Gamertag

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Junho - sempre caótico

Entre Gatilhos, Comportamentos e Coisas que Ninguém Vê – Continuação

Porque o amor, às vezes, também erra o caminho. E ainda assim, insiste em ficar.

Capítulo 1 – O pai que eu sonhava ser

Sempre quis ser pai. E por mais que essa frase carregue em si uma simplicidade quase banal, a verdade é que ela guarda camadas que só quem viveu entende. Desde muito pequeno, quando ainda via meu pai como um herói, essa ideia já morava em mim. Ele era, naquele tempo, o resolvedor de todos os problemas. A figura forte. O escudo. A resposta.

Mas como quase toda infância que se alonga demais, a minha também foi interrompida. Muito cedo, ele deixou de ser a solução e passou a ser a origem de todas as dores. E ali, eu fui perdendo aos poucos a família que jamais cheguei a ter por completo. Vivi minha adolescência à deriva, sem estrutura, sem base, sem aconchego. E no meio do naufrágio, fiz um pacto silencioso comigo mesmo: um dia, eu terei a minha própria família. E serei tudo aquilo que não tive.

Essa vontade cresceu comigo. Não era uma fantasia. Era um objetivo. Um mapa de sobrevivência emocional. Eu queria ser um pai presente, amoroso, envolvido. Queria a mesa posta, os domingos lentos, as risadas sem medo. Queria tudo o que me faltou. E quando você nasceu, filha, foi como se o mundo me devolvesse algo que me foi negado por tanto tempo.

“Ser pai me curou de lugares que nem a terapia sabia nomear.”

Você era um bebê lindo. E a nossa conexão foi imediata. Não precisou de tempo, de adaptação, de ajustes. Eu te vi, te peguei no colo, e algo dentro de mim se reorganizou. Um amor novo, fresco, bruto, visceral. Algo que eu nunca tinha experimentado. E aquilo me tornou melhor. Me tornou, talvez pela primeira vez, alguém que gostava de ser quem era.

Nosso começo foi lindo. Cada passo seu, cada palavra, cada gesto. Eu observava tudo com um misto de admiração e espanto. Era como ver um milagre se construindo dia após dia dentro do caos do mundo. Mesmo com o casamento se tornando um campo de guerra, mesmo com o peso da rotina, mesmo com tudo... ser pai era a única coisa certa. A única coisa boa. A única certeza real em um mundo cheio de falhas.

Capítulo 2 – A primeira ruptura

Mas nem todo sonho sobrevive à realidade. E o nosso lar, que já vinha rachado, cedeu. O casamento acabou. A casa silenciou. E você foi embora. A tua ausência... não foi só espacial. Foi emocional. Foi visceral. Foi a maior perda da minha vida adulta. O ano da sua partida foi o mais escuro que vivi desde que aprendi a sobreviver sozinho.

A gente ainda se via, claro. Tentávamos manter algum tipo de rotina. Mas já não era a mesma coisa. Havia um vácuo entre nós. Algo que antes era ponte e agora parecia muro. E aos poucos, eu fui vendo você mudar. Crescer para lados que eu não conseguia alcançar. Escolher caminhos que eu não conseguia entender. E isso... isso foi me quebrando aos poucos.

“A pior solidão é ver alguém que você ama se tornar irreconhecível.”

Você estava crescendo muito diferente do que eu sonhei. E não, não se trata de controle. Não se trata de expectativa frustrada. Trata-se de cuidado. Trata-se de um amor que olha e vê o que vem pela frente — e sofre por antecipação. Porque os pais, filha, têm essa maldição: eles enxergam o que os filhos ainda não podem ver. E o que eu via... era dor. Era conflito. Era repetição de histórias que eu passei a vida tentando evitar.

Você começou a flertar com comportamentos que me lembravam pessoas que eu lutei para esquecer. E isso me feria. Me feria de formas que eu não sabia expressar. Dava raiva, sim. Não de você. Mas de ver o que você estava se tornando. E de não conseguir impedir. De não saber mais o que fazer.

Eu continuei tentando. Mesmo sem manual. Mesmo sem garantias. Mesmo com você cada vez mais distante. Mas o abismo crescia. E cada vez que você voltava, era como se outra versão sua ocupasse aquele corpo. Uma versão carregada de reatividade, de arrogância, de distanciamento. Uma versão que me assustava. Que me desafiava. Que me calava.

E aqui estamos. Você aí, se tornando algo que eu nunca quis. Eu aqui, ainda te chamando de filha... mas já não sabendo com quem estou falando.

Capítulo 3 – O pesadelo onde havia um plano

Eu fui tentando. Mesmo quando você já não ouvia. Mesmo quando tudo em você parecia dizer “não me toque”. Eu fui tentando. Tentando ser suporte. Tentando estar perto. Tentando não desistir. Mas é difícil amar quando o outro parece fazer questão de desprezar qualquer gesto. Qualquer regra. Qualquer limite.

Você passou a confrontar toda e qualquer autoridade. Toda tentativa de diálogo virava conflito. Toda tentativa de presença virava invasão. E, aos poucos, foi ficando impossível. Você começou a se parecer — cada vez mais — com pessoas que eu lutei a vida toda para manter fora da minha história. E aí, a pergunta vinha sozinha: pra quê?

“Se você conhece o final do caminho... por que insiste em caminhar até ele?”

Eu sei que você é livre. Sei que a escolha é sua. Mas ainda assim... certas coisas deveriam ser óbvias. Regras deveriam ser regras. E eu não estava preparado. Não pra isso. Não pra ver você romper com tudo o que acreditamos. Não pra ver você negar tudo o que te foi dado com tanto amor. Eu não estava pronto para a decepção. Nem para esse tipo de rebeldia sem causa. Nem para ser tratado como um estranho dentro da própria história.

Talvez eu nunca tenha sido um adolescente assim. Talvez porque eu estava sempre preocupado demais com o futuro. Porque a sobrevivência me impedia de me perder. E agora eu olho pra tudo isso e não sei onde foi que tudo desandou. Só sei que desandou. E feio.

Você era o meu maior sonho. E hoje... você me dá medo. Porque o que antes era plano, agora é um pesadelo com arquitetura lovecraftiana — incoerente, grotesco, inexplicável. Um labirinto de dor com portas fechadas.

Capítulo 4 – Silêncios que não cicatrizam

A parte mais cruel de tudo isso é que o que eu penso... é simples. Muito simples. Mas não encontra eco. Falo, tento explicar, tento alertar... e nada volta. Só silêncio. Ou sarcasmo. Ou negação. É difícil competir com a arrogância da adolescência — aquela certeza estúpida de que se sabe tudo. De que se tem todas as respostas. Eu também fui assim. Mas nem de longe com essa blindagem emocional. Nem de longe com essa distância quase ofensiva.

Você cresceu... e escolheu o pior do que carrega no sangue. Pegou os traços mais duros, mais rudes, mais tóxicos da sua genética — e os elevou à categoria de personalidade. E isso... isso é desesperador. Porque o que você está se tornando... é algo que dói de olhar. Dói de lembrar. Dói de prever.

“O pior não é te ver se perder. É saber que você acredita estar vencendo.”

Hoje eu já não sei como falar com você. Já não sei como atravessar essa muralha que você levantou. Aparentemente... você também não quer. Não quer escutar. Não quer conversar. Não quer compartilhar nada além do que te convém.

Talvez você nunca leia esse texto. E tudo bem. Ele não foi escrito para ser lido. Ele foi escrito porque eu precisava escrever. Porque eu precisava gritar de um jeito que não me expulsasse da sua vida mais do que já fui. E se você, um dia, esbarrar nessas linhas — que você saiba: elas foram escritas por alguém que esteve ali desde o seu primeiro suspiro. Alguém que te viu sorrir pela primeira vez. Alguém que sorriu com cada pequena vitória sua. Alguém que, mesmo sem conseguir mais te reconhecer, ainda te ama.

Hoje, eu olho pra você... e não sei quem você é. Não sei como você pensa. Não sei o que você sente. Mas sei o que virá se continuar assim. E não há nada mais triste do que saber o fim de uma história — e não poder fazer nada para mudar o roteiro.

“E o que fazer... quando o maior amor da sua vida não quer ser amado?”

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