🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.
Welcome to Derry – Episódio 2
Racismo, medo coletivo e a lenta certeza de que Derry nunca esteve adormecida.
Capítulo 1 – Referências, ecos e a falsa calmaria
O segundo episódio de Welcome to Derry começa deixando algo muito claro: essa série sabe exatamente de onde veio. As referências ao livro de Stephen King e aos filmes de 2017 e 2019 não são acidentais — são estruturais. Elas funcionam como ecos. Lembranças incômodas que dizem ao espectador: isso já aconteceu antes, e vai acontecer de novo.
Diferente do impacto brutal do primeiro episódio, aqui o ritmo desacelera. Não por fraqueza narrativa, mas por necessidade. A série entende que, depois do choque inicial, é preciso apresentar o terreno. Mostrar a cidade funcionando. Ou melhor: disfuncionando.
“Em Derry, o silêncio nunca é paz. É só o intervalo entre tragédias.”
Capítulo 2 – Racismo como sintoma, não como acaso
O episódio bate forte — e de forma muito consciente — no tema do racismo. As crianças mortas têm como principal suspeito o projecionista do cinema. O motivo? Ele é negro. Não há provas, apenas a necessidade da cidade de apontar para alguém que não pertence.
Os policiais vigiando a casa dele não estão ali para proteger. Estão ali para intimidar. É o racismo estrutural funcionando como sempre funcionou: silencioso, automático, confortável para quem o pratica.
A cena do açougue é exemplar nesse sentido. O racismo velado, quase educado. O açougueiro oferece deliberadamente as piores carnes à esposa do Major. Não há insulto direto, não há agressão explícita — apenas a certeza de que ela merece menos. E essa sutileza torna tudo ainda mais nojento.
“O racismo de Derry não grita. Ele sussurra — e por isso nunca deixa de ser ouvido.”
Quando vemos crianças sendo agredidas enquanto adultos ignoram, a série toca diretamente no coração da obra de King. Derry não é só palco da Coisa. Derry pertence à Coisa. Cada omissão adulta é parte do ritual.
Capítulo 3 – Guerra fria, medo quente
Outro tema que atravessa o episódio é o medo da guerra. Estados Unidos e União Soviética. Bombas. Armas. Testes. A ameaça nuclear paira como pano de fundo constante.
Isso dialoga diretamente com o horror de It. O medo coletivo não vem apenas do monstro — vem do mundo. A Coisa se alimenta desse clima. Quanto mais tensão, mais fome.
A chegada da família do Major simboliza essa tentativa de normalidade em meio ao colapso. Tudo parece mais lento, mais arrastado, quase doméstico. Mas em Derry, o cotidiano nunca é neutro.
Capítulo 4 – Parto, nascimento e claustrofobia
A cena da cama marca a primeira grande sequência de ação do episódio. E ela é profundamente claustrofóbica. O espaço se fecha, o ar parece faltar, e o medo não explode — ele se comprime.
Pela segunda vez na série, o tema do nascimento aparece com força. Parto, corpo, dor, criação. Não parece coincidência. A Coisa está acordando. E todo nascimento em Derry carrega algo de monstruoso.
A forma como a série representa o funcionamento do medo é precisa: não é um susto, é uma invasão. A Coisa não aparece — ela se insinua.
“Em Derry, o medo não entra pela porta. Ele nasce dentro.”
Capítulo 5 – Kingverso, memória e ancestrais
A presença de Dick, fazendo clara alusão ao personagem de O Iluminado, é um presente para quem conhece o universo de King. O chamado Kingverso se expande, e a sensação de que todas essas histórias coexistem torna tudo mais denso.
Outro momento poderoso é a observação das escavações do exército pelos indígenas. Esse aceno não é gratuito. Nos livros e nos filmes, são as tribos indígenas que primeiro conhecem a Coisa. Elas sabem. Elas lembram. Enquanto os homens brancos cavam, os ancestrais observam.
O horror aqui não é só sobrenatural — é histórico.
Capítulo 6 – Novas crianças, mesmos destinos
Com o núcleo infantil anterior dizimado no cinema, a série apresenta um novo grupo de crianças. O jogo das meninas no refeitório é uma das cenas mais felizes — e mais tristes — do episódio. Feliz pela química. Triste porque sabemos onde isso costuma terminar.
As referências aos filmes são claras, quase confortantes. A série parece dizer: vocês conhecem esse caminho. E isso, paradoxalmente, aumenta a tensão.
Os cartazes de crianças desaparecidas reforçam o óbvio: Derry é hostil à infância. Sempre foi.
Capítulo 7 – Manipulação, culpa e sobrevivência
A forma como o policial manipula Lily para acusar alguém é uma das cenas mais indigestas do episódio. Não há gritos. Não há violência física. Apenas pressão psicológica pura.
É assim que o sistema funciona. E a série deixa isso muito claro.
No núcleo militar, confirma-se a suspeita: o que aconteceu com o Major foi um teste. A revelação vem de maneira inteligente, quando ele percebe o peso, o manejo e a dificuldade da arma. A lesão que o impede de sentir medo não é um detalhe — é uma chave.
“Como lutar contra algo que se alimenta do medo… quando você não pode mais senti-lo?”
Essa ideia encaixa perfeitamente com a mitologia da Coisa. É talvez o ponto conceitual mais alto do episódio.
Capítulo 8 – Corredores, picles e o retorno do pai
A cena de Lily no mercado é sufocante. Corredores que se fecham. Risadas distantes. Olhares que julgam. A sensação constante de estar sendo observada.
E então vem o golpe final: o pai dentro da lata de picles.
Maldosamente perturbador. Um exemplo perfeito de como a Coisa usa culpa, memória e trauma como armas.
A ideia de o governo tentar utilizar a Coisa como ferramenta de segurança é talvez o comentário mais ácido do episódio. É exatamente o que o sistema americano faria. Controlar. Militarizar. Usar o horror como vantagem estratégica.
Capítulo 9 – Um passado enterrado
O episódio se encerra com a descoberta do que parece ser o carro da gangue morta em uma das eras anteriores da Coisa. O passado não desapareceu. Ele apenas foi enterrado — e agora começa a emergir.
Excellentemente construído, o segundo episódio não busca chocar. Ele corrói. Lentamente. Com método.
Se o primeiro episódio chutou a porta, o segundo entra, fecha a janela e nos deixa presos dentro da casa.
Welcome to Derry continua provando que entende seu próprio legado — e não tem pressa alguma em aliviar o peso dele.


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