🚨 Aviso: este texto contém spoilers da série A Hora do Diabo.
A Hora do Diabo – Episódio 3: Ecos entre Mundos
Universos paralelos, visões que confundem realidade, e o peso de carregar um dom que mais assusta do que guia.
O episódio 3 de A Hora do Diabo começa com força total, entregando um dos elementos mais instigantes da série até agora: a ideia de que as visões do menino não são apenas presságios, mas talvez imagens de outros universos possíveis. E se a casa em que eles vivem abrigasse, em outra realidade, uma versão distorcida da vida que conhecem? A presença da família de Meredith no mesmo espaço físico, mas em outra dimensão, abre uma nova frente de possibilidades.
Voltamos exatamente de onde paramos no final do episódio anterior, mas com mais perguntas do que respostas. O rapto de Isaac se aprofunda com o mistério do relógio, das chaves, e da recorrente figura da mãe de Lucy — agora cada vez mais clara como alguém também afetado por esse "dom" sombrio.
"Ver televisão desligada pode ser mais revelador do que ver qualquer notícia ligada."
Essa frase, que parece absurda à primeira vista, simboliza bem o clima do episódio. Lucy assiste à própria mãe mergulhada em algo entre premonição e loucura. As cenas da investigação policial são sólidas, e a forma como o roteiro costura a trama com os desenhos e os padrões nos crimes mostra que a série está jogando um xadrez de longo prazo com o espectador.
A explicação do déjà vu é um dos grandes momentos do episódio — tanto pelo conceito quanto pela direção da cena. Já a conversa de Lucy com a terapeuta levanta uma crítica sutil, mas poderosa, ao uso banalizado de remédios como solução universal para dores que, às vezes, não são químicas — são existenciais.
"O silêncio do sótão disse mais do que qualquer fala. E mesmo assim, uma silhueta falou por ele."
A cena do sótão é de um suspense técnico preciso. E justamente quando esperávamos o óbvio, a série entrega o extraordinário: uma figura, uma presença. Lucy, enfim, parece estar acessando o mesmo plano do Isaac. É um divisor de águas.
O episódio costura o mistério do tempo com uma sutil homenagem à ideia de "totem", quando Lucy segura o botão em mãos. Uma lembrança direta de Inception. É ela tentando descobrir se está sonhando ou vivendo.
Mais uma vez, as 3h33 aparecem. Sylvia, Lucy e Isaac estão ligados, mesmo sem querer, por algo que transborda lógica. A série parece agora começar a abordar não só o tempo como dimensão, mas o tempo como erro.
A conversa com o policial mais velho adiciona leveza e profundidade ao mesmo tempo. É ele quem traz o elemento de empatia que o espectador carrega: o desejo de ir até o fim, mesmo sem entender completamente.
"Se a chave estava com um morto, e a porta continua fechada, o que exatamente está esperando do outro lado?"
A sequência com Slade, a porta verde, o cofre e a chave é um jogo de quebra-cabeças que ainda não encaixou. E a dúvida sobre o real motivo do desaparecimento de Isaac ainda paira como um véu grosso demais para enxergar através.
Quando Lucy reencontra Isaac, tudo parece encaminhado para um desfecho... mas não. O episódio salta de novo no tempo. A fratura do investigador e os ferimentos de Lucy indicam um acidente. Mas o mais assustador é o que não é dito: o que ainda falta ser visto.
A Hora do Diabo segue sendo uma série que exige mais do que olhos atentos. Ela pede envolvimento emocional, leitura simbólica e uma paciência ritualística. O terceiro episódio é talvez o mais ousado até agora — e também o que mais nos deixa perdidos. No bom sentido.


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