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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Sexta Feira 13

Sexta-feira 13 nunca foi só um dia. Foi um espelho que mudou de forma ao longo da minha vida.

1. A infância supersticiosa no interior de Minas

Sexta-feira 13, na minha infância, era um dia marcado. Não no calendário oficial, mas no calendário das vozes mais velhas. No interior de Minas, onde cresci, as histórias não vinham dos jornais — vinham das vós, das bisavós, das tias e das tias-avós. Todas profundamente supersticiosas. Todas carregando uma tradição de sinais, presságios e advertências.

Sexta-feira 13 era dia de azar. Dia de fantasmas. De demônios. Um tipo de Halloween fora de época, mas sem fantasia e sem doçura. A ameaça era séria. Era quase ritualística.

E a criança que eu fui aprendia a observar. Olhava o céu. Reparava em ruídos. Prestava atenção em qualquer coisa que pudesse confirmar que aquele dia tinha algo de diferente.

Quando somos pequenos, aprendemos a temer antes mesmo de entender.

Não era medo cinematográfico. Era medo herdado. Medo transmitido como sabedoria. E, no interior, tradição não se questiona — se respeita.

2. O nascimento do cinéfilo e o encontro com Jason

Antes mesmo de entrar na adolescência, o cinéfilo que já nascia em mim quis ir além da superstição oral. Quis ver. Quis testar. E assim começaram as idas às locadoras de VHS.

Sexta-feira 13 deixou de ser apenas um aviso. Virou uma franquia. Eu alugava uma fita aqui, outra ali. Assistia escondido da ideia de que talvez estivesse invocando algo.

E então surgiu Jason. Mais especificamente, a partir da parte 4, quando eu já tinha uns nove, dez, talvez onze anos, idade suficiente para entender que aquilo era ficção, mas jovem o bastante para ainda sentir o impacto.

Jason era a figura amedrontadora. Máscara. Facão. Silêncio. Presença inevitável.

O cinema me ensinou que o medo também pode ser consumido em capítulos.

Eu assisti todos. E fiz algo curioso: joguei jogos onde eu fugia de Jason — e outros onde eu era o próprio Jason.

Talvez ali estivesse uma metáfora precoce: entender o monstro é uma forma de diminuir o medo. E, às vezes, vestir a máscara é uma maneira de domesticar o pavor.

3. A descoberta adulta

A minha versão adulta aprendeu algo que nenhum filme explicou. Os monstros de verdade não saem de um lago. Não usam máscara. Não anunciam sua chegada com trilha sonora.

Muitas vezes, eles não têm aparência de monstros. Muitas vezes, entram na nossa vida com naturalidade. Às vezes, entram por convite.

O monstro mais perigoso é aquele que não parece ameaça quando chega.

Eu não sei se passei algum tempo tendo medo do Jason. Mas sei que não tive medo de coisas muito mais silenciosas. De situações que não vinham com aviso. De pessoas que não vestiam máscara. De decisões que pareciam pequenas.

Descobri que a vida adulta não precisa de facão para cortar. Ela corta com escolhas. Com omissões. Com lugares que aceitamos ocupar.

4. Crystal Lake não é o perigo

Hoje, numa sexta-feira 13, sentado aqui diante de Crystal Lake, com a sombra invisível de Jason perambulando pela água ou pela floresta, escrevendo calmamente essas palavras, eu posso afirmar algo com serenidade: não é ele que me causa medo.

A sexta-feira 13 não é pior do que outros dias. Eu já vivi milhares de dias piores. Dias que não tinham trilha sonora. Dias que não vinham com aviso. Dias que não carregavam nenhuma superstição no calendário.

Não é o dia que carrega o perigo. Somos nós que carregamos as decisões.

O monstro que me feriu não se afogou em Crystal Lake. Não usa máscara. Não empunha um facão.

Ele se disfarça de escolha. De insistência. De permanência onde não deveria haver permanência.

5. A verdadeira sexta-feira 13

Para essa sexta-feira 13, a reflexão é simples e desconfortável: estar em Crystal Lake não é o maior risco.

O risco maior foram os lugares onde eu aceitei estar. As situações que normalizei. As histórias que tolerei.

Sexta-feira 13 nunca foi sobre azar. Foi sobre projeção. Sobre externalizar o medo. Sobre colocar o monstro fora de nós.

O verdadeiro terror não mora no lago. Mora naquilo que aceitamos como inevitável.

E talvez amadurecer seja exatamente isso: olhar para o lago, olhar para a máscara, e perceber que o perigo mais real não estava ali.

Ele estava nas escolhas. E nas vezes em que eu disse “sim” quando deveria ter dito “não”.

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