segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Pooh and Piglet
“Hoje foi um dia difícil”, disse Pooh, com a voz baixa.
Uma pausa se instalou no ar, carregada de silêncio.
“Quer falar sobre isso?” perguntou Piglet, com ternura nos olhos.
Pooh hesitou, e após alguns segundos, respondeu: “Não, acho que não.”
“Não tem problema”, disse Piglet suavemente, e se aproximou para sentar ao lado do seu amigo.
“O que você está fazendo?” perguntou Pooh, curioso.
“Nada, na verdade”, disse Piglet. “Só estou aqui. Eu sei como são os dias difíceis, e muitas vezes também não tenho vontade de falar sobre eles.”
Piglet então continuou, com uma sabedoria tranquila: “Mas sabe, Pooh, os dias difíceis se tornam muito mais leves quando sabemos que temos alguém ao nosso lado. E eu sempre estarei aqui para você.”
E enquanto Pooh, mergulhado em seus pensamentos, processava o peso do seu Dia Difícil, Piglet permanecia ali, quieto, balançando as perninhas com simplicidade e lealdade. Pooh, com o coração um pouco mais leve, pensou que seu melhor amigo nunca havia estado tão certo.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
Papo na Fogueira - De volta ao começo
Capítulo 1 – A volta do trio e o fio invisível
A fogueira nos esperava, paciente como sempre. Finalmente, o time estava completo — eu, André e Alexandre, a tríade que se forma quando o mundo lá fora parece pesar demais para segurar sozinho. Não foi fácil alinhar agendas, nem corpos: André ainda se recuperava de uma gripe persistente, mas fez questão de estar ali. Como se estivesse cansado de ficar calado com a própria mente. Como se a fogueira fosse o último remédio antes da recuperação completa.
Nossa chegada foi marcada por sorrisos que já conhecem o caminho. Cada um trouxe algo: uma piada repetida, uma garrafa, um olhar cansado, um abraço demorado. Eu, dessa vez, cheguei preparado. Já havia deixado ao lado do meu notebook um copo d’água, um pedaço de pão, e uma pequena caixa com tâmaras — talvez tentando alimentar algo em mim que não fosse só a alma.
Há uma liturgia não dita nesse encontro. E antes que qualquer tema surja, antes que o silêncio se transforme em confissão, fazemos a dança do cotidiano: “como você tá?”, “e o trabalho?”, “ainda não resolveu aquilo?”, “e aquele projeto lá?”. Essas frases, por mais banais que pareçam, são um ritual de reaproximação. Como se disséssemos uns aos outros: “ainda estou aqui, mesmo não estando tanto”.
Foi nesse compasso lento que Alexandre puxou um fio. Frágil, quase imperceptível. Um pensamento solto, jogado como quem não quer ferver a água, mas acaba acendendo o fogo. Ele se perguntou — e nos perguntou — como teria sido sua vida se, em certos momentos, tivesse feito escolhas diferentes.
"Há dores que não vêm de feridas abertas, mas de caminhos não trilhados."
— Autor desconhecido
Essa dúvida bateu em mim como uma pedra atirada com carinho. Como se ele tivesse me desarmado com um simples pensamento, sem saber que aquilo já me visitava em segredo há muito tempo. Eu me considero especialista em discussões que não existem mais, em respostas que nunca foram ditas, em guerras vencidas pelo silêncio. Passo horas vivendo na terra do “e se”. E se eu tivesse dito aquilo? E se eu tivesse escolhido o outro caminho? E se eu tivesse apenas ficado mais um pouco? Essas versões minhas, esses multiversos de mim, se sentaram conosco em volta da fogueira naquela noite.
Olhei para o fogo e me vi sendo muitos. Alguns mais felizes, outros apenas menos feridos. Alguns corajosos, outros mudos, mas todos convivendo dentro de mim como fantasmas que se recusam a atravessar. É um peso estranho esse de carregar destinos que nunca foram. E mesmo assim, sentem.
"A vida é feita de escolhas. E mesmo quando não escolhemos, já estamos decidindo."
— Clarice Lispector
O céu estrelado não parecia se importar com meus abismos internos. Mas ali, naquela primeira fagulha de conversa, percebi que essa noite prometia mais do que memórias: prometia confrontos. Não entre nós. Mas entre mim e minhas versões que não consegui enterrar.
Capítulo 2 – O multiverso de mim mesmo
Quando Alexandre jogou aquela ideia na fogueira, como quem sopra uma brasa para ver se ainda há calor, eu senti algo dentro de mim se acender. Ele falou de vidas que poderiam ter sido. De decisões que, se tivessem sido outras, teriam mudado absolutamente tudo. E isso… me encontrou.
Eu já vivi mais versões de mim mesmo do que consigo contar. Versões que se formaram durante anos e desapareceram em segundos. Versões que tomaram decisões diferentes, que responderam com mais coragem ou ficaram em silêncio por medo. Cada uma dessas versões segue comigo — como um coral de vozes que eu escuto sempre que o mundo cala.
“O passado é um país estrangeiro. Lá, tudo é feito de outro jeito.”
— L. P. Hartley
Eu sou especialista em responder discussões que não existem mais. Em refazer caminhos já trilhados. Em me culpar por não ter enxergado a placa que dizia “aqui termina o que você chamava de futuro”. A vida seguiu. Mas o que seguiu comigo foram essas versões que me visitam à noite, me sussurrando todas as escolhas que eu poderia ter feito. Algumas, eu sei, mudariam tudo.
E quando eu penso em tudo isso, não é só arrependimento. É luto. Luto por mim mesmo. Por pedaços meus que foram embora com aquelas decisões. Por pessoas que, talvez, nunca tivessem cruzado meu caminho se eu tivesse apenas dito “não”. Ou dito “sim”.
Há perdas que vêm da ausência, e outras que nascem do excesso. E, por vezes, me percebo convivendo com o fantasma daquilo que não vivi — e daquilo que vivi por impulso. O amor, por exemplo… talvez minha dor mais insistente. Eu ainda carrego a sensação de que só tive uma chance real. Uma chance de viver algo completo, recíproco, festivo. E ela se perdeu. Talvez porque não era pra ser. Talvez porque eu não sou.
"A pior solidão é aquela sentida ao lado da esperança."
— Diário não publicado
E o que me fere hoje não é a ausência daquele amor. É ver, com olhos mais maduros, como aquelas pessoas se tornaram verbais, intensas, apaixonadas… com terceiros. Com outros. E nunca comigo. Nunca por mim. Eu era apenas uma ponte. Um momento. Uma peça que completava o quebra-cabeça da carência — e depois era descartada com naturalidade.
Isso… isso me quebrou de um jeito profundo. Porque eu fui sincero. Dividi o que ninguém sabia. Mostrei mapas internos. E ganhei o silêncio. A ausência. A substituição. E hoje, vejo postagens que talvez falem de mim. Algumas são violentas. Outras, distantes. E eu me pergunto: por que compartilhei tanto com alguém que não aguentou nem ficar?
A fogueira ainda queimava, mas eu já estava mergulhado nesse universo paralelo. Nesse mundo onde cada chama era uma versão minha. Alguns de nós estavam bem. Outros, em frangalhos. Mas todos carregavam a mesma certeza: eu não fui escolhido. Eu não fui festejado. Eu não fui lembrado em voz alta.
André e Alexandre seguiram a conversa. Mudaram de assunto, riram, dividiram novos temas. Mas eu? Eu fiquei ali, olhando para as brasas, escutando vozes solitárias de muitas de minhas versões. Talvez seja esse o multiverso mais difícil de suportar.
Capítulo 3 – Quando todo mundo vai embora
O fogo ainda resistia, lançando pequenas faíscas ao vento como quem avisa: “Ainda estou aqui, mas não por muito tempo”. André e Alexandre se despediram com aquele tipo de abraço que diz “a gente se vê”, mas que sempre me deixa com a sensação de que talvez ninguém volte. Eles foram. E eu fiquei.
Fiquei com minhas versões, meus multiversos, minhas memórias que se arrastam pelo chão como brasas que recusam o esquecimento. Era eu, o fogo, e todos os pedaços de mim que ainda queimavam — mesmo depois de todas as partidas.
“A maioria das pessoas vai embora antes do fim da festa. E algumas nem lembram que foram convidadas.”
— Diário não publicado
A presença dos dois tinha feito parecer que eu estava inteiro por algumas horas. Rimos, divagamos, filosofamos como de costume. Mas bastou o silêncio retornar para eu perceber que, na verdade, estive fragmentado o tempo todo. Apenas disfarcei bem.
Quando todos vão embora, o mundo mostra o que sobra: o eco. O eco das palavras não ditas. O eco das decisões não tomadas. O eco daquilo que ainda vive dentro da gente porque ninguém mais quis levar. E é esse som abafado, abafado pelas paredes internas, que ecoa mais alto que qualquer grito.
Há uma solidão que nasce da ausência dos outros. Mas há outra, mais cruel, que nasce da presença constante do que não se pode dividir. E essa… essa é minha companheira mais fiel.
“Eu não tenho medo do escuro. Tenho medo do que aparece quando a luz apaga.”
— Papo na Fogueira
Naquela noite, eu percebi que todos os meus vínculos estavam em combustão. Não só o amor que eu não tive. Mas as amizades que se distanciaram. Os contatos que esfriaram. As alianças que racharam por dentro, silenciosamente. Eu estava cercado de fumaça — dentro e fora de mim.
E é curioso como até o fogo, símbolo da conversa, da luz, do ritual, se tornou um reflexo da minha vida: consumindo tudo ao redor e me deixando com cinzas nas mãos. Eu tentei me reconectar. Tentei acender de novo alguma fagulha com quem restou. Mas às vezes… ninguém espera por você quando tudo vira cinzas.
Naquele instante, entendi que a minha dor não era a ausência de alguém. Era o abandono das minhas versões, a desistência silenciosa dos que um dia disseram ficar. E tudo isso agora queimava comigo. A lenha que alimentava o fogo… era eu.
Capítulo 4 – O que fica quando tudo queima
A fogueira já era brasa. O céu, mais escuro. A fumaça subia preguiçosa, como se também tivesse cansado de iluminar memórias. Ainda ali, sozinho, pensei que o calor do fogo é como certos sentimentos: mesmo depois de apagados, deixam marcas na pele, no peito, no tempo.
Olhei para o círculo de pedras onde nos sentamos. Três cadeiras, três vozes, três mundos que se encontraram naquela noite. E percebi que, apesar do silêncio que veio depois, algo essencial havia acontecido: dessa vez, a conversa foi convergente.
“Às vezes, tudo que a gente precisa é de alguém que escute... sem pressa de apagar o fogo.”
— Papo na Fogueira
Nenhum de nós impôs verdades. O fio puxado por Alexandre encontrou tecidos que eu já conhecia, mas nunca tinha costurado na frente de ninguém. E foi bonito ver cada um de nós adicionando pontos, cores, jeitos diferentes de ver — como se a dor, dessa vez, não separasse, mas construísse algo comum.
André ouviu mais do que falou, mas em sua escuta havia presença. Alexandre devolvia ideias com o cuidado de quem oferece um cobertor. E eu, entre os escombros das versões que citei, me senti menos só.
A conversa caminhou por outros temas. Demos risada. Fizemos planos improváveis. Nos permitimos leveza, mesmo entre tantas ruínas. E no fim, Alexandre lançou uma pergunta final — daquelas que abrem um buraco na alma e a gente finge que não ouviu. Mas ouvimos.
Essa pergunta não está no texto. É um segredo entre nós e a fogueira.
Voltando para casa, entendi que o tempo daquela noite foi estranho: parece que não vimos as horas passarem, e ao mesmo tempo, foi como se tivéssemos vivido dez anos em poucas horas. E talvez seja essa a grande beleza dos encontros reais — a distorção do tempo quando ele é bem vivido.
“Não vimos o tempo passar... porque usamos o tempo para estar.”
— Diário pós-fogueira
Sim, a vida ainda arde. Ainda há cinzas. Mas também há brasas que se recusam a apagar. E enquanto houver calor, haverá caminho.
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
Versões de mim - uma jornada interna com trilha sonora.
Setembro, minhas versões mortas
"♫ As entradas do meu rosto🎶
♫ E os meus cabelos brancos🎶
♫ Aparecem a cada ano🎶
♫ No final do mês de Agosto🎶"Setembro é o mês em que mais se fala sobre saúde mental. Cartazes, campanhas, frases de efeito — todos nos lembrando da importância de olhar para dentro, cuidar, ouvir, estar presente. E sim, eu concordo: é importante. Mas, ao mesmo tempo, não consigo evitar essa imagem quase metafórica de versões de mim mesmo que morreram ao longo do caminho. Algumas se foram em silêncio, outras foram assassinadas por contextos, decisões ou pessoas. Vistas de longe, parecem apenas fases. Mas olhando de perto... eram vidas inteiras.
"Algumas mortes não envolvem caixões, mas ainda assim exigem luto."
Boa parte da minha vida eu vivi no modo automático. Sem planos, sem projeções, sem preparar terreno. Apenas seguindo o impulso do agora, da oportunidade, da emoção que mandava. E é curioso olhar hoje para tudo isso com a lente do futuro — sabendo como certas histórias terminaram. Eu percebo que, talvez, muita coisa pudesse ter sido diferente se eu estivesse minimamente preparado para o que viria. Mas o preparo exige uma consciência que nem sempre a gente tem. E exige também uma frieza que não combina com quem sente demais.
"♫ You and I will ride tonight🎶
♫ 'Till the past is out of sight🎶
♫ We don't have to look back now🎶"Eu recebi pessoas na minha vida como quem abre a porta num temporal: sem filtro, sem guarda-chuva, sem teto. Algumas chegaram como cometas — brilhantes, intensas, barulhentas — e sumiram na mesma velocidade com que surgiram. E mesmo assim, deixaram rastros. E hoje, vendo algumas dessas pessoas de longe — ou pior, vendo o que dizem, o que postam, o que insinuam — eu me pego com um gosto amargo. Um tipo de arrependimento misturado com perplexidade: "Por que eu confiei tanto? Por que dividi tanto de mim?"
"♫ Pra que mentir, fingir que perdoou?🎶
♫ Tentar ficar amigos sem rancor🎶
♫ A emoção acabou🎶
♫ (Que coincidência é o amor)🎶
♫ A nossa música (nunca mais tocou)🎶"Há postagens que parecem falar de mim. De forma indireta, enviesada, algumas até com uma violência que me espanta. Porque o que eu dei foi afeto, foi escuta, foi cuidado. E o que recebo agora, anos depois, é um eco vazio de alguém que talvez nunca tenha me enxergado. Isso mexe comigo. Não pela crítica em si, mas pela constatação do quanto eu me doei para o nada. O quanto, sem perceber, eu apenas preenchi um espaço de carência. Um buraco que não era meu, mas que eu aceitei habitar como se fosse.
“Algumas pessoas poderiam não ter passado pela minha vida.”
É duro escrever isso, mas é verdade. Algumas presenças foram erros de percurso. São quase como cicatrizes que eu não precisava ter. E por mais que digam que tudo é aprendizado, algumas lições têm um custo alto demais. O preço de noites em claro, de memórias que ainda doem, de uma confiança que hoje é mais difícil de entregar.
"♫ Nesses meses foram tantos nomes🎶
♫ Tantos problemas e tantos🎶
♫ Telefones pra esquecer🎶"É estranho viver em um mês que fala tanto de cuidar da vida e sentir que várias das minhas já foram. Versões minhas morreram no meio de encontros que não deveriam ter acontecido. Em vínculos que nunca foram recíprocos. Em silêncios que gritavam e eu fingi não ouvir. Em decisões que eu não tomei por medo, ou por falta de preparo, ou simplesmente por não ter entendido os sinais.
Hoje eu entendo. E dói mais ainda entender tarde. Porque quando você percebe que aquilo era um aviso, já foi. Já aconteceu. Já machucou.
"♫ Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado🎶
♫ O habitante do meu corpo, deste estranho dublê de retratos🎶
♫ Talvez até eu já vivesse em algum corpo emprestado🎶"Setembro me faz pensar nas minhas mortes invisíveis. Nas minhas desistências disfarçadas. Nas pessoas que passaram como tempestade e deixaram meus móveis virados por dentro. E na minha própria responsabilidade nisso tudo. Porque fui eu quem abriu a porta.
"♫ Chatterton suicidou🎶
♫ Kurt Cobain suicidou🎶
♫ Getúlio Vargas suicidou🎶
♫ Nietzsche enlouqueceu🎶
♫ E eu!🎶
♫ Não vou nada bem🎶"Não escrevo isso como denúncia. Escrevo como luto. Escrevo porque, entre as campanhas de prevenção e os abraços virtuais, eu carrego os rostos de versões minhas que não voltam mais. Algumas mais jovens. Outras mais esperançosas. Todas genuínas. Todas minhas.
E, no fundo, é isso que mais me entristece: ter perdido partes de mim tentando cuidar de partes dos outros.
"♫ Eu já dei a outra alma aos bruxos e vampiros🎶
♫ Eu quero que eles façam a festa enquanto eu me retiro🎶"quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Migração para o Windows 11 - um relato pessoal e desesperador.
Formatar é também se reinventar
Essa jornada pode ser complementada pelo artigo do link SysAdminUrbano Windos11 onde descrevo mais tecnicamente o que aconteceu aqui.
Há quem diga que formatar um computador é só apagar tudo e recomeçar. Para mim, é sempre mais do que isso: é uma chance de revisar não apenas os arquivos que guardo, mas também os rastros digitais que dizem quem eu sou. Entre pastas esquecidas, atalhos inúteis e programas que um dia fizeram sentido, percebo que minha máquina é também uma extensão da minha memória. Esse é meu primeiro computador pessoal desde 2014, é meu primeiro com Windows desde os anos 90, foi feita uma instalação em 2021 e aqui eu também fecho o ciclo dessa história, destruindo tudo que me acompanhou nesses anos e reconstruindo novamente agora em 2025.
"Formatar um sistema é como trocar de pele: dói um pouco, mas no fim é libertador."
1. O inventário do que realmente importa
Comecei pelo mais básico: salvar documentos, fotos, vídeos, músicas.
Copiei cada pasta essencial para um HD externo, quase como quem organiza malas antes de uma viagem.
O medo de esquecer algo ficou ali, me cutucando, então revisitei três vezes cada diretório.
É curioso como até a pasta Downloads guarda pedaços de quem fui nos últimos anos. E é assustador olhar o tanto de arquivos que não sei o que é, para que serve ou que estava acontecendo quando o baixei.
2. O navegador, esse espelho silencioso
Descobri que não queria perder meus favoritos, senhas e histórico. Então ativei a sincronização do Chrome, exportei senhas em CSV e salvei também um HTML com todos os favoritos. Fiz o mesmo no Firefox e OperaGX, porque memória nunca é demais. No fundo, cada link salvo é quase como uma anotação de rodapé de mim mesmo.
"Os favoritos que guardamos são como caminhos que não queremos esquecer — atalhos para pedaços de nós."
3. Meus jogos, minha fuga
Uma das minhas preocupações era não perder minhas bibliotecas da Steam e da Epic.
Ainda bem que mantive todos os jogos em um disco separado.
No novo Windows, bastaria apenas reapontar a pasta D:\SteamLibrary e a D:\EpicGames.
Não é preciso reinstalar tudo — apenas mostrar ao sistema onde está a parte de mim que insiste em escapar para outros mundos.
Aqui o meu primeiro revés, ao instalar a GOG eis que o launcher me inicia uma conta zerada, sem minha biblioteca e minhas horas jogadas/trófeus, entrei em contato com o suporte e ainda estou aguardando solução.
4. A lista do que já esteve comigo
Para não esquecer os programas que uso, rodei um comando no PowerShell. Ele gerou um arquivo com todos os softwares instalados, uma espécie de fotografia técnica da minha rotina digital. Ao olhar a lista, vi mais do que nomes: vi fases da minha vida marcadas por ferramentas que usei para criar, trabalhar, estudar e até errar.
Get-ItemProperty HKLM:\Software\Wow6432Node\Microsoft\Windows\CurrentVersion\Uninstall\* | Select-Object DisplayName, DisplayVersion, Publisher | Format-Table –AutoSize > C:\programas_powershell.txt
5. A travessia
Quando finalmente cheguei à instalação do Windows 11, respirei fundo. Escolhi apenas o disco C:, formatei e deixei que o novo sistema tomasse forma. É curioso: enquanto a tela mostrava apenas porcentagens, minha mente corria por lembranças, ansiosa para o reencontro com a máquina limpa, leve, pronta para novos capítulos.
"Às vezes, precisamos apagar para poder continuar. O mesmo vale para discos e para memórias."
6. Reconstruindo o eu digital
Depois da formatação, reinstalei drivers, reativei programas, importei favoritos, reapontei bibliotecas de jogos. Aos poucos, a vida voltava para a tela. Percebi que formatar um computador não é só perder e recuperar: é também uma escolha do que vale ser trazido de volta. O resto, deixo no silêncio do que já não me serve.
Hoje, escrevo esse relato já no Windows 11. E sinto que, de algum modo, eu também fui atualizado. Não apenas o sistema mudou: eu também escolhi o que manter, o que descartar e o que transformar.
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
Papo(s) na Fogueira
Papo na Fogueira — Quatro Encontros e Uma Fogueira
Por Dário Junior
Introdução
Agosto foi estranho. E intenso. E sim, eu sei que estive um pouco ausente por aqui nessa série — mas dessa vez, não por falta de papo. Os encontros aconteceram, as conversas seguiram, e talvez por isso mesmo eu tenha precisado guardá-las só pra mim, por um tempo. E não foi por nenhum motivo aparente, apenas egoísmo meu mesmo, Nem tudo é para ser compartilhado. Além disso alguns pensamentos demandam tempo e deixei que maturassem em silêncio, como se algumas palavras só fizessem sentido depois que o eco delas passasse.
Hoje, diante da fogueira, sozinho, percebo o quanto cada uma dessas terças foi me moldando. E, pela primeira vez, decidi costurar quatro encontros em um só relato. Quatro terças, quatro arranjos diferentes da mesma fogueira — como se cada combinação de presenças tivesse revelado uma versão diferente de mim.
Dessa vez também quebrarei outro protocolo, sei que normalmente essa série se foca na humanidade de Alexandre contrastando com a sabedoria de André, mas falar disso seria igual dizer que a chuva é molhada, dessa vez eu falarei sobre mim, sobre a minha visão em cada uma dessas fogueiras e espero não entediá-los com isso, no próximo encontro, volto à programação normal.
“Às vezes, é preciso ouvir tudo antes de saber o que realmente se quer dizer.”
Capítulo 1 — Nós Três
O último encontro com nós três reunidos foi quase um ritual de cura. Falamos de fé, de desafios, de milagres pequenos demais pra virar manchete, mas grandes o suficiente pra mudar o dia de alguém. Rimos de coisas bobas e lembramos de dores sérias. E, entre um gole e outro, senti algo raro: pertencimento.
A verdade é que a vida me ensinou a desconfiar de absolutamente tudo. Herdei cicatrizes de histórias mal contadas na cidade onde cresci, de promessas que viraram abandono e de gente que eu chamava de irmão e que me largou no meio do caminho. Amores que se foram cedo demais, barato demais. E isso me fez me isolar, da cidade, das pessoas, de mim mesmo.
Mas estar com o Alexandre e o André é um lembrete visceral de que o ser humano ainda pode surpreender… pra melhor. A tríade da fogueira é minha pequena resistência ao cinismo. É a refutação de praticamente todas as verdades que construí sobre as pessoas, sobre a humanidade. E sempre que estamos juntos, penso no quanto o mundo seria mais suportável se mais pessoas pudessem viver algo assim.
“O tempo me roubou muita coisa, mas me devolveu vocês.”
Capítulo 2 — Eu e Alexandre
Na semana seguinte, André não pôde estar. E eu e Alexandre fizemos um retorno à nossa essência mais antiga: a música.
Falamos de gravações, de sons mal mixados, de projetos inacabados que ainda vivem em alguma pasta esquecida. Trocamos músicas novas, rimos de nossas tentativas juvenis de ser algo, de parecer algo. E por algumas horas, aquele papo foi mais que memória — foi reconciliação.
Havia tempos que meu lado músico estava trancado. Como se houvesse um porão dentro de mim, onde instrumentos estavam empoeirados, esperando que alguém acendesse a luz. Alexandre, com seu humor ácido e leveza primaveril, acendeu.
É difícil que vocês entendam isso por texto, até pela minha inabilidade de conseguir escrever na qualidade que essa história merece, mas Alexandre é uma espécie de profeta, sempre dizendo algo que só fará sentido em dias, meses, até anos depois. Porém, suas profecias não são abragentes, são pessoais, ele toca em pontos escuros e esquecidos como a luz de uma vela em uma sala escura. E foi num desses calabouços mentais que estava o músico que já fui, respirando por aparelhos, porém ainda sobrevivendo.
“Algumas partes nossas só acordam quando encontram a frequência certa em outra pessoa.”
Capítulo 3 — Eu e André
Na semana seguinte, quem não pôde foi Alexandre. E a fogueira, então, me colocou frente a frente com André — essa mente fascinante que sempre me obriga a pensar em mais de uma camada.
André tem uma visão extremamente peculiar do mundo à sua volta. Mais que isso, ele ainda consegue encapsular seu pensamento num pacote claro de ideias, nenhuma escrita em fogo, porém numa clareza de pensamento e dialética que causaria impacto em qualquer filósofo que tivesse o privilégio de ouví-lo. Mas assim como eu, ele se cansou de falar em qualquer lugar, nem todo ouvido é plateia.
Falamos sobre exposição, sobre redes sociais, sobre gente que mente bonito, mas vive mal. Sobre perfis impecáveis e vidas aos cacos. Sobre como algumas pessoas preferem viver nas sombras — não por medo, mas por sabedoria.
André tem esse dom de me arrastar para a superfície do pensamento técnico, mas me deixar boiando em reflexões humanas. Falamos também de raízes, de origens, de simplicidade. E quando olhamos o relógio, a noite já tinha passado — como se o tempo também tivesse parado pra ouvir.
“Nem todo mundo que não aparece está fugindo. Às vezes, só aprendeu a escolher o silêncio.”
Capítulo 4 — Eu Sozinho
Hoje, estou só. Sem Alexandre. Sem André. Só eu e o fogo.
E embora exista uma pontinha de lamento, há também uma imensa gratidão. Porque é raro ter um lugar assim. Um ponto fixo no tempo. Uma chama que resiste mesmo quando os corpos se ausentam.
Terças seguem sendo para mim dias de reflexão. E a de hoje é justamente sobre o impacto desses dias em minha vida. Verdades absolutas me foram quebradas. Ideias evoluíram. Espaços criados. Porém da pra resumir tudo isso em apenas uma palavra: Vida.
Já faz tempo que estamos juntos — nós três — e percebo como mudamos. Como crescemos. E como seguimos envelhecendo lado a lado, mesmo com ritmos e ausências diferentes.
A fogueira segue sendo esse lugar onde a vida faz sentido em volta do calor. Onde o mundo lá fora pode estar caótico, mas aqui… Aqui ainda existe algo sagrado.
“Algumas amizades são tão profundas que não precisam estar presentes pra aquecer. Bastam existir.”
Que venham os próximos encontros.
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
Firewatch - Entre Torres e Cinzas
Firewatch – A torre, a voz e o silêncio (Introdução)
Joguei Firewatch pela primeira vez no Nintendo Switch, em outro momento da vida — um momento em que meu casamento já dava sinais de desgaste, mas a ideia de me isolar ainda era impossível. Não havia torre, não havia floresta, não havia fuga. Havia apenas a rotina repetida, os mesmos cômodos, os mesmos diálogos em loop, as mesmas perguntas sem resposta.
Lembro que, mesmo encantado pela direção de arte e pela proposta narrativa do jogo, me sentia de fora. O idioma era uma barreira. Jogar em inglês, mesmo compreendendo, não me traz a mesma imersão que o português oferece. As palavras de Delilah chegavam até mim, mas não atravessavam. E, de algum modo, isso também refletia meu momento interno: muita coisa chegava, mas nada realmente me tocava.
“A solidão se parece mais com o que não sentimos do que com o que está ausente.”
— Dário Junior
Agora, nessa nova jornada gamer, reencontrei o jogo no Game Pass. Com suporte a conquistas, jogando no PC, com a possibilidade de aplicar a tradução feita pela comunidade — a Tribo Gamer — e, acima de tudo, com a mente diferente.
Moro no décimo segundo andar, essa é minha torre. Não estou mais naquela solidão acompanhada, e também bem menos cego. Vejo em Firewatch um espelho antigo e, talvez, uma trilha ainda aberta para seguir caminhando. Essa é a minha segunda vigília. E, desta vez, estou pronto para ouvir.
Capítulo 1 – O começo do fim
Firewatch começa como uma carta. Daquelas que você encontra no fundo de uma gaveta velha, escrita à mão, com o papel amarelado e as palavras ainda vivas demais. A história de Henry e Julia não é apenas uma introdução: é uma ferida sendo aberta, e você não está apenas lendo sobre ela — está escolhendo como ela se forma.
As primeiras decisões do jogo nos obrigam a encarar o que normalmente evitamos. E é quase cínico como, mesmo sabendo que estamos apenas em um prólogo, já nos sentimos responsáveis por algo que não temos como consertar. Julia adoece. Henry se afasta. E tudo o que parecia ser amor vira rotina, silêncio, e peso.
Na primeira vez que joguei, tudo isso era apenas um pano de fundo bonito e dolorido. Mas hoje, jogando de novo, entendo: o prólogo não é só a história de Henry. É um espelho frio e discreto, colocado na altura dos olhos de quem ousa continuar.
“A maioria dos casamentos não termina por falta de amor. Termina por excesso de silêncio.”
— Dário Junior
Julia vai embora — não por escolha, mas por necessidade. A doença apaga sua presença, mas não a memória do que ela foi. Henry, por sua vez, se perde em desculpas, whisky e promessas vazias. E é nessa espiral silenciosa que o jogo joga sua primeira carta real: a fuga.
Assumir o trabalho de vigia florestal não é um recomeço. É uma desculpa. Henry quer esquecer, mas carrega tudo com ele. Cada passo dado em direção à torre é um passo tentando escapar de si mesmo. E quem nunca pensou nisso?
Eu também me vi assim — sem mapa, sem bússola, cercado de árvores altas demais e caminhos que não faziam sentido. E, como Henry, também me afastei. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Ainda dormia na mesma casa. Ainda respondia as mesmas perguntas. Mas por dentro, eu já estava na floresta.
Chegar à torre é como abrir um caderno antigo. A vista é ampla, bonita, solitária. Mas não há paz. Só ausência. Não há vozes. Só o som do vento, das folhas, da estrutura de madeira que estala. O mundo lá embaixo continua, mas você está em suspenso — entre o que foi e o que ainda não é.
“A solidão mais profunda não é aquela em que estamos sozinhos, mas a que escolhemos viver em silêncio.”
— Diário da torre, página 1
Antes de qualquer conversa, antes de qualquer voz no rádio, Firewatch nos obriga a estar sós. E é um tipo de solidão incômoda, porque parece familiar. O jogo ainda não começou de verdade, mas você já entendeu que a jornada aqui é interna.
Na primeira noite, olhando pela janela da torre, senti o mesmo vazio que me visita às vezes na minha própria janela. Lá embaixo, vidas acontecendo. Aqui em cima, só eu e meu whisky. Só Henry. Só o silêncio.
Capítulo 2 – Quando alguém responde
Depois do silêncio, vem a voz. E é impressionante como a simples presença de alguém, ainda que invisível, pode mudar tudo. A solidão em Firewatch não se desfaz, mas se transforma. Quando Henry escuta Delilah pela primeira vez pelo rádio, não é só um diálogo que começa: é uma quebra de tensão, um respiro involuntário, um lembrete de que estamos vivos porque ainda há quem nos escute.
A forma como a voz dela chega — irônica, provocadora, sem pedir licença — já nos antecipa algo essencial: esse jogo, apesar da paisagem isolada e dos silêncios densos, é sobre conexão. Sobre vozes que se encontram em frequências perdidas.
Eu senti isso com força. Porque, assim como Henry, eu também tive minha voz do outro lado do rádio. No meu caso, não foi com um walkie-talkie, mas com o celular na mão. Em noites longas, com a cidade silenciosa ao fundo e o peso de uma casa já em ruínas, aquela ligação — aquela voz — foi meu norte momentâneo. Não veio para me salvar, nem prometeu ficar. Mas estava ali. Respondeu. E isso, às vezes, é mais do que suficiente.
Delilah não aparece, não tem rosto. Mas sua presença é mais marcante que muitos personagens que invadem nossa tela com gráficos realistas. Porque há uma verdade crua na forma como ela fala, nas pausas, nos sorrisos que conseguimos ouvir mesmo sem vê-los. Henry muda. Fica mais leve. Mais ácido. Mais humano. Porque agora tem alguém do outro lado da linha.
Eu lembro de estar ali, jogando, ouvindo a voz dela e, sem perceber, sorrir. Como se aquela conversa fosse comigo. Como se cada “Hey, are you there?” também me tirasse de mim por alguns instantes. Porque no fundo, a gente só quer isso: ser alcançado. Ser ouvido. Saber que nossa existência reverbera em alguma frequência que alguém é capaz de captar.
“Às vezes, tudo que a gente precisa é de uma voz que nos chame pelo nome sem motivo aparente.”
E é isso que o jogo faz. Ele nos oferece uma companhia inesperada. Uma ligação no meio do vazio. Uma conversa sem pauta, sem promessas, mas com presença. Como as melhores. Como as que a gente mais lembra.
Delilah e Henry não se conhecem de verdade. Mas se ouvem. E nesse universo isolado, isso é mais íntimo do que qualquer toque. Assim como eu, que não podia tocar, nem ver — mas ainda assim, escutava. E isso me bastava.
Capítulo 3 – A rotina que embriaga
Os dias começam a passar. A torre de Henry não muda, mas algo dentro dele — e de mim também — começa a ceder. O que era solidão absoluta vira um silêncio compartilhado. E de repente, cada novo amanhecer tem uma voz familiar esperando do outro lado. Sem promessas. Sem planos. Só presença.
A narrativa do jogo avança com naturalidade. Você mal percebe que está sendo puxado para dentro dessa relação. As conversas com Delilah tornam-se mais longas, mais íntimas. Há ironias, confissões, provocações. Como um vício bom. E foi aqui que me vi mais próximo de Henry do que em qualquer outro momento do jogo.
Porque não é só sobre estar sozinho. É sobre estar sozinho e ter alguém que ouve. Sobre acordar com a expectativa de ouvir um "Hey, sleepyhead" vindo do nada — e sorrir. Aquele sorriso bobo de quem está se acostumando a não estar mais completamente só.
Eu entendo esse vício. Já vivi ele. Acordar e olhar o celular, esperando alguma notificação. Dormir tarde, mas não sem antes aquela última conversa. Saber que do outro lado também havia alguém que, mesmo com todos os seus próprios abismos, ainda fazia questão de estar ali. Nem que fosse com uma frase curta. Um emoji sem muito sentido. Um áudio meio torto. E assim como Delilah, uma presença que vira um costume... Um costume que se torna uma promessa... Uma promessa que trás um vislumbre, um futuro.
"É possível se apegar a alguém só pela frequência com que ela te chama pelo nome."
Henry e Delilah não têm um corpo um do outro. Mas têm rotina. E a rotina, quando compartilhada, pode embriagar. Ela transforma o que era tarefa em afeto. A observação de uma nuvem, a piada sobre uma cerveja, o comentário sobre um urso. Tudo vira gesto de cuidado.
O jogo não te empurra para um romance. Mas também não te impede de senti-lo. E talvez seja aí que mora a beleza. Delilah passa a ser um lugar. Um lugar onde Henry pode existir sem carregar tudo o tempo todo. E isso — isso é raro demais para não se agarrar com força.
Com o passar dos dias, é inevitável: Henry se permite. E eu também. Me permiti reviver sentimentos que pensei ter arquivado. Me vi, como ele, criando expectativas em cima de cada "ping" no rádio. Às vezes era só um aviso banal. Outras vezes, um diálogo que me acompanhava pela noite toda.
O interessante é que, nesse ponto do jogo, nada grandioso acontece. Mas há um mundo inteiro se movendo entre os silêncios e as pausas. O tipo de movimento que só quem já se afundou em solidão reconhece: o da alma se reorganizando quando alguém chega, mesmo que só em ondas sonoras.
"A gente não sente falta do que nunca teve. Mas quando experimenta, mesmo por pouco tempo, a ausência vira dor."
E assim seguimos. Cada conversa entre Henry e Delilah é um espelho quebrado refletindo uma intimidade que a gente nem sabia que queria. Uma conexão improvável, nascida da solidão, alimentada pela repetição, embriagada pela ausência de outras opções. Mas que, no fim das contas, vira abrigo.
Capítulo 4 – Quando tudo parece frágil
O clima muda. No jogo, literalmente — há um incêndio à distância. Mas há também outra fumaça, mais densa: a da desconfiança. As conversas com Delilah continuam, mas agora carregam uma tensão leve, quase imperceptível, como quem tenta sorrir enquanto o chão racha sob os pés.
Henry começa a perceber que talvez não esteja tão sozinho assim. Há sinais, ruídos, rastros. E tudo que parecia seguro começa a vacilar. O rádio interceptado. As suspeitas. A paranoia se infiltra. Mas ela não chega de uma vez — ela escorre, sutil, como umidade numa parede.
E é nesse ponto que minha própria história se sobrepõe à do jogo. Porque enquanto rejogava *Firewatch*, percebi que aquele incêndio simbólico já esteve também na minha vida. Meus vínculos, outrora firmes, começaram a ruir. Não só o casamento, que já era cinza. Mas amizades. Afetos. A confiança nos gestos mais simples.
Depois de um divórcio, você não perde só o par — perde também o chão. As mensagens diminuem, as presenças somem. E as que ficam... você já não tem tanta certeza se devia confiar. Era como se tudo estivesse inflamável. Como se qualquer frase pudesse virar estopim. Como se qualquer silêncio escondesse uma armadilha.
"Não é só o fogo que destrói. Às vezes, é o que ele revela ao iluminar."
Delilah, que antes era aconchego, começa a parecer distante. Suas respostas, às vezes, chegam atrasadas. Suas explicações, incompletas. Henry sente. E eu também. Sentia a ausência onde antes havia constância. E sentia o medo de perguntar e não gostar da resposta.
Nessas horas, o jogo não precisa te dizer o que sentir. Ele só te dá o espaço. E o silêncio entre uma fala e outra diz tudo. A torre de vigia, antes lar improvisado, começa a parecer prisão. E Delilah, que antes era companhia, começa a parecer um reflexo instável da dúvida.
Na vida real, eu também observava sinais. Pessoas que sumiam. Outras que falavam demais. Algumas que juravam apoio, mas nas entrelinhas me julgavam. A confiança, que sempre achei ser a base de tudo, virou um quebra-cabeça com peças faltando. Eu me via tentando montar um abrigo com palavras desconexas e promessas partidas.
"Não existe pior solidão do que estar cercado por quem não te enxerga mais como você é."
Enquanto Henry investigava trilhas, gravações e teorias, eu investigava silêncios. Tentava entender se o afastamento dos outros era por culpa minha, por falta de afeto, ou apenas um reflexo natural de uma vida em colapso. E quanto mais eu procurava sentido, mais tudo parecia escapar pelos dedos.
No fim, o jogo não dá todas as respostas. E a vida, menos ainda. Mas o que *Firewatch* me mostrou — e o que revivi intensamente nesse trecho — é que há beleza na fragilidade. Há força em reconhecer que algo está trincando. Há dignidade em não fingir que não está doendo.
E mesmo em meio ao fogo, há um momento em que Henry se senta. Olha o céu. Respira. Eu também fiz isso. E mesmo cercado de dúvidas e perdas, descobri que ainda era possível existir — com medo, com dor, com tudo. Mas inteiro.
“Esse lugar daria um ótimo papo na fogueira...”
— Devaneios de Dário versão 2025
Capítulo 5 – O que fica quando a fumaça baixa
No final, toda história pede uma decisão. Mas em *Firewatch*, o final não chega como um clímax heroico. Ele chega com fumaça. Com sirenes. Com a urgência que não avisa. O incêndio, que antes era só uma metáfora, agora consome tudo ao redor. Henry precisa sair. Precisa abandonar a torre, as trilhas, a rotina, os silêncios compartilhados. Precisa abandonar Delilah.
E Delilah... não espera. A mulher que atravessou o jogo inteiro como voz, companhia, presença invisível — simplesmente não está lá. Ela parte. Deixa um recado frio. Um destino já traçado. Um lugar vago no rádio. E uma ausência concreta na última conversa.
A essa altura, o jogo não te recompensa com grandes explicações. Ele só te obriga a encarar o vazio. O vazio de quem confiou. De quem construiu algo dentro de si. E viu esse algo ruir. Henry parte sozinho. E leva com ele uma bagagem invisível: a de ter sentido tudo e, no fim, não ter nada para segurar.
Foi ali que tudo doeu em mim também. Porque eu sabia exatamente o que era isso. Assim como Henry, eu também fiquei. E ninguém me esperou quando tudo virou cinzas.
A vida já havia me dado esse desfecho. No fim, não houveram gritos, nem adeus. Houve rotina. Houve silêncio. Houve o distanciamento lento e cruel de quem um dia dividiu a vida e, de repente, mal divide o tempo. Depois tive minha reclusão, encarei meu próprio incêndio e quando a poeira baixou, ninguém estava lá. Nem mesmo quem disse que estaria.
"Algumas histórias não terminam — apenas se apagam."
E foi aí que percebi a grandeza de *Firewatch*. Porque o jogo não fala de finais gloriosos. Fala de perdas discretas. De vínculos que existiram, mas que não suportaram o peso da realidade. De pessoas que te tocam profundamente, mas não permanecem. De vozes que te salvaram uma vez, mas não vão te resgatar sempre.
Essa ausência me trouxe uma presença incômoda: a de mim mesmo. Assim como Henry, eu tive que caminhar sozinho. Recolher o que restou. E seguir. Não porque queria, mas porque não havia outra opção.
No final da jornada, restam as cinzas — e o que você decide fazer com elas. E por mais que Delilah tenha ido embora, por mais que os incêndios tenham consumido a floresta e tudo que ali nasceu, Henry segue em frente. E eu também, mesmo depois que "minha Delilah" foi embora sem se despedir, sem explicar, sem uma mensagem final.
"Nem tudo que queima é perda. Às vezes, é só a forma da vida lembrar que há coisas que não voltam. E que, mesmo assim, seguimos."
E assim terminou meu segundo encontro com *Firewatch*. Mais maduro, mais ferido, mais lúcido. Mas também mais grato. Porque há jogos que você joga. E há jogos que jogam com você. Esse foi dos dois.
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
A Hora do Diabo: Episódio 4
🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série A Hora do Diabo.
A Hora do Diabo: Episódio 4
Entre realidades sobrepostas, profecias parciais e a frustração de ver tudo sem poder explicar nada.
📺 Um novo caso, um novo ritmo
O episódio 4 de A Hora do Diabo abre com uma quebra de expectativa. A trama parece seguir para outro lado, e somos jogados num novo caso que, a princípio, parece desconectado. A cena da abelha é interessante e bem dirigida, mas o tom psicopata do personagem Gideon causa desconforto imediato. É difícil acreditar que alguém, especialmente uma adolescente, manteria uma conversa casual com um desconhecido tão nitidamente perturbador.
A história que ele conta sobre o cachorro carrega uma tensão latente, uma ameaça implícita. Por alguns segundos, parece que ele pode realmente atacá-la. É o tipo de cena que planta dúvida no espectador, e, nesse caso, isso funciona — mas exige suspensão de descrença.
🧠 Isaac, visões e o desespero do saber silencioso
Voltamos a ver Isaac e seu relacionamento com o detetive. A cena entre os dois é lúdica, intensa e visualmente muito bonita. E a série, mais uma vez, me faz refletir sobre o que significa ver tanto e não poder explicar nada.
“Deve ser desesperador ter acesso a tantas verdades... e não ter como provar nenhuma.” – Anotação mental durante a madrugada
O episódio desperta uma pergunta incômoda: Será que realmente queremos saber? Porque saber, nessa série, parece mais uma maldição do que um dom. Isaac, que vê essa casa duplicada o tempo todo, vive entre mundos, entre visões. E cada detalhe novo, como o fato de ele começar a sentir frio, vai adicionando camadas a esse enigma quase metafísico.
Confesso que até a dublagem brasileira merece destaque aqui — a escolha por “mãe Dinah” é espirituosa e bem adaptada. Um detalhe simples, mas que mostra cuidado.
🚨 Violência e tensão crescente
A cena da agressão à menina já era previsível — o investigador mais velho está claramente à beira de um colapso. E a construção da cena (mostrando ele de costas, com o que está à sua frente fora de foco) cria uma antecipação angustiante. O parceiro demora demais para chegar, e isso prepara o espectador para um desfecho que parece se arrastar até o limite do incômodo.
Essa tensão funciona, mas reforça o que senti durante boa parte do episódio: há uma mudança de ritmo. Tudo parece mais lento, mais diluído. A parte da personagem Mia, por exemplo, anda em círculos, como se estivesse segurando algo que ainda não pode ser revelado — o que gera uma certa frustração depois de episódios mais diretos.
🌀 Futuro, falhas e perturbações
A cena onde Lucy salva Aidan é estranha. Dado que todos têm visões do futuro, como nenhum deles previu aquilo? A inconsistência nos deixa desconfiados da própria lógica do mundo construído.
Mas então, quase no fim, vem o que talvez seja a melhor fala do episódio: Gideon dizendo a Dylan:
“Eu nunca te matei antes.” – Gideon, com frieza perturbadora
Essa frase, além de carregar um peso psicológico, parece brincar com as regras temporais do universo da série. É como se ele já soubesse que ainda vai matá-lo — e isso diz muito mais do que parece à primeira vista.
🔄 A visão, a caneca, o erro de Lucy
Na conclusão do episódio, percebemos que a caneca que Lucy viu numa de suas visões já havia aparecido. Ou seja, a morte de Aidan estava de fato em seu campo de visão — ela só não compreendeu o que viu.
Esse detalhe reforça o tema central da série: não basta ver, é preciso entender o que se vê. A premonição não é garantia de nada, se não houver leitura correta.
Por fim, a risada de Isaac. Uma risada estranha, fora de tom, desconfortável. Talvez o momento mais perturbador do episódio inteiro. O ator entrega muito ali, sem precisar de palavras. O tipo de cena que gruda.
Se esse episódio serviu para algo, foi para nos lembrar de que, nesse universo, as respostas não são lineares — e talvez, nem sejam respostas. São partes de um pesadelo compartilhado, onde ver demais é tão perigoso quanto não ver nada.
terça-feira, 9 de setembro de 2025
Ecos do Passado – 1959 - Parte 2
Ecos do Passado – 1959 (Parte 2: Top 10 comentado)
1959 trouxe uma diversidade sonora: baladas românticas, músicas cômicas, soul em ascensão e instrumentais marcantes. Cada faixa do Top 10 traz ecos que ainda podem ser ouvidos em produções atuais.
“De marchas históricas a baladas suaves, o Top 10 de 1959 é um retrato da transição entre a inocência dos 50 e a ousadia que viria nos 60.”
1. The Battle of New Orleans – Johnny Horton
Instrumentação: banjo, violino country, percussão marcial.
Estilo: country-folk narrativo.
Inspiração de estúdio: criar arranjos com ritmo “marchado”, usando percussão seca no FL Studio.
Particularmente não gostei, talvez ela tenha alguma conotação na letra/estilo que tenha a colocado em primeiro lugar, mas ouvindo uma primeira vez não vejo motivos para isso, não me pegou essa canção.
2. Mack the Knife – Bobby Darin
Instrumentação: big band completa: metais, contrabaixo acústico, bateria swing.
Estilo: jazz/swing adaptado ao pop.
Inspiração: experimentar camadas de brass (trompetes, sax) com swing em contratempo.
Gostei da música, porém talvez pela minha visão de tantos anos depois me parece genérica, devo ter ouvido centenas de músicas semelhantes e que eu não conseguiria diferenciar essa do montante, porém é uma música gostosa de se ouvir.
3. Personality – Lloyd Price
Instrumentação: metais em riffs curtos, piano marcante, bateria soul.
Estilo: R&B com pegada alegre.
Inspiração: pensar em grooves de metais como elemento central da faixa.
Esse é um estilo que pessoalmente me agrada mais, gosto bastante inclusive, então acaba me sendo mais agradável.
4. Venus – Frankie Avalon
Instrumentação: cordas orquestrais, violinos em legato, voz em destaque.
Estilo: balada romântica de crooner teen idol.
Inspiração: testar cordas suaves em background, com vocal seco em primeiro plano.
Baladinha super gostosa, levada suave, voz na medida certa, backs bem ajustados, excelnte música.
5. Lonely Boy – Paul Anka
Instrumentação: piano, cordas, backing vocals femininos.
Estilo: balada pop adolescente.
Inspiração: usar backing vocals como resposta à melodia principal.
Música chiclete, feita pra fazer sucesso, muito boa, destaque positivo na voz principal, passa muita emoção.
6. Dream Lover – Bobby Darin
Instrumentação: violão acústico, baixo, arranjo com leve doo-wop.
Estilo: balada pop com influência jazzística.
Inspiração: explorar acordes maiores e progressões simples, mas com timbre de voz forte.
O exato tipo de música que eu esperava ouvir quando pensei numa lista de top mais dos anos 50, excelente, nada mais a dizer.
7. The Three Bells – The Browns
Instrumentação: harmonias vocais, guitarra limpa, baixo acústico.
Estilo: balada country-pop.
Inspiração: recriar coros a três vozes, distribuindo no panorama estéreo.
Não faz muito o estilo que gosto, mas tem seu lugar, uma pegada mais 50's country me lembrou bastante Simon & Garfunkel obviamente não tão bom na minha opinião.
8. Come Softly to Me – The Fleetwoods
Instrumentação: harmonia vocal sussurrada, guitarra e percussão mínima.
Estilo: doo-wop delicado.
Inspiração: usar vozes tratadas com reverb suave, recriando atmosfera intimista.
Mais lenta, suave, delicada.
9. Kansas City – Wilbert Harrison
Instrumentação: guitarra elétrica com riffs de blues, piano marcante.
Estilo: rhythm & blues.
Inspiração: montar groove blues no FL Keys + guitarra elétrica em riffs curtos.
Essa eu conhecia, porém, a versão que conheço é a dos seriado "The Jacksons". Muito boa, porém acredito que covers mais atuais elevem a qualidade.
10. Mr. Blue – The Fleetwoods
Instrumentação: harmonia vocal suave, arranjo minimalista com guitarra e cordas discretas.
Estilo: pop vocal.
Inspiração: testar camadas vocais em dinâmica baixa, para criar clima melancólico.
Essa acaba por ser uma vocalização que parece conhecida, me passa uma pegada bem Disney, devo ter ouvido dezenas de desenhos com esse tipo de canção/cantar.
“O Top 10 de 1959 mostra a força das vozes e harmonias: do jazz orquestrado às baladas adolescentes, tudo girava em torno da interpretação.”
Numa primeira impressão, pegando apenas os top10, 1959 me pareceu um ano musicalmente inferior ao seu antecessor, obviamente seria interessante ouvir o resto da lista para ver se não encontro algo que agrade mais meu gosto pessoal. Mas tem sido uma jornada interessante nesse início.
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
Ecos do Passado – 1959 Parte 1
Ecos do Passado – 1959 (Parte 1: Top 100 Historical)
1959: o segundo ano completo do Billboard Hot 100. O país ainda buscava a música que definiria a virada dos anos 60 — e podemos sentir isso na lista anual.
“Cada faixa no Hot 100 é uma nota do tempo: 1959 ainda tinha o frescor dos anos 50, mas já deixava pistas do que viria na virada da década.”
Top 10 de 1959
- The Battle of New Orleans – Johnny Horton
- Mack the Knife – Bobby Darin
- Personality – Lloyd Price
- Venus – Frankie Avalon
- Lonely Boy – Paul Anka
- Dream Lover – Bobby Darin
- The Three Bells – The Browns
- Come Softly to Me – The Fleetwoods
- Kansas City – Wilbert Harrison
- Mr. Blue – The Fleetwoods
Top 100 completo – Year-End Hot 100 1959
| # | Música | Artista |
|---|---|---|
| 1 | The Battle of New Orleans | Johnny Horton |
| 2 | Mack the Knife | Bobby Darin |
| 3 | Personality | Lloyd Price |
| 4 | Venus | Frankie Avalon |
| 5 | Lonely Boy | Paul Anka |
| 6 | Dream Lover | Bobby Darin |
| 7 | The Three Bells | The Browns |
| 8 | Come Softly to Me | The Fleetwoods |
| 9 | Kansas City | Wilbert Harrison |
| 10 | Mr. Blue | The Fleetwoods |
| 11 | Sleep Walk | Santo & Johnny |
| 12 | Put Your Head on My Shoulder | Paul Anka |
| 13 | Stagger Lee | Lloyd Price |
| 14 | Donna | Ritchie Valens |
| 15 | Pink Shoe Laces | Dodie Stevens |
| 16 | Smoke Gets in Your Eyes | The Platters |
| 17 | Charlie Brown | The Coasters |
| 18 | Quiet Village | Martin Denny |
| 19 | My Heart Is an Open Book | Carl Dobkins Jr. |
| 20 | (Till) I Kissed You | The Everly Brothers |
| 21 | Sea of Love | Phil Phillips |
| 22 | The Happy Organ | Dave Cortez |
| 23 | I'm Gonna Get Married | Lloyd Price |
| 24 | Sorry (I Ran All the Way Home) | The Impalas |
| 25 | A Teenager in Love | Dion and the Belmonts |
| 26 | 16 Candles | The Crests |
| 27 | It's Just a Matter of Time | Brook Benton |
| 28 | Lipstick on Your Collar | Connie Francis |
| 29 | There Goes My Baby | The Drifters |
| 30 | A Big Hunk o' Love | Elvis Presley |
| 31 | Red River Rock | Johnny and the Hurricanes |
| 32 | Waterloo | Stonewall Jackson |
| 33 | Lavender Blue | Sammy Turner |
| 34 | (Now and Then There's) A Fool Such as I | Elvis Presley |
| 35 | Guitar Boogie Shuffle | The Virtues |
| 36 | Teen Beat | Sandy Nelson |
| 37 | Kookie, Kookie (Lend Me Your Comb) | Edd Byrnes & Connie Stevens |
| 38 | Tragedy | Thomas Wayne |
| 39 | My Happiness | Connie Francis |
| 40 | Tallahassee Lassie | Freddy Cannon |
| 41 | Tiger | Fabian |
| 42 | Never Be Anyone Else But You | Ricky Nelson |
| 43 | Don't You Know? | Della Reese |
| 44 | I Need Your Love Tonight | Elvis Presley |
| 45 | What a Diff'rence a Day Makes | Dinah Washington |
| 46 | The All American Boy | Bobby Bare |
| 47 | Primrose Lane | Jerry Wallace |
| 48 | Alvin's Harmonica | The Chipmunks |
| 49 | Lonely Street | Andy Williams |
| 50 | What'd I Say | Ray Charles |
| 51 | Frankie | Connie Francis |
| 52 | Lonesome Town | Ricky Nelson |
| 53 | Along Came Jones | The Coasters |
| 54 | Plain Jane | Bobby Darin |
| 55 | Turn Me Loose | Fabian |
| 56 | Goodbye Baby | Jack Scott |
| 57 | Mary Lou | Ronnie Hawkins |
| 58 | Primrose Lane | Jerry Wallace |
| 59 | Enchanted | The Platters |
| 60 | I Cried a Tear | LaVern Baker |
| 61 | Come Into My Heart | Lloyd Price |
| 62 | Just Ask Your Heart | Frankie Avalon |
| 63 | Tallahassee Lassie | Freddy Cannon |
| 64 | With Open Arms | Jane Morgan |
| 65 | Hushabye | The Mystics |
| 66 | Bobby Sox to Stockings | Frankie Avalon |
| 67 | First Name Initial | Annette |
| 68 | Forty Miles of Bad Road | Duane Eddy |
| 69 | Some Kind of Earthquake | Duane Eddy |
| 70 | Kissin' Time | Bobby Rydell |
| 71 | This I Swear | The Skyliners |
| 72 | My Wish Came True | Elvis Presley |
| 73 | Mona Lisa | Carl Mann |
| 74 | Sweet Nothin's | Brenda Lee |
| 75 | So Fine | The Fiestas |
| 76 | Broken-Hearted Melody | Sarah Vaughan |
| 77 | Rockin' Robin | Bobby Day |
| 78 | I'll Be Satisfied | Jackie Wilson |
| 79 | Since I Met You Baby | Ivory Joe Hunter |
| 80 | The Angels Listened In | The Crests |
| 81 | Ring-a-Ling-a-Lario | Jimmie Rodgers |
| 82 | Jo Jo the Dog-Faced Boy | Annette |
| 83 | It Was I | Skip & Flip |
| 84 | Oh Carol | Neil Sedaka |
| 85 | Deck of Cards | Wink Martindale |
| 86 | I Loves You, Porgy | Nina Simone |
| 87 | Midnight Flyer | The Platters |
| 88 | See You in September | The Tempos |
| 89 | I've Had It | The Bell Notes |
| 90 | Truly Do | The Crests |
| 91 | Manhattan Spiritual | Reg Owen Orchestra |
| 92 | The Tijuana Jail | The Kingston Trio |
| 93 | Petite Fleur | Chris Barber's Jazz Band |
| 94 | I'll Be There | Damita Jo |
| 95 | Seven Little Girls Sitting in the Back Seat | Paul Evans and the Curls |
| 96 | Oh Julie | The Crescendos |
| 97 | My Melancholy Baby | Tommy Edwards |
| 98 | Alvin's Harmonica | David Seville & The Chipmunks |
| 99 | Bye Bye Baby | The Channels |
| 100 | Peter Gunn | Henry Mancini |
“1959 ecoa nas paradas com baladas intensas, instrumentais ousados e nomes que logo se tornariam clássicos.”
sábado, 6 de setembro de 2025
A Hora do Diabo – Episódio 3
🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série A Hora do Diabo.
A Hora do Diabo – Episódio 3: Ecos entre Mundos
Universos paralelos, visões que confundem realidade, e o peso de carregar um dom que mais assusta do que guia.
O episódio 3 de A Hora do Diabo começa com força total, entregando um dos elementos mais instigantes da série até agora: a ideia de que as visões do menino não são apenas presságios, mas talvez imagens de outros universos possíveis. E se a casa em que eles vivem abrigasse, em outra realidade, uma versão distorcida da vida que conhecem? A presença da família de Meredith no mesmo espaço físico, mas em outra dimensão, abre uma nova frente de possibilidades.
Voltamos exatamente de onde paramos no final do episódio anterior, mas com mais perguntas do que respostas. O rapto de Isaac se aprofunda com o mistério do relógio, das chaves, e da recorrente figura da mãe de Lucy — agora cada vez mais clara como alguém também afetado por esse "dom" sombrio.
"Ver televisão desligada pode ser mais revelador do que ver qualquer notícia ligada."
Essa frase, que parece absurda à primeira vista, simboliza bem o clima do episódio. Lucy assiste à própria mãe mergulhada em algo entre premonição e loucura. As cenas da investigação policial são sólidas, e a forma como o roteiro costura a trama com os desenhos e os padrões nos crimes mostra que a série está jogando um xadrez de longo prazo com o espectador.
A explicação do déjà vu é um dos grandes momentos do episódio — tanto pelo conceito quanto pela direção da cena. Já a conversa de Lucy com a terapeuta levanta uma crítica sutil, mas poderosa, ao uso banalizado de remédios como solução universal para dores que, às vezes, não são químicas — são existenciais.
"O silêncio do sótão disse mais do que qualquer fala. E mesmo assim, uma silhueta falou por ele."
A cena do sótão é de um suspense técnico preciso. E justamente quando esperávamos o óbvio, a série entrega o extraordinário: uma figura, uma presença. Lucy, enfim, parece estar acessando o mesmo plano do Isaac. É um divisor de águas.
O episódio costura o mistério do tempo com uma sutil homenagem à ideia de "totem", quando Lucy segura o botão em mãos. Uma lembrança direta de Inception. É ela tentando descobrir se está sonhando ou vivendo.
Mais uma vez, as 3h33 aparecem. Sylvia, Lucy e Isaac estão ligados, mesmo sem querer, por algo que transborda lógica. A série parece agora começar a abordar não só o tempo como dimensão, mas o tempo como erro.
A conversa com o policial mais velho adiciona leveza e profundidade ao mesmo tempo. É ele quem traz o elemento de empatia que o espectador carrega: o desejo de ir até o fim, mesmo sem entender completamente.
"Se a chave estava com um morto, e a porta continua fechada, o que exatamente está esperando do outro lado?"
A sequência com Slade, a porta verde, o cofre e a chave é um jogo de quebra-cabeças que ainda não encaixou. E a dúvida sobre o real motivo do desaparecimento de Isaac ainda paira como um véu grosso demais para enxergar através.
Quando Lucy reencontra Isaac, tudo parece encaminhado para um desfecho... mas não. O episódio salta de novo no tempo. A fratura do investigador e os ferimentos de Lucy indicam um acidente. Mas o mais assustador é o que não é dito: o que ainda falta ser visto.
A Hora do Diabo segue sendo uma série que exige mais do que olhos atentos. Ela pede envolvimento emocional, leitura simbólica e uma paciência ritualística. O terceiro episódio é talvez o mais ousado até agora — e também o que mais nos deixa perdidos. No bom sentido.
sexta-feira, 5 de setembro de 2025
Ecos do Passado – 1958 Parte 3
Ecos do Passado – 1958 (Parte 3: Exercício no Home Studio)
Depois de ouvir e analisar, chega a hora de recriar. O passado não fica preso aos discos: ele pode nascer de novo nas teclas da SMK-25.
“Estudar é ouvir com os ouvidos do ontem e tocar com as mãos do agora.”
Exercício 1 – Groove simples inspirado em “Tequila” (The Champs)
- No FL Studio, carregue o FPC com kit de bateria latina.
- Programe um ritmo marcado em contratempo (bombo → caixa → hi-hat swingado).
- Use um timbre de sax (VST de sopros ou sample) para tocar o riff curto de 3 notas.
- Grave no Piano Roll da SMK-25 e repita em loop.
Objetivo: entender como uma ideia mínima pode virar clássico.
Exercício 2 – Harmonia vocal estilo Everly Brothers
- Toque no FL Keys uma progressão simples em acordes maiores (ex: C – Am – F – G).
- Grave uma linha melódica vocal (ou use um VST de vozes).
- Duplique a linha e mova-a em terças paralelas.
- Experimente leves diferenças de timing/volume para criar naturalidade.
Objetivo: explorar harmonias de duas vozes, marca registrada de 1958.
Exercício 3 – Orquestra pop à la “Volare”
- Carregue um conjunto de Strings Ensemble.
- Crie uma melodia simples e sustente com acordes longos.
- Adicione Reverb amplo para dar sensação de sala.
- Use violão ou piano para marcar ritmo básico de balada.
Objetivo: testar camadas orquestrais e arranjos românticos.
Dica de workflow
Crie uma Playlist no FL Studio chamada “1958 Study” e grave cada exercício em um Pattern separado. Assim você monta uma pequena coletânea de loops inspirados nos sons daquele ano.
Reflexão final
Em 1958, Michael Jackson ainda nem tinha nascido — mas os sons que dominaram as rádios seriam o pano de fundo do mundo em que ele cresceu. Recriar esses detalhes é mais do que treino técnico: é se colocar no mesmo ambiente de inspiração que, anos depois, moldaria o maior artista pop do século.
“Os ecos do passado não são cópias: são sementes para o presente florescer.”
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
Ecos do Passado – 1958 Parte 2
Ecos do Passado – 1958 (Parte 2: Top 10 comentado)
Se na Parte 1 registrei o Top 100 histórico, agora é hora de olhar com mais cuidado para o Top 10 de 1958 e ouvir o que suas notas ainda sussurram. É aqui que os ecos se transformam em aprendizado musical.
1. Volare (Nel blu dipinto di blu) – Domenico Modugno
Instrumentação: arranjo orquestral com cordas e metais, base suave de violão.
Estilo: canção italiana que atravessa fronteiras, mistura de balada romântica com pop internacional.
Inspiração de estúdio: testar camadas de cordas no FL Studio (usar strings ensemble), criar atmosfera ampla com reverb.
Essa me é uma música conhecida, porém não nessa versão, me lembro de uma versão mais atual, bem mais latina, agitada, talvez nos anos 90 um mistério para outro dia. É uma boa canção, agora será descobrir se ela realmente merece o primeiro lugar do ano.
2. All I Have to Do Is Dream – The Everly Brothers
Instrumentação: guitarras acústicas e elétricas limpas, backing vocals em harmonia dupla.
Estilo: balada pop-country.
Inspiração: experimentar gravação de harmonias vocais em duas vozes, ou duplicar vocais no DAW para criar efeito Everly.
Não me lembro dessa, porém é um estilo mais que batido, conheço milhares de músicas semelhantes, me lembra muito the beatles
3. Don't – Elvis Presley
Instrumentação: piano, baixo marcado, cordas discretas.
Estilo: balada lenta com interpretação vocal dramática.
Inspiração: focar no poder da interpretação vocal – até um arranjo simples ganha peso com nuances de voz.
Canção romântica do Elvis, é meio que chover no molhado, gostosa, cadenciada, e conta com a voz poderosa do Rei, excelente música.
4. Witch Doctor – Ross Bagdasarian
Instrumentação: piano boogie-woogie, vozes aceleradas com truque de fita.
Estilo: novelty song (humor + técnica de estúdio).
Inspiração: lembrar que efeitos criativos (pitch shifting, time stretch) já eram usados em 1958. No FL, brincar com resample.
A música começa bem, alegre quando de repente ouço Os Esquilos não me aguentei de rir, bem divertida, entendo o motivo de aparecer na lista.
5. Patricia – Perez Prado
Instrumentação: metais latinos, bongôs, piano.
Estilo: mambo instrumental.
Inspiração: montar groove latino no FPC (bateria latina) e usar brass stabs em sincope.
Gostosinha, deve ter sido muito dançada na época, mas não seria algo que eu ouviria normalmente em meus dias.
6. Sail Along, Silv’ry Moon – Billy Vaughn
Instrumentação: saxofones, metais em coro, guitarra de apoio.
Estilo: instrumental orquestrado de easy listening.
Inspiração: explorar arranjos de sopros em camadas, usando seções de sax em VSTs.
Segunda música apenas instrumental da lista, também não me pega muito mas me coloca a pensar que desde os anos 50 já existiam músicas unicamente instrumentais, nunca tinha pensado nisso.
7. Catch a Falling Star – Perry Como
Instrumentação: violinos, coro suave, bateria leve em contratempo.
Estilo: balada pop orquestral.
Inspiração: experimentar backing vocal suave (pads vocais ou corais digitais).
Que início gostoso, bela voz, levada gostosa, também um estilo muito comum em filmes e desenhos existiam muitas músicas semelhantes
8. Tequila – The Champs
Instrumentação: guitarra elétrica, sax tenor, bateria swingada.
Estilo: rock instrumental com latin groove.
Inspiração: groove simples de três notas vira clássico. Tentar loops de guitarra + sax sample no FL.
Facilmente reconhecida, na minha opinião a melhor até o momento, fato curioso a usei a poucos tempos atrás como música em uma foto de meu insta. Ou seja ainda a ouço atualmente.
9. It's All in the Game – Tommy Edwards
Instrumentação: cordas, piano, bateria suave.
Estilo: balada pop com roots jazzísticos.
Inspiração: usar progressões harmônicas ricas, com modulações suaves.
Mais uma balada, até boa mas quando se tem Elvis em atividade é difícil se destacar no mesmo estilo.
10. Return to Me – Dean Martin
Instrumentação: acordeão, violinos, contrabaixo acústico.
Estilo: balada romântica com toque italiano.
Inspiração: resgatar timbres como acordeão, pouco usados hoje, para criar clima nostálgico.
Mais outra balada essa um pouco mais inspirada, a voz me agrada mais que a anterior, imagino que esse seja o estilo dominante da época.
“Entre orquestras e riffs simples, 1958 mostra que não existe regra: tanto a grandiosidade quanto a simplicidade podem marcar gerações.”
Eu teria de ouvir o restante da lista, mas tenho uma impressão que meu top10 talvez fosse bem diferente, quem sabe não penso nisso num projeto futuro.





























