O frio que anuncia o fim
O capítulo 12 me passou a sensação de ser mais longo. Talvez ele não seja, objetivamente, maior do que os anteriores, mas foi mais intenso. E intensidade costuma dilatar o tempo. Chegamos à véspera de Natal, e com ela, o frio se instala definitivamente em Hogwarts. Não apenas o frio físico — aquele que congela corredores e janelas — mas um frio simbólico, emocional, que acompanha Harry desde muito antes de chegar ali.
Em conversas com meu amigo Felipe, eu já tinha entendido que os livros carregam essa marca muito clara da passagem do tempo. O semestre avança, o clima muda, e o inverno chega sempre como um prenúncio de encerramento. Quando isso acontece, algo em mim também reconhece o padrão: estou caminhando para o final do livro. Restam poucos capítulos agora.
O inverno em Hogwarts não é apenas uma estação. É um aviso.
Harry nunca teve um bom Natal com os tios. Nunca teve, e isso fica implícito, quase como uma constante silenciosa. Essa informação me atingiu mais do que eu esperava, porque me remeteu imediatamente a uma sensação de frio que eu conheço bem. Pelo menos as minhas últimas três décadas de Natal foram ruins, pessoalmente falando. Há datas que não aquecem. Apenas expõem.
Hogwarts vazia e o conforto do silêncio
Harry decide ficar em Hogwarts. A maioria vai embora, retorna às famílias, ocupa espaços que fazem sentido para elas. Draco continua sendo o bully de sempre, fazendo piadas, buscando risadas fáceis. Snape permanece desagradável, constante em sua rigidez quase hostil. Nada muda nessas figuras. Mas algo muda no cenário.
É interessante perceber que até as corujas sofrem com o clima. Em algum momento, eu as imaginava quase como entidades mágicas imunes a qualquer intempérie. Descobrir que o frio também as afeta torna o mundo bruxo mais concreto, mais físico, mais real. A magia não anula a natureza.
Hogwarts vazia ganha outra textura. Os corredores, as salas, os caminhos que mudam. Toda essa arquitetura me remete diretamente a Hogwarts Legacy. Eu andei por esses espaços durante horas no jogo. Reconheço escadas, passagens, a sensação de estar perdido em um castelo vivo. Algumas salas parecem mais quentes, outras mais hostis. Ler isso foi quase revisitar um lugar conhecido.
Existem lugares que a gente reconhece mesmo sem nunca ter estado lá.
O primeiro Natal verdadeiro
Harry recebe presentes. Rony também. Hermione vai para casa passar o Natal com os pais. E é curioso perceber que, paradoxalmente, este é o melhor Natal da vida de Harry — justamente aquele em que ele não está com uma família tradicional.
Ele recebe algo do Hagrid. Algo dos Weasley. Algo da Hermione. Pequenos gestos que, juntos, formam algo que ele nunca teve: pertencimento. Mas há um presente diferente. Um presente sem remetente.
A capa da invisibilidade.
Esse objeto é pesado. Importante. Carregado de significado dentro da história de Harry Potter. Eu me lembro disso. O símbolo da capa, curiosamente, também carrega gatilhos ruins para mim em relação ao universo da saga. Ao mesmo tempo, no Hogwarts Legacy, a presença da capa é quase simbólica, rápida, transitória. Temos poções, feitiços, versões incompletas da invisibilidade.
A capa verdadeira é única. É do pai do Harry. E isso muda tudo.
A biblioteca e o desejo
Harry vai até a biblioteca, até a seção restrita. Mais uma vez, minha memória do jogo se mistura à leitura. No jogo, a seção é mais controlada, mais mecânica. No livro, ela carrega um peso maior. Um perigo mais sutil.
E então chegamos ao ponto central do capítulo: o Espelho de Ojesed.
Harry vê sua família. Rony se vê melhor do que os irmãos. O espelho não mostra o futuro, nem a verdade, nem uma possibilidade concreta. Ele mostra o desejo mais profundo.
O espelho não mente. Ele apenas revela aquilo que pode nos destruir.
Na terceira visita, Alvo Dumbledore aparece. E não há bronca. Há conversa. Há explicação. Há cuidado. Dumbledore explica o perigo do espelho, fala sobre pessoas que enlouquecem diante dele. E decide removê-lo.
Harry, naquele momento, parece totalmente desfocado da missão inicial do capítulo: descobrir quem é Flamel. Ele já ouviu esse nome antes, mas não lembra de onde. Tenho certeza de que foi no trem, nas figurinhas dos capítulos iniciais. A informação estava lá, escondida, esperando ser resgatada.
Encerramento em silêncio
O capítulo se encerra fechado em si mesmo. O espelho é retirado. O desejo fica. Dumbledore solta uma frase que ecoa: ele não precisa de capa para ficar invisível. Talvez esteja falando de feitiços. Talvez esteja falando de algo maior.
E assim termina o Natal de Harry. Um Natal silencioso, frio, mas ainda assim, infinitamente melhor do que todos os outros que ele já teve.
Às vezes, o melhor Natal não é aquele em que temos tudo — mas aquele em que, finalmente, não estamos sozinhos.


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