O capítulo 6 começa exatamente onde o capítulo anterior terminou, sem qualquer transição suave ou salto temporal. Os alunos acordam, seguem sua rotina matinal e descem para o salão principal para o café da manhã. É uma continuação direta, quase como se o livro quisesse que o leitor não tivesse tempo de respirar entre a chegada caótica a Hogwarts e as consequências imediatas daquele erro.
E as consequências chegam rápido.
“Alguns erros não precisam de castigo formal. Eles vêm acompanhados de vergonha.”
O correio chega, e com ele vem algo que até então não fazia parte do meu repertório de lembranças: a carta gritadora. Não veio nenhuma memória do filme, nenhuma imagem solta, nenhum resquício de jogo. Nada. Tudo aqui foi novidade.
Ninguém parece saber exatamente o que é aquela carta até o momento em que Rony a abre. E então, o salão inteiro descobre junto com ele. A voz da senhora Weasley ecoa de forma violenta, pública e absolutamente constrangedora. Ela grita, acusa, repreende. O carro roubado. A irresponsabilidade. A vergonha causada à família.
Não há defesa possível. Não há como se esconder. O erro foi cometido, e agora ele reverbera diante de todos.
Harry, mais uma vez, assiste de fora. Ele participa da consequência, mas não é o alvo direto. Ainda assim, sente o peso. Talvez por empatia. Talvez por reconhecer aquela sensação de exposição forçada. Talvez porque, em algum nível, ele também esteja acostumado a ser o garoto observado.
Depois do episódio constrangedor, o livro segue para a aula de Herbologia. Aqui, as lembranças começam a surgir com mais clareza. O ambiente da estufa, as plantas, o cuidado necessário para lidar com criaturas que são tão perigosas quanto úteis.
Hogwarts Legacy volta imediatamente como referência primária. As mandrágoras, os espinhos venenosos, as plantas que não são apenas elementos decorativos, mas ferramentas reais. No jogo, elas viram armas. No livro, viram conhecimento. E essa ponte entre jogo e livro acontece de forma muito natural.
É curioso como a aula em si carrega um certo equilíbrio. Existe perigo, existe técnica, existe aprendizado. Algo que, naquele momento, parece muito mais concreto do que o espetáculo que vem logo depois.
“Alguns personagens entram em cena não para ensinar algo ao mundo, mas para mostrar exatamente o que não são.”
Lockhart volta ao centro da narrativa. E, desta vez, não existe qualquer sutileza. O livro faz questão de expor seu ego de maneira quase caricata. Ele comenta sobre o Salgueiro Lutador, mas rapidamente transforma o assunto em autopromoção. Em seguida, direciona o foco para Harry, insinuando que o garoto buscou fama deliberadamente.
A cada nova aparição, o traço fica mais nítido. Lockhart precisa ser visto. Precisa ser admirado. Precisa ser lembrado. Mesmo quando não é relevante, ele se torna o centro.
O episódio da foto é quase simbólico. Um aluno tenta registrar Harry, mas Lockhart intercepta, toma o lugar, se coloca no enquadramento. É um gesto pequeno, mas profundamente revelador. Não é sobre o momento. É sobre quem aparece nele.
A aula com os diabretes cristaliza tudo. Ao soltar as criaturas e não conseguir controlá-las, Lockhart transfere a responsabilidade imediatamente para os alunos. Não há liderança. Não há competência. Há apenas pose.
O teste que se segue é quase uma piada autoconsciente. Todas as perguntas são sobre ele. Seus feitos. Seus livros. Sua imagem. O livro, nesse ponto, já não tenta esconder nada. Ele constrói Lockhart como uma figura narcisista, performática, vazia por dentro.
É engraçado. Funciona como humor. Mas também funciona como preparação. Existe uma intenção clara em mostrar, desde cedo, que esse personagem não é o que diz ser. Que sua importância está mais na fachada do que na substância.
O capítulo termina sem grandes avanços na trama central da Câmara Secreta. Mas ele cumpre outra função: estabelecer consequências, aprofundar personagens e plantar sementes narrativas que claramente serão colhidas mais à frente.
Não é um capítulo de grandes revelações. É um capítulo de observação. De contraste. De exposição.
E, como muitos capítulos intermediários bem construídos, ele não grita sua importância. Ele apenas se posiciona, silenciosamente, no lugar certo da história.


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