Capítulo I — O capítulo das revelações emocionais
O capítulo 23 é um daqueles capítulos que enganam o leitor.
Durante boa parte dele parece que nada realmente importante vai acontecer.
Temos conversas.
Temos um Natal.
Temos visitas ao hospital.
Temos passeios pelos corredores.
Tudo parece relativamente tranquilo.
Mas, quando o capítulo termina, percebemos que várias das revelações mais importantes do livro aconteceram justamente aqui.
Alguns capítulos explodem. Outros mudam tudo em silêncio.
Capítulo II — O medo de Harry
O capítulo começa mostrando um Harry completamente diferente daquele que vimos algumas semanas antes.
Ele não está com raiva.
Não está brigando.
Não está enfrentando ninguém.
Está com medo.
Pela primeira vez, Harry realmente considera a possibilidade de ser uma ameaça para as pessoas que ama.
Ele se afasta.
Se isola.
Evita os amigos.
Evita contato.
Como se estivesse tentando proteger os outros dele mesmo.
Às vezes o medo mais assustador não é o medo do inimigo. É o medo de se tornar parecido com ele.
Capítulo III — Gina finalmente ganha voz
Talvez o momento mais importante do capítulo aconteça quando Gina perde a paciência com Harry.
E honestamente?
Ela tem razão.
Harry está agindo como se fosse a única pessoa do mundo que já teve algum tipo de ligação com Voldemort.
Mas existe alguém naquela sala que viveu algo muito mais próximo da possessão verdadeira.
A própria Gina.
A garota que passou boa parte de um ano sendo manipulada pelo diário de Tom Riddle.
A garota que realmente perdeu controle sobre si mesma.
A garota que quase morreu por causa disso.
Às vezes procuramos respostas tão longe que esquecemos de perguntar justamente para quem já viveu aquilo.
E Gina finalmente força Harry a enxergar isso.
Capítulo IV — O amadurecimento de Gina Weasley
Existe outra coisa muito interessante nessa cena.
Gina não aparece mais como a menina tímida dos primeiros livros.
Ela não fica nervosa perto de Harry.
Não trava.
Não foge.
Ela confronta Harry.
Questiona Harry.
E fala uma verdade que ninguém mais estava falando.
É um dos momentos em que percebemos claramente seu crescimento como personagem.
A antiga Gina admirava Harry. A nova Gina conversa com Harry de igual para igual.
Capítulo V — O Natal e a falsa tranquilidade
Depois disso, o clima do capítulo muda.
O Natal chega.
Os presentes aparecem.
As pessoas tentam relaxar.
Por alguns instantes o livro parece quase voltar aos tempos mais simples dos primeiros volumes.
Mas existe algo estranho.
Tudo parece temporário.
Como se todos soubessem que a paz não vai durar muito.
Quando a guerra se aproxima, até os momentos felizes parecem emprestados.
Capítulo VI — Percy continua se afastando
A devolução do presente de Molly é um detalhe pequeno.
Mas extremamente doloroso.
Porque já não estamos falando de política.
Nem de Ministério.
Nem de Dumbledore.
Estamos falando de família.
Percy não está apenas discordando dos pais.
Está rejeitando os pais.
E Molly sente isso profundamente.
Talvez mais profundamente do que qualquer outro membro da família.
Algumas rupturas machucam porque são injustas. Outras machucam porque acontecem dentro de casa.
Capítulo VII — Arthur Weasley continua sendo Arthur Weasley
A situação dos pontos é uma das cenas mais engraçadas do capítulo.
E também uma das mais características de Arthur.
Qualquer outra pessoa ouviria os curandeiros.
Arthur não.
Ele encontra um método trouxa.
Fica curioso.
Quer testar.
Quer entender.
E inevitavelmente acaba criando um problema novo.
É impossível não rir da situação.
Arthur Weasley consegue transformar até uma internação hospitalar em pesquisa de campo sobre trouxas.
Capítulo VIII — O triste destino de Lockhart
O reencontro com Gilderoy Lockhart é estranho.
E um pouco triste.
Ele continua ali.
Perdido dentro da própria mente.
Sem lembrar quem foi.
Sem lembrar o que fez.
Sem lembrar sua própria história.
O personagem continua engraçado.
Mas existe algo melancólico por trás do humor.
Lockhart passou a vida inteira fingindo ser alguém. Agora nem ele sabe mais quem era.
Capítulo IX — O momento que redefine Neville
Mas nada se compara ao encontro com Neville.
Porque é aqui que Rowling pega um personagem frequentemente tratado como alívio cômico e o transforma em algo muito maior.
De repente tudo faz sentido.
Sua insegurança.
Sua timidez.
Seu peso emocional.
Sua dificuldade constante.
Seus pais ainda estão vivos.
Mas de uma forma cruel.
Eles existem.
Porém já não conseguem ser quem eram.
E Neville convive com isso há anos.
Em silêncio.
Sem reclamar.
Sem pedir pena.
Algumas pessoas carregam tragédias tão silenciosas que os outros sequer percebem o peso que elas suportam.
Capítulo X — Bellatrix deixa de ser apenas um nome
O capítulo também muda completamente nossa percepção sobre Bellatrix Lestrange.
Até aqui ela era uma figura distante.
Uma criminosa mencionada em julgamentos.
Uma Comensal da Morte poderosa.
Agora ela ganha um rosto emocional.
Porque finalmente vemos as consequências de seus atos.
Não através de relatos.
Mas através de Neville.
Através da avó dele.
Através dos pais dele.
Através de uma vida inteira destruída.
Um vilão se torna muito mais assustador quando finalmente vemos as vítimas que deixou para trás.
Capítulo XI — O verdadeiro tema do capítulo
Embora o capítulo fale sobre Natal, hospital, Lockhart e até possessão, para mim ele gira em torno de uma única ideia:
Perspectiva.
Harry descobre que não é o único que sofreu por causa de Voldemort.
Não é o único que tem traumas.
Não é o único que perdeu coisas.
Gina sofreu.
Arthur sofreu.
Molly sofre.
Percy está perdido.
E Neville carrega talvez a maior tragédia de todas.
O capítulo amplia o mundo emocional da história.
Mostra que a guerra contra Voldemort não acontece apenas nos grandes confrontos.
Ela continua existindo anos depois.
Dentro das famílias.
Dentro dos hospitais.
Dentro das memórias.
O capítulo 23 é o momento em que Harry percebe que não é o único sobrevivente das cicatrizes deixadas por Voldemort.


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