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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Rituais

Existem pessoas que vivem de improviso.

Eu não sou uma delas.

Eu sou uma pessoa de rituais.

Talvez por isso, para mim, tão importante quanto fazer alguma coisa seja a maneira como essa coisa é feita. O como quase sempre importa tanto quanto o resultado final. Às vezes, até mais.

Eu gosto de mergulhar profundamente naquilo que amo. Quando amo uma pessoa, quero que nós dois nos sintamos as pessoas mais importantes da vida um do outro. Quando gosto de algo, não gosto pela metade. Eu me envolvo, crio hábitos, tradições, pequenos símbolos que transformam aquilo em algo maior.

Quanto mais importante alguma coisa se torna, mais importantes também precisam ser os rituais ao seu redor.

"Algumas pessoas vivem experiências. Eu construo rituais ao redor delas."

Capítulo 1 — O peso das coisas importantes

Isso não acontece apenas no amor.

Acontece em praticamente todos os campos da minha vida.

Os filmes que mais amo ganham rituais especiais. Quero assisti-los no cinema. Quero colecionar copos, figuras, produtos, edições especiais. Quero revisitar aquele universo várias vezes.

Os jogos que mais gosto também recebem esse tratamento. Faço temporadas, jornadas, escrevo textos, crio referências, compro o mesmo jogo em múltiplas plataformas. Alguns jogos deixam de ser apenas entretenimento e passam a fazer parte da minha história.

As pessoas também ganham seus próprios rituais.

Quanto mais importante alguém se torna, mais espaços essa pessoa ocupa dentro da minha vida. Mais lembranças, mais hábitos, mais significados.

Mas existe uma condição para tudo isso: eu também preciso receber algo de volta.

Um jogo que ocupa um lugar tão importante na minha vida precisa continuar me oferecendo conforto, diversão ou boas experiências. Caso contrário, o ritual perde o sentido.

"Importância não é apenas aquilo que damos. É também aquilo que recebemos."

Capítulo 2 — Quando os rituais deixam de fazer sentido

Foi exatamente isso que aconteceu comigo e Diablo IV há cerca de um ano.

Aconteceu também com filmes.

Durante muito tempo consumi absolutamente tudo relacionado à Marvel. Hoje, existem séries que sequer assisti e filmes que nem me interessei em ver no cinema.

Com Star Wars aconteceu algo parecido. Depois da terceira trilogia, eu me afastei. Tentei voltar depois, mas nunca foi exatamente a mesma coisa.

E isso também acontece com pessoas.

Eu tenho rituais para permitir que alguém entre na minha vida.

E tenho rituais para quando alguém sai dela.

Por isso sou extremamente cuidadoso com quem entra e com quem permanece. Porque, para mim, relações nunca são descartáveis.

O modo como as coisas acontecem importa.

Sempre importou.

Não faz sentido continuar oferecendo uma importância ritualística enorme para lugares, pessoas ou experiências onde essa importância não existe do outro lado.

Um filme precisa me entregar uma boa história.

Um jogo precisa me entregar boas horas de conforto e diversão.

Uma pessoa precisa me oferecer algum lugar importante dentro da vida dela para que ocupe um lugar importante dentro da minha.

"Não sei amar pela metade. E talvez esse seja tanto o meu maior defeito quanto a minha maior qualidade."

Capítulo 3 — Eu não sei ser diferente

Eu simplesmente não sei ser diferente.

Não sei jogar algo que não gosto.

Não sei assistir a um filme pelo qual não me interesso.

E não sei me encolher para caber em espaços que poderiam ser muito maiores.

Talvez eu fique preso aos meus próprios rituais.

Mas essa é a minha verdade.

Quando percebo que estou oferecendo uma importância que não retorna, começo lentamente a abandonar aquele ritual.

Não por vingança. Não por orgulho.

Mas porque rituais precisam de significado para continuarem existindo.

"O ritual morre quando o significado desaparece."

Capítulo 4 — A arqueologia da própria vida

Existe ainda outro aspecto importante nisso tudo.

Parte dos meus rituais consiste em voltar ano após ano para revisitar a pessoa que eu fui.

Voltar aos textos antigos.

Ler promessas que fiz para mim mesmo.

Entender o que eu estava vivendo.

Descobrir como lidei com determinadas dores, alegrias e transformações.

É quase uma arqueologia pessoal.

Por isso, um dos meus maiores desgostos modernos é perceber o quanto as redes sociais são efêmeras.

Postagens desaparecem.

Plataformas bloqueiam conteúdos.

Pessoas apagam publicações.

Memórias compartilhadas deixam de existir.

E isso quebra profundamente um dos meus rituais mais importantes: o de revisitar a minha própria história.

Quantas vezes voltei a uma lembrança e encontrei apenas uma foto apagada, um link quebrado ou uma publicação inexistente?

Quantas vezes deixei de entender quem eu era porque uma plataforma decidiu que aquele registro não deveria mais existir?

"Perder uma memória digital é perder um pedaço de quem fomos."

Capítulo 5 — Por que ainda escrevo

Talvez seja justamente por isso que os blogs tenham voltado a ser tão importantes para mim.

Aqui existe permanência.

Aqui existe continuidade.

Aqui eu consigo construir um arquivo da minha própria existência.

Porque, no fim das contas, talvez escrever nunca tenha sido apenas sobre compartilhar pensamentos.

Talvez escrever seja a minha forma de impedir que o tempo apague quem eu fui.

E esse talvez seja o ritual mais importante de todos.

"Algumas pessoas guardam objetos. Outras guardam fotografias. Eu guardo versões de mim mesmo em palavras."

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