O livro continua correndo
Se existe algo que continua me chamando atenção em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, é o ritmo.
Depois de cinco livros, já estamos acostumados com aqueles capítulos onde a história avança centímetros, enquanto a autora movimenta cuidadosamente as peças até o momento do grande clímax.
Aqui não.
Neste livro as coisas acontecem.
Segredos aparecem.
Personagens tomam decisões.
Pistas surgem.
E, principalmente, existe a sensação constante de que alguma coisa está prestes a explodir.
O mundo bruxo finalmente está em guerra e o livro faz questão de lembrar disso o tempo inteiro.
O livro do Príncipe Mestiço
Harry continua usando o antigo livro de Poções do Príncipe Mestiço.
E o mais interessante é perceber que o livro vai muito além de simples anotações sobre ingredientes e receitas.
Existem feitiços.
Existem modificações.
Existem pequenas descobertas espalhadas pelas margens das páginas.
É quase como se Harry tivesse encontrado um diário técnico de um aluno brilhante.
Alguns desses feitiços são inclusive não verbais e Harry começa a treiná-los.
Um deles imediatamente remete Harry à lembrança que ele viu na penseira de Snape, quando Tiago Potter utilizou um feitiço para levantar Snape no ar diante de toda a escola.
É interessante perceber como aquela memória continua ecoando dentro dele.
Harry já sofreu humilhações públicas suficientes para entender exatamente o que Snape sentiu naquele dia.
Talvez seja uma das poucas vezes na série em que Harry consegue verdadeiramente sentir empatia pelo professor de Poções.
"Algumas memórias não acabam quando terminam. Elas continuam acontecendo dentro da gente por muito tempo."
Hermione versus o Príncipe
Hermione continua absolutamente irritada com a situação do livro.
Para ela, aquilo simplesmente não faz sentido.
Harry está aprendendo mais através das anotações de um desconhecido do que através dos próprios livros oficiais da escola.
E pior:
Está tendo resultados melhores do que os dela.
Hermione confia profundamente em regras, livros e métodos estabelecidos.
O Príncipe Mestiço representa exatamente o contrário disso tudo.
Ele representa improviso.
Experimentação.
Criatividade.
Talvez seja exatamente isso que mais a incomode.
Hogsmeade e o Clube do Slugue
A ida até Hogsmeade parece inicialmente apenas mais um daqueles passeios tradicionais da série.
Mas mesmo ali o livro continua movimentando suas peças.
Slughorn volta a insistir para que Harry participe das reuniões do Clube do Slugue.
Harry continua recusando.
Oficialmente por causa dos treinos de quadribol.
Na prática, porque ele agenda os próprios treinos exatamente nos horários das reuniões.
Existe algo curioso nisso.
Harry nunca gostou muito de ambientes políticos, influentes ou sociais.
Ele parece desconfortável com a ideia de ser tratado como alguém especial.
Talvez justamente porque passou boa parte da infância sendo tratado como alguém que não tinha importância nenhuma.
Além disso, existe também a preocupação em não deixar Rony excluído dessas situações.
Algo pequeno, mas muito coerente com a amizade dos dois.
Mundungo Fletcher e a raiva de Harry
Outro momento importante do capítulo acontece quando Harry encontra Mundungo Fletcher vendendo objetos que pertenciam à família Black.
Harry perde completamente a paciência.
E é difícil culpá-lo.
Para ele, aquilo não é apenas roubo.
São objetos da casa de Sirius.
Objetos do último lugar que Harry ainda associava ao padrinho.
Talvez seja um dos primeiros momentos em que percebemos que o luto de Harry ainda está extremamente vivo.
Sirius morreu há meses.
Para Harry, parece que aconteceu ontem.
O colar amaldiçoado
E então o capítulo muda completamente de tom.
Uma aluna passa mal.
Muito mal.
E rapidamente descobrimos que a causa é um colar amaldiçoado.
O clima muda instantaneamente.
Aquilo deixa de parecer apenas um acidente.
Aquilo parece um atentado.
E Harry imediatamente faz a conexão.
Ele reconhece o objeto.
Era um dos itens da Borgin & Burkes, exatamente a loja onde Draco Malfoy esteve no Beco do Tranco.
Mais uma vez Harry chega à mesma conclusão:
Malfoy está envolvido em alguma coisa.
E mais uma vez ninguém parece levar suas suspeitas tão a sério quanto ele gostaria.
Harry conta tudo para a professora McGonagall.
Conta sobre Draco.
Conta sobre a loja.
Conta sobre suas suspeitas.
Mas ainda faltam provas.
E suspeitas nunca foram suficientes em Hogwarts.
Considerações finais
O capítulo 12 é mais um daqueles capítulos que fazem parecer que existe uma bomba-relógio escondida em algum lugar do castelo.
O colar amaldiçoado deixa claro uma coisa:
a guerra chegou até Hogwarts.
Não é mais algo distante acontecendo nos jornais.
Não é mais algo que acontece apenas com adultos.
Agora alunos estão sendo atingidos.
E isso muda completamente o tom da história.
Além disso, Harry continua cada vez mais convencido de que Draco Malfoy está envolvido em algo grande.
Talvez ele esteja certo.
Talvez esteja paranoico.
Mas pela primeira vez desde o início da série, eu começo a sentir que Harry pode estar vários passos à frente de todo mundo ao seu redor.
"O mais assustador da guerra talvez não seja quando ela começa. É quando você percebe que ela já entrou pela porta e sentou na mesa ao seu lado."


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