Entre Gatilhos e Invisibilidade
Reflexões de quem carrega memórias que já não deveriam pesar.
Hoje eu me peguei pensando sobre gatilhos. Sobre como algo que já foi bom pode se tornar sufocante. Como uma música que trazia conforto pode se transformar em incômodo. E como, com o tempo, tudo que antes significava tanto... simplesmente se apaga.
Eu costumo seguir em frente. Me desapego. Uma música que me lembrava alguém, depois de um tempo, vira apenas música. Um lugar, apenas cenário. Não que isso aconteça do dia pra noite. Às vezes demora, dói, mas acontece. E eu consigo dizer, com certa tranquilidade, que hoje não há mais nada vinculado a pessoas que já se foram. Nada que me prenda. Nenhuma memória que ainda seja corrente.
O problema — ou a dor — é estar do outro lado disso. É conviver com quem ainda não conseguiu quebrar esses laços. E talvez nem queira.
Já estive com pessoas que carregavam seus passados como se fossem mochilas eternas. Cada gesto meu despertava um reflexo antigo. Uma lembrança que não era minha. Um toque que não tocava no presente, mas em alguém que esteve ali antes de mim. Era como sentar ao lado de alguém e sentir que, de fato, havia mais alguém entre nós. Mesmo que invisível.
E então eu comecei a me apagar. Aos poucos. Tentando evitar palavras, silenciar reações, moldar minha presença para não despertar dores que nem eram minhas. Entrei em pequenas gaiolas, uma por uma. Cada passo medido. Cada riso contido. Cada afeto filtrado por memórias que não eram minhas — mas que me cercavam como fantasmas.
É difícil construir qualquer coisa onde tudo já está ocupado por ruínas antigas. Onde a pessoa ao seu lado está mais presa ao passado do que disposta a viver o presente. E o mais triste é perceber que, por mais que você tente, por mais que se entregue, você nunca será lembrança. Nunca será página. Nem rodapé.
O que fica, no fim, é a sensação de ter sido apenas uma interferência. Um eco breve. Alguém que tentou entrar, mas chegou tarde demais, quando todos os lugares já estavam ocupados.
E essa talvez seja uma das formas mais profundas de solidão: estar ao lado de alguém e, mesmo assim, se sentir como se nunca tivesse realmente existido ali.


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