Gamertag


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 4

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 4

Quando as provas falham, os adultos se omitem e o medo aprende a se camuflar.

Capítulo 1 – Fotos que não provam nada

Como já era de se esperar, as fotos não levariam a lugar nenhum. Em Welcome to Derry, provas raramente sobrevivem ao contato com os adultos. Eu imaginava — e a série confirma — que a Coisa manipularia as imagens. Não porque precise esconder, mas porque pode.

Nos filmes e nos livros, isso sempre foi um padrão: os adultos simplesmente não veem o que as crianças veem. Sangue, entidades, sinais explícitos — tudo desaparece diante dos olhos adultos. Essa cegueira não é coincidência. É parte da influência da Coisa sobre Derry.

“Quando os adultos não veem, o medo das crianças cresce em silêncio.”

Essa percepção — de que os adultos não irão ajudar, não irão acreditar, não irão salvar — é um dos pilares do terror de Stephen King. E aqui, no episódio 4, ela está mais presente do que nunca. Não apenas em relação à Coisa, mas também à violência, ao racismo, às injustiças cotidianas.

Capítulo 2 – A palavra proibida: Pennywise

A cena envolvendo a filha do Pennywise — ou melhor, do homem que carrega esse nome — é profundamente perturbadora. Ainda não sabemos qual é a relação direta entre Pennywise e a Coisa. A série parece guardar essa revelação com cuidado. Mas o simples fato de a palavra Pennywise ser dita diretamente para Lily já é suficiente para causar arrepio.

Nomear o mal sempre foi perigoso. Em Derry, mais ainda.

Essa ambiguidade — Pennywise como entidade, como persona, como herança — abre um campo narrativo interessante. Não sabemos se estamos diante de um avatar humano, de um eco, ou de algo ainda mais profundo. E a série parece confortável em não responder agora.

Capítulo 3 – Medo nuclear e educação pelo pânico

Voltamos à escola, e o tema agora são bombas nucleares. Considerando o contexto da Guerra Fria, é impossível não imaginar o impacto psicológico disso nas crianças da época. Não sei afirmar com precisão se esse tipo de aula realmente acontecia, mas o medo era real — tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo.

Ensinar crianças sobre aniquilação total, sobre o fim iminente, sobre explosões que não deixam nada para trás… isso molda uma geração inteira. E em Derry, esse medo coletivo encontra terreno fértil.

“A Coisa não cria o medo. Ela apenas aprende a usá-lo.”

Capítulo 4 – A pescaria e a falsa segurança

A cena da pescaria é belíssima e inquietante ao mesmo tempo. De um lado, parece completamente normal deixar uma criança sozinha ali — águas rasas, atividade simples, rotina. De outro, estamos em Derry. E nada ali é apenas o que parece.

É curioso como o pai consegue acreditar no filho justamente por conta de sua ligação com o exército. A vivência institucional parece abrir fissuras na descrença. Nem todos os adultos são totalmente cegos — alguns apenas fingem não ver.

E então vem o balão. Mais uma vez. Discreto, preciso, ameaçador. A série entende muito bem o peso simbólico desse elemento.

Capítulo 5 – Racismo, polícia e instituições

A abordagem do racismo neste episódio continua sendo um dos pontos mais fortes da série. Confesso que, como brasileiro, não tenho total dimensão de como funcionavam — ou funcionam — as relações raciais nos Estados Unidos em termos institucionais, especialmente polícia e exército.

Ainda assim, o que a série mostra é claro: o sistema está pronto para culpar, pressionar e destruir. E faz isso com uma naturalidade assustadora.

A cena do interrogatório é completamente previsível — e exatamente por isso eficaz. A suspeita se confirma: ele estava com uma mulher branca e casada. As duas coisas juntas. O pecado máximo naquele contexto.

“Em Derry, a verdade importa menos do que quem pode ser culpado.”

Capítulo 6 – Hallorann: poder ou manipulação?

Uma das escolhas narrativas mais interessantes da série está nas cenas envolvendo Hallorann. Nunca sabemos exatamente se o que ele vê é fruto de sua habilidade — ou se é a Coisa manipulando sua percepção.

Essa dúvida constante é brilhante. A luz pode ser poder. Pode ser engano. Pode ser isca.

A cena entre Hallorann e o Major é simplesmente sensacional. Um dos grandes momentos do episódio.

Capítulo 7 – Ciclos, militares e conhecimento proibido

Algo que chama muita atenção é o quanto o general parece saber sobre os ciclos da Coisa. Quando começam. Quando terminam. Como funcionam. Ele possui um volume de informações que nunca vimos antes em nenhuma adaptação.

Isso muda completamente o jogo. Pela primeira vez, não são apenas crianças tentando sobreviver — há uma instituição tentando entender, controlar, talvez até usar.

A cena do caracol, como eu imaginava, retorna associada à Marge. O parasitismo. A perda de controle. O medo específico sendo explorado.

A cena de Marge é grotesca. Os olhos. A transformação. Tudo ali é desconfortável no mais alto grau. E, inevitavelmente, Lily provavelmente carregará mais uma culpa que não é sua.

“A Coisa não mata apenas corpos. Ela destrói vínculos.”

Capítulo 8 – O fim de um ciclo se aproxima

Tudo indica que a série está caminhando para o encerramento de mais um ciclo da Coisa. Muitas crianças não sobreviverão. E, sendo este o ciclo imediatamente anterior ao dos filmes, faz sentido que algo grande aconteça.

Os militares provavelmente deixarão a região. Não há menção a eles nos livros. Algo dará errado. Muito errado.

Considerando que as próximas temporadas serão retroativas, é provável que vejamos ainda coisas muito mais graves. A Coisa não deve se limitar às crianças. E, ao perceber que os militares representam uma ameaça real, talvez ela decida agir com mais força.

Os balões vermelhos surgindo para o Major são um detalhe final perfeito. A ameaça agora o reconhece.

Welcome to Derry segue firme, paciente e cruel. E o episódio 4 deixa claro: ninguém está preparado para o que ainda vem.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 3

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 3

Quando o passado desperta, o medo aprende a atravessar séculos.

Capítulo 1 – Uma ausência que diz muito

O terceiro episódio de Welcome to Derry começa quebrando um padrão. Não há a abertura que vimos no episódio anterior. Essa ausência não é gratuita. Ela já estabelece um desconforto inicial, como se a própria série estivesse nos avisando que algo está fora do lugar.

Em vez disso, somos lançados diretamente em um salto temporal brusco: 1908. Um recuo histórico que muda completamente o eixo da narrativa e, ao mesmo tempo, reforça algo que a série vem sussurrando desde o início — Derry não é um lugar preso ao presente. É um ponto fixo onde o passado nunca morre.

“Em Derry, o tempo não passa. Ele se acumula.”

Capítulo 2 – O circo, o espetáculo e o prenúncio do palhaço

Estamos em um circo. E isso, por si só, já carrega um peso simbólico enorme. Circos sempre foram espaços de fascínio e estranhamento, lugares onde o grotesco e o encantamento caminham juntos. Aqui, a expectativa é imediata: Pennywise.

A série não o entrega de imediato. Prefere preparar o terreno. Há, novamente, referências sutis à tartaruga — quase sempre discretas, quase sempre no fundo da cena. Para quem conhece o universo de Stephen King, é impossível não pensar em Maturin, a tartaruga cósmica, força oposta à Coisa.

Os balões vermelhos surgem de forma quase imperceptível, no fundo do quadro, quando o garoto se aproxima da sala do circo. É um detalhe pequeno, mas perturbador. A ameaça não invade o plano — ela já estava lá.

As salas internas do circo remetem diretamente à memória afetiva de circos reais: atrações bizarras, figuras como a mulher gorila, ambientes que misturam curiosidade infantil com desconforto adulto. A série acerta ao usar essa estética para preparar o horror.

Capítulo 3 – O ritmo lento como escolha narrativa

Mais uma vez, o episódio opta por um ritmo deliberadamente lento. E isso não é um defeito. É uma decisão consciente. A série não quer assustar o tempo todo — quer construir.

Esse prólogo em 1908 funciona como uma camada arqueológica da narrativa. Estamos vendo os alicerces do que virá depois. Personagens diferentes, época diferente, mas a mesma sensação: algo está profundamente errado em Derry.

A cena da floresta, com a nova forma da Coisa, é uma das mais impressionantes visualmente até aqui. Diferente dos espaços fechados e claustrofóbicos vistos antes, agora temos um ambiente aberto, amplo — e ainda assim sufocante. O medo não precisa de paredes.

“Quando o horror ocupa espaços abertos, não há para onde correr.”

Capítulo 4 – A abertura retorna, o ciclo se fecha

Logo após essa sequência, a abertura finalmente aparece. A mesma do episódio anterior. O atraso dela não é um erro de edição — é uma afirmação: aquilo que vimos faz parte do mesmo ciclo.

Após a abertura, a série retorna à linha temporal principal. Voltamos a Lily. Voltamos às consequências. E, pouco a pouco, percebemos que o exército sabe mais do que aparenta.

Há indícios claros de que eles conhecem tanto os ciclos quanto as formas da entidade. O prólogo de 1908 não foi apenas uma digressão histórica — foi a apresentação de um evento-chave: o episódio de Stilling, que aparentemente feriu a Coisa.

Esse conhecimento, agora nas mãos do exército, levanta uma questão inquietante: o que foi feito com essa informação? E, talvez mais importante, o que ainda será revelado?

Capítulo 5 – As crianças e o coração da série

Se há algo que este episódio reafirma com força, é a excelência do casting infantil. As conversas entre as crianças são naturais, críveis, emocionalmente carregadas. Não soam ensaiadas. Não soam artificiais.

E então vem a cena que, sem exagero, é a melhor do seriado até agora: a perseguição das crianças no cemitério.

Os fantasmas, os sustos, a coreografia do medo — tudo funciona. Cada aparição é bem posicionada, cada silêncio é respeitado. A fotografia contribui de forma magistral, usando luz e sombra para amplificar o terror sem torná-lo gratuito.

“O cemitério não assusta porque há mortos ali. Assusta porque os vivos ainda não foram embora.”

O ritmo da sequência é perfeito. Não acelera quando não deve, não segura quando precisa avançar. É terror clássico, bem executado, que respeita o espectador.

Capítulo 6 – Pennywise, enfim

O episódio se aproxima do fim mantendo a contenção. E então, finalmente, Pennywise aparece. Não em carne e osso. Mas em fotografias.

É uma escolha brilhante. O palhaço surge como memória, como registro, como algo que sempre esteve ali. Não é um susto barato — é um lembrete.

Dessa vez, diferente dos episódios anteriores, há um trailer do próximo capítulo e comentários dos diretores ao final. Um gesto curioso, quase metalinguístico, que quebra levemente a imersão, mas também reforça a confiança da série no que está construindo.

Welcome to Derry segue se mostrando uma obra paciente, cuidadosa e profundamente consciente do legado que carrega. O terceiro episódio não tenta superar o primeiro nem repetir o segundo. Ele expande.

E deixa claro: o horror que estamos vendo agora não é novo. Ele apenas voltou a respirar.

sábado, 8 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 2

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 2

Racismo, medo coletivo e a lenta certeza de que Derry nunca esteve adormecida.

Capítulo 1 – Referências, ecos e a falsa calmaria

O segundo episódio de Welcome to Derry começa deixando algo muito claro: essa série sabe exatamente de onde veio. As referências ao livro de Stephen King e aos filmes de 2017 e 2019 não são acidentais — são estruturais. Elas funcionam como ecos. Lembranças incômodas que dizem ao espectador: isso já aconteceu antes, e vai acontecer de novo.

Diferente do impacto brutal do primeiro episódio, aqui o ritmo desacelera. Não por fraqueza narrativa, mas por necessidade. A série entende que, depois do choque inicial, é preciso apresentar o terreno. Mostrar a cidade funcionando. Ou melhor: disfuncionando.

“Em Derry, o silêncio nunca é paz. É só o intervalo entre tragédias.”

Capítulo 2 – Racismo como sintoma, não como acaso

O episódio bate forte — e de forma muito consciente — no tema do racismo. As crianças mortas têm como principal suspeito o projecionista do cinema. O motivo? Ele é negro. Não há provas, apenas a necessidade da cidade de apontar para alguém que não pertence.

Os policiais vigiando a casa dele não estão ali para proteger. Estão ali para intimidar. É o racismo estrutural funcionando como sempre funcionou: silencioso, automático, confortável para quem o pratica.

A cena do açougue é exemplar nesse sentido. O racismo velado, quase educado. O açougueiro oferece deliberadamente as piores carnes à esposa do Major. Não há insulto direto, não há agressão explícita — apenas a certeza de que ela merece menos. E essa sutileza torna tudo ainda mais nojento.

“O racismo de Derry não grita. Ele sussurra — e por isso nunca deixa de ser ouvido.”

Quando vemos crianças sendo agredidas enquanto adultos ignoram, a série toca diretamente no coração da obra de King. Derry não é só palco da Coisa. Derry pertence à Coisa. Cada omissão adulta é parte do ritual.

Capítulo 3 – Guerra fria, medo quente

Outro tema que atravessa o episódio é o medo da guerra. Estados Unidos e União Soviética. Bombas. Armas. Testes. A ameaça nuclear paira como pano de fundo constante.

Isso dialoga diretamente com o horror de It. O medo coletivo não vem apenas do monstro — vem do mundo. A Coisa se alimenta desse clima. Quanto mais tensão, mais fome.

A chegada da família do Major simboliza essa tentativa de normalidade em meio ao colapso. Tudo parece mais lento, mais arrastado, quase doméstico. Mas em Derry, o cotidiano nunca é neutro.

Capítulo 4 – Parto, nascimento e claustrofobia

A cena da cama marca a primeira grande sequência de ação do episódio. E ela é profundamente claustrofóbica. O espaço se fecha, o ar parece faltar, e o medo não explode — ele se comprime.

Pela segunda vez na série, o tema do nascimento aparece com força. Parto, corpo, dor, criação. Não parece coincidência. A Coisa está acordando. E todo nascimento em Derry carrega algo de monstruoso.

A forma como a série representa o funcionamento do medo é precisa: não é um susto, é uma invasão. A Coisa não aparece — ela se insinua.

“Em Derry, o medo não entra pela porta. Ele nasce dentro.”

Capítulo 5 – Kingverso, memória e ancestrais

A presença de Dick, fazendo clara alusão ao personagem de O Iluminado, é um presente para quem conhece o universo de King. O chamado Kingverso se expande, e a sensação de que todas essas histórias coexistem torna tudo mais denso.

Outro momento poderoso é a observação das escavações do exército pelos indígenas. Esse aceno não é gratuito. Nos livros e nos filmes, são as tribos indígenas que primeiro conhecem a Coisa. Elas sabem. Elas lembram. Enquanto os homens brancos cavam, os ancestrais observam.

O horror aqui não é só sobrenatural — é histórico.

Capítulo 6 – Novas crianças, mesmos destinos

Com o núcleo infantil anterior dizimado no cinema, a série apresenta um novo grupo de crianças. O jogo das meninas no refeitório é uma das cenas mais felizes — e mais tristes — do episódio. Feliz pela química. Triste porque sabemos onde isso costuma terminar.

As referências aos filmes são claras, quase confortantes. A série parece dizer: vocês conhecem esse caminho. E isso, paradoxalmente, aumenta a tensão.

Os cartazes de crianças desaparecidas reforçam o óbvio: Derry é hostil à infância. Sempre foi.

Capítulo 7 – Manipulação, culpa e sobrevivência

A forma como o policial manipula Lily para acusar alguém é uma das cenas mais indigestas do episódio. Não há gritos. Não há violência física. Apenas pressão psicológica pura.

É assim que o sistema funciona. E a série deixa isso muito claro.

No núcleo militar, confirma-se a suspeita: o que aconteceu com o Major foi um teste. A revelação vem de maneira inteligente, quando ele percebe o peso, o manejo e a dificuldade da arma. A lesão que o impede de sentir medo não é um detalhe — é uma chave.

“Como lutar contra algo que se alimenta do medo… quando você não pode mais senti-lo?”

Essa ideia encaixa perfeitamente com a mitologia da Coisa. É talvez o ponto conceitual mais alto do episódio.

Capítulo 8 – Corredores, picles e o retorno do pai

A cena de Lily no mercado é sufocante. Corredores que se fecham. Risadas distantes. Olhares que julgam. A sensação constante de estar sendo observada.

E então vem o golpe final: o pai dentro da lata de picles.

Maldosamente perturbador. Um exemplo perfeito de como a Coisa usa culpa, memória e trauma como armas.

A ideia de o governo tentar utilizar a Coisa como ferramenta de segurança é talvez o comentário mais ácido do episódio. É exatamente o que o sistema americano faria. Controlar. Militarizar. Usar o horror como vantagem estratégica.

Capítulo 9 – Um passado enterrado

O episódio se encerra com a descoberta do que parece ser o carro da gangue morta em uma das eras anteriores da Coisa. O passado não desapareceu. Ele apenas foi enterrado — e agora começa a emergir.

Excellentemente construído, o segundo episódio não busca chocar. Ele corrói. Lentamente. Com método.

Se o primeiro episódio chutou a porta, o segundo entra, fecha a janela e nos deixa presos dentro da casa.

Welcome to Derry continua provando que entende seu próprio legado — e não tem pressa alguma em aliviar o peso dele.

domingo, 2 de novembro de 2025

Welcome to Derry S1E1

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 1

O retorno ao submundo de Stephen King, entre ecos de infância, culpa e monstros que nunca dormem.

Capítulo 1 – O Cinema, o Medo e o Início

O episódio abre no cinema, e não poderia haver escolha mais simbólica. A tela, o musical, a plateia — tudo soa como uma metáfora do próprio espectador que está prestes a ser engolido pela história. A música fala sobre subversão, e não é apenas uma canção: é um prenúncio. Em Derry, tudo o que parece inocente tem algo corrompido por baixo.

Logo vemos uma criança com uma chupeta — uma imagem incômoda, quase grotesca. Ele foge do lanterninha e, pela forma como se comporta, percebemos que há algo profundamente errado em casa. Derry sempre foi um lugar onde a infância não é abrigo, mas campo de batalha. E o menino, com seu olhar inquieto, parece sentir algo — uma influência invisível, uma presença que só quem nasceu ali reconhece.

“Em Derry, as crianças sentem o perigo antes que o vejam.”

Quando o garoto tenta fugir da cidade, há uma breve esperança. Ele pega carona com uma família aparentemente normal — o modelo clássico americano, sorriso perfeito, cordialidade ensaiada. Mas há algo no olhar. E é ali, no interior do carro, que o desconforto cresce até o insuportável. A cena do fígado cru é brutal, quase ritualística. A naturalidade com que aquela criança segura o órgão e o esfrega no rosto do menino é de um horror tão físico que dispensa sustos. É puro incômodo. Pouco a pouco, entendemos: não há saída de Derry. A estrada termina onde começa. E aquela “família” era apenas mais uma das máscaras da Coisa.

“O medo em Derry tem endereço fixo. E ninguém sai de lá sem pagar o pedágio.”

A revelação do bebê deformado — a primeira manifestação visível da criatura — é uma das melhores escolhas de direção do episódio. Em vez do palhaço Pennywise, temos algo mais ancestral, mais simbólico. Um corpo imperfeito, nascido do medo nuclear e das deformidades que assombravam os anos 50. É um monstro e um espelho. O horror de King sempre foi assim: não vem de fora, mas do reflexo.

Capítulo 2 – A Cidade que Respira Morte

Após o prólogo, um salto de quatro meses. A série apresenta o núcleo militar — cientistas, segredos e projetos paralelos. É uma boa decisão narrativa: Derry, afinal, sempre foi um ponto cego do governo. Se há algo inexplicável ali, é natural que o exército americano esteja observando, mesmo que sem entender. Entre os laboratórios, aviões e toda a normalidade de um quartel.

Chegando na escola surge um detalhe cômico e bizarro: uma pilha de latas de picles, colocada em um dos armários como forma de bullying. Um mistério cênico que provavelmente retornará. É o tipo de humor estranho que Stephen King espalha entre traumas e tragédias.

Um aluno aparece fantasiado de tartaruga — uma clara referência à mitologia de King, onde a tartaruga representa a força que se opõe à Coisa. E ao redor, panfletos sobre guerra nuclear. Tudo parece girar em torno do mesmo medo coletivo: destruição, mutação, perda. Derry é, mais uma vez, um espelho do mundo.

“Enquanto o mundo teme bombas, Derry teme o que vive debaixo da calçada.”

Capítulo 3 – O Novo Clube dos Perdedores

Logo conhecemos o novo núcleo infantil. Duas meninas, uma conversa banal de escola — e a sensação de que algo maior está à espreita. O grupo de crianças é um aceno direto ao livro e aos filmes anteriores. Cada gesto, cada relação espelha o passado, como se Derry estivesse condenada a repetir a própria história.

Há uma cena belíssima no banheiro, que remete diretamente à icônica sequência de Beverly Marsh. O encanamento, o som da água, o murmúrio vindo do ralo — e, claro, a presença invisível de algo que espreita. A música que toca é a mesma do cinema, fechando o ciclo e sugerindo que tudo está conectado.

É também neste ponto que o tema da culpa começa a se desenhar. Lily, uma das protagonistas, carrega a culpa pela morte do pai e pelo desaparecimento de Matt. A pulseira com uma tartaruga que ela usa é um lembrete constante — um símbolo de promessa quebrada. A troca de brinquedos entre ela e Matt, mostrada em flashback, é uma das cenas mais delicadas e tristes do episódio.

“A culpa é o fantasma que Derry mais gosta de alimentar.”

Capítulo 4 – Ecos, Canos e o Retorno da Coisa

A série constrói com cuidado o terror cotidiano. O bullying na escola, as brincadeiras cruéis (como as latas de picles no armário), a humilhação silenciosa — tudo isso é amplificado pela presença invisível da Coisa. O medo não vem dos gritos, mas do som dos canos, da água que vaza, da música que reaparece onde não deveria.

É uma escolha inteligente: o terror de Derry sempre foi mais psicológico do que físico. E quando o sobrenatural finalmente se manifesta, ele já encontrou terreno fértil na dor humana.

A sequência do abajur grotesco e a manipulação dos medos individuais mostram como a série compreende o espírito do original. Pennywise não é apenas um monstro — é o catalisador das neuroses de toda uma cidade.

Capítulo 5 – A Biblioteca e o Teste Militar

As cenas na biblioteca são um déjà vu proposital. Os livros, as mesas, as crianças tentando se proteger em meio ao conhecimento — é a recriação perfeita da segurança ilusória do primeiro filme. Paralelamente, o núcleo militar volta à cena, e fica claro que o que estamos vendo é um teste. Algo está sendo estudado, a confiabilidade do major. A ideia de que o terror de Derry é um fenômeno observável e, quem sabe, controlável, é uma possibilidade das mais perturbadoras do episódio.

“Quando o medo vira experimento, a humanidade já desistiu de entender.”

Capítulo 6 – O Cinema e o Banho de Sangue

O episódio se encerra onde começou: no cinema. O ciclo se fecha, mas agora o tom é outro. O público não assiste — o público morre. A direção dessa sequência é brilhante, claustrofóbica e simbólica. A série não tem medo de quebrar a lógica do elenco principal logo de cara. Ela mata metade das crianças. Destrói a zona de conforto do espectador e deixa claro: ninguém está a salvo.

É um final corajoso, violento e poético. Um lembrete de que, em Derry, a inocência é a primeira vítima.

“O mal em Derry nunca dorme. Ele apenas troca de forma.”

Welcome to Derry começa como todo bom pesadelo: com a sensação de que já estivemos ali antes. E, de certa forma, estivemos mesmo. Porque há lugares — e histórias — que simplesmente se recusam a morrer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Setembro: A Morte do Game Pass

Jornada Gamer – Setembro: A Morte do Game Pass

Uma reflexão sobre jogos, preços, despedidas e o fim de uma fase digital. Setembro sempre leva alguma coisa embora.

Cena melancólica gamer, em ambiente escuro com reflexo de tela

Capítulo 1 – Setembros e Funerais Figurados

É engraçado pensar como alguns meses trazem em si a morte como tema. E não falo de luto literal, mas de versões nossas que deixamos para trás. Neste blog, já compartilhei momentos em que precisei me reinventar – por necessidade, por esgotamento, por ciclo. Setembro, com sua luz de fim de tarde e suas folhas amarelas, costuma ser o mês onde algo morre. Em 2025, o falecido foi o Game Pass. Ou melhor: o meu uso dele.

“A cada setembro, uma versão de mim se despede em silêncio.”

Capítulo 2 – O Começo: Brinde, Biblioteca e Esperança

Comprei o MetaQuest, e como brinde, ganhei um período gratuito do Game Pass. Parecia promissor. Uma biblioteca variada, acesso no PC e possibilidade de explorar jogos que não compraria normalmente. Mesmo sem um Xbox desde a época do 360, confesso que senti uma pontada de desejo de voltar. Quase comprei um Series S.

Mas o entusiasmo durou pouco. Ainda em 2025, o console teve dois aumentos de preço. Para mim, um sinal de alerta. E em 1º de outubro, veio o golpe final: o Game Pass Ultimate dobrou de preço. O que antes era uma boa ideia, virou um produto fora do meu perfil.

Capítulo 3 – O Custo da Biblioteca Alheia

No modelo atual, o Game Pass simplesmente não compensa para mim. Invisto melhor meu tempo e meu dinheiro em outros lugares: jogos grátis da Epic, títulos da Amazon Prime Gaming, e promoções na Steam que, sinceramente, ainda me emocionam.

Aliás, o curioso é que o Game Pass, que uma vez foi símbolo de democratização do acesso, agora parece querer voltar ao modelo tradicional. E se for para pagar caro por jogos que não são meus, prefiro comprar os que me interessam de verdade.

“Não basta acesso fácil. Precisa haver conexão emocional.”

Capítulo 4 – Troféus, Memórias e Consoles Parados

Eu até tinha planos de revisitar alguns jogos maiores pelo Game Pass. Jogos que tenho em outras plataformas e que queria ver com outros olhos. Pensava até em colecionar mais conquistas por lá, aumentar minha lista do Xbox. Mas a verdade é: ela vai parar por aqui. Assim como parou a da PSN há anos.

Hoje, há mais chance de eu consertar meu PlayStation 3 e farmar troféus nostálgicos do que comprar um Xbox novo. Isso diz muito sobre onde estão minhas raízes.

Capítulo 5 – Encerramento Temporário (ou Não)

Minha jornada pelo ecossistema Microsoft durou pouco mais de dois meses. E me despeço sem rancor, mas com consciência. A experiência não foi ruim — apenas não se encaixa mais.

Talvez eu volte. Talvez os preços mudem. Talvez o modelo mude. Mas neste setembro, ficou claro: para mim, não compensa mais.

“Encerrar ciclos também é jogar — com coragem.”

O Game Pass morreu para mim. Pelo menos por agora. E assim termina mais um trecho da minha Jornada Gamer.

Setembro de 2025. Jogando menos, escolhendo mais. Com menos hype, mas mais verdade.