que nunca foram recíprocos. Em silêncios que gritavam e eu fingi não ouvir. Em decisões que eu não tomei por medo, ou por falta de preparo, ou simplesmente por não ter entendido os sinais.

Hoje eu entendo. E dói mais ainda entender tarde. Porque quando você percebe que aquilo era um aviso, já foi. Já aconteceu. Já machucou.

"♫ Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado🎶
♫ O habitante do meu corpo, deste estranho dublê de retratos🎶
♫ Talvez até eu já vivesse em algum corpo emprestado🎶"

Setembro me faz pensar nas minhas mortes invisíveis. Nas minhas desistências disfarçadas. Nas pessoas que passaram como tempestade e deixaram meus móveis virados por dentro. E na minha própria responsabilidade nisso tudo. Porque fui eu quem abriu a porta.

"♫ Chatterton suicidou🎶
♫ Kurt Cobain suicidou🎶
♫ Getúlio Vargas suicidou🎶
♫ Nietzsche enlouqueceu🎶
♫ E eu!🎶
♫ Não vou nada bem🎶"

Não escrevo isso como denúncia. Escrevo como luto. Escrevo porque, entre as campanhas de prevenção e os abraços virtuais, eu carrego os rostos de versões minhas que não voltam mais. Algumas mais jovens. Outras mais esperançosas. Todas genuínas. Todas minhas.

E, no fundo, é isso que mais me entristece: ter perdido partes de mim tentando cuidar de partes dos outros.

"♫ Eu já dei a outra alma aos bruxos e vampiros🎶
♫ Eu quero que eles façam a festa enquanto eu me retiro🎶"

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