Papo na Fogueira – A Fogueira Que Não Veio (Julho)
Julho começou gelado. E dessa vez, o frio também acendeu silêncios.
1. Introdução
Nova fogueira vazia. Julho se iniciou extremamente frio — e esta frieza não se encontra apenas no clima. O número de imprevistos da vida adulta tem crescido e, com isso, nossos encontros ao redor da fogueira acabaram entrando numa pausa involuntária.
Costumo chamar pausas assim de pausas da sorte. Minha mente anda extremamente pesada nesses últimos dias, e acredito que, se a reunião tivesse ocorrido, eu teria sido uma presença com pouca contribuição às nossas questões filosóficas. O cansaço mental tem sido profundo, a ponto de me fazer duvidar se consigo realmente organizar meus próprios pensamentos.
2. Julho, perdas e silêncio
Junho é, para mim, um mês marcado por perdas. E neste ano não foi diferente. Há uma pergunta recorrente que me persegue nesses momentos: “Qual é o meu lugar na vida das pessoas?” — e ainda que seja uma pergunta difícil, ela insiste em bater à porta nos períodos de dor emocional.
Bauman nos fala sobre a sociedade líquida e descartável das redes sociais, onde afastar-se de alguém se tornou tão simples quanto um clique. Já me aconteceu isso milhares de vezes. E, ainda assim, é engraçado perceber o quanto ainda me incomoda. Como pessoas que não deveriam ter mais relevância emocional ainda conseguem me atingir?
“Às vezes me pergunto por que perdi minutos preciosos da minha existência com pessoas que só me drenaram.”
Não estou falando da fogueira. Esse tipo de relação é outra coisa. Aqui, a vida vale mais a pena. As conversas são edificantes. Aqui não existe liquidez — existe permanência.
3. A terça que virou ritual
Apesar da ausência de fogo e vozes, mantive meu ritual. As terças-feiras tornaram-se um momento sagrado de introspecção. Mesmo quando estou sozinho, a terça é dia de parar. De lembrar o que foi a semana. De pesar ônus e bônus, revezes e vitórias.
É estranho como, mesmo ausentes, Alexandre e André permanecem. Consigo imaginar as perguntas que fariam, os comentários que soltariam, os olhares que lançariam para as entrelinhas que, sozinho, talvez eu não enxergasse. A fogueira não aconteceu, mas a terça ainda existiu. E foi de pensamento.
“Semanalizar a vida foi uma das dádivas que o fogo me deu. E mesmo sozinho, continuo voltando para essa clareira invisível.”
4. Conclusão
Hoje, a fogueira não acendeu. E talvez tenha sido melhor assim. Não por desistência, mas por respeito. À pausa. À mente. Ao frio que vem de fora — e o que vem de dentro. Na próxima terça, voltaremos. E talvez, com o coração um pouco mais aquecido, eu consiga compartilhar não apenas silêncios, mas novas reflexões.
Que essa ausência também seja parte do ritual.
Publicado como parte da série “Papo na Fogueira”, uma tradição semanal de conversas filosóficas, pausas necessárias e reflexões ao redor do fogo — mesmo quando ele não acende.


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