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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

"Lá e de Volta Outra Vez" - Papo na Fogueira

Papo na Fogueira – A Primeira de Agosto

Um mês de ausências, um reencontro necessário. Quando até o tempo parece nos testar, é a fogueira que reacende o que ainda queima em silêncio.

1. Julho nos Escapou

Ficamos um tempo sem nos reunir. As agendas não batiam, a rotina nos engolia, e julho... julho foi um mês caótico. Uma sucessão de pequenos desencontros, de promessas não cumpridas por circunstâncias que fugiram ao nosso controle. Ainda assim, nunca nos perdemos. Seguíamos nos falando. Seguíamos querendo. E foi isso que nos trouxe de volta.

“A ausência só é ausência quando falta a vontade de voltar.”

2. Eu Me Forcei a Estar

Na primeira semana de agosto, a vida tentou atrapalhar de novo. Trabalho até tarde, cobranças, sono acumulado. Mas eu fui. Me forcei a estar. E fui recompensado. Quando cheguei, havia aquela sensação de lar. O protocolo de toda amizade verdadeira: piadas, olhares, frases internas que só a gente entende. A fogueira estalava alto naquela noite fria. E não parecia mais tão frio.

“Não é o fogo que aquece. São as pessoas ao redor dele.”

3. Capítulo André

André veio depois. Com toda sua perspicácia e intensidade, relatou um mês de muitas mudanças, decisões duras e uma avalanche de demandas. Está num lugar onde se exige precisão — do tipo que só os perfeccionistas habitam. E isso é virtude, mas também armadilha. Ele sabe disso. A lucidez com que fala de suas dificuldades é o que o torna forte. Ser metódico demais, às vezes, o trava. Mas também o salva. No final, ele sempre entrega. Porque entrega com verdade.

“Ser perfeccionista é como dirigir um carro com freio de mão puxado. Você até chega, mas custa mais.”

Mas o que mais me impressiona em André — e ao mesmo tempo me diverte — é a sua habilidade quase trágica de transformar qualquer tarefa comum em uma epopeia meticulosa. Ele entrou recentemente em um novo projeto de consultoria, que envolve gerenciamento de pessoas, setores e orçamentos. Nada de novo para alguém experiente como ele, mas o que chama atenção é o seu jeito de lidar com isso. Não é um gestor que opera à distância, tampouco um técnico frio. Ele se envolve. Literalmente. Mergulha nas decisões como quem sabe que o impacto de uma compra mal feita ou de um setor mal gerido vai muito além de uma planilha de Excel. Vai parar direto na confiança das pessoas envolvidas.

E então ele nos contou, com aquele tom entre o humor e o desespero, que andou gerenciando compras — e não só gerenciando, mas coordenando a escolha de produtos, lidando com diferentes expectativas e tentando conciliar três universos: o financeiro, o técnico e o humano. Imagine alguém tentando escolher a televisão ideal para a empresa. Parece simples, né? Com o André, isso se tornou um estudo de caso. Um miniprojeto de escopo bem definido, com levantamento de modelos, análise de custo-benefício, definição de budget, impacto futuro na rotina dos setores envolvidos, avaliação de garantias, feedback da equipe e uma simulação informal de ROI em função do uso esperado do equipamento. E não é piada. Ele realmente fez tudo isso. Porque ele não sabe fazer menos. Porque ele realmente se importa.

Eu ouço o André nessas horas com um sorriso no canto da boca. Não de deboche — longe disso. Mas de admiração sincera. Porque há algo de comovente em quem, mesmo diante da banalidade do cotidiano corporativo, insiste em fazer as coisas da melhor maneira possível. E também há algo de cômico em ver como esse impulso de excelência acaba lhe cobrando caro em energia mental. É a comédia silenciosa de quem sabe demais, de quem pensa demais, de quem quer fazer demais. Mas que ainda assim não desiste.

“A tragédia dos meticulosos é viver num mundo onde tudo pode ser feito de qualquer jeito — menos por eles.”

4. Capítulo Alexandre

De nós três, era ele quem mais queríamos ouvir. A vida de Alexandre nunca é morna. Os últimos tempos foram intensos — traições, frustrações, decisões duras, algumas delas solitárias. Mas ele não se afoga no drama. Tem uma fé que chega a constranger. Não a fé religiosa, mas aquela que só tem quem já sobreviveu demais. Alexandre vê problemas como o que são: passageiros. Ele olha para o caos e diz, com um sorriso quase infantil: “vai passar”. E passa.

“Tem gente que não reza. Mas vive como se já tivesse sido atendido.”

Mas o que mais nos abalou — e ao mesmo tempo nos encantou — foi a maneira como Alexandre nos contou os detalhes do que passou. Ele vinha de um mês de turbulências internas e externas, mas é como se tivesse aprendido a narrar tempestades com cheiro de primavera. Seu último projeto profissional terminou de forma cruel: não foi pago. E não apenas isso — lidou com pessoas dissimuladas, que confundem esperteza com falta de caráter, e que tentaram o velho e covarde expediente de assassinato de reputação. Joguinhos de ego. Silêncios estratégicos. Farpas e traições veladas. Conversas que nunca deveriam ter acontecido. E algumas que ficaram atravessadas na garganta por dias.

Enquanto ele falava, a fogueira estalava mais alto. E em nós, estalava outra coisa: uma raiva coletiva. Pela forma como o trataram. Pelas palavras que recebeu de quem deveria ser amigo. Pelas feridas que ele precisou engolir sem reagir. Mas Alexandre não perde o tom. Ele tem o dom raro de contar as histórias mais densas como se fosse o enredo de um musical da Disney. Como se dissesse: “não vale a pena carregar esse peso todo, vem, vamos rir disso também”. E a gente ri. E chora junto, sem saber se de raiva, se de compaixão, ou se porque é bonito ver alguém não se deixar quebrar.

E como se tudo isso não bastasse, em meio a esse vendaval emocional, sua esposa — grávida — começou a sentir contrações. Foram parar no hospital. Um susto grande, daqueles que mudam o rumo do dia e do coração. Felizmente, nada grave. Quase um nascimento prematuro, mas tudo voltou ao controle. Ainda assim, ninguém passa ileso por esse tipo de abalo. É como se o corpo e a vida dissessem juntos: “ou você desacelera, ou eu freio por você”.

Mesmo diante disso tudo, Alexandre continuava narrando como quem conversa com flores. Com um humor ácido e certeiro, como uma navalha escondida em pétalas. E sempre, sempre terminando com a frase que virou quase seu mantra: “isso vai passar”. Disse isso olhando o fogo, como quem já viu outras tormentas virarem cinza. E a gente acreditou. Porque vindo dele, essa frase não é consolo barato. É profecia.

“Há pessoas que narram a própria dor como quem anuncia o verão.”

5. A Fogueira Queimava Baixo

Não era noite de pressa. Talvez por termos ficado longe. Talvez porque tudo estava encaixado demais. A conversa não precisava acontecer — ela simplesmente fluía. Sem tema, sem pauta. Só presença. E nesse tipo de noite, você não quer ir embora. Porque, às vezes, a alma reconhece uma pausa. E decide ficar ali um pouco mais.

“Alguns silêncios não são vazios. São cheios de tudo o que a gente nunca teve tempo de dizer.”

6. A Música

Foi André quem trouxe. Uma música pouco conhecida do A-ha. Falou da letra com entusiasmo. Com detalhes. Quase como um prefácio para o que ouviríamos. E ouvimos. E foi mágico. Era como se o mundo todo tivesse se alinhado para aquele momento. Uma banda europeia, uma plataforma americana, três amigos no Brasil. Um rito íntimo. Quase sagrado.

“Tem músicas que não tocam no rádio. Tocam no espírito.”

7. A Letra Dizia

“Nada está te segurando.” “Você pode ir onde quiser.” “Você pode cumprir o seu destino.”

Mas ali, ninguém queria ir embora. Ninguém queria destino nenhum. Estávamos exatamente onde deveríamos estar. Sentados em volta do nosso altar pagão, improvisado de calor e verdade. Discutimos a letra. A liberdade. O desejo. A coragem. E, sobretudo, o pertencimento.

“Liberdade nem sempre é partir. Às vezes é poder ficar.”

8. E Quando Tudo Estava Bom…

… ficou ainda melhor. Conversamos mais um pouco. Rimos de coisas pequenas. Silenciamos em outras. E nos despedimos com um tipo de gratidão que só quem sobrevive ao caos reconhece. Saí com um pensamento que ainda me acompanha dias depois.

“Existem pessoas que reacendem. São fósforos vivos. Acendem a parte de nós que o mundo apagou.”

9. A Fagulha e o Lar

Nem toda amizade é lar. Mas algumas são. Algumas pessoas são casa, mesmo quando o mundo inteiro vira rua. E a fogueira… a fogueira é só o pretexto. O que aquece de verdade é o que não se vê. É o que pulsa por trás das palavras. E talvez seja por isso que essa série existe. Porque a vida é difícil demais pra ser vivida sozinho. E simples demais pra não ser dividida.

“Lar é o lugar onde você pode apagar sem medo de deixar de existir.”

– Papo na Fogueira


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