Gamertag

domingo, 31 de agosto de 2025

Entre Cabos e Silêncios – Capítulo 2

Entre Cabos e Silêncios – Capítulo 2: Primeiros Sons no FL Studio 2024

Depois de ligar a SMK-25, era hora de transformar o silêncio em som. Um programa em branco, um teclado em mãos, e a promessa de um estúdio que começa a respirar.

“Todo começo é tímido, mas até o silêncio aprende a falar quando a primeira nota se arrisca a nascer.”

1) Abrindo o FL Studio pela primeira vez

Com o FL Studio 2024 recém-instalado, a tela inicial parece um universo confuso de botões e janelas. Mas é aqui que tudo começa. O programa já vem pronto para reconhecer controladoras MIDI automaticamente, mas precisamos garantir que a SMK-25 esteja visível.

2) Conectando a SMK-25

  1. Conecte a SMK-25 via cabo USB direto no computador.
  2. Espere alguns segundos para o sistema reconhecer. A maioria das versões modernas do Windows/Mac não precisa de driver adicional.
  3. Abra o FL Studio — se tudo correu bem, ele já “escuta” sua SMK-25, mesmo que ainda não haja som.

3) Configurando a controladora no FL Studio

No menu superior, siga o caminho:

  • Options > MIDI Settings

Aqui aparece a lista de dispositivos. Procure por algo como “SMK-25” ou simplesmente “USB MIDI Device”.

  • Na seção Input: selecione o dispositivo e clique em Enable.
  • Na seção Controller type: se não houver perfil específico para SMK-25, mantenha generic controller.

4) Carregando o primeiro instrumento

Agora precisamos dar uma “voz” à controladora. Sem instrumento carregado, as teclas tocam o vazio.

  1. No Channel Rack, clique em Add > More plugins…
  2. Escolha um instrumento nativo, como o FL Keys (piano básico).
  3. Pressione uma tecla na SMK-25 — se tudo deu certo, você já ouvirá as primeiras notas.
“Não importa se é apenas um piano genérico. A primeira nota é sempre maior que qualquer orquestra.”

5) Testando os pads

Os pads da SMK-25 podem acionar sons de bateria no FL Studio:

  1. No Channel Rack, adicione um instrumento de percussão, como o FPC (controlador de samples de bateria).
  2. Cada pad dispara um som: bumbo, caixa, hi-hat…
  3. Se os pads não coincidirem com a bateria, ajuste no MIDI mapping (clicando com o botão direito no FPC e escolhendo Map Notes).

6) Gravando a primeira track

  1. No topo da tela, ative o botão Record.
  2. Escolha “Notes and Automation”.
  3. Clique em Play e toque algumas notas na SMK-25.
  4. Ao parar, o que você tocou aparece como uma faixa MIDI no Piano Roll.

É assim que o vazio começa a se encher de forma. Uma simples melodia gravada já é o esboço de uma canção.

Resumo

  • Conectar a SMK-25 via USB.
  • Habilitar em Options > MIDI Settings.
  • Carregar um instrumento (ex.: FL Keys).
  • Tocar e ouvir as primeiras notas.
  • Testar pads no FPC.
  • Gravar no Piano Roll.

Esse é o verdadeiro primeiro passo no FL Studio 2024: do silêncio à primeira track.

sábado, 30 de agosto de 2025

Streamings e propagandas

Streamings, Propagandas e o Estranho Gosto de Voltar à Pirataria

Um desabafo sobre a ruptura da experiência em tempos de serviços pagos cheios de interrupções.

Na minha última insônia, decidi assistir a mais um episódio de A Hora do Demônio, no Amazon Prime Video — uma série que, inclusive, tenho comentado em alguns posts por aqui.

Geralmente assisto pelo navegador do computador, onde uso um adblocker. Mas naquela noite, liguei a TV e deixei rodar direto por lá. Foi então que levei um choque. Um incômodo real. Um serviço de streaming pago, interrompido por várias propagandas. Sim, num serviço pago.


📺 Um salto no tempo: da TV aberta à promessa da assinatura

Lembrei imediatamente de uma época distante. Quando assistíamos TV aberta e as propagandas eram aquele momento de raiva, pausa, frustração. A promessa da TV por assinatura parecia mágica: você pagaria para assistir o conteúdo e, portanto, não teria mais comerciais. Uma troca justa, não?

Mas isso durou pouco. Logo, as propagandas também estavam na TV por assinatura. O consumidor pagava... e continuava assistindo comerciais. Aquela primeira quebra de confiança.

Foi nesse cenário que a pirataria cresceu em massa. Os sites piratas eram a alternativa para quem não podia pagar ou simplesmente não suportava tantas limitações. Claro, vinham com seus próprios desconfortos: propagandas em excesso, pop-ups irritantes, risco de vírus. Era um terreno instável — mas era um refúgio.


🌐 A revolução que prometeu paz: o streaming

E então veio o streaming. Ou melhor, veio o Netflix.

Ele não foi o primeiro da história, mas foi o primeiro a fazer sentido. Um catálogo vasto, acessível, com qualidade — e, o principal: sem propagandas. Pela primeira vez, o conforto venceu a pirataria.

Lembro bem de como isso mudou minha relação com o audiovisual. Antes, eu caçava episódios americanos, baixava arquivos, pegava legendas em sites separados... tudo por não ter acesso. Cheguei a comprar DVDs e Blu-rays importados de títulos raros, quando podia. Mas era trabalhoso. Era um ritual de quem queria muito consumir cultura.

Com o streaming, bastava clicar. A praticidade venceu. Eu não queria mais “pular” de site em site atrás de links quebrados. Eu queria sentar, escolher e assistir em paz. E por um tempo, foi exatamente isso que o streaming ofereceu.


📉 A fragmentação e o retorno da insatisfação

Mas então começaram os sinais.

Outros serviços surgiram, e o catálogo foi fatiado. O que antes estava no mesmo lugar, agora exigia cinco assinaturas diferentes. E os preços aumentaram. E as exclusividades chegaram. E os cancelamentos também.

E agora — o golpe mais baixo: propagandas em serviços pagos.

Ontem, ao assistir pela TV, no meio de uma cena tensa da série — uma daquelas em que o silêncio constrói o medo — veio uma propaganda alegre, colorida, barulhenta. Num volume absurdo, com clima de comercial de supermercado. Foi um soco. Um desrespeito.

“Como alguém achou que seria uma boa ideia inserir uma propaganda de margarina no meio de uma cena de possessão demoníaca?” – anotações da madrugada

Obviamente, eles oferecem um plano “sem anúncios”. Mas por um preço ainda maior. E sinceramente? Eu não acredito mais nessa promessa.

Já vimos isso antes. A publicidade sempre acha um jeito de entrar. Entrou na TV por assinatura. Entrou nos sites de vídeo. Entrou até nos jogos. Por que não voltaria aos planos “premium”? Hoje você paga mais por paz. Amanhã, nem pagando terá.


💾 A pirataria pode voltar — não por necessidade, mas por paz

O que me incomoda não é só a propaganda. É a ruptura da experiência. É o corte sem sentido. O contraste de tons. A quebra de ritmo. E a ideia de que eu estou pagando por isso.

Ironia dos tempos: os sites piratas agora oferecem uma experiência mais contínua do que os serviços legais. Você entra, dá o play, e assiste sem interrupção. E não porque são éticos — mas porque, nesse momento, eles respeitam mais o espectador do que os serviços oficiais.

“A pirataria que nasceu da falta de acesso, agora pode renascer da falta de respeito.” – pensamentos entre um bloco de propaganda e outro

📀 Mídia física: um conforto que virou relíquia

Infelizmente, a indústria de compra de filmes e séries está quase morta. Seria tão mais simples poder comprar o box da série, colocar no player e assistir em paz. Sem depender de conexões, atualizações, contas e… comerciais. Mas tentar isso hoje é nadar contra a maré.

O que resta é um paradoxo: serviços pagos oferecendo uma experiência inferior àquela que tentaram combater. E o espectador, mais uma vez, voltando a procurar meios alternativos — não pela economia, mas pela paz mental.


Streamings, escutem isso:
O que nos fez abandonar a pirataria foi o conforto. O que pode nos fazer voltar… é o desconforto.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

SMK-25: Mapa completo dos controles

Entre Cabos e Silêncios — Capítulo 1.1 (SMK-25): Mapa completo dos controles

Meu Home Studio começa aqui: 25 teclas, 8 pads, 8 knobs — e a vontade de transformar silêncio em rascunho de música.

“Às vezes, a grandeza mora no que cabe na palma da mão.”

1) Teclas (25) — sensíveis à velocidade

As 25 teclas enviam nota MIDI com velocity (dinâmica). O toque forte/leve altera a intensidade. Ideal para rascunhar melodias, baixos e harmonias rapidamente.

  • Tipo: notas MIDI (velocity).
  • Uso comum: tocar instrumentos virtuais (pianos, synths, baixos, etc.).
  • Dica: combine com Octave ± para alcançar registros graves/agudos sem trocar de patch.

2) Strips de Expressão (Pitch & Mod)

No canto esquerdo superior há dois touch strips verticais:

Controle Função padrão Mensagem MIDI Uso prático
Pitch Dobra/afina a nota temporariamente Pitch Bend Vibratos, slides, expressão em leads/solos
Mod Modulação do timbre CC1 (Mod Wheel) — geralmente Abrir LFOs, vibrato, intensidade de efeitos

3) Transporte & Navegação

Os botões de transporte agilizam a gravação na DAW; os de oitava expandem o alcance do teclado:

Botão Função MIDI Observações
Play Inicia reprodução MMC/CC (conforme mapeamento) Integra com transporte da DAW
Stop Para reprodução MMC/CC (conforme mapeamento) Pode voltar ao início, conforme DAW
Rec Arma/aciona gravação MMC/CC (conforme mapeamento) Útil para capturar ideias sem soltar o teclado
Octave + Sobe uma oitava Interno (transposição) Combina com pads/knobs — não altera timbre
Octave − Desce uma oitava Interno (transposição) Útil para baixos e regiões graves

4) Pads de Performance (1–8)

Os 8 pads (duas linhas de 4) disparam notas/samples. Em muitos mapeamentos aceitam velocity e podem alternar bancos.

Pad Função padrão Mensagem MIDI Uso prático
Pad 1Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Kick ou sample 1
Pad 2Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Snare ou sample 2
Pad 3Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Hi-hat ou sample 3
Pad 4Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Perc/FX ou sample 4
Pad 5Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Kick alt. ou sample 5
Pad 6Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Snare alt. ou sample 6
Pad 7Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)Hi-hat alt. ou sample 7
Pad 8Disparo de nota/sampleNota/CC (mapeável)FX/loop ou sample 8

5) Knobs rotativos (1–8)

Oito knobs mapeáveis, ideais para parâmetros de instrumento/efeito. Cada knob envia um CC configurável na maioria dos perfis.

Knob Função (default) MIDI CC Sugestão de uso
Knob 1Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoCutoff (filtro)
Knob 2Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoResonance
Knob 3Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoAttack/Decay
Knob 4Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoReverb
Knob 5Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoDelay
Knob 6Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoVolume canal
Knob 7Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoPan
Knob 8Parâmetro mapeávelDefinido no mapeamentoMacro/FX master

6) Botões de Função (modos/recursos)

No desenho do manual aparecem botões dedicados a recursos como Arpeggiator, Latch/Gate/Tap/Swing/Tempo, seleção de escala/tons e possivelmente alternância de bancos (Pads/Knobs). A rotulagem pode variar por revisão do modelo.

  • ARP (On/Off): liga o arpejador interno.
  • Latch: mantém o arpeggio tocando sem segurar a tecla.
  • Gate: ajusta duração das notas do arpeggio.
  • Tap/Swing/Tempo: define tempo por tap e balanço (swing).
  • Escalas/Tonalidades: opções como Major, Minor, variações (ex.: 7th, 9th), e Random/Off.
  • Bancos: alternância de banco de Pads e/ou Knobs (quando disponível).

Preciso do trecho textual do seu manual para nomear exatamente cada botão dessa linha (posso inserir na íntegra depois, sem risco de erro).

7) Conexões traseiras

Conexão Descrição Observações
POWER Liga/Desliga (quando presente) Alguns modelos alimentam via USB
USB Conexão ao computador/DAW MIDI via USB (class compliant)
SUSTAIN Entrada para pedal (sustain) Polarity pode precisar de ajuste no pedal

Fluxo rápido de uso

  1. Conectar via USB (a maioria das DAWs reconhece automaticamente).
  2. Verificar entrada MIDI na DAW (SMK-25 como dispositivo).
  3. Inserir um instrumento virtual e tocar pelas teclas.
  4. Mapear pads para bateria/samples; mapear knobs para filtros/FX.
  5. Usar Octave ±, Pitch e Mod para expressão.
  6. (Opcional) Ativar arpejador e ajustar Latch/Gate/Swing/Tempo.
“O estúdio em casa não é feito de paredes, mas de silêncios quebrados.”

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Entre Cabos e Silêncios

Entre Cabos e Silêncios – Capítulo 1: A SMK-25

O início do meu Home Studio, entre teclas pequenas e possibilidades gigantes.

Há objetos que não são apenas ferramentas. Eles se tornam portais. Quando a controladora MIDI SMK-25 chegou nas minhas mãos, não vi só um equipamento. Vi a promessa de um espaço que começa a nascer: meu home studio. Esse projeto não começa com paredes acústicas ou monitores caríssimos — ele começa com 25 teclas.

“Às vezes, a grandeza mora no que cabe na palma da mão.”

Por que a SMK-25?

Compacta, leve, simples de carregar. A SMK-25 é uma controladora MIDI de duas oitavas, perfeita para quem deseja explorar melodias, montar linhas de baixo, brincar com acordes ou apenas improvisar ideias sem precisar de um teclado de palco enorme. Ela não produz som por si só — é a ponte entre minhas mãos e o software que darei vida no computador.

O Layout e as Teclas

São 25 teclas sensíveis à velocidade, o que significa que a intensidade da minha pressão gera dinâmicas diferentes. É curioso como essa característica, aparentemente técnica, acaba se tornando emocional: tocar mais forte para expressar raiva, mais leve para sugerir delicadeza. Cada tecla é um lembrete de que até no digital, a sensibilidade importa.

Knobs e Controles

Acima das teclas, há 8 knobs rotativos. Eles podem ser mapeados para controlar qualquer parâmetro dentro da DAW: volume de canais, cutoff de sintetizadores, reverbs, delays… Girar esses knobs é como ter pequenas chaves que abrem portas sonoras. Aqui começa a alquimia entre técnica e intuição.

Pads de Performance

A SMK-25 traz também 8 pads sensíveis, ideais para baterias eletrônicas ou disparo de samples. Testando-os, percebi que o clique rápido dos dedos no pad tem quase a mesma sensação de um baterista riscando um compasso na caixa. É simples, mas poderoso: batidas cruas, loops repetidos até se transformarem em algo que me escapa das mãos.

Botões de Navegação

Comandos de octave up/down, play/stop/rec e transporte básico. Eles parecem pequenos, mas garantem que não preciso correr para o teclado do computador a cada segundo. É aqui que a música começa a fluir sem tantas interrupções. A SMK-25 não é só hardware — é uma tentativa de me manter dentro do fluxo criativo.

“O estúdio em casa não é feito de paredes, mas de silêncios quebrados.”

Primeiras Impressões

A sensação inicial é paradoxal: algo tão pequeno carrega um peso enorme. Não é o equipamento que impressiona pelo tamanho, mas pelas possibilidades. Sei que daqui surgirão os primeiros experimentos, os erros constrangedores e talvez, quem sabe, músicas inteiras. É um começo, e todo começo carrega sua própria poesia.

Este é o Capítulo 1 do projeto Home Studio no blog dariotarcizo. A SMK-25 é mais do que um manual de funções: é a semente. A partir dela, vou registrar aqui cada etapa, cada descoberta, cada fracasso e cada pequena vitória.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

"Lá e de Volta Outra Vez" - Papo na Fogueira

Papo na Fogueira – A Primeira de Agosto

Um mês de ausências, um reencontro necessário. Quando até o tempo parece nos testar, é a fogueira que reacende o que ainda queima em silêncio.

1. Julho nos Escapou

Ficamos um tempo sem nos reunir. As agendas não batiam, a rotina nos engolia, e julho... julho foi um mês caótico. Uma sucessão de pequenos desencontros, de promessas não cumpridas por circunstâncias que fugiram ao nosso controle. Ainda assim, nunca nos perdemos. Seguíamos nos falando. Seguíamos querendo. E foi isso que nos trouxe de volta.

“A ausência só é ausência quando falta a vontade de voltar.”

2. Eu Me Forcei a Estar

Na primeira semana de agosto, a vida tentou atrapalhar de novo. Trabalho até tarde, cobranças, sono acumulado. Mas eu fui. Me forcei a estar. E fui recompensado. Quando cheguei, havia aquela sensação de lar. O protocolo de toda amizade verdadeira: piadas, olhares, frases internas que só a gente entende. A fogueira estalava alto naquela noite fria. E não parecia mais tão frio.

“Não é o fogo que aquece. São as pessoas ao redor dele.”

3. Capítulo André

André veio depois. Com toda sua perspicácia e intensidade, relatou um mês de muitas mudanças, decisões duras e uma avalanche de demandas. Está num lugar onde se exige precisão — do tipo que só os perfeccionistas habitam. E isso é virtude, mas também armadilha. Ele sabe disso. A lucidez com que fala de suas dificuldades é o que o torna forte. Ser metódico demais, às vezes, o trava. Mas também o salva. No final, ele sempre entrega. Porque entrega com verdade.

“Ser perfeccionista é como dirigir um carro com freio de mão puxado. Você até chega, mas custa mais.”

Mas o que mais me impressiona em André — e ao mesmo tempo me diverte — é a sua habilidade quase trágica de transformar qualquer tarefa comum em uma epopeia meticulosa. Ele entrou recentemente em um novo projeto de consultoria, que envolve gerenciamento de pessoas, setores e orçamentos. Nada de novo para alguém experiente como ele, mas o que chama atenção é o seu jeito de lidar com isso. Não é um gestor que opera à distância, tampouco um técnico frio. Ele se envolve. Literalmente. Mergulha nas decisões como quem sabe que o impacto de uma compra mal feita ou de um setor mal gerido vai muito além de uma planilha de Excel. Vai parar direto na confiança das pessoas envolvidas.

E então ele nos contou, com aquele tom entre o humor e o desespero, que andou gerenciando compras — e não só gerenciando, mas coordenando a escolha de produtos, lidando com diferentes expectativas e tentando conciliar três universos: o financeiro, o técnico e o humano. Imagine alguém tentando escolher a televisão ideal para a empresa. Parece simples, né? Com o André, isso se tornou um estudo de caso. Um miniprojeto de escopo bem definido, com levantamento de modelos, análise de custo-benefício, definição de budget, impacto futuro na rotina dos setores envolvidos, avaliação de garantias, feedback da equipe e uma simulação informal de ROI em função do uso esperado do equipamento. E não é piada. Ele realmente fez tudo isso. Porque ele não sabe fazer menos. Porque ele realmente se importa.

Eu ouço o André nessas horas com um sorriso no canto da boca. Não de deboche — longe disso. Mas de admiração sincera. Porque há algo de comovente em quem, mesmo diante da banalidade do cotidiano corporativo, insiste em fazer as coisas da melhor maneira possível. E também há algo de cômico em ver como esse impulso de excelência acaba lhe cobrando caro em energia mental. É a comédia silenciosa de quem sabe demais, de quem pensa demais, de quem quer fazer demais. Mas que ainda assim não desiste.

“A tragédia dos meticulosos é viver num mundo onde tudo pode ser feito de qualquer jeito — menos por eles.”

4. Capítulo Alexandre

De nós três, era ele quem mais queríamos ouvir. A vida de Alexandre nunca é morna. Os últimos tempos foram intensos — traições, frustrações, decisões duras, algumas delas solitárias. Mas ele não se afoga no drama. Tem uma fé que chega a constranger. Não a fé religiosa, mas aquela que só tem quem já sobreviveu demais. Alexandre vê problemas como o que são: passageiros. Ele olha para o caos e diz, com um sorriso quase infantil: “vai passar”. E passa.

“Tem gente que não reza. Mas vive como se já tivesse sido atendido.”

Mas o que mais nos abalou — e ao mesmo tempo nos encantou — foi a maneira como Alexandre nos contou os detalhes do que passou. Ele vinha de um mês de turbulências internas e externas, mas é como se tivesse aprendido a narrar tempestades com cheiro de primavera. Seu último projeto profissional terminou de forma cruel: não foi pago. E não apenas isso — lidou com pessoas dissimuladas, que confundem esperteza com falta de caráter, e que tentaram o velho e covarde expediente de assassinato de reputação. Joguinhos de ego. Silêncios estratégicos. Farpas e traições veladas. Conversas que nunca deveriam ter acontecido. E algumas que ficaram atravessadas na garganta por dias.

Enquanto ele falava, a fogueira estalava mais alto. E em nós, estalava outra coisa: uma raiva coletiva. Pela forma como o trataram. Pelas palavras que recebeu de quem deveria ser amigo. Pelas feridas que ele precisou engolir sem reagir. Mas Alexandre não perde o tom. Ele tem o dom raro de contar as histórias mais densas como se fosse o enredo de um musical da Disney. Como se dissesse: “não vale a pena carregar esse peso todo, vem, vamos rir disso também”. E a gente ri. E chora junto, sem saber se de raiva, se de compaixão, ou se porque é bonito ver alguém não se deixar quebrar.

E como se tudo isso não bastasse, em meio a esse vendaval emocional, sua esposa — grávida — começou a sentir contrações. Foram parar no hospital. Um susto grande, daqueles que mudam o rumo do dia e do coração. Felizmente, nada grave. Quase um nascimento prematuro, mas tudo voltou ao controle. Ainda assim, ninguém passa ileso por esse tipo de abalo. É como se o corpo e a vida dissessem juntos: “ou você desacelera, ou eu freio por você”.

Mesmo diante disso tudo, Alexandre continuava narrando como quem conversa com flores. Com um humor ácido e certeiro, como uma navalha escondida em pétalas. E sempre, sempre terminando com a frase que virou quase seu mantra: “isso vai passar”. Disse isso olhando o fogo, como quem já viu outras tormentas virarem cinza. E a gente acreditou. Porque vindo dele, essa frase não é consolo barato. É profecia.

“Há pessoas que narram a própria dor como quem anuncia o verão.”

5. A Fogueira Queimava Baixo

Não era noite de pressa. Talvez por termos ficado longe. Talvez porque tudo estava encaixado demais. A conversa não precisava acontecer — ela simplesmente fluía. Sem tema, sem pauta. Só presença. E nesse tipo de noite, você não quer ir embora. Porque, às vezes, a alma reconhece uma pausa. E decide ficar ali um pouco mais.

“Alguns silêncios não são vazios. São cheios de tudo o que a gente nunca teve tempo de dizer.”

6. A Música

Foi André quem trouxe. Uma música pouco conhecida do A-ha. Falou da letra com entusiasmo. Com detalhes. Quase como um prefácio para o que ouviríamos. E ouvimos. E foi mágico. Era como se o mundo todo tivesse se alinhado para aquele momento. Uma banda europeia, uma plataforma americana, três amigos no Brasil. Um rito íntimo. Quase sagrado.

“Tem músicas que não tocam no rádio. Tocam no espírito.”

7. A Letra Dizia

“Nada está te segurando.” “Você pode ir onde quiser.” “Você pode cumprir o seu destino.”

Mas ali, ninguém queria ir embora. Ninguém queria destino nenhum. Estávamos exatamente onde deveríamos estar. Sentados em volta do nosso altar pagão, improvisado de calor e verdade. Discutimos a letra. A liberdade. O desejo. A coragem. E, sobretudo, o pertencimento.

“Liberdade nem sempre é partir. Às vezes é poder ficar.”

8. E Quando Tudo Estava Bom…

… ficou ainda melhor. Conversamos mais um pouco. Rimos de coisas pequenas. Silenciamos em outras. E nos despedimos com um tipo de gratidão que só quem sobrevive ao caos reconhece. Saí com um pensamento que ainda me acompanha dias depois.

“Existem pessoas que reacendem. São fósforos vivos. Acendem a parte de nós que o mundo apagou.”

9. A Fagulha e o Lar

Nem toda amizade é lar. Mas algumas são. Algumas pessoas são casa, mesmo quando o mundo inteiro vira rua. E a fogueira… a fogueira é só o pretexto. O que aquece de verdade é o que não se vê. É o que pulsa por trás das palavras. E talvez seja por isso que essa série existe. Porque a vida é difícil demais pra ser vivida sozinho. E simples demais pra não ser dividida.

“Lar é o lugar onde você pode apagar sem medo de deixar de existir.”

– Papo na Fogueira