Capítulo I — Finalmente entramos na caçada
Finalmente chegamos àquilo para que O Enigma do Príncipe parece ter preparado Harry durante praticamente o livro inteiro.
Harry e Dumbledore estão indo atrás de uma Horcrux.
Não existe mais Penseira.
Não existe mais lembrança.
Não existe mais Tom Riddle sendo observado à distância.
Agora Harry está entrando fisicamente em um lugar que pertence à história de Voldemort.
Dumbledore aparata com Harry e os dois chegam a um lugar extremamente inóspito.
Rochas.
Mar.
Escuridão.
Uma paisagem que parece naturalmente hostil antes mesmo de qualquer magia aparecer.
E Dumbledore imediatamente conecta aquele lugar a uma das lembranças que mostrou anteriormente.
Foi ali que Tom Riddle trouxe duas crianças do orfanato.
Foi ali que alguma coisa aconteceu com elas.
E agora, olhando para o lugar, fica ainda mais evidente que Tom provavelmente só conseguiu chegar até aquela caverna quando criança porque já sabia utilizar sua magia de maneiras muito além do normal.
Dumbledore passou o ano mostrando a Harry lugares importantes na memória de Tom Riddle. Agora os dois estão caminhando dentro de um deles.
Capítulo II — Primeiro, é preciso vencer a natureza
A chegada já é difícil.
Harry e Dumbledore precisam descer, entrar no mar e nadar até a caverna.
Não existe uma entrada confortável esperando por eles.
Não existe caminho preparado.
E isso torna ainda mais perturbador imaginar Tom Riddle criança levando outras duas crianças até ali.
Ele não escolheu um lugar qualquer para assustá-las.
Escolheu um lugar isolado.
Difícil.
Perigoso.
Um lugar onde ninguém poderia ajudá-las.
Mas depois que Harry e Dumbledore finalmente atravessam essa primeira barreira, alguma coisa muda.
Até aquele ponto, o obstáculo era a natureza.
A partir dali, o obstáculo passa a ser Voldemort.
E suas defesas são muito mais interessantes.
Capítulo III — A entrada que não existe
A primeira proteção é simples apenas na aparência.
Não existe porta.
Não existe passagem visível.
A entrada está magicamente escondida.
Dumbledore, porém, consegue encontrá-la.
E então descobre o preço exigido para atravessar.
Sangue.
A parede exige um tributo.
Dumbledore corta a própria mão e oferece o sangue necessário para abrir a passagem.
Harry naturalmente se incomoda.
Mas Dumbledore percebe alguma coisa sobre a lógica daquela defesa.
Voldemort considera o ato de ferir outra pessoa algo insignificante.
Por isso, para ele, obrigar um invasor a pagar com sangue provavelmente representa apenas mais uma forma de humilhação e crueldade.
E gosto muito de como as proteções começam a revelar o próprio Voldemort.
Não são apenas obstáculos mágicos.
Existe personalidade nelas.
As melhores fortalezas dizem alguma coisa sobre quem as construiu. A de Voldemort começa exigindo dor como preço de entrada.
Capítulo IV — O lago
Depois da entrada, Harry e Dumbledore chegam diante de um enorme lago subterrâneo.
Existe uma luz estranha no centro.
Alguma coisa está lá.
Dumbledore imediatamente avisa Harry:
não entre na água.
Naturalmente, isso já significa que existe alguma coisa terrível nela.
E pouco a pouco descobrimos o quê.
Existem corpos no lago.
Muitos corpos.
Cadáveres esperando debaixo da superfície.
Inferi.
Mortos reanimados por magia e colocados ali como mais uma defesa da Horcrux.
Isso é muito Voldemort.
Até cadáveres são transformados em ferramentas.
Não existe respeito.
Não existe humanidade.
Existe apenas utilidade.
Capítulo V — O barco escondido
Dumbledore começa a procurar uma maneira de atravessar o lago sem tocá-lo.
E encontra outra magia oculta.
Um pequeno barco.
A embarcação estava escondida e precisa ser chamada até eles.
Novamente fica claro que Voldemort não esperava simplesmente que ninguém encontrasse aquele lugar.
Ele criou um caminho.
Mas um caminho que exige conhecimento mágico suficiente para ser descoberto.
Dumbledore consegue.
Os dois entram no barco e começam a atravessar o lago.
E abaixo deles existem dezenas, talvez centenas, de cadáveres esperando.
A viagem é silenciosa.
A luz continua à frente.
E Harry sabe que não pode tocar na água.
É uma das sequências mais claustrofóbicas do livro até aqui.
Capítulo VI — A Horcrux está diante deles
Finalmente chegam à pequena ilha no centro do lago.
Ali existe um recipiente semelhante a uma bacia de pedra.
Dentro dele há um líquido estranho.
E alguma coisa parece estar no fundo.
A Horcrux.
Finalmente.
Depois de capítulos estudando objetos.
Depois das memórias.
Depois da descoberta sobre Slughorn.
Depois de descobrir o significado das Horcruxes.
Harry está literalmente diante de uma delas.
Só existe um problema.
Não é possível alcançá-la.
Harry e Dumbledore não conseguem retirar o líquido.
Não conseguem fazê-lo desaparecer.
Não conseguem simplesmente pegar aquilo que está embaixo.
A magia foi construída para impedir qualquer atalho.
Dumbledore finalmente entende a regra.
Existe apenas uma maneira.
Alguém precisa beber.
Capítulo VII — “Você me deu sua palavra, Harry”
Antes de começar, Dumbledore exige uma promessa de Harry.
Não importa o que aconteça.
Não importa aquilo que Dumbledore diga.
Não importa o quanto peça para parar.
Harry precisa obrigá-lo a continuar bebendo.
E Harry dá sua palavra.
Esse detalhe transforma completamente aquilo que vem depois.
Porque inicialmente parece apenas uma precaução.
Então Dumbledore começa a beber.
E entendemos por que aquela promessa era necessária.
Dumbledore não pediu que Harry o protegesse da poção. Pediu algo muito pior: que o impedisse de fugir do sofrimento quando ele próprio começasse a implorar para parar.
Capítulo VIII — Dumbledore quebrado
No começo, Dumbledore ainda consegue beber sozinho.
Depois, tudo começa a mudar.
A poção provoca sofrimento.
Medo.
Desespero.
Talvez alucinações.
Talvez lembranças.
Não sabemos exatamente o que Dumbledore está vendo.
Sabemos apenas que é terrível.
Aquele homem que durante praticamente toda a saga pareceu impossível de abalar começa a implorar.
Quer parar.
Pede que aquilo termine.
Sofre.
E Harry precisa continuar.
Precisa colocar mais poção em sua boca.
Precisa ignorar seus pedidos.
Precisa cumprir a promessa.
Essa talvez seja uma das situações mais cruéis em que Dumbledore poderia colocar Harry.
Porque Harry está ajudando justamente ao continuar causando sofrimento.
Às vezes cumprir uma promessa significa fazer exatamente aquilo que, naquele momento, todas as partes de nós gostariam de interromper.
Capítulo IX — A inversão entre professor e aluno
Existe uma mudança muito forte acontecendo aqui.
Durante toda a jornada, Dumbledore conduziu Harry.
Dumbledore encontrou a entrada.
Dumbledore compreendeu o tributo de sangue.
Dumbledore descobriu o barco.
Dumbledore identificou as proteções.
Dumbledore entendeu como alcançar a Horcrux.
Harry estava aprendendo.
Agora Dumbledore mal consegue continuar consciente.
E Harry precisa assumir.
O professor que sempre pareceu saber o que fazer agora depende completamente do aluno.
A aula terminou.
Harry precisa agir.
Capítulo X — Água
Quando finalmente termina de beber toda a poção, Dumbledore está desesperadamente sedento.
Ele pede água.
Harry tenta produzi-la magicamente.
Consegue conjurá-la.
Mas a água desaparece antes que Dumbledore possa bebê-la.
Tenta novamente.
Não funciona.
E então Harry percebe a próxima armadilha.
Existe água em abundância naquele lugar.
Está por todos os lados.
Mas existe apenas uma fonte que Voldemort permite que alguém utilize.
O lago.
Aquele mesmo lago que Dumbledore mandou Harry não tocar.
É uma defesa muito bem construída.
A poção produz uma sede desesperadora.
A magia impede que a vítima consiga beber água conjurada.
E a única água disponível obriga alguém a tocar exatamente no lugar onde estão os Inferi.
Uma armadilha aciona a próxima.
Capítulo XI — Os mortos acordam
Harry se aproxima do lago para conseguir água.
E os cadáveres acordam.
Os Inferi começam a sair da água.
Harry tenta lutar.
Utiliza diferentes feitiços.
Mas muitos deles simplesmente não possuem o efeito esperado.
Até Sectumsempra se torna praticamente inútil.
E isso faz todo sentido.
Sectumsempra corta.
Faz uma pessoa sangrar.
Mas aqueles corpos já estão mortos.
Não existe sangue circulando.
Não existe organismo vivo para sofrer aquele tipo de ferimento da mesma maneira.
Harry está tentando aplicar regras de combate contra seres para os quais essas regras não funcionam.
Capítulo XII — Hogwarts Legacy acertou os Inferi
E aqui tive imediatamente uma lembrança de Hogwarts Legacy.
Desta vez, diferente da oportunidade desperdiçada com Felix Felicis, o jogo conseguiu transportar muito bem uma característica apresentada nos livros.
Existem Inferi em Hogwarts Legacy.
E quando encontramos essas criaturas, rapidamente aprendemos que não adianta simplesmente atacá-las como qualquer outro inimigo.
É preciso fogo.
Os feitiços incendiários são fundamentais para torná-los vulneráveis e realmente enfrentá-los de maneira eficiente.
Por isso, quando Dumbledore havia mencionado anteriormente a fraqueza dos Inferi ao fogo e Harry esquece justamente dessa informação no momento do pânico, minha cabeça voltou imediatamente para o jogo.
É exatamente a lógica que eu já havia experimentado jogando.
Contra outros inimigos podemos variar muito mais os ataques.
Contra Inferi, sempre preciso manter algum feitiço de fogo disponível.
E isso faz a adaptação funcionar muito melhor porque não é apenas uma referência estética.
A característica da criatura altera a maneira como precisamos lutar contra ela.
Uma adaptação funciona melhor quando não apenas mostra uma regra daquele universo, mas obriga o jogador a aprender a respeitá-la.
Capítulo XIII — Dumbledore volta
Harry começa a ser dominado.
Os Inferi avançam.
E Dumbledore ainda parece completamente debilitado.
Por alguns instantes, a situação parece perdida.
Então Dumbledore retorna.
Mesmo destruído pela poção.
Mesmo praticamente sem forças.
Mesmo depois de tudo aquilo que acabou de sofrer.
Ele ergue sua varinha.
E cria fogo.
Não um pequeno feitiço.
Um círculo de chamas envolve Harry e Dumbledore.
Os Inferi recuam.
E aqui temos novamente uma demonstração da diferença entre saber que uma criatura possui determinada fraqueza e possuir domínio mágico suficiente para explorar essa fraqueza de maneira devastadora.
Harry sabia sobre o fogo.
No pânico, esqueceu.
Dumbledore, quase inconsciente, ainda consegue transformar essa informação em uma muralha de chamas.
Capítulo XIV — Eles conseguiram
Harry e Dumbledore conseguem voltar ao barco.
Atravessam novamente o lago.
Deixam os Inferi para trás.
Saem da caverna.
E levam consigo aquilo que foram buscar.
A Horcrux.
A missão aparentemente foi cumprida.
Mas o preço foi enorme.
Dumbledore está extremamente debilitado.
Aquele homem que trouxe Harry até ali agora mal consegue sair por conta própria.
E novamente acontece a inversão.
Na chegada, Dumbledore trouxe Harry.
Na saída, Harry precisa levar Dumbledore.
Eles entraram na caverna como professor e aluno. Saem dela com o aluno sustentando o homem que o levou até ali.
Capítulo XV — As defesas de Voldemort são um retrato dele
O que mais gostei nesse capítulo foram as defesas da Horcrux.
Porque nenhuma delas parece aleatória.
Primeiro, sangue.
Depois, isolamento.
Depois, cadáveres transformados em ferramentas.
Depois, uma poção que provoca sofrimento psicológico.
Depois, uma sede que força a vítima a acionar outra armadilha.
Tudo parece construído para humilhar, aterrorizar e fazer sofrer.
Voldemort poderia simplesmente ter criado uma porta extremamente resistente.
Mas isso seria impessoal demais.
Suas proteções parecem exigir que o invasor pague emocionalmente por cada metro conquistado.
E existe algo ainda mais interessante.
A Horcrux está escondida justamente no lugar onde Tom Riddle criança já havia descoberto que gostava de exercer poder sobre pessoas vulneráveis.
A caverna não é apenas esconderijo.
É memória.
É troféu.
É monumento.
Exatamente como Dumbledore vinha ensinando Harry a compreender.
Considerações Finais
O capítulo 26 talvez seja a maior confirmação até agora de que todas aquelas aulas de Dumbledore eram necessárias.
Sem conhecer Tom Riddle, a caverna seria apenas uma caverna.
Agora sabemos por que aquele lugar importa.
Sem conhecer a obsessão de Voldemort por transformar objetos e lugares importantes em símbolos de sua própria grandeza, seria praticamente impossível imaginar onde procurar uma Horcrux.
Agora Harry consegue acompanhar o raciocínio.
Mas existe uma diferença enorme entre compreender Voldemort dentro da Penseira e atravessar suas defesas no mundo real.
Na Penseira, Harry era observador.
Na caverna, sangra.
Sente medo.
Luta.
Precisa obrigar Dumbledore a continuar bebendo uma poção que claramente o destrói por dentro.
Precisa enfrentar mortos.
E finalmente precisa sustentar o próprio Dumbledore para que os dois consigam sair dali.
Também gostei muito da maneira como o capítulo utiliza regras mágicas já estabelecidas.
Os Inferi não são simplesmente zumbis mágicos.
Possuem características próprias.
Feitiços utilizados contra seres vivos não funcionam necessariamente contra eles.
O fogo é sua grande fraqueza.
E Hogwarts Legacy, nesse ponto, conseguiu transportar essa característica para a jogabilidade de uma maneira que faz bastante sentido depois de ler esta sequência.
Mas o que mais me preocupa é o estado de Dumbledore.
Eles conseguiram aquilo que foram buscar.
Só que Dumbledore saiu da caverna quase destruído.
E existe outra coisa que não consigo esquecer.
Antes de Harry sair de Hogwarts, Trelawney havia praticamente confirmado que Draco finalmente conseguiu terminar aquilo que estava consertando.
Harry deixou Rony e Hermione com o Mapa do Maroto.
Dumbledore está fora do castelo.
Agora está extremamente debilitado.
E Harry precisa levá-lo de volta.
Depois de tudo que aconteceu dentro da caverna, seria confortável acreditar que o pior ficou para trás.
O problema é que o capítulo anterior deixou uma ameaça esperando exatamente no lugar para onde eles estão voltando.
Harry entrou na caverna protegido por Dumbledore. Sai dela carregando Dumbledore — e voltando para um Hogwarts onde Draco Malfoy aparentemente acabou de concluir seu plano.





