Gamertag

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Papo na Fogueira - último fogo de junho de 25.

Papo na Fogueira – Esperas e Retornos

Um capítulo sobre silêncio, reencontros e a velha tradição de contar como foi a semana. Porque antes de qualquer discussão, a gente precisa saber se o outro ainda está inteiro.

Naquela semana anterior, o fogo não acendeu. Cada um teve seu motivo, seus compromissos, seus desvios de rota — e o que era para ser mais um encontro entre três homens cansados da vida comum e sedentos por conversas incomuns acabou não acontecendo.

Mas a ausência deixa marcas. A falta da fogueira fez eco. E por isso, quando finalmente sentamos novamente, o silêncio do intervalo parecia até fazer parte da roda — como uma quarta cadeira vazia. A espera, nesse caso, tornou o reencontro mais denso. O que ficou guardado na semana anterior veio com mais urgência, com mais necessidade de ser dito.

E mantivemos o nosso velho ritual: antes de qualquer ideia maior, antes de filosofias improvisadas ou risos inesperados, cada um contou sua semana. Sorte, revezes, descobertas pequenas ou grandes tombos — é por aí que sempre começamos.

“Às vezes o que a gente precisa não é de conselhos, mas de um ouvido atento ao caos que carregamos nos dias.”

Então acendemos a fogueira, não para iluminar o que vem, mas para aquecer o que passou. E com isso, começamos mais uma noite de escuta, falas e intervalos sinceros.

Capítulo 1 – Alexandre e o Horizonte das Bugigangas

Alexandre chegou como quem desembarca de uma caravela: entusiasmado, cheio de histórias e com ares de vendedor de especiarias do século XV. Falava como se tivesse cruzado mares interiores durante a semana, descobrindo novos portos, mapas e promessas. O tom era otimista — e isso era contagiante.

Como sempre, vinha acompanhado de suas bugigangas. Nenhuma semana é igual à anterior quando se trata de Alexandre. Um novo equipamento, um projeto curioso, uma tentativa ousada de otimizar o tempo ou reencantar alguma parte esquecida da vida prática. Ele não chega apenas com palavras: traz objetos, ideias e esquemas. Às vezes, é um adaptador curioso; noutras, um software recém-descoberto. E mesmo quando a utilidade é questionável, o encanto está sempre lá.

Naquela noite, ele falava de futuro — mas como quem o sente logo ali na esquina. Suas palavras tinham cheiro de novidade e sua voz carregava uma crença rara: de que as coisas, apesar de tudo, ainda podem dar certo. E talvez seja por isso que ouvir Alexandre nos faz tão bem. Ele não se contenta em sobreviver à semana: ele parece transmutá-la.

“Há quem traga esperança em forma de fala — e quem a embale com fios, botões e caixas coloridas.”

E assim começou nossa rodada: com um vislumbre de futuro narrado por alguém que enxerga o cotidiano como um grande mercado de descobertas. Alexandre, sempre com seus olhos brilhando diante do que ainda não chegou — mas que, para ele, já está logo ali.

Capítulo 2 – Troféus, Cervejas e Sentido

Depois do Alexandre soltar suas especiarias e projetores sobre a mesa imaginária da fogueira, chegou a minha vez. E talvez pela primeira vez em muito tempo, eu falei de algo que me empolgava de verdade: minha jornada gamer em busca de troféus. Sim, essa mesma que ando compartilhando por aqui em outros posts, mas ali, entre amigos, tudo ganha um calor diferente.

Contei como essa busca por achievements, que começou quase por acaso, acabou se tornando um mapa interno, uma bússola que me aponta para um tipo muito específico de propósito. “É só um jogo”, diriam alguns — mas não é. Porque quando você acorda e pensa que tem um objetivo, mesmo que seja completar os 100% de um indie da GOG, algo se move. O dia deixa de ser apenas uma sequência de obrigações. Ganha um norte.

“Nos últimos dias, é aqui que a vida tem sido vivida — o resto é só trabalho.”

Comentei também, com um certo tom de riso confessional, que desde que comecei essa jornada, tenho bebido menos cerveja. Talvez uma troca de dopamina: antes, a lata gelada no fim do expediente; agora, o som de uma conquista pipocando na tela. E olha... funciona. Não que eu esteja evangelizando ninguém — cada um tem sua fuga. A minha, no momento, é pixelada.

Meus amigos ouviram com aquela mistura de curiosidade e carinho que só se encontra entre pessoas que se importam de verdade. Não houve julgamento, só interesse. Talvez até tenham se inspirado, mesmo que brevemente. Porque, no fundo, todo mundo anda buscando alguma forma de sentido. A minha, neste capítulo da vida, veio com um controle na mão e o monitor iluminando o rosto.

Capítulo 3 – As três brasas de André

Quando a chama já havia aquecido a conversa e todos tínhamos, de algum modo, despido a alma com nossos relatos, foi a vez de André tomar a palavra. Como sempre, suas frases vinham bem lapidadas, embaladas por silêncios breves, como quem pesa as palavras antes de deixá-las escapar. E ele começou com uma ausência.

Relatou, com a serenidade que lhe é comum, o afastamento de um amigo. Não houve tragédia, tampouco drama escancarado — apenas aquela constatação agridoce de que algumas conexões simplesmente desbotam quando colocadas à luz de certas escolhas. Os detalhes vieram suaves, mas carregados de uma introspecção que só se compreende depois que se vive. E embora ninguém tenha nomeado o que se passava, muito depois, quando a fogueira já era apenas carvão quente e as palavras ecoavam no escuro, eu dei nome àquilo que vi: sincericídio.

"Nem todo mundo quer ouvir uma verdade, mesmo quando ela é dita com afeto."

André é esse tipo de figura rara: alguém que acredita no poder das ideias. Gosta de conversar com quem discorda, não para vencer o debate, mas para expandi-lo. Gosta de testar os limites das próprias certezas. Mas essa postura, que deveria ser ponte, vira muro para muitos — porque, como ele mesmo diria, “em tempos de frases prontas, pensar virou ameaça”.

E eu divago, como sempre, pois é difícil falar de André sem cruzar os próprios caminhos. Voltemos à fogueira.

Depois da confissão que pairou como fumaça no ar, veio uma mudança de tom. André compartilhou algo que lhe iluminava por dentro: um projeto pessoal, voluntário, que vinha desenvolvendo. Os olhos brilharam, as palavras fluíram com alegria genuína. E o modo como ele descrevia o que fazia — mesmo sendo algo ainda pequeno — nos lembrava da beleza de mover-se por algo em que se acredita. Havia ali aquele tipo de entusiasmo que aquece sem queimar.

Por fim, trouxe um desdobramento de uma conversa antiga: um problema no trabalho que, até então, era sombra, mas que agora ganhava forma. Como quem monta um quebra-cabeça, André vinha reunindo as peças da situação desde a última vez em que estivemos juntos. E agora, pela primeira vez, falava em enfrentar, propor, agir. O embate se anunciava, mas não com violência — com estrutura. Com lucidez.

"Às vezes, o que nos falta não é coragem, é só um mapa do que fazer com ela."

Capítulo 4 – O Papo Começa: Quando o Mistério nos Visita

O calor da fogueira, até então ritualístico, parecia mudar de natureza. Deixava de ser acolhimento e passava a ser atmosfera. Porque agora sim, o papo começava. O motivo do encontro não era mais um pano de fundo — era a pauta anunciada. E como em todas as vezes que algo importante está prestes a ser dito, houve um silêncio involuntário. O tipo de pausa que se impõe antes de algo denso, como se o ar também soubesse escutar.

André olhou em volta, certificando-se de que todos estavam ali — não apenas fisicamente, mas também com a mente presente. E então começou. Sem preâmbulos, sem floreios desnecessários. Apenas a voz firme de quem tem algo real a compartilhar.

“Hoje, eu trouxe aquilo que a razão não abraça.”

Não era uma introdução simbólica. Era literal. O tema da noite era o sobrenatural. O inexplicável. O que alguns chamariam de lenda, delírio, superstição. Mas que, vindo de André, ganhava outra dimensão. Porque ele não é de dramatizações, é cético. E porque, ao narrar, sua voz não tentava convencer — apenas registrar.

O primeiro relato era simples. Um sentimento estranho, em uma madrugada vazia. Um som seco, vindo de dentro do quarto, onde não havia mais ninguém. “Até aí, tudo bem”, disse ele. “Mas quando fui verificar, tudo estava exatamente igual. Só não parecia... vazio.”

Uma conversa mental com o inexplicável, muitas perguntas, nenhuma resposta.

Seguimos escutando. A segunda história carregava uma mudança importante: a presença do cachorro. E essa informação não foi um detalhe qualquer. André pausou, olhou para nós com intensidade e concluiu:

“O cachorro latia para o canto da rua. Firme. Tremia, mas não recuava. Os olhos fixos em algo que não estava lá. E eu... nunca vi aquele cão daquele jeito.”

Alexandre sorria enquanto André franzia o cenho. Era visível o conflito interno entre seu lado cético e seu relato honesto. Mas ninguém interrompeu. Estávamos ali para isso. A terceira história de André já envolvia uma outra pessoa. Ele estava junto, mas não era o protagonista. O que tornava tudo ainda mais desconcertante. Alguém com quem ele não havia comentado nada antes narrou um vulto parado, paralisando por segundos toda a conversa que eles teriam.

E por fim, o último relato: um grupo. Uma situação coletiva. Várias pessoas, André estava sóbrio, e teve um encontro com algo que simplesmente não podia ser explicado. Nenhuma histeria, nenhum pânico. Apenas aquele tipo de desconforto gelado que atravessa a pele quando algo não se encaixa no que se conhece do mundo.

“Não tenho respostas”, disse André. “Mas quanto mais compartilho, menos solitário isso parece. Como se essas experiências precisassem ser ditas, ou então apodrecem em silêncio.”

Alexandre, com seu jeito de contador de causos, devolveu com um relato dele mesmo. Algo que está se desenrolando, um mistério fresco trazido ao nosso pequeno grupo.

Quanto a mim... calei, não havia mais tempo. Anotei o que precisava. Não porque não tinha nada a dizer, mas porque o que se viveu ali precisava repousar antes de ser devolvido em palavras. E há falas que só são possíveis na próxima fogueira. Talvez com menos racionalidade e mais sentimento. Porque há coisas que se contam. E há coisas que se esperam arder no tempo certo.

Encerramos a noite assim, com as brasas ainda acesas e as palavras de André reverberando no escuro como constelações interiores. Nem tudo se resolveu, nem tudo precisa. Às vezes, o fogo da fogueira serve mais para aquecer do que para iluminar. E basta.

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