Primeiras impressões de leitura • quando as peças finalmente param de ser só peças e viram movimento.
1. A sensação de “agora vai”
O Capítulo 10 me deu uma sensação clara de retomada. Nos capítulos anteriores — especialmente o 9 — eu senti a história mais arrastada, como se Hogwarts estivesse girando em falso, repetindo medo, repetindo suspeita, repetindo rumores enquanto nada realmente explodia. Só que, olhando com atenção agora, parece óbvio o que estava acontecendo: o livro estava apenas colocando pessoas, tensões e informações nos lugares certos para que, quando a história avançasse, ela avançasse com peso.
E avança. Não de forma “cinematográfica” no sentido de explosões constantes, mas de forma narrativa: decisões são tomadas, consequências aparecem, e a Câmara Secreta deixa de ser um tema pairando no ar para virar uma força que empurra a trama.
Às vezes, o capítulo não é lento. Nós é que estamos ansiosos demais para o mistério se revelar.
2. O livro que eu “lembro” sem lembrar
Diferente do primeiro livro, aqui eu tenho mais memória do filme. Só que é uma memória curiosa: não é antecipação. Eu não fico “lembrando antes”. Eu leio… e depois lembro. É como se o texto puxasse uma cena esquecida pelo braço, e de repente eu visse flashes: “ah, é aqui que isso acontece”, “é agora que aquilo começa”.
Isso muda minha experiência de leitura. Não estraga, mas altera o tipo de prazer. O primeiro livro teve muito do prazer da descoberta. Este tem o prazer do encaixe. Não é tanto “o que vai acontecer?”, é mais “como o livro faz isso acontecer?”.
3. A Poção Polissuco e a escolha do professor “certo”
O capítulo abre com o trio decidindo, de forma bem prática, que vai mesmo fazer a Poção Polissuco. Não é mais curiosidade adolescente. É plano. É infiltração. É a primeira vez, neste livro, que eu sinto que eles estão deliberadamente tomando um caminho moralmente torto porque a escola, os adultos e as regras não estão entregando respostas rápidas o suficiente.
E aqui vem uma escolha narrativamente deliciosa: para conseguir o acesso à área reservada da biblioteca, o melhor professor não é o mais competente — é o mais vaidoso. Eles escolhem Gilderoy Lockhart porque ele é o tipo de adulto que você contorna pelo ego. O livro vem construindo isso a conta-gotas, e toda aparição dele reforça: ele não tem a competência que finge ter. Ele tem discurso. Tem performance. Tem pose.
Alguns adultos não são convencidos pela razão. São convencidos pelo aplauso.
Hermione usa o subterfúgio perfeito: alimenta o narcisismo dele, sugere que o livro vai ajudá-la a entender melhor “outro livro do próprio Lockhart”, e pronto — autorização concedida. É um momento pequeno, mas muito revelador do tipo de mundo que esse segundo ano está apresentando: um mundo onde inteligência às vezes é também saber manipular o ridículo.
4. Banheiro da Murta que Geme e a Hogwarts que eu conheço pelo jogo
A Poção Polissuco vai ser feita no banheiro da Murta que Geme. E aqui, mais uma vez, Hogwarts Legacy aparece como referência primária na minha cabeça. Não porque o jogo seja “melhor”, mas porque ele foi, para mim, uma vivência profunda daquele espaço. No jogo existe referência à Poção Polissuco em um dos banheiros, e o banheiro da Murta — o lugar da morte dela e a entrada simbólica da Câmara — também aparece ali com força.
No Hogwarts Legacy a Câmara Secreta em si não está acessível como trama, mas o banheiro está. A torneira com o desenho de cobra existe, quase como um sussurro de que aquele mundo tem camadas enterradas. Ler isso agora me dá uma sensação estranha de “eu já estive aqui”, só que pela via invertida: eu estive pelo jogo antes de estar pelo livro.
Chegar a um lugar por outra mídia é como lembrar de um sonho: você reconhece, mas não sabe de onde.
5. Quadribol: quando o jogo nunca é só o jogo
A partida de Quadribol (Grifinória versus Sonserina) acontece, e ela carrega um padrão que já começa a ficar nítido: toda vez que Harry joga, ele nunca lida apenas com a partida. Sempre existe algo além. Sempre existe uma interferência, um “extra” que transforma esporte em presságio.
Aqui, o “algo além” é o balé de violência do balaço que o persegue. Ele não está apenas fora de controle: ele tem intenção. Ele machuca, insiste, e acaba quebrando o braço de Harry. E logo depois descobrimos o detalhe que muda o tom dessa violência: foi Dobby. De novo.
Dobby segue tentando tirar Harry de Hogwarts por qualquer meio. E isso reforça duas coisas ao mesmo tempo: primeiro, que Dobby sabe mais do que pode dizer; segundo, que o perigo de Hogwarts não é uma paranoia — é uma realidade que já está produzindo danos.
Quando até o esporte vira perseguição, você entende que o castelo já não está em modo “escola”. Está em modo “ameaça”.
6. Petrificação, câmera e o método do horror
O capítulo termina com mais uma petrificação: Colin Creevey. E o livro vai deixando claro um padrão assustador: não é morte direta (ainda), é paralisação. É como se o horror estivesse testando limites, experimentando o alcance, escolhendo vítimas e deixando recados.
A explicação implícita — e que faz sentido com o que eu lembro do filme — é que a petrificação acontece quando a vítima não olha diretamente para o Basilisco. Colin, com a câmera, provavelmente vê pelo reflexo da lente. A Madame Nor-r-ra, no caso anterior, também não morre: é provável que tenha visto por reflexo (água, janela, superfície). Isso não diminui o terror, só o torna mais metódico. Mais calculado. Mais “inteligente”.
Harry ouve Dumbledore confirmando aquilo que a parede já havia gritado: a Câmara Secreta foi realmente aberta. O mito vira fato. O rumor vira declaração oficial. E uma sensação se instala: os adultos sabem. Alguns sabem há mais tempo do que deveriam. Dumbledore sabe. Minerva sabe. Dobby sabe. E agora o livro já não finge que é “apenas um mistério escolar”.
O pior momento não é quando descobrimos que o perigo existe. É quando descobrimos que alguém já sabia.
Encerramento: a noite na enfermaria e a história que ganha corpo
O capítulo fecha com um Harry destruído em dois níveis: o físico (braço quebrado, e depois “ossos removidos” por um feitiço errado de Lockhart — um detalhe que reforça a incompetência dele) e o narrativo (a certeza de que algo ronda a escola). Ele passa a noite na enfermaria e, nessa mesma noite, Colin aparece petrificado.
A Câmara não é mito. A Câmara é real. E agora, finalmente, o livro assume o que estava construindo por baixo: existe um perigo rondando Hogwarts, existe um alvo possível, e existe uma escola inteira tentando manter a normalidade enquanto o subterrâneo se move.
Este foi o capítulo 10: o capítulo em que a história deixa de “se posicionar” e começa, de fato, a caminhar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário