🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.
Welcome to Derry – Episódio 3
Quando o passado desperta, o medo aprende a atravessar séculos.
Capítulo 1 – Uma ausência que diz muito
O terceiro episódio de Welcome to Derry começa quebrando um padrão. Não há a abertura que vimos no episódio anterior. Essa ausência não é gratuita. Ela já estabelece um desconforto inicial, como se a própria série estivesse nos avisando que algo está fora do lugar.
Em vez disso, somos lançados diretamente em um salto temporal brusco: 1908. Um recuo histórico que muda completamente o eixo da narrativa e, ao mesmo tempo, reforça algo que a série vem sussurrando desde o início — Derry não é um lugar preso ao presente. É um ponto fixo onde o passado nunca morre.
“Em Derry, o tempo não passa. Ele se acumula.”
Capítulo 2 – O circo, o espetáculo e o prenúncio do palhaço
Estamos em um circo. E isso, por si só, já carrega um peso simbólico enorme. Circos sempre foram espaços de fascínio e estranhamento, lugares onde o grotesco e o encantamento caminham juntos. Aqui, a expectativa é imediata: Pennywise.
A série não o entrega de imediato. Prefere preparar o terreno. Há, novamente, referências sutis à tartaruga — quase sempre discretas, quase sempre no fundo da cena. Para quem conhece o universo de Stephen King, é impossível não pensar em Maturin, a tartaruga cósmica, força oposta à Coisa.
Os balões vermelhos surgem de forma quase imperceptível, no fundo do quadro, quando o garoto se aproxima da sala do circo. É um detalhe pequeno, mas perturbador. A ameaça não invade o plano — ela já estava lá.
As salas internas do circo remetem diretamente à memória afetiva de circos reais: atrações bizarras, figuras como a mulher gorila, ambientes que misturam curiosidade infantil com desconforto adulto. A série acerta ao usar essa estética para preparar o horror.
Capítulo 3 – O ritmo lento como escolha narrativa
Mais uma vez, o episódio opta por um ritmo deliberadamente lento. E isso não é um defeito. É uma decisão consciente. A série não quer assustar o tempo todo — quer construir.
Esse prólogo em 1908 funciona como uma camada arqueológica da narrativa. Estamos vendo os alicerces do que virá depois. Personagens diferentes, época diferente, mas a mesma sensação: algo está profundamente errado em Derry.
A cena da floresta, com a nova forma da Coisa, é uma das mais impressionantes visualmente até aqui. Diferente dos espaços fechados e claustrofóbicos vistos antes, agora temos um ambiente aberto, amplo — e ainda assim sufocante. O medo não precisa de paredes.
“Quando o horror ocupa espaços abertos, não há para onde correr.”
Capítulo 4 – A abertura retorna, o ciclo se fecha
Logo após essa sequência, a abertura finalmente aparece. A mesma do episódio anterior. O atraso dela não é um erro de edição — é uma afirmação: aquilo que vimos faz parte do mesmo ciclo.
Após a abertura, a série retorna à linha temporal principal. Voltamos a Lily. Voltamos às consequências. E, pouco a pouco, percebemos que o exército sabe mais do que aparenta.
Há indícios claros de que eles conhecem tanto os ciclos quanto as formas da entidade. O prólogo de 1908 não foi apenas uma digressão histórica — foi a apresentação de um evento-chave: o episódio de Stilling, que aparentemente feriu a Coisa.
Esse conhecimento, agora nas mãos do exército, levanta uma questão inquietante: o que foi feito com essa informação? E, talvez mais importante, o que ainda será revelado?
Capítulo 5 – As crianças e o coração da série
Se há algo que este episódio reafirma com força, é a excelência do casting infantil. As conversas entre as crianças são naturais, críveis, emocionalmente carregadas. Não soam ensaiadas. Não soam artificiais.
E então vem a cena que, sem exagero, é a melhor do seriado até agora: a perseguição das crianças no cemitério.
Os fantasmas, os sustos, a coreografia do medo — tudo funciona. Cada aparição é bem posicionada, cada silêncio é respeitado. A fotografia contribui de forma magistral, usando luz e sombra para amplificar o terror sem torná-lo gratuito.
“O cemitério não assusta porque há mortos ali. Assusta porque os vivos ainda não foram embora.”
O ritmo da sequência é perfeito. Não acelera quando não deve, não segura quando precisa avançar. É terror clássico, bem executado, que respeita o espectador.
Capítulo 6 – Pennywise, enfim
O episódio se aproxima do fim mantendo a contenção. E então, finalmente, Pennywise aparece. Não em carne e osso. Mas em fotografias.
É uma escolha brilhante. O palhaço surge como memória, como registro, como algo que sempre esteve ali. Não é um susto barato — é um lembrete.
Dessa vez, diferente dos episódios anteriores, há um trailer do próximo capítulo e comentários dos diretores ao final. Um gesto curioso, quase metalinguístico, que quebra levemente a imersão, mas também reforça a confiança da série no que está construindo.
Welcome to Derry segue se mostrando uma obra paciente, cuidadosa e profundamente consciente do legado que carrega. O terceiro episódio não tenta superar o primeiro nem repetir o segundo. Ele expande.
E deixa claro: o horror que estamos vendo agora não é novo. Ele apenas voltou a respirar.


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