Sobre incômodo, insistência e a indústria de nos cansar até pagarmos por silêncio.
Capítulo I — Um Pensamento Recorrente
Há um pensamento que me acompanhou durante boa parte de 2025 e que voltou com força neste início de 2026. Um pensamento que, curiosamente, encontrou uma analogia perfeita justamente no dia em que li o Capítulo 3 de Harry Potter e a Pedra Filosofal.
O capítulo das cartas. As cartas que não param. As cartas que insistem. As cartas que chegam apesar de todas as tentativas de bloqueio.
Relendo isso hoje, não consigo evitar a sensação de que J.K. Rowling foi, de certa forma, profética.
“Aquilo que insiste demais deixa de ser convite e vira invasão.”
Capítulo II — Quando Tudo se Torna Incômodo
Hoje, absolutamente tudo parece nos incomodar.
Cada ligação telefônica que recebo no celular é, para mim, uma versão moderna do tio Dursley recebendo uma carta de Hogwarts. Não há magia envolvida. Não há descoberta. Há apenas interrupção.
Algo que eu não pedi. Algo que eu não quero. Algo que insiste mesmo assim.
Vivemos uma cultura onde o incômodo virou modelo de negócio. E isso é assustador.
Capítulo III — Pagar para Não Ser Incomodado
As empresas, ano após ano, ficaram cada vez mais confortáveis em nos incomodar. Não de forma acidental, mas estratégica. O incômodo deixou de ser falha — virou ferramenta.
Hoje, você não paga por um serviço melhor. Você paga para parar de ser incomodado.
“O produto deixou de ser o serviço. O produto passou a ser o silêncio.”
Isso se espalha por todos os lados. Streaming, e-mail, celular, redes sociais. Tudo opera sob a mesma lógica: vamos cansar você até que pagar pareça um alívio.
Capítulo IV — O Gmail e a Memória da Internet Antiga
Outro dia, olhando meu Gmail, tive uma lembrança quase arqueológica. Sou um dinossauro da internet. Tenho uma conta Google de quando você precisava de convite para criar um e-mail.
Naquela época, o Google parecia revolucionário. O espaço de armazenamento era algo quase infinito. Sempre que você chegava perto do limite, ele aumentava. A mensagem implícita era clara: não se preocupe.
Hoje, essa mesma empresa usa o espaço como instrumento de pressão. Notificações, e-mails, alertas, avisos no celular. Um bombardeio constante.
Não para melhorar o serviço — mas para vender espaço.
“Quando algo que era tranquilizador vira ameaça, algo se quebrou.”
Capítulo V — YouTube, Streaming e a Nova TV Aberta
Vejo a mesma lógica no YouTube. As propagandas hoje são mais agressivas do que na TV aberta. Mais longas. Mais frequentes. Mais intrusivas.
Não é publicidade no sentido clássico. É desgaste. O objetivo não é te convencer — é te cansar.
O streaming, que nasceu como solução para a pirataria e para o excesso de anúncios, hoje se aproxima perigosamente do pior modelo possível: você paga e ainda assim é interrompido.
É, sem exagero, a pior geração de serviços que eu já vi.
Capítulo VI — Quando o Bom Serviço Parece Alienígena
Por contraste, quando uma empresa simplesmente entrega um bom serviço, isso soa quase como algo de outro mundo.
Posso citar o Steam. Ele te avisa de promoções relevantes, respeita seu tempo, não te liga, não te pressiona, não te interrompe.
Ele não tenta te cansar para vender. Ele tenta te convencer oferecendo algo que faça sentido.
“Oferecer algo bom deveria ser o padrão. Hoje, parece exceção.”
Capítulo VII — Os Dursleys Modernos
Em muitos dias, eu me sinto exatamente como um Dursley moderno. Recebendo ligações, mensagens, notificações e e-mails que eu não quero abrir.
Cartas de Hogwarts que não significam aventura — significam incômodo.
Essas ligações foram tão invasivas que inutilizaram o celular. Eu simplesmente não atendo mais. Quando alguém precisa falar comigo de verdade, precisa encontrar outro meio.
O telefone deixou de ser telefone.
“Quando tudo chama, nada importa.”
Capítulo VIII — O Fim do Telefone Fixo e a Ironia Final
Talvez seja exatamente por isso que os telefones fixos desapareceram. Eles não serviam mais para conversar — serviam apenas para incomodar.
Uma dúzia de empresas ligando, insistindo, perturbando. Como cartas mágicas que se multiplicam quanto mais você tenta ignorar.
A diferença é que, no livro, as cartas representam libertação. Na vida real, elas representam exaustão.
“Nem toda insistência é destino. Algumas são apenas ruído.”
E talvez o maior aprendizado disso tudo seja esse: nem toda carta merece ser aberta.


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