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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Harry Potter e a Pedra Filosofal — Capítulo 9

O capítulo 9 começa fazendo algo que, até aqui, vinha sendo construído de forma sutil, quase implícita, mas que agora se torna absolutamente explícito: a equivalência entre Duda Dursley e Draco Malfoy. Não apenas como personagens antagônicos ao Harry, mas como símbolos do mesmo tipo de violência — aquela que nasce da arrogância, do privilégio e da certeza de que o mundo existe para servi-los.

Harry passou toda a sua infância sendo esmagado por Duda. Isso moldou sua percepção, seus reflexos, sua leitura do mundo. Então, quando Draco surge, o Harry não precisa de muito tempo para reconhecê-lo. Ele já conhece esse tipo de pessoa. Já sabe como esse jogo funciona. E, talvez por isso mesmo, o ranço não é apenas antipatia — é memória.

“Algumas pessoas não nos irritam pelo que são, mas pelo que nos lembram.”

Entre o voo e a queda

A aula de voo marca um ponto importante na narrativa. Até aqui, Harry vinha sendo apresentado como alguém deslocado, alguém que não entende o mundo ao seu redor. Mas, subitamente, ele sobe numa vassoura e tudo parece fazer sentido. Não há hesitação, não há aprendizado gradual. Ele simplesmente sabe.

Isso levanta uma questão interessante: até que ponto o talento do Harry é herança? Até que ponto ele carrega nos gestos aquilo que os pais eram? O livro não responde diretamente, mas sugere. E sugere bem.

A entrada precoce no time de quadribol reforça isso. Não apenas porque é um feito extraordinário, mas porque marca, pela primeira vez, um espaço onde Harry não é tolerado — ele é desejado. Ele não está ali por pena. Está ali por mérito.

“Há talentos que não precisam ser ensinados. Apenas lembrados.”

O duelo que nunca existiu

O convite de Draco para o duelo é, desde o início, uma armadilha. E isso diz muito sobre ele. Draco não quer provar nada. Ele quer humilhar. Quer expor. Quer fazer com que Harry seja punido, vigiado, enquadrado.

Essa diferença é fundamental. Enquanto Harry reage ao mundo a partir da defesa, Draco age a partir do ataque. Enquanto um tenta existir, o outro tenta dominar.

A sequência da fuga noturna é deliciosa de ler. A descrição dos corredores, das escadas, do desespero silencioso, do medo de ser pego por Filch, tudo isso constrói Hogwarts não apenas como um castelo mágico, mas como um organismo vivo, cheio de zonas proibidas, segredos e armadilhas.

A porta, o feitiço e o que não deveria ser visto

Quando Hermione lança o Alohomora, eu tive um daqueles momentos curiosos de familiaridade deslocada. Reconheci o feitiço imediatamente — não pelo filme, mas pelo jogo. Hogwarts Legacy me ensinou esse gesto antes do livro. É estranho como diferentes mídias constroem memórias que se misturam.

E então, a revelação: o corredor proibido. O cão de três cabeças. O alçapão.

Aqui o livro muda de tom. Até então, tudo era descoberta, adaptação, apresentação. Agora existe um segredo real. Algo escondido. Algo que não pertence às crianças, mas que inevitavelmente irá atravessá-las.

A analogia com Cérbero é imediata e eficaz. Guardião de algo que não deve ser acessado. Protetor de um limite. Hogwarts deixa de ser apenas escola e passa a ser território.

“Toda escola tem seus corredores proibidos. Alguns são físicos. Outros, emocionais.”

Amizade, rivalidade e escolha

O capítulo 9 é um divisor de águas silencioso. Ele consolida a rivalidade entre Harry e Draco, fortalece o laço entre Harry, Rony e Hermione, e planta a primeira semente real da trama maior que está por vir.

Não há batalhas épicas aqui. Não há grandes revelações explícitas. Mas há algo mais importante: a sensação de que o jogo começou. E que não será limpo.

Harry já não é apenas um menino descobrindo o mundo mágico. Ele agora está envolvido nele. Enredado. Observado.

E o que estava escondido sob aquele alçapão deixa claro que Hogwarts, assim como a vida, tem camadas. E algumas delas não foram feitas para serem abertas sem consequências.

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