Capítulo I — Dumbledore está morto
Não tenho muito o que falar sobre o capítulo 29.
E acho que isso acontece porque o capítulo também não parece particularmente interessado em avançar.
Ele precisa primeiro compreender aquilo que acabou de acontecer.
Dumbledore está morto.
Os Comensais da Morte conseguiram entrar em Hogwarts.
Snape matou Dumbledore.
Draco conseguiu executar seu plano.
Existiram batalhas dentro do castelo.
Existem feridos.
E agora, depois de dois capítulos praticamente sem permitir que Harry respirasse, finalmente todo mundo precisa parar e juntar os pedaços.
Literalmente cada pessoa possui uma parte diferente da história.
Harry sabe o que aconteceu na Torre de Astronomia.
Os outros sabem o que aconteceu dentro do castelo.
E o capítulo 29 é basicamente o momento em que essas histórias finalmente se encontram.
Depois de uma tragédia, existe sempre um segundo momento doloroso: aquele em que os sobreviventes precisam reconstruir juntos exatamente como ela aconteceu.
Capítulo II — Cada um viu uma parte
Gosto da estrutura do capítulo justamente porque ninguém possui a história inteira.
Harry estava com Dumbledore.
Antes disso, Rony, Hermione e os outros estavam em Hogwarts.
Os membros da Ordem estavam combatendo os Comensais.
Professores estavam tentando defender o castelo.
Enquanto tudo isso acontecia, Draco estava na Torre de Astronomia com Dumbledore.
Depois Snape chegou.
Harry viu o final.
Agora cada pessoa precisa contar aquilo que sabe.
É quase uma investigação realizada depois que já conhecemos o pior resultado possível.
Não estamos tentando descobrir se o plano funcionou.
Sabemos que funcionou.
Estamos descobrindo como.
Capítulo III — O Armário Sumidouro funcionou
O plano de Draco agora pode ser compreendido por inteiro.
O Armário Sumidouro da Sala Precisa estava conectado ao outro armário na Borgin & Burkes.
Draco passou meses tentando reparar essa conexão.
Quando finalmente conseguiu, abriu uma passagem diretamente para dentro de Hogwarts.
Os Comensais não precisaram atravessar as proteções externas do castelo.
Eles simplesmente apareceram dentro dele.
E isso confirma definitivamente que Harry não passou o ano perseguindo uma fantasia.
Draco estava envolvido.
Draco possuía uma missão.
Draco estava trabalhando dentro da Sala Precisa.
Draco estava tentando matar Dumbledore.
Harry estava certo sobre praticamente toda a estrutura da conspiração.
O problema é que descobrir que estava certo não possui gosto algum de vitória agora.
Existem momentos em que estar certo não oferece satisfação alguma, porque aquilo que provou nossa razão foi exatamente a tragédia que queríamos impedir.
Capítulo IV — A batalha que Harry atravessou correndo
No capítulo anterior, Harry praticamente não teve tempo de entender o que estava acontecendo dentro de Hogwarts.
Ele corria atrás de Snape.
Via pessoas lutando.
Via corpos.
Via feitiços.
Mas nada daquilo conseguia fazê-lo interromper a perseguição.
Agora finalmente sabemos melhor o que aconteceu durante aqueles minutos.
Os membros da Ordem da Fênix e professores enfrentaram os Comensais da Morte.
Algumas pessoas saíram relativamente bem.
Outras não.
E entre os feridos está Gui Weasley.
Capítulo V — Greyback atacou Gui
Gui foi atacado por Fenrir Greyback.
E isso imediatamente cria uma preocupação enorme.
Greyback não é simplesmente um lobisomem qualquer.
Nós já conhecemos sua história.
Foi ele quem atacou Lupin quando Lupin ainda era criança.
Ele escolhe vítimas deliberadamente.
Transforma a licantropia numa arma.
Só que existe uma diferença importante neste ataque.
Greyback não estava transformado quando atacou Gui.
Portanto, ninguém sabe exatamente quais serão as consequências.
Gui está vivo.
Mas seu rosto foi gravemente ferido.
E existe o medo de que algum aspecto da condição de Greyback possa ter sido transmitido mesmo assim.
É mais uma consequência física da guerra.
Hogwarts foi invadida.
Dumbledore morreu.
E outras pessoas carregam agora no corpo aquilo que aconteceu naquela noite.
Capítulo VI — Fleur
E então acontece uma cena que gostei bastante.
Porque existe uma expectativa sobre Fleur.
Gui está desfigurado.
Existe a possibilidade de carregar consequências permanentes do ataque de Greyback.
Molly, que nunca pareceu acreditar completamente naquele relacionamento, praticamente presume que talvez agora Fleur não queira mais se casar com ele.
Fleur reage quase ofendida.
Aquilo não muda nada.
Ela continua querendo Gui.
Continua amando Gui.
E a ideia de abandoná-lo porque seu rosto foi destruído simplesmente não faz sentido para ela.
Na verdade, é uma cena que finalmente desmonta boa parte da imagem superficial que os Weasley construíram sobre Fleur.
Ela pode ser vaidosa.
Pode ser arrogante.
Pode irritar Molly e Gina.
Mas seu relacionamento com Gui não era superficial.
Foi preciso que Gui perdesse parte da aparência para que os outros percebessem que Fleur nunca esteve com ele apenas por causa dela.
Capítulo VII — E então Tonks explode
Mas a conversa sobre Fleur e Gui produz outra revelação.
Tonks.
Durante praticamente todo o livro existe alguma coisa errada com ela.
Tonks perdeu aquela energia que possuía em A Ordem da Fênix.
Seu cabelo perdeu as cores.
Ela parece abatida.
Triste.
Distante.
Seu Patrono mudou.
Lupin já havia explicado a Harry que grandes alterações emocionais poderiam modificar um Patrono.
Harry tentou montar sua própria teoria.
Pensou em Sirius.
Imaginou que Tonks pudesse ter sido apaixonada por ele e que sua morte tivesse provocado aquela transformação.
Não era Sirius.
Era Lupin.
Capítulo VIII — Tonks ama Lupin
Finalmente tudo faz sentido.
Tonks está apaixonada por Remo Lupin.
E Lupin está tentando afastá-la.
Não porque não exista sentimento.
Mas porque acredita que ele próprio não deveria estar com ela.
Lupin se considera velho demais.
Pobre demais.
E perigoso demais.
É lobisomem.
Carrega uma condição que marcou praticamente toda sua vida.
E acredita que Tonks deveria escolher alguém melhor.
Só existe um pequeno problema nessa lógica.
Tonks não quer outra pessoa.
Ela quer Lupin.
E isso torna toda aquela história que acompanhamos silenciosamente durante o livro muito mais clara.
O Patrono.
O cabelo.
A tristeza.
A mudança de comportamento.
Tudo estava ligado a ele.
Capítulo IX — “Velho demais, pobre demais, perigoso demais”
A justificativa de Lupin combina perfeitamente com o personagem que conhecemos.
Ele não diz simplesmente que não ama Tonks.
Seu argumento é que ela merece algo melhor.
E existe algo profundamente triste nisso.
Porque Lupin passou a vida inteira sendo tratado como alguém que deveria permanecer à margem.
Sua condição dificultou trabalho.
Dificultou estabilidade.
Dificultou pertencimento.
Agora essa exclusão parece ter sido incorporada pelo próprio Lupin.
Ele não precisa mais que outra pessoa diga que não é adequado para Tonks.
Ele mesmo diz.
Velho demais.
Pobre demais.
Perigoso demais.
Lupin praticamente constrói uma lista de motivos pelos quais acredita não merecer ser escolhido.
Tonks responde da maneira mais simples possível:
a escolha é dela.
Lupin passou tanto tempo ouvindo do mundo aquilo que não poderia ter que começou a recusar sozinho até aquilo que alguém decidiu livremente oferecer.
Capítulo X — Fleur e Tonks estão dizendo a mesma coisa
E gosto muito de essas duas situações aparecerem juntas.
Gui foi atacado por Greyback.
Seu rosto mudou.
Existe medo sobre aquilo que o ataque poderá causar.
Mesmo assim, Fleur diz que continua querendo se casar com ele.
Lupin é um lobisomem.
É pobre.
É mais velho.
Acredita representar um risco.
Mesmo assim, Tonks diz que o quer.
São duas mulheres diante de dois homens marcados, de maneiras diferentes, por Greyback.
E ambas estão dizendo praticamente a mesma coisa:
você não decide por mim aquilo que eu sou capaz de amar.
A diferença é que Gui aceita o amor de Fleur.
Lupin ainda tenta decidir por Tonks que ela deveria procurar outra pessoa.
Talvez por isso a cena de Fleur funcione quase como um argumento vivo contra Lupin.
Capítulo XI — O Patrono finalmente faz sentido
E finalmente podemos voltar a uma das pequenas perguntas que o livro deixou desde o começo.
Por que o Patrono de Tonks mudou?
Agora sabemos.
Harry interpretou a pista corretamente até certo ponto.
A mudança realmente estava ligada a uma transformação emocional profunda.
Ele apenas escolheu a pessoa errada.
Não era o luto romântico por Sirius.
Era Lupin.
E isso também mostra como Rowling deixou esse mistério acontecendo silenciosamente enquanto nossa atenção estava completamente voltada para Draco, Snape, Dumbledore e Voldemort.
Não era uma questão central.
Mas estava ali o tempo inteiro.
Capítulo XII — E Hogwarts?
Enquanto todos tentam reconstruir aquilo que aconteceu, surge uma questão muito maior.
O que acontece agora com Hogwarts?
Dumbledore morreu.
Comensais da Morte conseguiram invadir o castelo.
Alunos estiveram no meio de uma batalha.
Professores e membros da Ordem precisaram enfrentar invasores dentro da escola.
A ideia de Hogwarts como lugar protegido foi destruída.
O Ministro da Magia virá ao castelo.
Os professores precisam discutir o futuro da escola.
E ninguém sabe sequer se Hogwarts continuará funcionando.
Isso é enorme.
Porque durante toda a saga Hogwarts foi muito mais do que uma escola.
Foi a casa de Harry.
Foi o lugar para onde ele sempre voltou.
Foi praticamente o símbolo de que existia um espaço onde Voldemort não controlava tudo.
Agora Dumbledore morreu dentro dela.
Os Comensais entraram nela.
E ninguém consegue garantir que ainda seja seguro permanecer ali.
A morte de Dumbledore não deixou apenas uma cadeira vazia na direção. Deixou Hogwarts sem a certeza de que suas paredes ainda significam proteção.
Capítulo XIII — O capítulo depois da explosão
Talvez por isso eu não tenha tanto a dizer sobre o capítulo 29.
Ele não possui uma grande revelação comparável aos capítulos anteriores.
Não possui uma perseguição.
Não possui uma Horcrux.
Não possui uma grande batalha acontecendo diante de Harry.
Não possui outro Avada Kedavra.
Ele é o capítulo depois da explosão.
Aquele em que olhamos ao redor e contamos os danos.
Quem está vivo?
Quem está ferido?
Como os Comensais entraram?
O que aconteceu em cada corredor?
Quem viu o quê?
O que acontecerá com Hogwarts?
E talvez fosse impossível continuar a história sem esse momento.
Depois de tanta coisa acontecendo tão rapidamente, alguém precisava juntar as peças.
Considerações Finais
O capítulo 29 é basicamente um capítulo de consequências.
Dumbledore continua morto.
E talvez essa seja a informação que torna todo o restante quase secundário.
Os personagens reconstroem a invasão.
Descobrem como os Comensais entraram.
Contam suas partes da batalha.
Descobrimos quem foi ferido.
Sabemos que o Ministro da Magia irá até Hogwarts.
E surge uma pergunta que seria impensável durante boa parte da saga:
Hogwarts continuará aberta?
A escola sobreviveu fisicamente à invasão.
Mas perdeu aquilo que talvez fosse sua maior proteção.
Dumbledore.
A grande novidade emocional do capítulo acaba ficando com Tonks e Lupin.
E finalmente todas aquelas pequenas pistas fazem sentido.
A Tonks abatida.
Seu cabelo sem cor.
Seu comportamento.
O Patrono diferente.
Harry estava certo ao perceber que existia uma causa emocional.
Só estava errado sobre Sirius.
Era Lupin.
E achei especialmente boa a maneira como essa revelação aparece ao lado de Fleur e Gui.
Greyback marcou a vida de Lupin quando ele ainda era criança.
Agora marcou fisicamente Gui.
Lupin acredita que sua condição o torna inadequado para Tonks.
Gui poderia imaginar que suas novas cicatrizes o tornariam menos desejável para Fleur.
Mas Fleur escolhe Gui.
Tonks escolhe Lupin.
Talvez seja uma pequena resposta emocional a um capítulo dominado pela perda.
Enquanto Voldemort e seus seguidores deixam Hogwarts espalhando morte, medo e feridas, algumas pessoas respondem às próprias cicatrizes se recusando a abandonar umas às outras.
Ainda assim, nada consegue retirar o peso central do capítulo.
Dumbledore está morto.
E agora todos precisam começar a descobrir como será o mundo depois dele.
O capítulo 29 não precisa criar outra tragédia. Sua função é muito mais silenciosa: obrigar todos a olhar para aquilo que restou depois da anterior.


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