segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Pooh and Piglet
“Hoje foi um dia difícil”, disse Pooh, com a voz baixa.
Uma pausa se instalou no ar, carregada de silêncio.
“Quer falar sobre isso?” perguntou Piglet, com ternura nos olhos.
Pooh hesitou, e após alguns segundos, respondeu: “Não, acho que não.”
“Não tem problema”, disse Piglet suavemente, e se aproximou para sentar ao lado do seu amigo.
“O que você está fazendo?” perguntou Pooh, curioso.
“Nada, na verdade”, disse Piglet. “Só estou aqui. Eu sei como são os dias difíceis, e muitas vezes também não tenho vontade de falar sobre eles.”
Piglet então continuou, com uma sabedoria tranquila: “Mas sabe, Pooh, os dias difíceis se tornam muito mais leves quando sabemos que temos alguém ao nosso lado. E eu sempre estarei aqui para você.”
E enquanto Pooh, mergulhado em seus pensamentos, processava o peso do seu Dia Difícil, Piglet permanecia ali, quieto, balançando as perninhas com simplicidade e lealdade. Pooh, com o coração um pouco mais leve, pensou que seu melhor amigo nunca havia estado tão certo.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
Papo na Fogueira - De volta ao começo
Capítulo 1 – A volta do trio e o fio invisível
A fogueira nos esperava, paciente como sempre. Finalmente, o time estava completo — eu, André e Alexandre, a tríade que se forma quando o mundo lá fora parece pesar demais para segurar sozinho. Não foi fácil alinhar agendas, nem corpos: André ainda se recuperava de uma gripe persistente, mas fez questão de estar ali. Como se estivesse cansado de ficar calado com a própria mente. Como se a fogueira fosse o último remédio antes da recuperação completa.
Nossa chegada foi marcada por sorrisos que já conhecem o caminho. Cada um trouxe algo: uma piada repetida, uma garrafa, um olhar cansado, um abraço demorado. Eu, dessa vez, cheguei preparado. Já havia deixado ao lado do meu notebook um copo d’água, um pedaço de pão, e uma pequena caixa com tâmaras — talvez tentando alimentar algo em mim que não fosse só a alma.
Há uma liturgia não dita nesse encontro. E antes que qualquer tema surja, antes que o silêncio se transforme em confissão, fazemos a dança do cotidiano: “como você tá?”, “e o trabalho?”, “ainda não resolveu aquilo?”, “e aquele projeto lá?”. Essas frases, por mais banais que pareçam, são um ritual de reaproximação. Como se disséssemos uns aos outros: “ainda estou aqui, mesmo não estando tanto”.
Foi nesse compasso lento que Alexandre puxou um fio. Frágil, quase imperceptível. Um pensamento solto, jogado como quem não quer ferver a água, mas acaba acendendo o fogo. Ele se perguntou — e nos perguntou — como teria sido sua vida se, em certos momentos, tivesse feito escolhas diferentes.
"Há dores que não vêm de feridas abertas, mas de caminhos não trilhados."
— Autor desconhecido
Essa dúvida bateu em mim como uma pedra atirada com carinho. Como se ele tivesse me desarmado com um simples pensamento, sem saber que aquilo já me visitava em segredo há muito tempo. Eu me considero especialista em discussões que não existem mais, em respostas que nunca foram ditas, em guerras vencidas pelo silêncio. Passo horas vivendo na terra do “e se”. E se eu tivesse dito aquilo? E se eu tivesse escolhido o outro caminho? E se eu tivesse apenas ficado mais um pouco? Essas versões minhas, esses multiversos de mim, se sentaram conosco em volta da fogueira naquela noite.
Olhei para o fogo e me vi sendo muitos. Alguns mais felizes, outros apenas menos feridos. Alguns corajosos, outros mudos, mas todos convivendo dentro de mim como fantasmas que se recusam a atravessar. É um peso estranho esse de carregar destinos que nunca foram. E mesmo assim, sentem.
"A vida é feita de escolhas. E mesmo quando não escolhemos, já estamos decidindo."
— Clarice Lispector
O céu estrelado não parecia se importar com meus abismos internos. Mas ali, naquela primeira fagulha de conversa, percebi que essa noite prometia mais do que memórias: prometia confrontos. Não entre nós. Mas entre mim e minhas versões que não consegui enterrar.
Capítulo 2 – O multiverso de mim mesmo
Quando Alexandre jogou aquela ideia na fogueira, como quem sopra uma brasa para ver se ainda há calor, eu senti algo dentro de mim se acender. Ele falou de vidas que poderiam ter sido. De decisões que, se tivessem sido outras, teriam mudado absolutamente tudo. E isso… me encontrou.
Eu já vivi mais versões de mim mesmo do que consigo contar. Versões que se formaram durante anos e desapareceram em segundos. Versões que tomaram decisões diferentes, que responderam com mais coragem ou ficaram em silêncio por medo. Cada uma dessas versões segue comigo — como um coral de vozes que eu escuto sempre que o mundo cala.
“O passado é um país estrangeiro. Lá, tudo é feito de outro jeito.”
— L. P. Hartley
Eu sou especialista em responder discussões que não existem mais. Em refazer caminhos já trilhados. Em me culpar por não ter enxergado a placa que dizia “aqui termina o que você chamava de futuro”. A vida seguiu. Mas o que seguiu comigo foram essas versões que me visitam à noite, me sussurrando todas as escolhas que eu poderia ter feito. Algumas, eu sei, mudariam tudo.
E quando eu penso em tudo isso, não é só arrependimento. É luto. Luto por mim mesmo. Por pedaços meus que foram embora com aquelas decisões. Por pessoas que, talvez, nunca tivessem cruzado meu caminho se eu tivesse apenas dito “não”. Ou dito “sim”.
Há perdas que vêm da ausência, e outras que nascem do excesso. E, por vezes, me percebo convivendo com o fantasma daquilo que não vivi — e daquilo que vivi por impulso. O amor, por exemplo… talvez minha dor mais insistente. Eu ainda carrego a sensação de que só tive uma chance real. Uma chance de viver algo completo, recíproco, festivo. E ela se perdeu. Talvez porque não era pra ser. Talvez porque eu não sou.
"A pior solidão é aquela sentida ao lado da esperança."
— Diário não publicado
E o que me fere hoje não é a ausência daquele amor. É ver, com olhos mais maduros, como aquelas pessoas se tornaram verbais, intensas, apaixonadas… com terceiros. Com outros. E nunca comigo. Nunca por mim. Eu era apenas uma ponte. Um momento. Uma peça que completava o quebra-cabeça da carência — e depois era descartada com naturalidade.
Isso… isso me quebrou de um jeito profundo. Porque eu fui sincero. Dividi o que ninguém sabia. Mostrei mapas internos. E ganhei o silêncio. A ausência. A substituição. E hoje, vejo postagens que talvez falem de mim. Algumas são violentas. Outras, distantes. E eu me pergunto: por que compartilhei tanto com alguém que não aguentou nem ficar?
A fogueira ainda queimava, mas eu já estava mergulhado nesse universo paralelo. Nesse mundo onde cada chama era uma versão minha. Alguns de nós estavam bem. Outros, em frangalhos. Mas todos carregavam a mesma certeza: eu não fui escolhido. Eu não fui festejado. Eu não fui lembrado em voz alta.
André e Alexandre seguiram a conversa. Mudaram de assunto, riram, dividiram novos temas. Mas eu? Eu fiquei ali, olhando para as brasas, escutando vozes solitárias de muitas de minhas versões. Talvez seja esse o multiverso mais difícil de suportar.
Capítulo 3 – Quando todo mundo vai embora
O fogo ainda resistia, lançando pequenas faíscas ao vento como quem avisa: “Ainda estou aqui, mas não por muito tempo”. André e Alexandre se despediram com aquele tipo de abraço que diz “a gente se vê”, mas que sempre me deixa com a sensação de que talvez ninguém volte. Eles foram. E eu fiquei.
Fiquei com minhas versões, meus multiversos, minhas memórias que se arrastam pelo chão como brasas que recusam o esquecimento. Era eu, o fogo, e todos os pedaços de mim que ainda queimavam — mesmo depois de todas as partidas.
“A maioria das pessoas vai embora antes do fim da festa. E algumas nem lembram que foram convidadas.”
— Diário não publicado
A presença dos dois tinha feito parecer que eu estava inteiro por algumas horas. Rimos, divagamos, filosofamos como de costume. Mas bastou o silêncio retornar para eu perceber que, na verdade, estive fragmentado o tempo todo. Apenas disfarcei bem.
Quando todos vão embora, o mundo mostra o que sobra: o eco. O eco das palavras não ditas. O eco das decisões não tomadas. O eco daquilo que ainda vive dentro da gente porque ninguém mais quis levar. E é esse som abafado, abafado pelas paredes internas, que ecoa mais alto que qualquer grito.
Há uma solidão que nasce da ausência dos outros. Mas há outra, mais cruel, que nasce da presença constante do que não se pode dividir. E essa… essa é minha companheira mais fiel.
“Eu não tenho medo do escuro. Tenho medo do que aparece quando a luz apaga.”
— Papo na Fogueira
Naquela noite, eu percebi que todos os meus vínculos estavam em combustão. Não só o amor que eu não tive. Mas as amizades que se distanciaram. Os contatos que esfriaram. As alianças que racharam por dentro, silenciosamente. Eu estava cercado de fumaça — dentro e fora de mim.
E é curioso como até o fogo, símbolo da conversa, da luz, do ritual, se tornou um reflexo da minha vida: consumindo tudo ao redor e me deixando com cinzas nas mãos. Eu tentei me reconectar. Tentei acender de novo alguma fagulha com quem restou. Mas às vezes… ninguém espera por você quando tudo vira cinzas.
Naquele instante, entendi que a minha dor não era a ausência de alguém. Era o abandono das minhas versões, a desistência silenciosa dos que um dia disseram ficar. E tudo isso agora queimava comigo. A lenha que alimentava o fogo… era eu.
Capítulo 4 – O que fica quando tudo queima
A fogueira já era brasa. O céu, mais escuro. A fumaça subia preguiçosa, como se também tivesse cansado de iluminar memórias. Ainda ali, sozinho, pensei que o calor do fogo é como certos sentimentos: mesmo depois de apagados, deixam marcas na pele, no peito, no tempo.
Olhei para o círculo de pedras onde nos sentamos. Três cadeiras, três vozes, três mundos que se encontraram naquela noite. E percebi que, apesar do silêncio que veio depois, algo essencial havia acontecido: dessa vez, a conversa foi convergente.
“Às vezes, tudo que a gente precisa é de alguém que escute... sem pressa de apagar o fogo.”
— Papo na Fogueira
Nenhum de nós impôs verdades. O fio puxado por Alexandre encontrou tecidos que eu já conhecia, mas nunca tinha costurado na frente de ninguém. E foi bonito ver cada um de nós adicionando pontos, cores, jeitos diferentes de ver — como se a dor, dessa vez, não separasse, mas construísse algo comum.
André ouviu mais do que falou, mas em sua escuta havia presença. Alexandre devolvia ideias com o cuidado de quem oferece um cobertor. E eu, entre os escombros das versões que citei, me senti menos só.
A conversa caminhou por outros temas. Demos risada. Fizemos planos improváveis. Nos permitimos leveza, mesmo entre tantas ruínas. E no fim, Alexandre lançou uma pergunta final — daquelas que abrem um buraco na alma e a gente finge que não ouviu. Mas ouvimos.
Essa pergunta não está no texto. É um segredo entre nós e a fogueira.
Voltando para casa, entendi que o tempo daquela noite foi estranho: parece que não vimos as horas passarem, e ao mesmo tempo, foi como se tivéssemos vivido dez anos em poucas horas. E talvez seja essa a grande beleza dos encontros reais — a distorção do tempo quando ele é bem vivido.
“Não vimos o tempo passar... porque usamos o tempo para estar.”
— Diário pós-fogueira
Sim, a vida ainda arde. Ainda há cinzas. Mas também há brasas que se recusam a apagar. E enquanto houver calor, haverá caminho.
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
Versões de mim - uma jornada interna com trilha sonora.
Setembro, minhas versões mortas
"♫ As entradas do meu rosto🎶
♫ E os meus cabelos brancos🎶
♫ Aparecem a cada ano🎶
♫ No final do mês de Agosto🎶"Setembro é o mês em que mais se fala sobre saúde mental. Cartazes, campanhas, frases de efeito — todos nos lembrando da importância de olhar para dentro, cuidar, ouvir, estar presente. E sim, eu concordo: é importante. Mas, ao mesmo tempo, não consigo evitar essa imagem quase metafórica de versões de mim mesmo que morreram ao longo do caminho. Algumas se foram em silêncio, outras foram assassinadas por contextos, decisões ou pessoas. Vistas de longe, parecem apenas fases. Mas olhando de perto... eram vidas inteiras.
"Algumas mortes não envolvem caixões, mas ainda assim exigem luto."
Boa parte da minha vida eu vivi no modo automático. Sem planos, sem projeções, sem preparar terreno. Apenas seguindo o impulso do agora, da oportunidade, da emoção que mandava. E é curioso olhar hoje para tudo isso com a lente do futuro — sabendo como certas histórias terminaram. Eu percebo que, talvez, muita coisa pudesse ter sido diferente se eu estivesse minimamente preparado para o que viria. Mas o preparo exige uma consciência que nem sempre a gente tem. E exige também uma frieza que não combina com quem sente demais.
"♫ You and I will ride tonight🎶
♫ 'Till the past is out of sight🎶
♫ We don't have to look back now🎶"Eu recebi pessoas na minha vida como quem abre a porta num temporal: sem filtro, sem guarda-chuva, sem teto. Algumas chegaram como cometas — brilhantes, intensas, barulhentas — e sumiram na mesma velocidade com que surgiram. E mesmo assim, deixaram rastros. E hoje, vendo algumas dessas pessoas de longe — ou pior, vendo o que dizem, o que postam, o que insinuam — eu me pego com um gosto amargo. Um tipo de arrependimento misturado com perplexidade: "Por que eu confiei tanto? Por que dividi tanto de mim?"
"♫ Pra que mentir, fingir que perdoou?🎶
♫ Tentar ficar amigos sem rancor🎶
♫ A emoção acabou🎶
♫ (Que coincidência é o amor)🎶
♫ A nossa música (nunca mais tocou)🎶"Há postagens que parecem falar de mim. De forma indireta, enviesada, algumas até com uma violência que me espanta. Porque o que eu dei foi afeto, foi escuta, foi cuidado. E o que recebo agora, anos depois, é um eco vazio de alguém que talvez nunca tenha me enxergado. Isso mexe comigo. Não pela crítica em si, mas pela constatação do quanto eu me doei para o nada. O quanto, sem perceber, eu apenas preenchi um espaço de carência. Um buraco que não era meu, mas que eu aceitei habitar como se fosse.
“Algumas pessoas poderiam não ter passado pela minha vida.”
É duro escrever isso, mas é verdade. Algumas presenças foram erros de percurso. São quase como cicatrizes que eu não precisava ter. E por mais que digam que tudo é aprendizado, algumas lições têm um custo alto demais. O preço de noites em claro, de memórias que ainda doem, de uma confiança que hoje é mais difícil de entregar.
"♫ Nesses meses foram tantos nomes🎶
♫ Tantos problemas e tantos🎶
♫ Telefones pra esquecer🎶"É estranho viver em um mês que fala tanto de cuidar da vida e sentir que várias das minhas já foram. Versões minhas morreram no meio de encontros que não deveriam ter acontecido. Em vínculos que nunca foram recíprocos. Em silêncios que gritavam e eu fingi não ouvir. Em decisões que eu não tomei por medo, ou por falta de preparo, ou simplesmente por não ter entendido os sinais.
Hoje eu entendo. E dói mais ainda entender tarde. Porque quando você percebe que aquilo era um aviso, já foi. Já aconteceu. Já machucou.
"♫ Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado🎶
♫ O habitante do meu corpo, deste estranho dublê de retratos🎶
♫ Talvez até eu já vivesse em algum corpo emprestado🎶"Setembro me faz pensar nas minhas mortes invisíveis. Nas minhas desistências disfarçadas. Nas pessoas que passaram como tempestade e deixaram meus móveis virados por dentro. E na minha própria responsabilidade nisso tudo. Porque fui eu quem abriu a porta.
"♫ Chatterton suicidou🎶
♫ Kurt Cobain suicidou🎶
♫ Getúlio Vargas suicidou🎶
♫ Nietzsche enlouqueceu🎶
♫ E eu!🎶
♫ Não vou nada bem🎶"Não escrevo isso como denúncia. Escrevo como luto. Escrevo porque, entre as campanhas de prevenção e os abraços virtuais, eu carrego os rostos de versões minhas que não voltam mais. Algumas mais jovens. Outras mais esperançosas. Todas genuínas. Todas minhas.
E, no fundo, é isso que mais me entristece: ter perdido partes de mim tentando cuidar de partes dos outros.
"♫ Eu já dei a outra alma aos bruxos e vampiros🎶
♫ Eu quero que eles façam a festa enquanto eu me retiro🎶"quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Migração para o Windows 11 - um relato pessoal e desesperador.
Formatar é também se reinventar
Essa jornada pode ser complementada pelo artigo do link SysAdminUrbano Windos11 onde descrevo mais tecnicamente o que aconteceu aqui.
Há quem diga que formatar um computador é só apagar tudo e recomeçar. Para mim, é sempre mais do que isso: é uma chance de revisar não apenas os arquivos que guardo, mas também os rastros digitais que dizem quem eu sou. Entre pastas esquecidas, atalhos inúteis e programas que um dia fizeram sentido, percebo que minha máquina é também uma extensão da minha memória. Esse é meu primeiro computador pessoal desde 2014, é meu primeiro com Windows desde os anos 90, foi feita uma instalação em 2021 e aqui eu também fecho o ciclo dessa história, destruindo tudo que me acompanhou nesses anos e reconstruindo novamente agora em 2025.
"Formatar um sistema é como trocar de pele: dói um pouco, mas no fim é libertador."
1. O inventário do que realmente importa
Comecei pelo mais básico: salvar documentos, fotos, vídeos, músicas.
Copiei cada pasta essencial para um HD externo, quase como quem organiza malas antes de uma viagem.
O medo de esquecer algo ficou ali, me cutucando, então revisitei três vezes cada diretório.
É curioso como até a pasta Downloads guarda pedaços de quem fui nos últimos anos. E é assustador olhar o tanto de arquivos que não sei o que é, para que serve ou que estava acontecendo quando o baixei.
2. O navegador, esse espelho silencioso
Descobri que não queria perder meus favoritos, senhas e histórico. Então ativei a sincronização do Chrome, exportei senhas em CSV e salvei também um HTML com todos os favoritos. Fiz o mesmo no Firefox e OperaGX, porque memória nunca é demais. No fundo, cada link salvo é quase como uma anotação de rodapé de mim mesmo.
"Os favoritos que guardamos são como caminhos que não queremos esquecer — atalhos para pedaços de nós."
3. Meus jogos, minha fuga
Uma das minhas preocupações era não perder minhas bibliotecas da Steam e da Epic.
Ainda bem que mantive todos os jogos em um disco separado.
No novo Windows, bastaria apenas reapontar a pasta D:\SteamLibrary e a D:\EpicGames.
Não é preciso reinstalar tudo — apenas mostrar ao sistema onde está a parte de mim que insiste em escapar para outros mundos.
Aqui o meu primeiro revés, ao instalar a GOG eis que o launcher me inicia uma conta zerada, sem minha biblioteca e minhas horas jogadas/trófeus, entrei em contato com o suporte e ainda estou aguardando solução.
4. A lista do que já esteve comigo
Para não esquecer os programas que uso, rodei um comando no PowerShell. Ele gerou um arquivo com todos os softwares instalados, uma espécie de fotografia técnica da minha rotina digital. Ao olhar a lista, vi mais do que nomes: vi fases da minha vida marcadas por ferramentas que usei para criar, trabalhar, estudar e até errar.
Get-ItemProperty HKLM:\Software\Wow6432Node\Microsoft\Windows\CurrentVersion\Uninstall\* | Select-Object DisplayName, DisplayVersion, Publisher | Format-Table –AutoSize > C:\programas_powershell.txt
5. A travessia
Quando finalmente cheguei à instalação do Windows 11, respirei fundo. Escolhi apenas o disco C:, formatei e deixei que o novo sistema tomasse forma. É curioso: enquanto a tela mostrava apenas porcentagens, minha mente corria por lembranças, ansiosa para o reencontro com a máquina limpa, leve, pronta para novos capítulos.
"Às vezes, precisamos apagar para poder continuar. O mesmo vale para discos e para memórias."
6. Reconstruindo o eu digital
Depois da formatação, reinstalei drivers, reativei programas, importei favoritos, reapontei bibliotecas de jogos. Aos poucos, a vida voltava para a tela. Percebi que formatar um computador não é só perder e recuperar: é também uma escolha do que vale ser trazido de volta. O resto, deixo no silêncio do que já não me serve.
Hoje, escrevo esse relato já no Windows 11. E sinto que, de algum modo, eu também fui atualizado. Não apenas o sistema mudou: eu também escolhi o que manter, o que descartar e o que transformar.
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
Papo(s) na Fogueira
Papo na Fogueira — Quatro Encontros e Uma Fogueira
Por Dário Junior
Introdução
Agosto foi estranho. E intenso. E sim, eu sei que estive um pouco ausente por aqui nessa série — mas dessa vez, não por falta de papo. Os encontros aconteceram, as conversas seguiram, e talvez por isso mesmo eu tenha precisado guardá-las só pra mim, por um tempo. E não foi por nenhum motivo aparente, apenas egoísmo meu mesmo, Nem tudo é para ser compartilhado. Além disso alguns pensamentos demandam tempo e deixei que maturassem em silêncio, como se algumas palavras só fizessem sentido depois que o eco delas passasse.
Hoje, diante da fogueira, sozinho, percebo o quanto cada uma dessas terças foi me moldando. E, pela primeira vez, decidi costurar quatro encontros em um só relato. Quatro terças, quatro arranjos diferentes da mesma fogueira — como se cada combinação de presenças tivesse revelado uma versão diferente de mim.
Dessa vez também quebrarei outro protocolo, sei que normalmente essa série se foca na humanidade de Alexandre contrastando com a sabedoria de André, mas falar disso seria igual dizer que a chuva é molhada, dessa vez eu falarei sobre mim, sobre a minha visão em cada uma dessas fogueiras e espero não entediá-los com isso, no próximo encontro, volto à programação normal.
“Às vezes, é preciso ouvir tudo antes de saber o que realmente se quer dizer.”
Capítulo 1 — Nós Três
O último encontro com nós três reunidos foi quase um ritual de cura. Falamos de fé, de desafios, de milagres pequenos demais pra virar manchete, mas grandes o suficiente pra mudar o dia de alguém. Rimos de coisas bobas e lembramos de dores sérias. E, entre um gole e outro, senti algo raro: pertencimento.
A verdade é que a vida me ensinou a desconfiar de absolutamente tudo. Herdei cicatrizes de histórias mal contadas na cidade onde cresci, de promessas que viraram abandono e de gente que eu chamava de irmão e que me largou no meio do caminho. Amores que se foram cedo demais, barato demais. E isso me fez me isolar, da cidade, das pessoas, de mim mesmo.
Mas estar com o Alexandre e o André é um lembrete visceral de que o ser humano ainda pode surpreender… pra melhor. A tríade da fogueira é minha pequena resistência ao cinismo. É a refutação de praticamente todas as verdades que construí sobre as pessoas, sobre a humanidade. E sempre que estamos juntos, penso no quanto o mundo seria mais suportável se mais pessoas pudessem viver algo assim.
“O tempo me roubou muita coisa, mas me devolveu vocês.”
Capítulo 2 — Eu e Alexandre
Na semana seguinte, André não pôde estar. E eu e Alexandre fizemos um retorno à nossa essência mais antiga: a música.
Falamos de gravações, de sons mal mixados, de projetos inacabados que ainda vivem em alguma pasta esquecida. Trocamos músicas novas, rimos de nossas tentativas juvenis de ser algo, de parecer algo. E por algumas horas, aquele papo foi mais que memória — foi reconciliação.
Havia tempos que meu lado músico estava trancado. Como se houvesse um porão dentro de mim, onde instrumentos estavam empoeirados, esperando que alguém acendesse a luz. Alexandre, com seu humor ácido e leveza primaveril, acendeu.
É difícil que vocês entendam isso por texto, até pela minha inabilidade de conseguir escrever na qualidade que essa história merece, mas Alexandre é uma espécie de profeta, sempre dizendo algo que só fará sentido em dias, meses, até anos depois. Porém, suas profecias não são abragentes, são pessoais, ele toca em pontos escuros e esquecidos como a luz de uma vela em uma sala escura. E foi num desses calabouços mentais que estava o músico que já fui, respirando por aparelhos, porém ainda sobrevivendo.
“Algumas partes nossas só acordam quando encontram a frequência certa em outra pessoa.”
Capítulo 3 — Eu e André
Na semana seguinte, quem não pôde foi Alexandre. E a fogueira, então, me colocou frente a frente com André — essa mente fascinante que sempre me obriga a pensar em mais de uma camada.
André tem uma visão extremamente peculiar do mundo à sua volta. Mais que isso, ele ainda consegue encapsular seu pensamento num pacote claro de ideias, nenhuma escrita em fogo, porém numa clareza de pensamento e dialética que causaria impacto em qualquer filósofo que tivesse o privilégio de ouví-lo. Mas assim como eu, ele se cansou de falar em qualquer lugar, nem todo ouvido é plateia.
Falamos sobre exposição, sobre redes sociais, sobre gente que mente bonito, mas vive mal. Sobre perfis impecáveis e vidas aos cacos. Sobre como algumas pessoas preferem viver nas sombras — não por medo, mas por sabedoria.
André tem esse dom de me arrastar para a superfície do pensamento técnico, mas me deixar boiando em reflexões humanas. Falamos também de raízes, de origens, de simplicidade. E quando olhamos o relógio, a noite já tinha passado — como se o tempo também tivesse parado pra ouvir.
“Nem todo mundo que não aparece está fugindo. Às vezes, só aprendeu a escolher o silêncio.”
Capítulo 4 — Eu Sozinho
Hoje, estou só. Sem Alexandre. Sem André. Só eu e o fogo.
E embora exista uma pontinha de lamento, há também uma imensa gratidão. Porque é raro ter um lugar assim. Um ponto fixo no tempo. Uma chama que resiste mesmo quando os corpos se ausentam.
Terças seguem sendo para mim dias de reflexão. E a de hoje é justamente sobre o impacto desses dias em minha vida. Verdades absolutas me foram quebradas. Ideias evoluíram. Espaços criados. Porém da pra resumir tudo isso em apenas uma palavra: Vida.
Já faz tempo que estamos juntos — nós três — e percebo como mudamos. Como crescemos. E como seguimos envelhecendo lado a lado, mesmo com ritmos e ausências diferentes.
A fogueira segue sendo esse lugar onde a vida faz sentido em volta do calor. Onde o mundo lá fora pode estar caótico, mas aqui… Aqui ainda existe algo sagrado.
“Algumas amizades são tão profundas que não precisam estar presentes pra aquecer. Bastam existir.”
Que venham os próximos encontros.









