Gamertag

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Hogwarts, Anos Depois

Sobre chegar tarde a alguns mundos — e ainda assim encontrar algo que valha a pena.

Capítulo 1 – Um presente inesperado

No final do ano, a Epic nos presenteou com algo que, à primeira vista, parecia apenas mais uma gratuidade: Hogwarts Legacy, um jogo ambientado no universo de Harry Potter.

Mas Harry Potter, para mim, nunca foi “apenas” um universo. Sempre foi um território sensível. Ambíguo. Um lugar onde coisas boas e ruins se misturam de um jeito que não dá para ignorar.

Não é exagero dizer que eu me aproximei desse jogo com cautela. Não por desinteresse, mas por histórico.

“Alguns mundos não rejeitamos. Apenas chegamos a eles no momento errado.”

Capítulo 2 – Quando tudo passou por mim sem tocar

Quando os livros de Harry Potter começaram a sair, e depois os filmes, nada daquilo me chamou atenção. Não houve rejeição consciente, nem crítica elaborada. Simplesmente… não bateu.

Eu estava em outro momento da vida. Outras urgências. Outras obsessões. Outros vazios. E aquele universo mágico, que para tanta gente se tornou refúgio, para mim passou como um trem que não precisei pegar.

O tempo passou. Muito tempo.

Capítulo 3 – Um reencontro mediado pelo afeto

Anos depois — por volta de 2021 ou 2022 — foi minha filha quem me convidou para assistir aos filmes. Todos já estavam lançados. Não havia mais expectativa coletiva, apenas a experiência.

Assistimos juntos.

E isso, por si só, já muda tudo. Porque mesmo quando uma obra não nos atravessa profundamente, o contexto em que ela acontece pode salvá-la da indiferença.

Guardo boas memórias desse período. Não pelo impacto da história, mas pelo vínculo. Pela presença. Pelo gesto de estar ali.

Ainda assim, algo não encaixava. Minha vida, naquele momento, estava conturbada demais. Os filmes passaram por mim sem criar raízes. Não revi. Não aprofundei. Não busquei mais.

“Às vezes, o problema não é a obra. É o caos em volta dela.”

Capítulo 4 – Quando um universo vira ferida

Depois disso, minha relação com Harry Potter piorou. Não por culpa da obra em si, mas por decisões erradas minhas — aqueles descuidos inexplicáveis que às vezes temos com a própria vida.

Eu me vi em um lugar onde não estava protegido. Onde algo que deveria ser neutro virou gatilho. Harry Potter deixou de ser um universo distante e passou a ser uma presença desconfortável.

Como uma facada mal posicionada. Que dói para manter. Que dói mais ainda para tirar.

Evitei. Me afastei. Segui.

Capítulo 5 – O jogo como território seguro

E então chegamos ao jogo.

Instalei Hogwarts Legacy sem grandes pretensões. Curiosidade técnica, talvez. Um “vamos ver como é”. Nenhuma expectativa emocional.

E, pouco a pouco, algo aconteceu.

O jogo me divertiu. Me acolheu. Me ofereceu um universo onde eu podia estar sem dor. Sem peso. Sem cobrança de repertório.

Mesmo sem captar todas as referências dos livros ou dos filmes, o ambiente funcionou. A exploração. O ritmo. A sensação de pertencimento gradual.

Eu me senti bem.

“Às vezes, precisamos de uma nova porta para entrar em um lugar antigo.”

Capítulo 6 – Quando a diversão vira permanência

Fui jogando. Fui entendendo a história. Fui gostando.

Terminei a campanha principal. Avancei por várias linhas de sidequests. Aprendi todos os feitiços. Estou prestes a alcançar o nível máximo, o level 40.

E posso dizer, sem exagero: foi uma experiência extremamente divertida.

Mais do que isso — foi uma experiência segura. Um espaço onde pude existir sem precisar enfrentar fantasmas antigos, na verdade até tem fantasmas antigos, porém de Hogwards, não os meus.

Capítulo 7 – Ambivalência não resolvida

Minha relação com Harry Potter continua ambígua. Não virou amor instantâneo. Não virou devoção tardia.

Mas pode deixar de ser dor.

E isso, por si só, já é enorme.

O jogo despertou curiosidade. Resgatou interesse. Reabriu uma porta que eu mantinha fechada não por convicção, mas por autoproteção.

“Crescer também é permitir que algumas coisas mudem de lugar.”

Capítulo 8 – 2026 e a decisão de ler

Por isso, decidi que começarei 2026 com uma decisão curiosa: ler os livros.

Não por obrigação cultural. Não para “entender tudo”. Mas porque agora, talvez, eu esteja pronto.

Muito provavelmente, na primeira semana de 2026, iniciarei o primeiro livro de Harry Potter.

Não sei o que vou sentir. Não sei se vou amar. Não sei se vou me afastar de novo.

Mas, desta vez, a escolha é minha — e isso muda tudo.

Alguns universos não nos esperam. Outros, silenciosamente, ficam.

“PS: Será que dá tempo ainda de eu arrumar alguma bruxinha que goste do universo para ao final do primeiro livro vermos o filme juntos?”

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A house is not a home

A saudade às vezes pode ser explicada em apenas uma imagem.

 
Depois de jogar Diablo 3 por quase 2 mil horas no Nintendo Switch não esperava que a experiência no PC fosse me pegar, porém não foi o jogo, foram as pessoas, esse pequeno grupo de pessoas jogando um jogo que a aquela altura já estava pra lá de velho, porém nem tudo se explica.

Uma vez ouvi Lionel citando uma frase de seu pai: 

"Aproveite a volta pra casa,
porque um dia não poderá mais fazer isso. 
A casa não vai sair do lugar,
mas as pessoas podem não mais estar lá."
 
É o mesmo aqui, o jogo ainda está lá.. 
a temporada ainda acontece, 
mas o Shaolin não estará online para falarmos de builds e lore, 
o Faísca não vai entrar para fazermos fendas e mais fendas, 
eu não repetirei a minha piada recorrente de Sarahp...

Tudo isso ficou por 2021, um ano que começou enlouquecedor e terminou "casa".
 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 8

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 8

Quando o fim não é encerramento, mas confirmação de um ciclo que se recusa a morrer.

Capítulo 1 – O silêncio depois do choque

Eu honestamente achei que nada mais poderia me fazer sentir o que senti após o episódio anterior. Achei que o impacto máximo já havia sido alcançado. Eu estava errado.

Terminei o episódio 8 em um estado que raramente experimentei assistindo uma série: em choque absoluto, sem palavras, apenas sentado em silêncio. E é desse silêncio que este texto nasce.

Curiosamente, diferente da devastação emocional do episódio passado, aqui há algo novo: uma sensação estranha de completude. Não de conforto — mas de fechamento. Como se algo tivesse sido finalmente entendido, mesmo que não resolvido.

“Algumas histórias não nos confortam. Elas apenas nos explicam.”

Capítulo 2 – A fé que quase se perdeu

Preciso admitir algo: lá pelo terceiro episódio, eu comentei sobre o ritmo seguir extremamente lento. Não que fosse ruim, mas parecia hesitante. Como se ainda estivesse procurando sua identidade.

O que fica claro agora é que os criadores sabiam exatamente o que estavam fazendo. É como se tivessem assistido ao próprio material, reconhecido o problema e ajustado o curso. Desde então, cada episódio foi uma escalada — e este é o ápice.

Sem exagero: este é, até agora, o melhor episódio de qualquer série que eu assisti neste ano.

Capítulo 3 – O tempo não existe para a Coisa

Tudo o que achávamos saber sobre esse universo muda aqui. De forma definitiva.

A revelação de que a Coisa não enxerga o tempo como nós é simplesmente genial. Não se trata de viagem temporal barata. É uma lógica divina, coerente com uma entidade cósmica: tudo acontece ao mesmo tempo.

O que a Coisa vive em um ponto do tempo, ele sabe em todos os outros.

E é aí que tudo se encaixa: ela vai atrás dessas crianças porque elas são sua única chance de sobrevivência no futuro, contra o Clube dos Perdedores.

“Para quem vive fora do tempo, passado e futuro são apenas variações da mesma dor.”

Capítulo 4 – “Margaret Tozier” e o momento em que tudo vira de cabeça para baixo

Uma confissão, eu vi essa reviravolta chegando.

Quando Pennywise diz “Margaret Tozier”, eu literalmente vibrei. É o tipo de revelação que não apenas surpreende — ela reorganiza tudo o que veio antes.

Richie passa a ter presença concreta. Não apenas como memória, mas como força narrativa. E isso é poderoso.

As falas icônicas retornam. Marge dizendo que quer matar “esse palhaço do caralho”. Frases que ecoam o romance, os filmes, o trauma coletivo.

“Algumas palavras não envelhecem. Elas apenas esperam o momento certo para ferir de novo.”

Capítulo 5 – Hallorann, Overlook e o Kingverso em estado puro

Hallorann aqui é uma celebração explícita do Kingverso. As referências a O Iluminado não são sutis — são assumidas.

“Quanta confusão um hotel pode causar?” é uma piada perfeita. E também um aviso.

Ver Dick enfrentando a Coisa em sua mente foi algo que eu nunca soube que precisava ver. Dois titãs de Stephen King se encarando. Curto, intenso, devastador.

“Algumas batalhas não são vencidas com força. São vencidas com permanência.”

Capítulo 6 – Deadlights, desaparecidos e zombaria

A cena de abertura é Pennywise em sua essência: brincando com a comida antes de aniquilar tudo com os Deadlights.

Mais tarde, os cartazes de desaparecidos no Standpipe não são apenas cenário — são zombaria. Um lembrete cruel às crianças de que ninguém saiu inteiro dali.

Leroy vendo os Deadlights é um detalhe sutil e brilhante. Ele acorda e imediatamente procura Will — porque já viu sua morte.

Essa é a crueldade máxima da Coisa: mostrar antes de tirar.

Capítulo 7 – A amizade como força real

E então vem o final.

O poder da amizade sempre foi central neste universo. Sempre. Mas aqui ele não soa ingênuo. Ele soa necessário.

Quando o espírito de Rich aparece, eu comecei a lacrimejar. Não de tristeza pura, mas de beleza. Ele correndo mais rápido que a Coisa, mostrando o dedo do meio para Pennywise, ajudando a empurrar o artefato de volta… todos sentindo sua presença.

“Alguns laços não terminam com a morte. Eles apenas mudam de forma.”

A Coisa sendo mais uma vez derrotada, em fúria, incapaz de impedir sua própria morte — e renascimento — é poético.

Mais vinte e sete anos.

Capítulo 8 – Funeral, palavras eternas e despedidas necessárias

O funeral de Rich precisava acontecer. E quando Marge começa a falar, eu já sabia.

“Sem bons amigos, sem maus amigos…”

Essa frase sempre me destrói. E aqui, novamente, ela encontra o lugar perfeito.

Ver Dick dizendo aos pais de Rich que estaria com eles para sempre é um dos momentos mais humanos de toda a série.

Capítulo 9 – Beverly Marsh e o ciclo que se fecha

E então, o final verdadeiro.

Ingrid Kersh em Juniper Hill. Joan Gregson retomando seu papel. Outubro de 1988.

Percebemos que Bill Denbrough não foi o único a perder alguém.

E então ela aparece: Beverly Marsh. Sophia Lillis retorna, e eu quase gritei.

Lilly não era sua mãe — e graças a isso, evitamos o pior tipo de retcon. O final de Lilly é honesto, digno, humano.

E a Sra. Kersh consola Beverly, não antes de entregar a frase mais arrepiante da temporada. A mesma que a Coisa repetiria vinte e oito anos depois.

"- Você sabe o que dizem sobre Derry: Todo mundo que morre aqui, não morre de verdade"

“Sua morte foi seu nascimento.”

Capítulo 10 – O fim perfeito de um começo

A música final — o tema de Beverly — fecha tudo com delicadeza.

Se Andy Muschietti estiver preparando um terceiro filme, faz sentido. Mas eu não preciso disso.

Se as próximas temporadas forem tão boas quanto esta, os filmes se tornam começo e fim ao mesmo tempo.

A Coisa está presa em um ciclo que não consegue vencer.

E nós, espectadores, saímos transformados.

Estou extremamente feliz em descobrir esse universo tão incrível.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 7

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 7

Quando o medo deixa de ser surpresa e passa a ser rotina.

Capítulo 1 – O ponto em que o horror deixa de chocar

Chegar ao episódio 7 de Welcome to Derry é perceber que algo mudou. Não na série — mas em nós. O horror já não precisa mais anunciar sua presença. Ele não bate à porta. Ele já mora ali.

Esse episódio funciona menos como impacto e mais como consequência. Tudo o que foi plantado nos capítulos anteriores começa a mostrar seus efeitos. O medo deixa de ser episódico e passa a ser estrutural.

“O verdadeiro terror começa quando o extraordinário vira rotina.”

Capítulo 2 – Derry não reage, Derry absorve

Se antes a cidade parecia apenas indiferente, agora ela se mostra cúmplice. Derry não luta contra a Coisa. Ela se adapta a ela. Absorve suas perdas, normaliza seus desaparecimentos, justifica seus silêncios.

Esse é um ponto fundamental da obra de Stephen King que a série entende muito bem: a cidade é parte do monstro. Não como entidade sobrenatural, mas como organismo social.

O episódio 7 deixa claro que não há mais contraste entre “vida normal” e “horror”. Tudo acontece ao mesmo tempo.

Capítulo 3 – Crianças cansadas de gritar

Algo que me marcou profundamente neste ponto da temporada é a exaustão das crianças. Não é mais pânico. É cansaço. Um desgaste emocional de quem já tentou alertar, explicar, pedir ajuda — e falhou.

Esse é um estágio mais cruel do medo. Quando não se espera mais ser salvo.

“O silêncio não é ausência de voz. É desistência.”

O episódio 7 parece consciente disso. Ele não acelera. Não cria grandes viradas. Ele insiste na sensação de aprisionamento emocional.

Capítulo 4 – O conhecimento como maldição

Se nos episódios anteriores o saber parecia uma possível saída — entender ciclos, reconhecer padrões, identificar símbolos — aqui ele começa a pesar.

Saber demais não protege. Pelo contrário: isola. Quem entende o que está acontecendo passa a carregar uma carga que não consegue dividir.

Essa é uma constante no Kingverso. O dom nunca é só vantagem. Ele afasta, consome, corrói.

Capítulo 5 – A Coisa já não precisa aparecer

Talvez o maior mérito do episódio 7 seja mostrar que a Coisa já venceu em vários níveis. Ela não precisa estar em cena. Não precisa de balões. Não precisa de forma definida.

Ela está na reação dos adultos. Na desconfiança. No olhar que não acredita. Na violência que é ignorada. No medo que não encontra nome.

“Quando o monstro não precisa mais se esconder, ele já venceu.”

Capítulo 6 – Preparação para a queda

O episódio 7 funciona como um grande suspiro antes do impacto final. Ele não entrega catarse. Ele prepara terreno.

É o momento em que entendemos que nem todos vão sobreviver. E que, mesmo os que sobreviverem, não sairão inteiros.

A sensação não é de expectativa. É de aceitação.

Capítulo 7 – Derry não esquece, Derry espera

Se há algo que esse episódio reforça é que Derry não precisa agir. Ela espera. Espera o próximo ciclo. Espera a próxima geração. Espera o próximo silêncio.

O episódio 7 não é sobre revelações. É sobre confirmação.

Confirmação de que o horror aqui não é acidente. É herança.

“Alguns lugares não precisam de monstros novos. Eles apenas reciclam os antigos.”

Capítulo 8 – Quando não há mais volta

Ao final do episódio 7, fica claro que não existe retorno ao ponto inicial. Não há mais inocência possível. Não há mais dúvida.

Welcome to Derry deixa de ser uma série sobre descoberta e passa a ser uma série sobre permanência.

O medo não está chegando.

Ele já ficou.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 6

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 6

Quando as crianças precisam se proteger sozinhas e o medo aprende a vestir normalidade.

Capítulo 1 – “Se protejam”: a frase que nunca se cala

Há uma frase que me persegue desde o primeiro episódio de Welcome to Derry: “se protejam”. Ela aparece repetidamente, quase como um sussurro coletivo, um aviso que ninguém explica por completo. No episódio 6, ela ganha um peso ainda maior.

Não é apenas um conselho. É uma constatação. Em Derry, não há quem proteja as crianças. Então elas precisam aprender a fazer isso sozinhas.

“Em Derry, crescer rápido não é escolha. É mecanismo de sobrevivência.”

Capítulo 2 – Crianças vivendo problemas de adultos

O episódio 6 reforça uma das reflexões mais recorrentes — e mais dolorosas — da obra de Stephen King: as crianças de Derry lidam com problemas que nunca deveriam ser delas.

Violência, negligência, racismo, culpa, loucura institucionalizada. Tudo isso recai sobre personagens que ainda estão tentando entender quem são. A série mostra, mais uma vez, que o verdadeiro terror não começa com a Coisa — ele já estava ali antes.

A entidade apenas se aproveita de um terreno já ferido.

Capítulo 3 – A caixa de Halloran e os ecos de Doutor Sono

Ainda não foi explicitado o que exatamente acontece quando Halloran abre a caixa, mas é impossível não fazer a conexão imediata com Doutor Sono. A ideia de aprisionar visões, fantasmas, horrores — e depois libertá-los — é muito familiar dentro do Kingverso.

Inicialmente, pensei que pudesse ser algo diferente. Talvez ele não tivesse aprisionado entidades, mas memórias, fragmentos de poder. No entanto, o episódio deixa claro: é exatamente a mesma lógica da caixa ensinada em Doutor Sono.

A abertura da caixa não liberta apenas visões. Ela amplia o alcance do dom. E com isso, o preço se torna inevitável.

“Algumas portas não deveriam ser abertas duas vezes.”

Capítulo 4 – A escola como território do horror

A Coisa agir dentro da escola é particularmente aterrador. Porque a escola deveria ser um espaço de proteção, de estrutura, de normalidade. Em Derry, ela se torna mais um palco de desorientação.

Mexer com as crianças nesse ambiente cria uma sensação de loucura coletiva. Risadas deslocadas. Olhares estranhos. Reações exageradas. Tudo colabora para que ninguém acredite em ninguém.

No caso de Lily, isso se torna ainda mais cruel. Ela carrega o estigma de já ter passado por um manicômio. A Coisa sabe disso. E explora essa ferida com precisão cirúrgica.

Capítulo 5 – A adaga protege… até certo ponto

Confesso que, até aqui, eu acreditava que a adaga funcionaria como uma proteção mais completa. Algo que impediria a aproximação direta da Coisa.

Mas o episódio deixa claro: a adaga pode proteger do ataque físico — mas não da visão. Lily ainda vê. Ainda sente. Ainda é perturbada.

Isso é importante. Porque reforça que não há escudo absoluto contra o medo. Há resistência, há instrumentos, mas não há imunidade.

“O medo não precisa tocar. Basta ser visto.”

Capítulo 6 – A cidade rindo enquanto as crianças afundam

A fotografia do episódio é excelente. Em especial nas cenas em que vemos adultos rindo, interagindo, vivendo normalmente enquanto algo profundamente errado acontece ao redor.

Essa escolha visual reforça uma ideia central: a Coisa não domina Derry pela força, mas pela normalidade. Quando tudo parece bem, ninguém escuta quem grita.

As crianças se sentem sozinhas o tempo todo. Isoladas. Invisíveis. E isso não é acidente — é parte do método da Coisa.

“Quando ninguém acredita em você, o monstro já venceu metade da batalha.”

Capítulo 7 – Senhora Kirsch e o peso da herança

Para quem conhece o livro e os filmes, já está claro: a senhora Kirsch é filha do Pennywise original. Do palhaço humano, não da entidade em si.

Mas para o público geral, isso ainda não está totalmente explícito. A série parece estar segurando essa revelação — e, honestamente, ela precisa acontecer agora, ainda nesta temporada.

A próxima temporada será um retorno ainda mais profundo no tempo. Se essa ligação não for esclarecida antes, corre o risco de perder impacto.

A cena do começo do episódio, inclusive, parece ter ligação direta com a senhora Kirsch. Algo ali ainda será retomado. Nada em Derry é jogado fora.

Capítulo 8 – Se proteger não é sobreviver

O episódio 6 deixa uma sensação pesada. Não pelo que mostra explicitamente, mas pelo que sugere. As crianças estão se protegendo — mas isso não significa que estão seguras.

Welcome to Derry segue firme em sua proposta: mostrar que o verdadeiro horror não está apenas no monstro, mas na ausência de amparo, na descrença, na solidão.

Em Derry, crescer não é amadurecer. É aprender a sobreviver sem rede.