Gamertag

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Hogwarts, Anos Depois

Sobre chegar tarde a alguns mundos — e ainda assim encontrar algo que valha a pena.

Capítulo 1 – Um presente inesperado

No final do ano, a Epic nos presenteou com algo que, à primeira vista, parecia apenas mais uma gratuidade: Hogwarts Legacy, um jogo ambientado no universo de Harry Potter.

Mas Harry Potter, para mim, nunca foi “apenas” um universo. Sempre foi um território sensível. Ambíguo. Um lugar onde coisas boas e ruins se misturam de um jeito que não dá para ignorar.

Não é exagero dizer que eu me aproximei desse jogo com cautela. Não por desinteresse, mas por histórico.

“Alguns mundos não rejeitamos. Apenas chegamos a eles no momento errado.”

Capítulo 2 – Quando tudo passou por mim sem tocar

Quando os livros de Harry Potter começaram a sair, e depois os filmes, nada daquilo me chamou atenção. Não houve rejeição consciente, nem crítica elaborada. Simplesmente… não bateu.

Eu estava em outro momento da vida. Outras urgências. Outras obsessões. Outros vazios. E aquele universo mágico, que para tanta gente se tornou refúgio, para mim passou como um trem que não precisei pegar.

O tempo passou. Muito tempo.

Capítulo 3 – Um reencontro mediado pelo afeto

Anos depois — por volta de 2021 ou 2022 — foi minha filha quem me convidou para assistir aos filmes. Todos já estavam lançados. Não havia mais expectativa coletiva, apenas a experiência.

Assistimos juntos.

E isso, por si só, já muda tudo. Porque mesmo quando uma obra não nos atravessa profundamente, o contexto em que ela acontece pode salvá-la da indiferença.

Guardo boas memórias desse período. Não pelo impacto da história, mas pelo vínculo. Pela presença. Pelo gesto de estar ali.

Ainda assim, algo não encaixava. Minha vida, naquele momento, estava conturbada demais. Os filmes passaram por mim sem criar raízes. Não revi. Não aprofundei. Não busquei mais.

“Às vezes, o problema não é a obra. É o caos em volta dela.”

Capítulo 4 – Quando um universo vira ferida

Depois disso, minha relação com Harry Potter piorou. Não por culpa da obra em si, mas por decisões erradas minhas — aqueles descuidos inexplicáveis que às vezes temos com a própria vida.

Eu me vi em um lugar onde não estava protegido. Onde algo que deveria ser neutro virou gatilho. Harry Potter deixou de ser um universo distante e passou a ser uma presença desconfortável.

Como uma facada mal posicionada. Que dói para manter. Que dói mais ainda para tirar.

Evitei. Me afastei. Segui.

Capítulo 5 – O jogo como território seguro

E então chegamos ao jogo.

Instalei Hogwarts Legacy sem grandes pretensões. Curiosidade técnica, talvez. Um “vamos ver como é”. Nenhuma expectativa emocional.

E, pouco a pouco, algo aconteceu.

O jogo me divertiu. Me acolheu. Me ofereceu um universo onde eu podia estar sem dor. Sem peso. Sem cobrança de repertório.

Mesmo sem captar todas as referências dos livros ou dos filmes, o ambiente funcionou. A exploração. O ritmo. A sensação de pertencimento gradual.

Eu me senti bem.

“Às vezes, precisamos de uma nova porta para entrar em um lugar antigo.”

Capítulo 6 – Quando a diversão vira permanência

Fui jogando. Fui entendendo a história. Fui gostando.

Terminei a campanha principal. Avancei por várias linhas de sidequests. Aprendi todos os feitiços. Estou prestes a alcançar o nível máximo, o level 40.

E posso dizer, sem exagero: foi uma experiência extremamente divertida.

Mais do que isso — foi uma experiência segura. Um espaço onde pude existir sem precisar enfrentar fantasmas antigos, na verdade até tem fantasmas antigos, porém de Hogwards, não os meus.

Capítulo 7 – Ambivalência não resolvida

Minha relação com Harry Potter continua ambígua. Não virou amor instantâneo. Não virou devoção tardia.

Mas pode deixar de ser dor.

E isso, por si só, já é enorme.

O jogo despertou curiosidade. Resgatou interesse. Reabriu uma porta que eu mantinha fechada não por convicção, mas por autoproteção.

“Crescer também é permitir que algumas coisas mudem de lugar.”

Capítulo 8 – 2026 e a decisão de ler

Por isso, decidi que começarei 2026 com uma decisão curiosa: ler os livros.

Não por obrigação cultural. Não para “entender tudo”. Mas porque agora, talvez, eu esteja pronto.

Muito provavelmente, na primeira semana de 2026, iniciarei o primeiro livro de Harry Potter.

Não sei o que vou sentir. Não sei se vou amar. Não sei se vou me afastar de novo.

Mas, desta vez, a escolha é minha — e isso muda tudo.

Alguns universos não nos esperam. Outros, silenciosamente, ficam.

“PS: Será que dá tempo ainda de eu arrumar alguma bruxinha que goste do universo para ao final do primeiro livro vermos o filme juntos?”

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A house is not a home

A saudade às vezes pode ser explicada em apenas uma imagem.

 
Depois de jogar Diablo 3 por quase 2 mil horas no Nintendo Switch não esperava que a experiência no PC fosse me pegar, porém não foi o jogo, foram as pessoas, esse pequeno grupo de pessoas jogando um jogo que a aquela altura já estava pra lá de velho, porém nem tudo se explica.

Uma vez ouvi Lionel citando uma frase de seu pai: 

"Aproveite a volta pra casa,
porque um dia não poderá mais fazer isso. 
A casa não vai sair do lugar,
mas as pessoas podem não mais estar lá."
 
É o mesmo aqui, o jogo ainda está lá.. 
a temporada ainda acontece, 
mas o Shaolin não estará online para falarmos de builds e lore, 
o Faísca não vai entrar para fazermos fendas e mais fendas, 
eu não repetirei a minha piada recorrente de Sarahp...

Tudo isso ficou por 2021, um ano que começou enlouquecedor e terminou "casa".
 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 8

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 8

Quando o fim não é encerramento, mas confirmação de um ciclo que se recusa a morrer.

Capítulo 1 – O silêncio depois do choque

Eu honestamente achei que nada mais poderia me fazer sentir o que senti após o episódio anterior. Achei que o impacto máximo já havia sido alcançado. Eu estava errado.

Terminei o episódio 8 em um estado que raramente experimentei assistindo uma série: em choque absoluto, sem palavras, apenas sentado em silêncio. E é desse silêncio que este texto nasce.

Curiosamente, diferente da devastação emocional do episódio passado, aqui há algo novo: uma sensação estranha de completude. Não de conforto — mas de fechamento. Como se algo tivesse sido finalmente entendido, mesmo que não resolvido.

“Algumas histórias não nos confortam. Elas apenas nos explicam.”

Capítulo 2 – A fé que quase se perdeu

Preciso admitir algo: lá pelo terceiro episódio, eu comentei sobre o ritmo seguir extremamente lento. Não que fosse ruim, mas parecia hesitante. Como se ainda estivesse procurando sua identidade.

O que fica claro agora é que os criadores sabiam exatamente o que estavam fazendo. É como se tivessem assistido ao próprio material, reconhecido o problema e ajustado o curso. Desde então, cada episódio foi uma escalada — e este é o ápice.

Sem exagero: este é, até agora, o melhor episódio de qualquer série que eu assisti neste ano.

Capítulo 3 – O tempo não existe para a Coisa

Tudo o que achávamos saber sobre esse universo muda aqui. De forma definitiva.

A revelação de que a Coisa não enxerga o tempo como nós é simplesmente genial. Não se trata de viagem temporal barata. É uma lógica divina, coerente com uma entidade cósmica: tudo acontece ao mesmo tempo.

O que a Coisa vive em um ponto do tempo, ele sabe em todos os outros.

E é aí que tudo se encaixa: ela vai atrás dessas crianças porque elas são sua única chance de sobrevivência no futuro, contra o Clube dos Perdedores.

“Para quem vive fora do tempo, passado e futuro são apenas variações da mesma dor.”

Capítulo 4 – “Margaret Tozier” e o momento em que tudo vira de cabeça para baixo

Uma confissão, eu vi essa reviravolta chegando.

Quando Pennywise diz “Margaret Tozier”, eu literalmente vibrei. É o tipo de revelação que não apenas surpreende — ela reorganiza tudo o que veio antes.

Richie passa a ter presença concreta. Não apenas como memória, mas como força narrativa. E isso é poderoso.

As falas icônicas retornam. Marge dizendo que quer matar “esse palhaço do caralho”. Frases que ecoam o romance, os filmes, o trauma coletivo.

“Algumas palavras não envelhecem. Elas apenas esperam o momento certo para ferir de novo.”

Capítulo 5 – Hallorann, Overlook e o Kingverso em estado puro

Hallorann aqui é uma celebração explícita do Kingverso. As referências a O Iluminado não são sutis — são assumidas.

“Quanta confusão um hotel pode causar?” é uma piada perfeita. E também um aviso.

Ver Dick enfrentando a Coisa em sua mente foi algo que eu nunca soube que precisava ver. Dois titãs de Stephen King se encarando. Curto, intenso, devastador.

“Algumas batalhas não são vencidas com força. São vencidas com permanência.”

Capítulo 6 – Deadlights, desaparecidos e zombaria

A cena de abertura é Pennywise em sua essência: brincando com a comida antes de aniquilar tudo com os Deadlights.

Mais tarde, os cartazes de desaparecidos no Standpipe não são apenas cenário — são zombaria. Um lembrete cruel às crianças de que ninguém saiu inteiro dali.

Leroy vendo os Deadlights é um detalhe sutil e brilhante. Ele acorda e imediatamente procura Will — porque já viu sua morte.

Essa é a crueldade máxima da Coisa: mostrar antes de tirar.

Capítulo 7 – A amizade como força real

E então vem o final.

O poder da amizade sempre foi central neste universo. Sempre. Mas aqui ele não soa ingênuo. Ele soa necessário.

Quando o espírito de Rich aparece, eu comecei a lacrimejar. Não de tristeza pura, mas de beleza. Ele correndo mais rápido que a Coisa, mostrando o dedo do meio para Pennywise, ajudando a empurrar o artefato de volta… todos sentindo sua presença.

“Alguns laços não terminam com a morte. Eles apenas mudam de forma.”

A Coisa sendo mais uma vez derrotada, em fúria, incapaz de impedir sua própria morte — e renascimento — é poético.

Mais vinte e sete anos.

Capítulo 8 – Funeral, palavras eternas e despedidas necessárias

O funeral de Rich precisava acontecer. E quando Marge começa a falar, eu já sabia.

“Sem bons amigos, sem maus amigos…”

Essa frase sempre me destrói. E aqui, novamente, ela encontra o lugar perfeito.

Ver Dick dizendo aos pais de Rich que estaria com eles para sempre é um dos momentos mais humanos de toda a série.

Capítulo 9 – Beverly Marsh e o ciclo que se fecha

E então, o final verdadeiro.

Ingrid Kersh em Juniper Hill. Joan Gregson retomando seu papel. Outubro de 1988.

Percebemos que Bill Denbrough não foi o único a perder alguém.

E então ela aparece: Beverly Marsh. Sophia Lillis retorna, e eu quase gritei.

Lilly não era sua mãe — e graças a isso, evitamos o pior tipo de retcon. O final de Lilly é honesto, digno, humano.

E a Sra. Kersh consola Beverly, não antes de entregar a frase mais arrepiante da temporada. A mesma que a Coisa repetiria vinte e oito anos depois.

"- Você sabe o que dizem sobre Derry: Todo mundo que morre aqui, não morre de verdade"

“Sua morte foi seu nascimento.”

Capítulo 10 – O fim perfeito de um começo

A música final — o tema de Beverly — fecha tudo com delicadeza.

Se Andy Muschietti estiver preparando um terceiro filme, faz sentido. Mas eu não preciso disso.

Se as próximas temporadas forem tão boas quanto esta, os filmes se tornam começo e fim ao mesmo tempo.

A Coisa está presa em um ciclo que não consegue vencer.

E nós, espectadores, saímos transformados.

Estou extremamente feliz em descobrir esse universo tão incrível.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 7

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 7

Quando o medo deixa de ser surpresa e passa a ser rotina.

Capítulo 1 – O ponto em que o horror deixa de chocar

Chegar ao episódio 7 de Welcome to Derry é perceber que algo mudou. Não na série — mas em nós. O horror já não precisa mais anunciar sua presença. Ele não bate à porta. Ele já mora ali.

Esse episódio funciona menos como impacto e mais como consequência. Tudo o que foi plantado nos capítulos anteriores começa a mostrar seus efeitos. O medo deixa de ser episódico e passa a ser estrutural.

“O verdadeiro terror começa quando o extraordinário vira rotina.”

Capítulo 2 – Derry não reage, Derry absorve

Se antes a cidade parecia apenas indiferente, agora ela se mostra cúmplice. Derry não luta contra a Coisa. Ela se adapta a ela. Absorve suas perdas, normaliza seus desaparecimentos, justifica seus silêncios.

Esse é um ponto fundamental da obra de Stephen King que a série entende muito bem: a cidade é parte do monstro. Não como entidade sobrenatural, mas como organismo social.

O episódio 7 deixa claro que não há mais contraste entre “vida normal” e “horror”. Tudo acontece ao mesmo tempo.

Capítulo 3 – Crianças cansadas de gritar

Algo que me marcou profundamente neste ponto da temporada é a exaustão das crianças. Não é mais pânico. É cansaço. Um desgaste emocional de quem já tentou alertar, explicar, pedir ajuda — e falhou.

Esse é um estágio mais cruel do medo. Quando não se espera mais ser salvo.

“O silêncio não é ausência de voz. É desistência.”

O episódio 7 parece consciente disso. Ele não acelera. Não cria grandes viradas. Ele insiste na sensação de aprisionamento emocional.

Capítulo 4 – O conhecimento como maldição

Se nos episódios anteriores o saber parecia uma possível saída — entender ciclos, reconhecer padrões, identificar símbolos — aqui ele começa a pesar.

Saber demais não protege. Pelo contrário: isola. Quem entende o que está acontecendo passa a carregar uma carga que não consegue dividir.

Essa é uma constante no Kingverso. O dom nunca é só vantagem. Ele afasta, consome, corrói.

Capítulo 5 – A Coisa já não precisa aparecer

Talvez o maior mérito do episódio 7 seja mostrar que a Coisa já venceu em vários níveis. Ela não precisa estar em cena. Não precisa de balões. Não precisa de forma definida.

Ela está na reação dos adultos. Na desconfiança. No olhar que não acredita. Na violência que é ignorada. No medo que não encontra nome.

“Quando o monstro não precisa mais se esconder, ele já venceu.”

Capítulo 6 – Preparação para a queda

O episódio 7 funciona como um grande suspiro antes do impacto final. Ele não entrega catarse. Ele prepara terreno.

É o momento em que entendemos que nem todos vão sobreviver. E que, mesmo os que sobreviverem, não sairão inteiros.

A sensação não é de expectativa. É de aceitação.

Capítulo 7 – Derry não esquece, Derry espera

Se há algo que esse episódio reforça é que Derry não precisa agir. Ela espera. Espera o próximo ciclo. Espera a próxima geração. Espera o próximo silêncio.

O episódio 7 não é sobre revelações. É sobre confirmação.

Confirmação de que o horror aqui não é acidente. É herança.

“Alguns lugares não precisam de monstros novos. Eles apenas reciclam os antigos.”

Capítulo 8 – Quando não há mais volta

Ao final do episódio 7, fica claro que não existe retorno ao ponto inicial. Não há mais inocência possível. Não há mais dúvida.

Welcome to Derry deixa de ser uma série sobre descoberta e passa a ser uma série sobre permanência.

O medo não está chegando.

Ele já ficou.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 6

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 6

Quando as crianças precisam se proteger sozinhas e o medo aprende a vestir normalidade.

Capítulo 1 – “Se protejam”: a frase que nunca se cala

Há uma frase que me persegue desde o primeiro episódio de Welcome to Derry: “se protejam”. Ela aparece repetidamente, quase como um sussurro coletivo, um aviso que ninguém explica por completo. No episódio 6, ela ganha um peso ainda maior.

Não é apenas um conselho. É uma constatação. Em Derry, não há quem proteja as crianças. Então elas precisam aprender a fazer isso sozinhas.

“Em Derry, crescer rápido não é escolha. É mecanismo de sobrevivência.”

Capítulo 2 – Crianças vivendo problemas de adultos

O episódio 6 reforça uma das reflexões mais recorrentes — e mais dolorosas — da obra de Stephen King: as crianças de Derry lidam com problemas que nunca deveriam ser delas.

Violência, negligência, racismo, culpa, loucura institucionalizada. Tudo isso recai sobre personagens que ainda estão tentando entender quem são. A série mostra, mais uma vez, que o verdadeiro terror não começa com a Coisa — ele já estava ali antes.

A entidade apenas se aproveita de um terreno já ferido.

Capítulo 3 – A caixa de Halloran e os ecos de Doutor Sono

Ainda não foi explicitado o que exatamente acontece quando Halloran abre a caixa, mas é impossível não fazer a conexão imediata com Doutor Sono. A ideia de aprisionar visões, fantasmas, horrores — e depois libertá-los — é muito familiar dentro do Kingverso.

Inicialmente, pensei que pudesse ser algo diferente. Talvez ele não tivesse aprisionado entidades, mas memórias, fragmentos de poder. No entanto, o episódio deixa claro: é exatamente a mesma lógica da caixa ensinada em Doutor Sono.

A abertura da caixa não liberta apenas visões. Ela amplia o alcance do dom. E com isso, o preço se torna inevitável.

“Algumas portas não deveriam ser abertas duas vezes.”

Capítulo 4 – A escola como território do horror

A Coisa agir dentro da escola é particularmente aterrador. Porque a escola deveria ser um espaço de proteção, de estrutura, de normalidade. Em Derry, ela se torna mais um palco de desorientação.

Mexer com as crianças nesse ambiente cria uma sensação de loucura coletiva. Risadas deslocadas. Olhares estranhos. Reações exageradas. Tudo colabora para que ninguém acredite em ninguém.

No caso de Lily, isso se torna ainda mais cruel. Ela carrega o estigma de já ter passado por um manicômio. A Coisa sabe disso. E explora essa ferida com precisão cirúrgica.

Capítulo 5 – A adaga protege… até certo ponto

Confesso que, até aqui, eu acreditava que a adaga funcionaria como uma proteção mais completa. Algo que impediria a aproximação direta da Coisa.

Mas o episódio deixa claro: a adaga pode proteger do ataque físico — mas não da visão. Lily ainda vê. Ainda sente. Ainda é perturbada.

Isso é importante. Porque reforça que não há escudo absoluto contra o medo. Há resistência, há instrumentos, mas não há imunidade.

“O medo não precisa tocar. Basta ser visto.”

Capítulo 6 – A cidade rindo enquanto as crianças afundam

A fotografia do episódio é excelente. Em especial nas cenas em que vemos adultos rindo, interagindo, vivendo normalmente enquanto algo profundamente errado acontece ao redor.

Essa escolha visual reforça uma ideia central: a Coisa não domina Derry pela força, mas pela normalidade. Quando tudo parece bem, ninguém escuta quem grita.

As crianças se sentem sozinhas o tempo todo. Isoladas. Invisíveis. E isso não é acidente — é parte do método da Coisa.

“Quando ninguém acredita em você, o monstro já venceu metade da batalha.”

Capítulo 7 – Senhora Kirsch e o peso da herança

Para quem conhece o livro e os filmes, já está claro: a senhora Kirsch é filha do Pennywise original. Do palhaço humano, não da entidade em si.

Mas para o público geral, isso ainda não está totalmente explícito. A série parece estar segurando essa revelação — e, honestamente, ela precisa acontecer agora, ainda nesta temporada.

A próxima temporada será um retorno ainda mais profundo no tempo. Se essa ligação não for esclarecida antes, corre o risco de perder impacto.

A cena do começo do episódio, inclusive, parece ter ligação direta com a senhora Kirsch. Algo ali ainda será retomado. Nada em Derry é jogado fora.

Capítulo 8 – Se proteger não é sobreviver

O episódio 6 deixa uma sensação pesada. Não pelo que mostra explicitamente, mas pelo que sugere. As crianças estão se protegendo — mas isso não significa que estão seguras.

Welcome to Derry segue firme em sua proposta: mostrar que o verdadeiro horror não está apenas no monstro, mas na ausência de amparo, na descrença, na solidão.

Em Derry, crescer não é amadurecer. É aprender a sobreviver sem rede.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 5

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 5

Poder, consequência e a lenta revelação de que o medo cobra juros.

Capítulo 1 – O preço do dom

O episódio 5 começa de forma excelente ao finalmente nos permitir entender de onde vem o poder de Hallorann — e, mais importante ainda, quais são as consequências de usá-lo. A série faz isso com calma, sem didatismo, respeitando a inteligência do espectador.

Esse momento funciona quase como uma introdução conceitual para O Iluminado. O poder não é gratuito. Ele cobra algo em troca. Memória, estabilidade, sanidade. A ideia de que ver demais tem um custo é central em Stephen King, e aqui ela começa a ganhar forma concreta.

“Alguns poderes não te fortalecem. Apenas te desgastam mais rápido.”

Capítulo 2 – Matt: presença ou armadilha?

A pressão envolvendo o retorno de Matt é um dos pontos mais estranhos — e eficazes — do episódio. Não sabemos exatamente o que aconteceu com ele. Não vimos o corpo. E agora ele aparece, deslocado, silencioso demais.

Como este ainda é um texto de impressões, e não de conclusões, minha sensação é clara: não acredito que seja o Matt. Tudo indica que seja a Coisa brincando com a mente das crianças, usando a memória, a culpa e o afeto como ferramentas.

É exatamente assim que ela opera. Não pela força direta, mas pela dúvida.

Capítulo 3 – O delírio do controle

A conversa do general sobre controlar a Coisa é, talvez, uma das mais interessantes da série até aqui. Não apenas pelo conteúdo, mas pelo subtexto. A ideia de que, se alguém “se lembrasse de tudo”, poderia dominar o horror.

Isso soa como arrogância institucional. A mesma que sempre precede grandes tragédias. A série parece deixar claro que o problema não é a falta de informação — é a ilusão de domínio.

“O erro nunca é querer entender o mal. É achar que ele vai obedecer.”

Fica evidente que ainda veremos mais lembranças, mais fragmentos do passado sendo trazidos à tona. O conhecimento acumulado não liberta — ele aprisiona.

Capítulo 4 – Lily e o sufocamento do medo

A cena de Lily é extremamente tensa. Uma tensão que não vem de gritos, mas de expectativa. A série já nos ensinou que, quando Lily está em cena, algo vai acontecer — e quase nunca de forma limpa.

Isso se intensifica na sequência dos esgotos sob a casa da rua Maple. A descida é claustrofóbica. O espaço é apertado. O som da água ecoa como aviso.

O jumpscare quando o personagem cai sob a água é seco, eficaz, sem exagero. Não é um susto barato. É um lembrete: ali embaixo, o medo mora.

Capítulo 5 – Os esgotos como coração da série

Toda a sequência no esgoto é incrivelmente bem filmada. A fotografia, o enquadramento, o ritmo — tudo funciona. E não é exagero dizer que as cenas envolvendo Hallorann são algumas das melhores da série.

Hallorann não é apenas um personagem com habilidade. Ele é um sensor. Um radar emocional. Tudo passa por ele de forma mais intensa.

A introdução da figura do Tio Sam é outro acerto enorme. Uma representação perfeita do medo institucional, da manipulação patriótica e da ameaça mascarada de proteção. É simbólico, é político e é profundamente perturbador.

“Nem todo monstro vem do esgoto. Alguns vestem bandeiras.”

Capítulo 6 – Pennywise retorna

A aparição de Pennywise é simplesmente incrível. Muito bem gravada, muito bem filmada, com o mesmo peso e presença que vimos nos filmes.

Sim, era previsível. Mas previsibilidade não é defeito quando a execução é impecável. Pennywise não precisa surpreender — ele precisa estar. E ele está.

O mais interessante vem logo em seguida: a cena da Adaga. Lily percebe que a lâmina assusta Pennywise. É um momento silencioso, mas poderoso. Pela primeira vez, há um objeto que não apenas fere — afeta.

Isso muda o jogo.

“O medo se alimenta de certezas. Mas recua diante do que não entende.”

Capítulo 7 – No mesmo nível do cinema

O Pennywise apresentado na série está, sem exagero, no mesmo nível do que vimos nos filmes. Presença, ameaça, desconforto. Nada caricato. Nada exagerado.

O episódio 5 deixa claro que Welcome to Derry encontrou seu ritmo definitivo. Um horror paciente, bem filmado, emocionalmente pesado e narrativamente confiante.

A série não corre. Não explica demais. Não entrega respostas prontas. Ela constrói.

E, a essa altura, já fica claro: o que está vindo pela frente não será leve — nem para as crianças, nem para os adultos, nem para quem assiste.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 4

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 4

Quando as provas falham, os adultos se omitem e o medo aprende a se camuflar.

Capítulo 1 – Fotos que não provam nada

Como já era de se esperar, as fotos não levariam a lugar nenhum. Em Welcome to Derry, provas raramente sobrevivem ao contato com os adultos. Eu imaginava — e a série confirma — que a Coisa manipularia as imagens. Não porque precise esconder, mas porque pode.

Nos filmes e nos livros, isso sempre foi um padrão: os adultos simplesmente não veem o que as crianças veem. Sangue, entidades, sinais explícitos — tudo desaparece diante dos olhos adultos. Essa cegueira não é coincidência. É parte da influência da Coisa sobre Derry.

“Quando os adultos não veem, o medo das crianças cresce em silêncio.”

Essa percepção — de que os adultos não irão ajudar, não irão acreditar, não irão salvar — é um dos pilares do terror de Stephen King. E aqui, no episódio 4, ela está mais presente do que nunca. Não apenas em relação à Coisa, mas também à violência, ao racismo, às injustiças cotidianas.

Capítulo 2 – A palavra proibida: Pennywise

A cena envolvendo a filha do Pennywise — ou melhor, do homem que carrega esse nome — é profundamente perturbadora. Ainda não sabemos qual é a relação direta entre Pennywise e a Coisa. A série parece guardar essa revelação com cuidado. Mas o simples fato de a palavra Pennywise ser dita diretamente para Lily já é suficiente para causar arrepio.

Nomear o mal sempre foi perigoso. Em Derry, mais ainda.

Essa ambiguidade — Pennywise como entidade, como persona, como herança — abre um campo narrativo interessante. Não sabemos se estamos diante de um avatar humano, de um eco, ou de algo ainda mais profundo. E a série parece confortável em não responder agora.

Capítulo 3 – Medo nuclear e educação pelo pânico

Voltamos à escola, e o tema agora são bombas nucleares. Considerando o contexto da Guerra Fria, é impossível não imaginar o impacto psicológico disso nas crianças da época. Não sei afirmar com precisão se esse tipo de aula realmente acontecia, mas o medo era real — tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo.

Ensinar crianças sobre aniquilação total, sobre o fim iminente, sobre explosões que não deixam nada para trás… isso molda uma geração inteira. E em Derry, esse medo coletivo encontra terreno fértil.

“A Coisa não cria o medo. Ela apenas aprende a usá-lo.”

Capítulo 4 – A pescaria e a falsa segurança

A cena da pescaria é belíssima e inquietante ao mesmo tempo. De um lado, parece completamente normal deixar uma criança sozinha ali — águas rasas, atividade simples, rotina. De outro, estamos em Derry. E nada ali é apenas o que parece.

É curioso como o pai consegue acreditar no filho justamente por conta de sua ligação com o exército. A vivência institucional parece abrir fissuras na descrença. Nem todos os adultos são totalmente cegos — alguns apenas fingem não ver.

E então vem o balão. Mais uma vez. Discreto, preciso, ameaçador. A série entende muito bem o peso simbólico desse elemento.

Capítulo 5 – Racismo, polícia e instituições

A abordagem do racismo neste episódio continua sendo um dos pontos mais fortes da série. Confesso que, como brasileiro, não tenho total dimensão de como funcionavam — ou funcionam — as relações raciais nos Estados Unidos em termos institucionais, especialmente polícia e exército.

Ainda assim, o que a série mostra é claro: o sistema está pronto para culpar, pressionar e destruir. E faz isso com uma naturalidade assustadora.

A cena do interrogatório é completamente previsível — e exatamente por isso eficaz. A suspeita se confirma: ele estava com uma mulher branca e casada. As duas coisas juntas. O pecado máximo naquele contexto.

“Em Derry, a verdade importa menos do que quem pode ser culpado.”

Capítulo 6 – Hallorann: poder ou manipulação?

Uma das escolhas narrativas mais interessantes da série está nas cenas envolvendo Hallorann. Nunca sabemos exatamente se o que ele vê é fruto de sua habilidade — ou se é a Coisa manipulando sua percepção.

Essa dúvida constante é brilhante. A luz pode ser poder. Pode ser engano. Pode ser isca.

A cena entre Hallorann e o Major é simplesmente sensacional. Um dos grandes momentos do episódio.

Capítulo 7 – Ciclos, militares e conhecimento proibido

Algo que chama muita atenção é o quanto o general parece saber sobre os ciclos da Coisa. Quando começam. Quando terminam. Como funcionam. Ele possui um volume de informações que nunca vimos antes em nenhuma adaptação.

Isso muda completamente o jogo. Pela primeira vez, não são apenas crianças tentando sobreviver — há uma instituição tentando entender, controlar, talvez até usar.

A cena do caracol, como eu imaginava, retorna associada à Marge. O parasitismo. A perda de controle. O medo específico sendo explorado.

A cena de Marge é grotesca. Os olhos. A transformação. Tudo ali é desconfortável no mais alto grau. E, inevitavelmente, Lily provavelmente carregará mais uma culpa que não é sua.

“A Coisa não mata apenas corpos. Ela destrói vínculos.”

Capítulo 8 – O fim de um ciclo se aproxima

Tudo indica que a série está caminhando para o encerramento de mais um ciclo da Coisa. Muitas crianças não sobreviverão. E, sendo este o ciclo imediatamente anterior ao dos filmes, faz sentido que algo grande aconteça.

Os militares provavelmente deixarão a região. Não há menção a eles nos livros. Algo dará errado. Muito errado.

Considerando que as próximas temporadas serão retroativas, é provável que vejamos ainda coisas muito mais graves. A Coisa não deve se limitar às crianças. E, ao perceber que os militares representam uma ameaça real, talvez ela decida agir com mais força.

Os balões vermelhos surgindo para o Major são um detalhe final perfeito. A ameaça agora o reconhece.

Welcome to Derry segue firme, paciente e cruel. E o episódio 4 deixa claro: ninguém está preparado para o que ainda vem.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 3

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 3

Quando o passado desperta, o medo aprende a atravessar séculos.

Capítulo 1 – Uma ausência que diz muito

O terceiro episódio de Welcome to Derry começa quebrando um padrão. Não há a abertura que vimos no episódio anterior. Essa ausência não é gratuita. Ela já estabelece um desconforto inicial, como se a própria série estivesse nos avisando que algo está fora do lugar.

Em vez disso, somos lançados diretamente em um salto temporal brusco: 1908. Um recuo histórico que muda completamente o eixo da narrativa e, ao mesmo tempo, reforça algo que a série vem sussurrando desde o início — Derry não é um lugar preso ao presente. É um ponto fixo onde o passado nunca morre.

“Em Derry, o tempo não passa. Ele se acumula.”

Capítulo 2 – O circo, o espetáculo e o prenúncio do palhaço

Estamos em um circo. E isso, por si só, já carrega um peso simbólico enorme. Circos sempre foram espaços de fascínio e estranhamento, lugares onde o grotesco e o encantamento caminham juntos. Aqui, a expectativa é imediata: Pennywise.

A série não o entrega de imediato. Prefere preparar o terreno. Há, novamente, referências sutis à tartaruga — quase sempre discretas, quase sempre no fundo da cena. Para quem conhece o universo de Stephen King, é impossível não pensar em Maturin, a tartaruga cósmica, força oposta à Coisa.

Os balões vermelhos surgem de forma quase imperceptível, no fundo do quadro, quando o garoto se aproxima da sala do circo. É um detalhe pequeno, mas perturbador. A ameaça não invade o plano — ela já estava lá.

As salas internas do circo remetem diretamente à memória afetiva de circos reais: atrações bizarras, figuras como a mulher gorila, ambientes que misturam curiosidade infantil com desconforto adulto. A série acerta ao usar essa estética para preparar o horror.

Capítulo 3 – O ritmo lento como escolha narrativa

Mais uma vez, o episódio opta por um ritmo deliberadamente lento. E isso não é um defeito. É uma decisão consciente. A série não quer assustar o tempo todo — quer construir.

Esse prólogo em 1908 funciona como uma camada arqueológica da narrativa. Estamos vendo os alicerces do que virá depois. Personagens diferentes, época diferente, mas a mesma sensação: algo está profundamente errado em Derry.

A cena da floresta, com a nova forma da Coisa, é uma das mais impressionantes visualmente até aqui. Diferente dos espaços fechados e claustrofóbicos vistos antes, agora temos um ambiente aberto, amplo — e ainda assim sufocante. O medo não precisa de paredes.

“Quando o horror ocupa espaços abertos, não há para onde correr.”

Capítulo 4 – A abertura retorna, o ciclo se fecha

Logo após essa sequência, a abertura finalmente aparece. A mesma do episódio anterior. O atraso dela não é um erro de edição — é uma afirmação: aquilo que vimos faz parte do mesmo ciclo.

Após a abertura, a série retorna à linha temporal principal. Voltamos a Lily. Voltamos às consequências. E, pouco a pouco, percebemos que o exército sabe mais do que aparenta.

Há indícios claros de que eles conhecem tanto os ciclos quanto as formas da entidade. O prólogo de 1908 não foi apenas uma digressão histórica — foi a apresentação de um evento-chave: o episódio de Stilling, que aparentemente feriu a Coisa.

Esse conhecimento, agora nas mãos do exército, levanta uma questão inquietante: o que foi feito com essa informação? E, talvez mais importante, o que ainda será revelado?

Capítulo 5 – As crianças e o coração da série

Se há algo que este episódio reafirma com força, é a excelência do casting infantil. As conversas entre as crianças são naturais, críveis, emocionalmente carregadas. Não soam ensaiadas. Não soam artificiais.

E então vem a cena que, sem exagero, é a melhor do seriado até agora: a perseguição das crianças no cemitério.

Os fantasmas, os sustos, a coreografia do medo — tudo funciona. Cada aparição é bem posicionada, cada silêncio é respeitado. A fotografia contribui de forma magistral, usando luz e sombra para amplificar o terror sem torná-lo gratuito.

“O cemitério não assusta porque há mortos ali. Assusta porque os vivos ainda não foram embora.”

O ritmo da sequência é perfeito. Não acelera quando não deve, não segura quando precisa avançar. É terror clássico, bem executado, que respeita o espectador.

Capítulo 6 – Pennywise, enfim

O episódio se aproxima do fim mantendo a contenção. E então, finalmente, Pennywise aparece. Não em carne e osso. Mas em fotografias.

É uma escolha brilhante. O palhaço surge como memória, como registro, como algo que sempre esteve ali. Não é um susto barato — é um lembrete.

Dessa vez, diferente dos episódios anteriores, há um trailer do próximo capítulo e comentários dos diretores ao final. Um gesto curioso, quase metalinguístico, que quebra levemente a imersão, mas também reforça a confiança da série no que está construindo.

Welcome to Derry segue se mostrando uma obra paciente, cuidadosa e profundamente consciente do legado que carrega. O terceiro episódio não tenta superar o primeiro nem repetir o segundo. Ele expande.

E deixa claro: o horror que estamos vendo agora não é novo. Ele apenas voltou a respirar.

sábado, 8 de novembro de 2025

Welcome to Derry – Episódio 2

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 2

Racismo, medo coletivo e a lenta certeza de que Derry nunca esteve adormecida.

Capítulo 1 – Referências, ecos e a falsa calmaria

O segundo episódio de Welcome to Derry começa deixando algo muito claro: essa série sabe exatamente de onde veio. As referências ao livro de Stephen King e aos filmes de 2017 e 2019 não são acidentais — são estruturais. Elas funcionam como ecos. Lembranças incômodas que dizem ao espectador: isso já aconteceu antes, e vai acontecer de novo.

Diferente do impacto brutal do primeiro episódio, aqui o ritmo desacelera. Não por fraqueza narrativa, mas por necessidade. A série entende que, depois do choque inicial, é preciso apresentar o terreno. Mostrar a cidade funcionando. Ou melhor: disfuncionando.

“Em Derry, o silêncio nunca é paz. É só o intervalo entre tragédias.”

Capítulo 2 – Racismo como sintoma, não como acaso

O episódio bate forte — e de forma muito consciente — no tema do racismo. As crianças mortas têm como principal suspeito o projecionista do cinema. O motivo? Ele é negro. Não há provas, apenas a necessidade da cidade de apontar para alguém que não pertence.

Os policiais vigiando a casa dele não estão ali para proteger. Estão ali para intimidar. É o racismo estrutural funcionando como sempre funcionou: silencioso, automático, confortável para quem o pratica.

A cena do açougue é exemplar nesse sentido. O racismo velado, quase educado. O açougueiro oferece deliberadamente as piores carnes à esposa do Major. Não há insulto direto, não há agressão explícita — apenas a certeza de que ela merece menos. E essa sutileza torna tudo ainda mais nojento.

“O racismo de Derry não grita. Ele sussurra — e por isso nunca deixa de ser ouvido.”

Quando vemos crianças sendo agredidas enquanto adultos ignoram, a série toca diretamente no coração da obra de King. Derry não é só palco da Coisa. Derry pertence à Coisa. Cada omissão adulta é parte do ritual.

Capítulo 3 – Guerra fria, medo quente

Outro tema que atravessa o episódio é o medo da guerra. Estados Unidos e União Soviética. Bombas. Armas. Testes. A ameaça nuclear paira como pano de fundo constante.

Isso dialoga diretamente com o horror de It. O medo coletivo não vem apenas do monstro — vem do mundo. A Coisa se alimenta desse clima. Quanto mais tensão, mais fome.

A chegada da família do Major simboliza essa tentativa de normalidade em meio ao colapso. Tudo parece mais lento, mais arrastado, quase doméstico. Mas em Derry, o cotidiano nunca é neutro.

Capítulo 4 – Parto, nascimento e claustrofobia

A cena da cama marca a primeira grande sequência de ação do episódio. E ela é profundamente claustrofóbica. O espaço se fecha, o ar parece faltar, e o medo não explode — ele se comprime.

Pela segunda vez na série, o tema do nascimento aparece com força. Parto, corpo, dor, criação. Não parece coincidência. A Coisa está acordando. E todo nascimento em Derry carrega algo de monstruoso.

A forma como a série representa o funcionamento do medo é precisa: não é um susto, é uma invasão. A Coisa não aparece — ela se insinua.

“Em Derry, o medo não entra pela porta. Ele nasce dentro.”

Capítulo 5 – Kingverso, memória e ancestrais

A presença de Dick, fazendo clara alusão ao personagem de O Iluminado, é um presente para quem conhece o universo de King. O chamado Kingverso se expande, e a sensação de que todas essas histórias coexistem torna tudo mais denso.

Outro momento poderoso é a observação das escavações do exército pelos indígenas. Esse aceno não é gratuito. Nos livros e nos filmes, são as tribos indígenas que primeiro conhecem a Coisa. Elas sabem. Elas lembram. Enquanto os homens brancos cavam, os ancestrais observam.

O horror aqui não é só sobrenatural — é histórico.

Capítulo 6 – Novas crianças, mesmos destinos

Com o núcleo infantil anterior dizimado no cinema, a série apresenta um novo grupo de crianças. O jogo das meninas no refeitório é uma das cenas mais felizes — e mais tristes — do episódio. Feliz pela química. Triste porque sabemos onde isso costuma terminar.

As referências aos filmes são claras, quase confortantes. A série parece dizer: vocês conhecem esse caminho. E isso, paradoxalmente, aumenta a tensão.

Os cartazes de crianças desaparecidas reforçam o óbvio: Derry é hostil à infância. Sempre foi.

Capítulo 7 – Manipulação, culpa e sobrevivência

A forma como o policial manipula Lily para acusar alguém é uma das cenas mais indigestas do episódio. Não há gritos. Não há violência física. Apenas pressão psicológica pura.

É assim que o sistema funciona. E a série deixa isso muito claro.

No núcleo militar, confirma-se a suspeita: o que aconteceu com o Major foi um teste. A revelação vem de maneira inteligente, quando ele percebe o peso, o manejo e a dificuldade da arma. A lesão que o impede de sentir medo não é um detalhe — é uma chave.

“Como lutar contra algo que se alimenta do medo… quando você não pode mais senti-lo?”

Essa ideia encaixa perfeitamente com a mitologia da Coisa. É talvez o ponto conceitual mais alto do episódio.

Capítulo 8 – Corredores, picles e o retorno do pai

A cena de Lily no mercado é sufocante. Corredores que se fecham. Risadas distantes. Olhares que julgam. A sensação constante de estar sendo observada.

E então vem o golpe final: o pai dentro da lata de picles.

Maldosamente perturbador. Um exemplo perfeito de como a Coisa usa culpa, memória e trauma como armas.

A ideia de o governo tentar utilizar a Coisa como ferramenta de segurança é talvez o comentário mais ácido do episódio. É exatamente o que o sistema americano faria. Controlar. Militarizar. Usar o horror como vantagem estratégica.

Capítulo 9 – Um passado enterrado

O episódio se encerra com a descoberta do que parece ser o carro da gangue morta em uma das eras anteriores da Coisa. O passado não desapareceu. Ele apenas foi enterrado — e agora começa a emergir.

Excellentemente construído, o segundo episódio não busca chocar. Ele corrói. Lentamente. Com método.

Se o primeiro episódio chutou a porta, o segundo entra, fecha a janela e nos deixa presos dentro da casa.

Welcome to Derry continua provando que entende seu próprio legado — e não tem pressa alguma em aliviar o peso dele.

domingo, 2 de novembro de 2025

Welcome to Derry S1E1

🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série Welcome to Derry.

Welcome to Derry – Episódio 1

O retorno ao submundo de Stephen King, entre ecos de infância, culpa e monstros que nunca dormem.

Capítulo 1 – O Cinema, o Medo e o Início

O episódio abre no cinema, e não poderia haver escolha mais simbólica. A tela, o musical, a plateia — tudo soa como uma metáfora do próprio espectador que está prestes a ser engolido pela história. A música fala sobre subversão, e não é apenas uma canção: é um prenúncio. Em Derry, tudo o que parece inocente tem algo corrompido por baixo.

Logo vemos uma criança com uma chupeta — uma imagem incômoda, quase grotesca. Ele foge do lanterninha e, pela forma como se comporta, percebemos que há algo profundamente errado em casa. Derry sempre foi um lugar onde a infância não é abrigo, mas campo de batalha. E o menino, com seu olhar inquieto, parece sentir algo — uma influência invisível, uma presença que só quem nasceu ali reconhece.

“Em Derry, as crianças sentem o perigo antes que o vejam.”

Quando o garoto tenta fugir da cidade, há uma breve esperança. Ele pega carona com uma família aparentemente normal — o modelo clássico americano, sorriso perfeito, cordialidade ensaiada. Mas há algo no olhar. E é ali, no interior do carro, que o desconforto cresce até o insuportável. A cena do fígado cru é brutal, quase ritualística. A naturalidade com que aquela criança segura o órgão e o esfrega no rosto do menino é de um horror tão físico que dispensa sustos. É puro incômodo. Pouco a pouco, entendemos: não há saída de Derry. A estrada termina onde começa. E aquela “família” era apenas mais uma das máscaras da Coisa.

“O medo em Derry tem endereço fixo. E ninguém sai de lá sem pagar o pedágio.”

A revelação do bebê deformado — a primeira manifestação visível da criatura — é uma das melhores escolhas de direção do episódio. Em vez do palhaço Pennywise, temos algo mais ancestral, mais simbólico. Um corpo imperfeito, nascido do medo nuclear e das deformidades que assombravam os anos 50. É um monstro e um espelho. O horror de King sempre foi assim: não vem de fora, mas do reflexo.

Capítulo 2 – A Cidade que Respira Morte

Após o prólogo, um salto de quatro meses. A série apresenta o núcleo militar — cientistas, segredos e projetos paralelos. É uma boa decisão narrativa: Derry, afinal, sempre foi um ponto cego do governo. Se há algo inexplicável ali, é natural que o exército americano esteja observando, mesmo que sem entender. Entre os laboratórios, aviões e toda a normalidade de um quartel.

Chegando na escola surge um detalhe cômico e bizarro: uma pilha de latas de picles, colocada em um dos armários como forma de bullying. Um mistério cênico que provavelmente retornará. É o tipo de humor estranho que Stephen King espalha entre traumas e tragédias.

Um aluno aparece fantasiado de tartaruga — uma clara referência à mitologia de King, onde a tartaruga representa a força que se opõe à Coisa. E ao redor, panfletos sobre guerra nuclear. Tudo parece girar em torno do mesmo medo coletivo: destruição, mutação, perda. Derry é, mais uma vez, um espelho do mundo.

“Enquanto o mundo teme bombas, Derry teme o que vive debaixo da calçada.”

Capítulo 3 – O Novo Clube dos Perdedores

Logo conhecemos o novo núcleo infantil. Duas meninas, uma conversa banal de escola — e a sensação de que algo maior está à espreita. O grupo de crianças é um aceno direto ao livro e aos filmes anteriores. Cada gesto, cada relação espelha o passado, como se Derry estivesse condenada a repetir a própria história.

Há uma cena belíssima no banheiro, que remete diretamente à icônica sequência de Beverly Marsh. O encanamento, o som da água, o murmúrio vindo do ralo — e, claro, a presença invisível de algo que espreita. A música que toca é a mesma do cinema, fechando o ciclo e sugerindo que tudo está conectado.

É também neste ponto que o tema da culpa começa a se desenhar. Lily, uma das protagonistas, carrega a culpa pela morte do pai e pelo desaparecimento de Matt. A pulseira com uma tartaruga que ela usa é um lembrete constante — um símbolo de promessa quebrada. A troca de brinquedos entre ela e Matt, mostrada em flashback, é uma das cenas mais delicadas e tristes do episódio.

“A culpa é o fantasma que Derry mais gosta de alimentar.”

Capítulo 4 – Ecos, Canos e o Retorno da Coisa

A série constrói com cuidado o terror cotidiano. O bullying na escola, as brincadeiras cruéis (como as latas de picles no armário), a humilhação silenciosa — tudo isso é amplificado pela presença invisível da Coisa. O medo não vem dos gritos, mas do som dos canos, da água que vaza, da música que reaparece onde não deveria.

É uma escolha inteligente: o terror de Derry sempre foi mais psicológico do que físico. E quando o sobrenatural finalmente se manifesta, ele já encontrou terreno fértil na dor humana.

A sequência do abajur grotesco e a manipulação dos medos individuais mostram como a série compreende o espírito do original. Pennywise não é apenas um monstro — é o catalisador das neuroses de toda uma cidade.

Capítulo 5 – A Biblioteca e o Teste Militar

As cenas na biblioteca são um déjà vu proposital. Os livros, as mesas, as crianças tentando se proteger em meio ao conhecimento — é a recriação perfeita da segurança ilusória do primeiro filme. Paralelamente, o núcleo militar volta à cena, e fica claro que o que estamos vendo é um teste. Algo está sendo estudado, a confiabilidade do major. A ideia de que o terror de Derry é um fenômeno observável e, quem sabe, controlável, é uma possibilidade das mais perturbadoras do episódio.

“Quando o medo vira experimento, a humanidade já desistiu de entender.”

Capítulo 6 – O Cinema e o Banho de Sangue

O episódio se encerra onde começou: no cinema. O ciclo se fecha, mas agora o tom é outro. O público não assiste — o público morre. A direção dessa sequência é brilhante, claustrofóbica e simbólica. A série não tem medo de quebrar a lógica do elenco principal logo de cara. Ela mata metade das crianças. Destrói a zona de conforto do espectador e deixa claro: ninguém está a salvo.

É um final corajoso, violento e poético. Um lembrete de que, em Derry, a inocência é a primeira vítima.

“O mal em Derry nunca dorme. Ele apenas troca de forma.”

Welcome to Derry começa como todo bom pesadelo: com a sensação de que já estivemos ali antes. E, de certa forma, estivemos mesmo. Porque há lugares — e histórias — que simplesmente se recusam a morrer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Setembro: A Morte do Game Pass

Jornada Gamer – Setembro: A Morte do Game Pass

Uma reflexão sobre jogos, preços, despedidas e o fim de uma fase digital. Setembro sempre leva alguma coisa embora.

Cena melancólica gamer, em ambiente escuro com reflexo de tela

Capítulo 1 – Setembros e Funerais Figurados

É engraçado pensar como alguns meses trazem em si a morte como tema. E não falo de luto literal, mas de versões nossas que deixamos para trás. Neste blog, já compartilhei momentos em que precisei me reinventar – por necessidade, por esgotamento, por ciclo. Setembro, com sua luz de fim de tarde e suas folhas amarelas, costuma ser o mês onde algo morre. Em 2025, o falecido foi o Game Pass. Ou melhor: o meu uso dele.

“A cada setembro, uma versão de mim se despede em silêncio.”

Capítulo 2 – O Começo: Brinde, Biblioteca e Esperança

Comprei o MetaQuest, e como brinde, ganhei um período gratuito do Game Pass. Parecia promissor. Uma biblioteca variada, acesso no PC e possibilidade de explorar jogos que não compraria normalmente. Mesmo sem um Xbox desde a época do 360, confesso que senti uma pontada de desejo de voltar. Quase comprei um Series S.

Mas o entusiasmo durou pouco. Ainda em 2025, o console teve dois aumentos de preço. Para mim, um sinal de alerta. E em 1º de outubro, veio o golpe final: o Game Pass Ultimate dobrou de preço. O que antes era uma boa ideia, virou um produto fora do meu perfil.

Capítulo 3 – O Custo da Biblioteca Alheia

No modelo atual, o Game Pass simplesmente não compensa para mim. Invisto melhor meu tempo e meu dinheiro em outros lugares: jogos grátis da Epic, títulos da Amazon Prime Gaming, e promoções na Steam que, sinceramente, ainda me emocionam.

Aliás, o curioso é que o Game Pass, que uma vez foi símbolo de democratização do acesso, agora parece querer voltar ao modelo tradicional. E se for para pagar caro por jogos que não são meus, prefiro comprar os que me interessam de verdade.

“Não basta acesso fácil. Precisa haver conexão emocional.”

Capítulo 4 – Troféus, Memórias e Consoles Parados

Eu até tinha planos de revisitar alguns jogos maiores pelo Game Pass. Jogos que tenho em outras plataformas e que queria ver com outros olhos. Pensava até em colecionar mais conquistas por lá, aumentar minha lista do Xbox. Mas a verdade é: ela vai parar por aqui. Assim como parou a da PSN há anos.

Hoje, há mais chance de eu consertar meu PlayStation 3 e farmar troféus nostálgicos do que comprar um Xbox novo. Isso diz muito sobre onde estão minhas raízes.

Capítulo 5 – Encerramento Temporário (ou Não)

Minha jornada pelo ecossistema Microsoft durou pouco mais de dois meses. E me despeço sem rancor, mas com consciência. A experiência não foi ruim — apenas não se encaixa mais.

Talvez eu volte. Talvez os preços mudem. Talvez o modelo mude. Mas neste setembro, ficou claro: para mim, não compensa mais.

“Encerrar ciclos também é jogar — com coragem.”

O Game Pass morreu para mim. Pelo menos por agora. E assim termina mais um trecho da minha Jornada Gamer.

Setembro de 2025. Jogando menos, escolhendo mais. Com menos hype, mas mais verdade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Pooh and Piglet


“Hoje foi um dia difícil”, disse Pooh, com a voz baixa.
Uma pausa se instalou no ar, carregada de silêncio.
“Quer falar sobre isso?” perguntou Piglet, com ternura nos olhos.
Pooh hesitou, e após alguns segundos, respondeu: “Não, acho que não.”
“Não tem problema”, disse Piglet suavemente, e se aproximou para sentar ao lado do seu amigo.
“O que você está fazendo?” perguntou Pooh, curioso.
“Nada, na verdade”, disse Piglet. “Só estou aqui. Eu sei como são os dias difíceis, e muitas vezes também não tenho vontade de falar sobre eles.”
Piglet então continuou, com uma sabedoria tranquila: “Mas sabe, Pooh, os dias difíceis se tornam muito mais leves quando sabemos que temos alguém ao nosso lado. E eu sempre estarei aqui para você.”
E enquanto Pooh, mergulhado em seus pensamentos, processava o peso do seu Dia Difícil, Piglet permanecia ali, quieto, balançando as perninhas com simplicidade e lealdade. Pooh, com o coração um pouco mais leve, pensou que seu melhor amigo nunca havia estado tão certo. 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Papo na Fogueira - De volta ao começo

Capítulo 1 – A volta do trio e o fio invisível

A fogueira nos esperava, paciente como sempre. Finalmente, o time estava completo — eu, André e Alexandre, a tríade que se forma quando o mundo lá fora parece pesar demais para segurar sozinho. Não foi fácil alinhar agendas, nem corpos: André ainda se recuperava de uma gripe persistente, mas fez questão de estar ali. Como se estivesse cansado de ficar calado com a própria mente. Como se a fogueira fosse o último remédio antes da recuperação completa.

Nossa chegada foi marcada por sorrisos que já conhecem o caminho. Cada um trouxe algo: uma piada repetida, uma garrafa, um olhar cansado, um abraço demorado. Eu, dessa vez, cheguei preparado. Já havia deixado ao lado do meu notebook um copo d’água, um pedaço de pão, e uma pequena caixa com tâmaras — talvez tentando alimentar algo em mim que não fosse só a alma.

Há uma liturgia não dita nesse encontro. E antes que qualquer tema surja, antes que o silêncio se transforme em confissão, fazemos a dança do cotidiano: “como você tá?”, “e o trabalho?”, “ainda não resolveu aquilo?”, “e aquele projeto lá?”. Essas frases, por mais banais que pareçam, são um ritual de reaproximação. Como se disséssemos uns aos outros: “ainda estou aqui, mesmo não estando tanto”.

Foi nesse compasso lento que Alexandre puxou um fio. Frágil, quase imperceptível. Um pensamento solto, jogado como quem não quer ferver a água, mas acaba acendendo o fogo. Ele se perguntou — e nos perguntou — como teria sido sua vida se, em certos momentos, tivesse feito escolhas diferentes.

"Há dores que não vêm de feridas abertas, mas de caminhos não trilhados."
— Autor desconhecido

Essa dúvida bateu em mim como uma pedra atirada com carinho. Como se ele tivesse me desarmado com um simples pensamento, sem saber que aquilo já me visitava em segredo há muito tempo. Eu me considero especialista em discussões que não existem mais, em respostas que nunca foram ditas, em guerras vencidas pelo silêncio. Passo horas vivendo na terra do “e se”. E se eu tivesse dito aquilo? E se eu tivesse escolhido o outro caminho? E se eu tivesse apenas ficado mais um pouco? Essas versões minhas, esses multiversos de mim, se sentaram conosco em volta da fogueira naquela noite.

Olhei para o fogo e me vi sendo muitos. Alguns mais felizes, outros apenas menos feridos. Alguns corajosos, outros mudos, mas todos convivendo dentro de mim como fantasmas que se recusam a atravessar. É um peso estranho esse de carregar destinos que nunca foram. E mesmo assim, sentem.

"A vida é feita de escolhas. E mesmo quando não escolhemos, já estamos decidindo."
— Clarice Lispector

O céu estrelado não parecia se importar com meus abismos internos. Mas ali, naquela primeira fagulha de conversa, percebi que essa noite prometia mais do que memórias: prometia confrontos. Não entre nós. Mas entre mim e minhas versões que não consegui enterrar.

Capítulo 2 – O multiverso de mim mesmo

Quando Alexandre jogou aquela ideia na fogueira, como quem sopra uma brasa para ver se ainda há calor, eu senti algo dentro de mim se acender. Ele falou de vidas que poderiam ter sido. De decisões que, se tivessem sido outras, teriam mudado absolutamente tudo. E isso… me encontrou.

Eu já vivi mais versões de mim mesmo do que consigo contar. Versões que se formaram durante anos e desapareceram em segundos. Versões que tomaram decisões diferentes, que responderam com mais coragem ou ficaram em silêncio por medo. Cada uma dessas versões segue comigo — como um coral de vozes que eu escuto sempre que o mundo cala.

“O passado é um país estrangeiro. Lá, tudo é feito de outro jeito.”
— L. P. Hartley

Eu sou especialista em responder discussões que não existem mais. Em refazer caminhos já trilhados. Em me culpar por não ter enxergado a placa que dizia “aqui termina o que você chamava de futuro”. A vida seguiu. Mas o que seguiu comigo foram essas versões que me visitam à noite, me sussurrando todas as escolhas que eu poderia ter feito. Algumas, eu sei, mudariam tudo.

E quando eu penso em tudo isso, não é só arrependimento. É luto. Luto por mim mesmo. Por pedaços meus que foram embora com aquelas decisões. Por pessoas que, talvez, nunca tivessem cruzado meu caminho se eu tivesse apenas dito “não”. Ou dito “sim”.

Há perdas que vêm da ausência, e outras que nascem do excesso. E, por vezes, me percebo convivendo com o fantasma daquilo que não vivi — e daquilo que vivi por impulso. O amor, por exemplo… talvez minha dor mais insistente. Eu ainda carrego a sensação de que só tive uma chance real. Uma chance de viver algo completo, recíproco, festivo. E ela se perdeu. Talvez porque não era pra ser. Talvez porque eu não sou.

"A pior solidão é aquela sentida ao lado da esperança."
— Diário não publicado

E o que me fere hoje não é a ausência daquele amor. É ver, com olhos mais maduros, como aquelas pessoas se tornaram verbais, intensas, apaixonadas… com terceiros. Com outros. E nunca comigo. Nunca por mim. Eu era apenas uma ponte. Um momento. Uma peça que completava o quebra-cabeça da carência — e depois era descartada com naturalidade.

Isso… isso me quebrou de um jeito profundo. Porque eu fui sincero. Dividi o que ninguém sabia. Mostrei mapas internos. E ganhei o silêncio. A ausência. A substituição. E hoje, vejo postagens que talvez falem de mim. Algumas são violentas. Outras, distantes. E eu me pergunto: por que compartilhei tanto com alguém que não aguentou nem ficar?

A fogueira ainda queimava, mas eu já estava mergulhado nesse universo paralelo. Nesse mundo onde cada chama era uma versão minha. Alguns de nós estavam bem. Outros, em frangalhos. Mas todos carregavam a mesma certeza: eu não fui escolhido. Eu não fui festejado. Eu não fui lembrado em voz alta.

André e Alexandre seguiram a conversa. Mudaram de assunto, riram, dividiram novos temas. Mas eu? Eu fiquei ali, olhando para as brasas, escutando vozes solitárias de muitas de minhas versões. Talvez seja esse o multiverso mais difícil de suportar.

Capítulo 3 – Quando todo mundo vai embora

O fogo ainda resistia, lançando pequenas faíscas ao vento como quem avisa: “Ainda estou aqui, mas não por muito tempo”. André e Alexandre se despediram com aquele tipo de abraço que diz “a gente se vê”, mas que sempre me deixa com a sensação de que talvez ninguém volte. Eles foram. E eu fiquei.

Fiquei com minhas versões, meus multiversos, minhas memórias que se arrastam pelo chão como brasas que recusam o esquecimento. Era eu, o fogo, e todos os pedaços de mim que ainda queimavam — mesmo depois de todas as partidas.

“A maioria das pessoas vai embora antes do fim da festa. E algumas nem lembram que foram convidadas.”
— Diário não publicado

A presença dos dois tinha feito parecer que eu estava inteiro por algumas horas. Rimos, divagamos, filosofamos como de costume. Mas bastou o silêncio retornar para eu perceber que, na verdade, estive fragmentado o tempo todo. Apenas disfarcei bem.

Quando todos vão embora, o mundo mostra o que sobra: o eco. O eco das palavras não ditas. O eco das decisões não tomadas. O eco daquilo que ainda vive dentro da gente porque ninguém mais quis levar. E é esse som abafado, abafado pelas paredes internas, que ecoa mais alto que qualquer grito.

Há uma solidão que nasce da ausência dos outros. Mas há outra, mais cruel, que nasce da presença constante do que não se pode dividir. E essa… essa é minha companheira mais fiel.

“Eu não tenho medo do escuro. Tenho medo do que aparece quando a luz apaga.”
— Papo na Fogueira

Naquela noite, eu percebi que todos os meus vínculos estavam em combustão. Não só o amor que eu não tive. Mas as amizades que se distanciaram. Os contatos que esfriaram. As alianças que racharam por dentro, silenciosamente. Eu estava cercado de fumaça — dentro e fora de mim.

E é curioso como até o fogo, símbolo da conversa, da luz, do ritual, se tornou um reflexo da minha vida: consumindo tudo ao redor e me deixando com cinzas nas mãos. Eu tentei me reconectar. Tentei acender de novo alguma fagulha com quem restou. Mas às vezes… ninguém espera por você quando tudo vira cinzas.

Naquele instante, entendi que a minha dor não era a ausência de alguém. Era o abandono das minhas versões, a desistência silenciosa dos que um dia disseram ficar. E tudo isso agora queimava comigo. A lenha que alimentava o fogo… era eu.

Capítulo 4 – O que fica quando tudo queima

A fogueira já era brasa. O céu, mais escuro. A fumaça subia preguiçosa, como se também tivesse cansado de iluminar memórias. Ainda ali, sozinho, pensei que o calor do fogo é como certos sentimentos: mesmo depois de apagados, deixam marcas na pele, no peito, no tempo.

Olhei para o círculo de pedras onde nos sentamos. Três cadeiras, três vozes, três mundos que se encontraram naquela noite. E percebi que, apesar do silêncio que veio depois, algo essencial havia acontecido: dessa vez, a conversa foi convergente.

“Às vezes, tudo que a gente precisa é de alguém que escute... sem pressa de apagar o fogo.”
— Papo na Fogueira

Nenhum de nós impôs verdades. O fio puxado por Alexandre encontrou tecidos que eu já conhecia, mas nunca tinha costurado na frente de ninguém. E foi bonito ver cada um de nós adicionando pontos, cores, jeitos diferentes de ver — como se a dor, dessa vez, não separasse, mas construísse algo comum.

André ouviu mais do que falou, mas em sua escuta havia presença. Alexandre devolvia ideias com o cuidado de quem oferece um cobertor. E eu, entre os escombros das versões que citei, me senti menos só.

A conversa caminhou por outros temas. Demos risada. Fizemos planos improváveis. Nos permitimos leveza, mesmo entre tantas ruínas. E no fim, Alexandre lançou uma pergunta final — daquelas que abrem um buraco na alma e a gente finge que não ouviu. Mas ouvimos.

Essa pergunta não está no texto. É um segredo entre nós e a fogueira.

Voltando para casa, entendi que o tempo daquela noite foi estranho: parece que não vimos as horas passarem, e ao mesmo tempo, foi como se tivéssemos vivido dez anos em poucas horas. E talvez seja essa a grande beleza dos encontros reais — a distorção do tempo quando ele é bem vivido.

“Não vimos o tempo passar... porque usamos o tempo para estar.”
— Diário pós-fogueira

Sim, a vida ainda arde. Ainda há cinzas. Mas também há brasas que se recusam a apagar. E enquanto houver calor, haverá caminho.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Versões de mim - uma jornada interna com trilha sonora.

Setembro, minhas versões mortas

"♫ As entradas do meu rosto🎶
♫ E os meus cabelos brancos🎶
♫ Aparecem a cada ano🎶
♫ No final do mês de Agosto🎶"

Setembro é o mês em que mais se fala sobre saúde mental. Cartazes, campanhas, frases de efeito — todos nos lembrando da importância de olhar para dentro, cuidar, ouvir, estar presente. E sim, eu concordo: é importante. Mas, ao mesmo tempo, não consigo evitar essa imagem quase metafórica de versões de mim mesmo que morreram ao longo do caminho. Algumas se foram em silêncio, outras foram assassinadas por contextos, decisões ou pessoas. Vistas de longe, parecem apenas fases. Mas olhando de perto... eram vidas inteiras.

"Algumas mortes não envolvem caixões, mas ainda assim exigem luto."

Boa parte da minha vida eu vivi no modo automático. Sem planos, sem projeções, sem preparar terreno. Apenas seguindo o impulso do agora, da oportunidade, da emoção que mandava. E é curioso olhar hoje para tudo isso com a lente do futuro — sabendo como certas histórias terminaram. Eu percebo que, talvez, muita coisa pudesse ter sido diferente se eu estivesse minimamente preparado para o que viria. Mas o preparo exige uma consciência que nem sempre a gente tem. E exige também uma frieza que não combina com quem sente demais.

"♫ You and I will ride tonight🎶
♫ 'Till the past is out of sight🎶
♫ We don't have to look back now🎶"

Eu recebi pessoas na minha vida como quem abre a porta num temporal: sem filtro, sem guarda-chuva, sem teto. Algumas chegaram como cometas — brilhantes, intensas, barulhentas — e sumiram na mesma velocidade com que surgiram. E mesmo assim, deixaram rastros. E hoje, vendo algumas dessas pessoas de longe — ou pior, vendo o que dizem, o que postam, o que insinuam — eu me pego com um gosto amargo. Um tipo de arrependimento misturado com perplexidade: "Por que eu confiei tanto? Por que dividi tanto de mim?"

"♫ Pra que mentir, fingir que perdoou?🎶
♫ Tentar ficar amigos sem rancor🎶
♫ A emoção acabou🎶
♫ (Que coincidência é o amor)🎶
♫ A nossa música (nunca mais tocou)🎶"

Há postagens que parecem falar de mim. De forma indireta, enviesada, algumas até com uma violência que me espanta. Porque o que eu dei foi afeto, foi escuta, foi cuidado. E o que recebo agora, anos depois, é um eco vazio de alguém que talvez nunca tenha me enxergado. Isso mexe comigo. Não pela crítica em si, mas pela constatação do quanto eu me doei para o nada. O quanto, sem perceber, eu apenas preenchi um espaço de carência. Um buraco que não era meu, mas que eu aceitei habitar como se fosse.

“Algumas pessoas poderiam não ter passado pela minha vida.”

É duro escrever isso, mas é verdade. Algumas presenças foram erros de percurso. São quase como cicatrizes que eu não precisava ter. E por mais que digam que tudo é aprendizado, algumas lições têm um custo alto demais. O preço de noites em claro, de memórias que ainda doem, de uma confiança que hoje é mais difícil de entregar.

"♫ Nesses meses foram tantos nomes🎶
♫ Tantos problemas e tantos🎶
♫ Telefones pra esquecer🎶"

É estranho viver em um mês que fala tanto de cuidar da vida e sentir que várias das minhas já foram. Versões minhas morreram no meio de encontros que não deveriam ter acontecido. Em vínculos que nunca foram recíprocos. Em silêncios que gritavam e eu fingi não ouvir. Em decisões que eu não tomei por medo, ou por falta de preparo, ou simplesmente por não ter entendido os sinais.

Hoje eu entendo. E dói mais ainda entender tarde. Porque quando você percebe que aquilo era um aviso, já foi. Já aconteceu. Já machucou.

"♫ Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado🎶
♫ O habitante do meu corpo, deste estranho dublê de retratos🎶
♫ Talvez até eu já vivesse em algum corpo emprestado🎶"

Setembro me faz pensar nas minhas mortes invisíveis. Nas minhas desistências disfarçadas. Nas pessoas que passaram como tempestade e deixaram meus móveis virados por dentro. E na minha própria responsabilidade nisso tudo. Porque fui eu quem abriu a porta.

"♫ Chatterton suicidou🎶
♫ Kurt Cobain suicidou🎶
♫ Getúlio Vargas suicidou🎶
♫ Nietzsche enlouqueceu🎶
♫ E eu!🎶
♫ Não vou nada bem🎶"

Não escrevo isso como denúncia. Escrevo como luto. Escrevo porque, entre as campanhas de prevenção e os abraços virtuais, eu carrego os rostos de versões minhas que não voltam mais. Algumas mais jovens. Outras mais esperançosas. Todas genuínas. Todas minhas.

E, no fundo, é isso que mais me entristece: ter perdido partes de mim tentando cuidar de partes dos outros.

"♫ Eu já dei a outra alma aos bruxos e vampiros🎶
♫ Eu quero que eles façam a festa enquanto eu me retiro🎶"

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Migração para o Windows 11 - um relato pessoal e desesperador.

Formatar é também se reinventar

Essa jornada pode ser complementada pelo artigo do link SysAdminUrbano Windos11 onde descrevo mais tecnicamente o que aconteceu aqui.

Há quem diga que formatar um computador é só apagar tudo e recomeçar. Para mim, é sempre mais do que isso: é uma chance de revisar não apenas os arquivos que guardo, mas também os rastros digitais que dizem quem eu sou. Entre pastas esquecidas, atalhos inúteis e programas que um dia fizeram sentido, percebo que minha máquina é também uma extensão da minha memória. Esse é meu primeiro computador pessoal desde 2014, é meu primeiro com Windows desde os anos 90, foi feita uma instalação em 2021 e aqui eu também fecho o ciclo dessa história, destruindo tudo que me acompanhou nesses anos e reconstruindo novamente agora em 2025.

"Formatar um sistema é como trocar de pele: dói um pouco, mas no fim é libertador."

1. O inventário do que realmente importa

Comecei pelo mais básico: salvar documentos, fotos, vídeos, músicas. Copiei cada pasta essencial para um HD externo, quase como quem organiza malas antes de uma viagem. O medo de esquecer algo ficou ali, me cutucando, então revisitei três vezes cada diretório. É curioso como até a pasta Downloads guarda pedaços de quem fui nos últimos anos. E é assustador olhar o tanto de arquivos que não sei o que é, para que serve ou que estava acontecendo quando o baixei.

2. O navegador, esse espelho silencioso

Descobri que não queria perder meus favoritos, senhas e histórico. Então ativei a sincronização do Chrome, exportei senhas em CSV e salvei também um HTML com todos os favoritos. Fiz o mesmo no Firefox e OperaGX, porque memória nunca é demais. No fundo, cada link salvo é quase como uma anotação de rodapé de mim mesmo.

"Os favoritos que guardamos são como caminhos que não queremos esquecer — atalhos para pedaços de nós."

3. Meus jogos, minha fuga

Uma das minhas preocupações era não perder minhas bibliotecas da Steam e da Epic. Ainda bem que mantive todos os jogos em um disco separado. No novo Windows, bastaria apenas reapontar a pasta D:\SteamLibrary e a D:\EpicGames. Não é preciso reinstalar tudo — apenas mostrar ao sistema onde está a parte de mim que insiste em escapar para outros mundos. Aqui o meu primeiro revés, ao instalar a GOG eis que o launcher me inicia uma conta zerada, sem minha biblioteca e minhas horas jogadas/trófeus, entrei em contato com o suporte e ainda estou aguardando solução.

4. A lista do que já esteve comigo

Para não esquecer os programas que uso, rodei um comando no PowerShell. Ele gerou um arquivo com todos os softwares instalados, uma espécie de fotografia técnica da minha rotina digital. Ao olhar a lista, vi mais do que nomes: vi fases da minha vida marcadas por ferramentas que usei para criar, trabalhar, estudar e até errar.

Get-ItemProperty HKLM:\Software\Wow6432Node\Microsoft\Windows\CurrentVersion\Uninstall\* | 
Select-Object DisplayName, DisplayVersion, Publisher | 
Format-Table –AutoSize > C:\programas_powershell.txt
  

5. A travessia

Quando finalmente cheguei à instalação do Windows 11, respirei fundo. Escolhi apenas o disco C:, formatei e deixei que o novo sistema tomasse forma. É curioso: enquanto a tela mostrava apenas porcentagens, minha mente corria por lembranças, ansiosa para o reencontro com a máquina limpa, leve, pronta para novos capítulos.

"Às vezes, precisamos apagar para poder continuar. O mesmo vale para discos e para memórias."

6. Reconstruindo o eu digital

Depois da formatação, reinstalei drivers, reativei programas, importei favoritos, reapontei bibliotecas de jogos. Aos poucos, a vida voltava para a tela. Percebi que formatar um computador não é só perder e recuperar: é também uma escolha do que vale ser trazido de volta. O resto, deixo no silêncio do que já não me serve.

Hoje, escrevo esse relato já no Windows 11. E sinto que, de algum modo, eu também fui atualizado. Não apenas o sistema mudou: eu também escolhi o que manter, o que descartar e o que transformar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Papo(s) na Fogueira

Papo na Fogueira — Quatro Encontros e Uma Fogueira

Por Dário Junior


Introdução

Agosto foi estranho. E intenso. E sim, eu sei que estive um pouco ausente por aqui nessa série — mas dessa vez, não por falta de papo. Os encontros aconteceram, as conversas seguiram, e talvez por isso mesmo eu tenha precisado guardá-las só pra mim, por um tempo. E não foi por nenhum motivo aparente, apenas egoísmo meu mesmo, Nem tudo é para ser compartilhado. Além disso alguns pensamentos demandam tempo e deixei que maturassem em silêncio, como se algumas palavras só fizessem sentido depois que o eco delas passasse.

Hoje, diante da fogueira, sozinho, percebo o quanto cada uma dessas terças foi me moldando. E, pela primeira vez, decidi costurar quatro encontros em um só relato. Quatro terças, quatro arranjos diferentes da mesma fogueira — como se cada combinação de presenças tivesse revelado uma versão diferente de mim.

Dessa vez também quebrarei outro protocolo, sei que normalmente essa série se foca na humanidade de Alexandre contrastando com a sabedoria de André, mas falar disso seria igual dizer que a chuva é molhada, dessa vez eu falarei sobre mim, sobre a minha visão em cada uma dessas fogueiras e espero não entediá-los com isso, no próximo encontro, volto à programação normal.

“Às vezes, é preciso ouvir tudo antes de saber o que realmente se quer dizer.”

Capítulo 1 — Nós Três

O último encontro com nós três reunidos foi quase um ritual de cura. Falamos de fé, de desafios, de milagres pequenos demais pra virar manchete, mas grandes o suficiente pra mudar o dia de alguém. Rimos de coisas bobas e lembramos de dores sérias. E, entre um gole e outro, senti algo raro: pertencimento.

A verdade é que a vida me ensinou a desconfiar de absolutamente tudo. Herdei cicatrizes de histórias mal contadas na cidade onde cresci, de promessas que viraram abandono e de gente que eu chamava de irmão e que me largou no meio do caminho. Amores que se foram cedo demais, barato demais. E isso me fez me isolar, da cidade, das pessoas, de mim mesmo.

Mas estar com o Alexandre e o André é um lembrete visceral de que o ser humano ainda pode surpreender… pra melhor. A tríade da fogueira é minha pequena resistência ao cinismo. É a refutação de praticamente todas as verdades que construí sobre as pessoas, sobre a humanidade. E sempre que estamos juntos, penso no quanto o mundo seria mais suportável se mais pessoas pudessem viver algo assim.

“O tempo me roubou muita coisa, mas me devolveu vocês.”

Capítulo 2 — Eu e Alexandre

Na semana seguinte, André não pôde estar. E eu e Alexandre fizemos um retorno à nossa essência mais antiga: a música.

Falamos de gravações, de sons mal mixados, de projetos inacabados que ainda vivem em alguma pasta esquecida. Trocamos músicas novas, rimos de nossas tentativas juvenis de ser algo, de parecer algo. E por algumas horas, aquele papo foi mais que memória — foi reconciliação.

Havia tempos que meu lado músico estava trancado. Como se houvesse um porão dentro de mim, onde instrumentos estavam empoeirados, esperando que alguém acendesse a luz. Alexandre, com seu humor ácido e leveza primaveril, acendeu.

É difícil que vocês entendam isso por texto, até pela minha inabilidade de conseguir escrever na qualidade que essa história merece, mas Alexandre é uma espécie de profeta, sempre dizendo algo que só fará sentido em dias, meses, até anos depois. Porém, suas profecias não são abragentes, são pessoais, ele toca em pontos escuros e esquecidos como a luz de uma vela em uma sala escura. E foi num desses calabouços mentais que estava o músico que já fui, respirando por aparelhos, porém ainda sobrevivendo.

“Algumas partes nossas só acordam quando encontram a frequência certa em outra pessoa.”

Capítulo 3 — Eu e André

Na semana seguinte, quem não pôde foi Alexandre. E a fogueira, então, me colocou frente a frente com André — essa mente fascinante que sempre me obriga a pensar em mais de uma camada.

André tem uma visão extremamente peculiar do mundo à sua volta. Mais que isso, ele ainda consegue encapsular seu pensamento num pacote claro de ideias, nenhuma escrita em fogo, porém numa clareza de pensamento e dialética que causaria impacto em qualquer filósofo que tivesse o privilégio de ouví-lo. Mas assim como eu, ele se cansou de falar em qualquer lugar, nem todo ouvido é plateia.

Falamos sobre exposição, sobre redes sociais, sobre gente que mente bonito, mas vive mal. Sobre perfis impecáveis e vidas aos cacos. Sobre como algumas pessoas preferem viver nas sombras — não por medo, mas por sabedoria.

André tem esse dom de me arrastar para a superfície do pensamento técnico, mas me deixar boiando em reflexões humanas. Falamos também de raízes, de origens, de simplicidade. E quando olhamos o relógio, a noite já tinha passado — como se o tempo também tivesse parado pra ouvir.

“Nem todo mundo que não aparece está fugindo. Às vezes, só aprendeu a escolher o silêncio.”

Capítulo 4 — Eu Sozinho

Hoje, estou só. Sem Alexandre. Sem André. Só eu e o fogo.

E embora exista uma pontinha de lamento, há também uma imensa gratidão. Porque é raro ter um lugar assim. Um ponto fixo no tempo. Uma chama que resiste mesmo quando os corpos se ausentam.

Terças seguem sendo para mim dias de reflexão. E a de hoje é justamente sobre o impacto desses dias em minha vida. Verdades absolutas me foram quebradas. Ideias evoluíram. Espaços criados. Porém da pra resumir tudo isso em apenas uma palavra: Vida.

Já faz tempo que estamos juntos — nós três — e percebo como mudamos. Como crescemos. E como seguimos envelhecendo lado a lado, mesmo com ritmos e ausências diferentes.

A fogueira segue sendo esse lugar onde a vida faz sentido em volta do calor. Onde o mundo lá fora pode estar caótico, mas aqui… Aqui ainda existe algo sagrado.

“Algumas amizades são tão profundas que não precisam estar presentes pra aquecer. Bastam existir.”

Que venham os próximos encontros.