Nesta semana, iniciei algumas caminhadas. Pequenas mudanças de hábito, mas que acabam alterando também a forma como a leitura acontece. Hoje, depois da caminhada, peguei meu café e desci até a entrada da minha casa. Sentei em um banco. Estava levemente frio, ventando um pouco, e pela primeira vez li este capítulo ao ar livre.
Talvez isso não tenha sido por acaso. O capítulo anterior trazia uma sensação muito clara de prisão. Harry confinado no quarto, privado de contato, de comida, de dignidade. Ler esse terceiro capítulo fora de casa me pareceu quase uma necessidade física de liberdade — assim como Harry finalmente consegue sair da casa dos Dursley.
Às vezes, o corpo entende antes da mente aquilo que a história está tentando dizer.
A fuga
O capítulo começa exatamente no ponto em que esperamos: Rony aparece na janela de Harry, acompanhado de Fred e George. Eles estão preocupados. As cartas não foram respondidas. Algo está errado — e, de fato, nós já sabemos que nenhuma delas chegou até Harry.
A entrada dos gêmeos Weasley é, imediatamente, divertida. Fred e George são exatamente o oposto do ambiente opressor dos Dursley. Eles trazem improviso, irreverência e, principalmente, soluções práticas. Curiosamente, soluções que não envolvem magia.
O carro voador — encantado pelo pai deles, não por eles — já mostra esse equilíbrio curioso entre o mundo mágico e o mundo trouxa. A grade da janela é retirada, a porta destrancada com um simples grampo. Tudo feito com habilidades mundanas, quase como se os Weasley já estivessem preparados para burlar regras também fora da magia.
As incoerências e os limites do roteiro
Há, porém, um momento que me tira um pouco da imersão. Quando Edwiges grita, acordando o tio Walter, e Harry é visto saindo da casa, a reação dos Dursley volta a parecer exagerada e, em certos pontos, incoerente.
E se Dobby realmente quisesse impedir Harry de ir a Hogwarts, bastaria provocar mais incidentes mágicos e fazer com que o Ministério acreditasse que Harry estava usando magia fora da escola. Isso resultaria em expulsão, varinha quebrada, fim da história. Prendê-lo fisicamente parece um caminho estranho, quase um artifício narrativo.
Talvez, como no primeiro livro, essas aparentes falhas encontrem explicação mais à frente. Por ora, ficam como pequenas fissuras em uma narrativa que, até aqui, se sustenta muito bem.
A casa dos Weasley
A ida para a casa dos Weasley muda completamente o tom do livro. Pela primeira vez, vemos uma casa de bruxos em funcionamento. E não uma casa idealizada, grandiosa ou sofisticada — mas uma casa viva.
A Toca é bagunçada, improvisada, cheia de objetos mágicos estranhos, mas transborda algo que sempre faltou a Harry: afeto. Os Weasley demonstram certa timidez por serem simples, por não terem muito dinheiro, mas isso nunca soa como vergonha. Pelo contrário, é justamente essa simplicidade que torna o lugar acolhedor.
Casas com afeto são sempre mais quentes do que casas onde se tem tudo.
Harry conhece o quarto de Rony, vê seus pertences, seu time de quadribol, sua história. A cena do quintal, com os gnomos sendo arremessados para longe, é absurda, cômica e extremamente visual. Daquelas cenas que parecem feitas para o cinema — e que, se não estiverem no filme, serão uma oportunidade perdida.
O alívio antes do próximo perigo
Ao final do capítulo, a sensação é de alívio. Harry escapou. Está seguro, ao menos por enquanto. O Dobby, que parecia uma ameaça, passa a ser visto com desconfiança: estaria ele realmente tentando proteger Harry ou apenas cumprindo ordens?
Os Weasley levantam uma questão importante: elfos domésticos não agem por vontade própria. Eles obedecem. Isso planta a dúvida que acompanhará Harry daqui para frente. Existe mesmo um perigo em Hogwarts ou tudo não passa de uma manipulação?
Este capítulo funciona como uma transição necessária. Ele fecha a prisão, apresenta o contraste, oferece um respiro emocional e prepara o terreno para o retorno a Hogwarts e para o segundo ano letivo.
E, pela primeira vez neste livro, Harry não está sozinho.


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