O Armário Debaixo da Escada e o Aprendizado da Violência
Projeto de leitura iniciado em 2026. Um capítulo por dia. Um olhar adulto sobre uma infância que começa confinada.
Capítulo I — O Salto no Tempo e a Casa que Aperta
O segundo capítulo começa com um salto temporal. Harry já não é mais um bebê deixado à porta. Ele agora é uma criança consciente — e isso muda completamente o peso da narrativa. Porque agora ele sente. Agora ele percebe. Agora ele entende, mesmo que não saiba explicar.
A imagem do armário debaixo da escada é forte. Muito forte. Automaticamente minha mente tenta traduzir isso para algo conhecido: aquelas escadas americanas com portinhas, quase sempre usadas como depósito, como armário de vassouras. Mesmo sabendo que a casa é britânica, o imaginário cinematográfico insiste em preencher os vazios.
“Toda casa tem um espaço esquecido. Às vezes, alguém cresce ali dentro.”
O que importa não é a arquitetura exata, mas o simbolismo. Harry não ocupa um quarto. Ele ocupa o resto. O espaço que sobra. O lugar que não foi feito para alguém viver, mas para ser escondido.
Capítulo II — Duda, o Bully Reconhecível
Duda é um personagem desconfortavelmente familiar. Todos nós conhecemos alguém assim. Mimado, violento, barulhento, acostumado a ter o mundo orbitando em torno de seus desejos. Ele não é apenas uma criança malcriada — ele é o reflexo direto de uma criação que nunca disse “não”.
O bullying aqui não é sutil. Ele é direto, físico, psicológico. E o mais perturbador é que ele não vem apenas do primo. Ele é reforçado pelos tios. Existe uma permissão tácita para que Harry seja maltratado. Uma autorização silenciosa que legitima a violência.
“O pior tipo de agressão é aquela que ninguém interrompe.”
O capítulo se torna mais indigesto exatamente por isso. Não é fantasia nesse ponto. É cotidiano. É uma infância sendo moldada sob humilhação constante.
Capítulo III — Magia Como Culpa
Algo que chama muito a atenção neste capítulo é o pavor absoluto que os Dursley têm da magia. Qualquer coisa fora do padrão é tratada como ameaça. E, ironicamente, Harry é punido por eventos que ele sequer compreende ou controla.
Cortes de cabelo que se desfazem sozinhos. Aparências que insistem em voltar ao estado original. Pequenos fenômenos que, para uma criança, só podem gerar confusão e medo. Ele não entende o que acontece. Só entende que será castigado.
“Quando alguém é punido por aquilo que não entende, aprende apenas a sentir culpa.”
Imagino o impacto disso na mente de alguém tão novo. A sensação constante de estar errado, mesmo quando não sabe por quê. A ideia de que existir já é um problema.
Capítulo IV — O Zoológico e a Primeira Brecha
A visita ao zoológico é, curiosamente, um dos momentos mais leves do capítulo — e também um dos mais simbólicos. É ali que algo diferente acontece. É ali que Harry fala com a cobra.
Eu não lembrava, antes de reler, do detalhe de que ele solta a cobra. Mas conforme li, a memória voltou. A cobra indo embora, agradecendo. É uma cena engraçada no livro, quase lúdica, apesar de que, se pensada fora da fantasia, seria algo bem mais sério.
Aqui, a magia não é punição. Ela é comunicação. É conexão. É talvez o primeiro momento em que Harry faz algo extraordinário e isso não resulta imediatamente em dor — ainda que, logo depois, venha o castigo.
“Às vezes, o primeiro sinal de quem somos aparece em silêncio, para não assustar.”
Capítulo V — Violência Doméstica Disfarçada de Normalidade
O capítulo inteiro carrega um peso difícil de ignorar. Ele é divertido em alguns momentos, sim, mas é um divertimento que convive com algo muito mais pesado: uma criação baseada em medo, castigo e exclusão.
Ficar trancado. Ser isolado. Ser responsabilizado por coisas que não controla. Tudo isso aparece de forma quase casual na narrativa, mas lido agora, com outros olhos, se torna impossível não pensar no impacto psicológico disso tudo.
É inevitável imaginar o quanto essa infância molda quem Harry vai se tornar. Não apenas como bruxo, mas como pessoa.
Encerramento — À Beira da Carta
O Capítulo 2 termina com a sensação de que algo está prestes a mudar. Para quem já conhece minimamente a história, sabemos que a carta de Hogwarts se aproxima. Existe uma expectativa no ar.
Mas, antes da libertação, o livro faz questão de nos manter aqui. Debaixo da escada. Dentro da casa que aperta. Presos à normalidade sufocante.
É um capítulo divertido, sim. Mas também é um capítulo duro. Um lembrete de que, antes da magia, há abandono. Antes do pertencimento, há exclusão.
Amanhã, seguimos. Um capítulo por dia. E uma infância que começa, finalmente, a rachar.


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