Streamings, Propagandas e o Estranho Gosto de Voltar à Pirataria
Um desabafo sobre a ruptura da experiência em tempos de serviços pagos cheios de interrupções.
Na minha última insônia, decidi assistir a mais um episódio de A Hora do Demônio, no Amazon Prime Video — uma série que, inclusive, tenho comentado em alguns posts por aqui.
Geralmente assisto pelo navegador do computador, onde uso um adblocker. Mas naquela noite, liguei a TV e deixei rodar direto por lá. Foi então que levei um choque. Um incômodo real. Um serviço de streaming pago, interrompido por várias propagandas. Sim, num serviço pago.
📺 Um salto no tempo: da TV aberta à promessa da assinatura
Lembrei imediatamente de uma época distante. Quando assistíamos TV aberta e as propagandas eram aquele momento de raiva, pausa, frustração. A promessa da TV por assinatura parecia mágica: você pagaria para assistir o conteúdo e, portanto, não teria mais comerciais. Uma troca justa, não?
Mas isso durou pouco. Logo, as propagandas também estavam na TV por assinatura. O consumidor pagava... e continuava assistindo comerciais. Aquela primeira quebra de confiança.
Foi nesse cenário que a pirataria cresceu em massa. Os sites piratas eram a alternativa para quem não podia pagar ou simplesmente não suportava tantas limitações. Claro, vinham com seus próprios desconfortos: propagandas em excesso, pop-ups irritantes, risco de vírus. Era um terreno instável — mas era um refúgio.
🌐 A revolução que prometeu paz: o streaming
E então veio o streaming. Ou melhor, veio o Netflix.
Ele não foi o primeiro da história, mas foi o primeiro a fazer sentido. Um catálogo vasto, acessível, com qualidade — e, o principal: sem propagandas. Pela primeira vez, o conforto venceu a pirataria.
Lembro bem de como isso mudou minha relação com o audiovisual. Antes, eu caçava episódios americanos, baixava arquivos, pegava legendas em sites separados... tudo por não ter acesso. Cheguei a comprar DVDs e Blu-rays importados de títulos raros, quando podia. Mas era trabalhoso. Era um ritual de quem queria muito consumir cultura.
Com o streaming, bastava clicar. A praticidade venceu. Eu não queria mais “pular” de site em site atrás de links quebrados. Eu queria sentar, escolher e assistir em paz. E por um tempo, foi exatamente isso que o streaming ofereceu.
📉 A fragmentação e o retorno da insatisfação
Mas então começaram os sinais.
Outros serviços surgiram, e o catálogo foi fatiado. O que antes estava no mesmo lugar, agora exigia cinco assinaturas diferentes. E os preços aumentaram. E as exclusividades chegaram. E os cancelamentos também.
E agora — o golpe mais baixo: propagandas em serviços pagos.
Ontem, ao assistir pela TV, no meio de uma cena tensa da série — uma daquelas em que o silêncio constrói o medo — veio uma propaganda alegre, colorida, barulhenta. Num volume absurdo, com clima de comercial de supermercado. Foi um soco. Um desrespeito.
“Como alguém achou que seria uma boa ideia inserir uma propaganda de margarina no meio de uma cena de possessão demoníaca?” – anotações da madrugada
Obviamente, eles oferecem um plano “sem anúncios”. Mas por um preço ainda maior. E sinceramente? Eu não acredito mais nessa promessa.
Já vimos isso antes. A publicidade sempre acha um jeito de entrar. Entrou na TV por assinatura. Entrou nos sites de vídeo. Entrou até nos jogos. Por que não voltaria aos planos “premium”? Hoje você paga mais por paz. Amanhã, nem pagando terá.
💾 A pirataria pode voltar — não por necessidade, mas por paz
O que me incomoda não é só a propaganda. É a ruptura da experiência. É o corte sem sentido. O contraste de tons. A quebra de ritmo. E a ideia de que eu estou pagando por isso.
Ironia dos tempos: os sites piratas agora oferecem uma experiência mais contínua do que os serviços legais. Você entra, dá o play, e assiste sem interrupção. E não porque são éticos — mas porque, nesse momento, eles respeitam mais o espectador do que os serviços oficiais.
“A pirataria que nasceu da falta de acesso, agora pode renascer da falta de respeito.” – pensamentos entre um bloco de propaganda e outro
📀 Mídia física: um conforto que virou relíquia
Infelizmente, a indústria de compra de filmes e séries está quase morta. Seria tão mais simples poder comprar o box da série, colocar no player e assistir em paz. Sem depender de conexões, atualizações, contas e… comerciais. Mas tentar isso hoje é nadar contra a maré.
O que resta é um paradoxo: serviços pagos oferecendo uma experiência inferior àquela que tentaram combater. E o espectador, mais uma vez, voltando a procurar meios alternativos — não pela economia, mas pela paz mental.
Streamings, escutem isso:
O que nos fez abandonar a pirataria foi o conforto. O que pode nos fazer voltar… é o desconforto.


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