Gamertag

sábado, 10 de janeiro de 2026

Harry Potter e a Pedra Filosofal — Capítulo 6


A Plataforma, o Trem e o Início de Pertencimento

Projeto de leitura iniciado em 2026. Um capítulo por dia. Quando o mundo muda de direção — e o caminho começa a ganhar companhia.

Capítulo I — O silêncio como punição

O Capítulo 6 começa com uma surpresa que, olhando de fora, parece quase irônica: os Dursley passam a ignorar Harry. Eles fingem que ele não está ali. Evitam contato visual. Tratam a presença dele como um risco. Como se, de repente, a criança que foi humilhada por dez anos tivesse virado um objeto perigoso dentro da própria casa.

E, honestamente, é exatamente o que deveria acontecer se você fosse um trouxa e tivesse maltratado um bruxo por uma década. Não por justiça poética — mas por medo básico. O medo típico de quem bateu demais em algo que não entende e, um dia, percebe que pode existir consequência.

Ainda existe uma lacuna aqui que me chama atenção: eu não sei exatamente como os Dursley recebem a informação completa sobre a morte dos pais de Harry. Então o que eu leio neles é uma mistura confusa de ignorância, preconceito e pavor do desconhecido. Eles não odeiam apenas a magia. Eles odeiam a sensação de não controlar.

“Quem vive de controle sempre odeia aquilo que não consegue explicar.”

Capítulo II — Sadismo, plataforma 9¾ e a crueldade banal

Há um detalhe quase cômico — e ao mesmo tempo cruel —: Duda continua com o rabo de porco, e agora a família terá de lidar com isso de forma prática, hospitalar, cirúrgica. O castigo ficou visível. Não dá para fingir que não aconteceu. Isso me parece uma das pequenas delícias do capítulo: a magia deixou uma marca física na casa onde Harry era tratado como uma marca indesejada.

Mas o ponto mais indigesto vem na sequência: a plataforma 9¾.

Existe algo de sádico no modo como os Dursley se comportam ao deixar Harry na estação. Eles não apenas o deixam. Eles deixam com prazer. Com aquela satisfação venenosa de quem acha que a criança vai ficar presa. E se você arranca essa situação do universo mágico e coloca no mundo real, o que sobra é assustador: adultos abandonando uma criança de 11 anos em um metrô/estação, num lugar desconhecido, apostando que ela não vai encontrar saída.

É violência sem grito. É toxicidade em forma de “humor familiar”.

“A pior crueldade é a que se disfarça de piada.”

Isso, inevitavelmente, deve reforçar em Harry uma sensação que o livro vem construindo desde o início: a sensação de não proteção. A sensação de que o mundo adulto, quando não é agressivo, é ausente.

Capítulo III — Os Weasley: o primeiro calor

E então surgem os Weasley — e o livro muda de temperatura.

A aparição dos Weasley é uma das coisas mais agradáveis de se ler. Não só porque é divertida, mas porque é acolhedora. O texto deixa de ser apenas sobrevivência e passa a ter um primeiro cheiro de comunidade. A forma como eles são apresentados, a maneira como conversam, a naturalidade com que ajudam Harry sem humilhá-lo… tudo isso parece simples, mas é gigantesco para alguém que foi tratado como estorvo por dez anos.

Há algo quase terapêutico no gesto de alguém dizer “é por aqui” sem cobrar nada por isso.

“Existem ajudas que não mudam o mundo. Mudam apenas o dia — e isso já é tudo.”

E os gêmeos… os gêmeos são um capítulo à parte. Engraçados, rápidos, vivos. Eles têm aquele tipo de humor que não é para destruir alguém — é para criar barulho no silêncio. Eles funcionam como o oposto do ambiente Dursley: onde lá tudo era vigilância e repressão, aqui tudo é presença e caos afetuoso.

Capítulo IV — O trem de Hogwarts e o meu trem para São Paulo

Existe uma coincidência que me pegou de um jeito bonito: eu li esse capítulo no trem.

Enquanto Harry estava no trem para Hogwarts, eu estava no trem para São Paulo. Hoje eu vou presencialmente ao escritório. Então a viagem dele se misturou com a minha própria viagem. E isso me deu uma sensação inesperada de companhia.

Ler esse capítulo no trem fez a minha viagem ficar curta. Ficou divertida. Ficou mais leve. E eu não esperava que uma leitura pudesse produzir esse tipo de encaixe com um dia comum. Isso me fez pensar no valor desse projeto: um capítulo por dia pode virar uma espécie de trilha sonora emocional para as minhas andanças.

“Há livros que não ocupam só a mente. Eles ocupam o caminho.”

Capítulo V — Rony: humanidade, peso e empatia

A interação com Rony é um dos pontos mais humanos do capítulo. O texto faz algo muito bem: ele constrói amizade sem forçar. Não é “destino” do roteiro. É empatia de gente que reconhece peso no outro.

Rony carrega o peso de ser “mais um” dentro da própria família. Mesmo sendo bruxo e conhecendo aquele mundo, ele está preso em camadas de comparação: irmãos bem-sucedidos, objetos herdados, roupas usadas, expectativas. Ele carrega a sensação de insuficiência.

E isso conversa de forma estranhamente perfeita com Harry, que também viveu com restos — roupas do Duda, sobras de afeto, sobras de espaço, sobras de vida. A diferença é que Harry agora carrega outro peso: o peso de ser famoso sem entender por quê. De ser conhecido sem se conhecer. De estar nos livros sem lembrar do que viveu. De ter uma história que todo mundo sabe, menos ele.

“Ser famoso sem memória é como ser julgado por um crime ou por um milagre que você não lembra de ter cometido.”

É por isso que a amizade nasce fácil. Porque os dois reconhecem um tipo de solidão semelhante, mesmo por motivos diferentes. E o livro faz isso de um jeito orgânico, quase inevitável.

Capítulo VI — Hermione, o trio e a primeira escolha

E então surge Hermione. O aceno é imediato: o trio está se formando.

Eu já sei que eles serão amigos e que estarão na mesma casa — spoiler inevitável dos filmes. Mas, mesmo assim, a forma como o livro coloca esses encontros é tão natural que não perde a graça. Não parece uma engrenagem de roteiro. Parece só… vida acontecendo.

E nesse capítulo acontece algo importante: Harry começa a escolher. Ele começa a perceber pessoas. Ele começa a perceber “tipos”. Ele começa a reconhecer comportamentos.

Capítulo VII — Draco: o velho bullying em roupa nova

Quando Draco aparece, há uma sensação imediata de repetição. É como se Harry olhasse para ele e visse a sombra do Duda. E aqui surge uma reflexão interessante: ter convivido com o Duda a vida toda pode ter sido traumático, mas também ensinou a Harry a reconhecer esse tipo de gente.

Isso não o fortaleceu “bonitamente”. Não o transformou num herói. Mas lhe deu um radar. Um instinto. Um desejo simples de afastamento.

“Às vezes, a dor ensina a gente a identificar o perigo antes da primeira mordida.”

Draco não é só antagonista futuro; ele é o primeiro lembrete de que Hogwarts não será um paraíso. O mundo mágico tem beleza, mas também carrega hierarquia, arrogância, disputa e crueldade.

Capítulo VIII — A chegada a Hogwarts e as imagens do jogo

O capítulo termina com a chegada de Hagrid e a travessia final rumo a Hogwarts. E tem um detalhe que me pegou fortemente: a descrição do cais onde os barcos chegam.

Essa imagem eu lembro perfeitamente — e não do filme. Do jogo. De Hogwarts Legacy. É curioso como diferentes mídias estão agora se misturando na minha memória: o livro criando a base, o filme como lembrança nebulosa, e o jogo como imagem vívida.

E, mesmo assim, o livro sustenta o encanto. Porque não é só “ver Hogwarts”. É chegar. É atravessar. É sentir que a vida finalmente está mudando de verdade.

“Alguns lugares não são destinos. São recomeços.”

Encerramento — Um capítulo de alicerces

O Capítulo 6 é um capítulo de alicerces. Em poucas páginas ele monta amizade, introduz rivalidade, apresenta humanidade, costura humor e prepara o terreno para o que vem.

É mais um excelente capítulo. E eu termino ansioso pelo próximo — porque agora Hogwarts não é mais promessa. É presença.

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