Neve, Quadribol e a sensação clara de que o fim começa a se aproximar.
O capítulo 11 se inicia com uma mudança quase silenciosa, mas extremamente significativa: o tempo muda. O frio chega. A neve cobre Hogwarts. E, junto com ela, vem uma sensação curiosa de passagem, de fechamento, de ciclo. Um comentário feito por um amigo — de que nos livros de Harry Potter o inverno sempre sinaliza a aproximação do fim do semestre — ecoou imediatamente enquanto eu lia. Não apenas porque a estação muda, mas porque a narrativa começa a se contrair, a puxar fios soltos.
Talvez seja por isso que, ao perceber que restam apenas seis capítulos depois deste, a leitura tenha vindo acompanhada de uma espécie de melancolia antecipada. A sensação clara de que estou, de fato, chegando ao fim dessa primeira jornada. Não do universo, mas deste início.
“O inverno não anuncia apenas o frio — ele anuncia encerramentos.”
1. O Quadribol como palco e Harry como arma secreta
Harry passa a ser tratado como uma espécie de arma secreta da Grifinória no Quadribol. E isso muda o eixo da sua presença em Hogwarts. Ele já não é apenas o menino famoso, nem apenas o novato deslocado. Ele agora é útil, desejado, estratégico.
O livro aproveita esse momento para aprofundar, ainda que discretamente, a amizade entre Harry, Rony e Hermione. Eles já não são apenas colegas unidos por um evento traumático; existe ali uma rotina, uma cumplicidade silenciosa, uma confiança que começa a se solidificar.
Ao mesmo tempo, surgem mais elementos que convidam o leitor a desconfiar de Snape. Para alguém que não conhece a história, tudo aponta para ele. O comportamento, o olhar, a antipatia evidente por Harry, o ar sempre hostil. A narrativa constrói isso com muita competência.
Aqui, porém, existe um conflito curioso da minha parte como leitor: eu já sei que Snape não é o vilão. Sei que ele não estava azarando a vassoura de Harry — mas tentando quebrar o feitiço. Essa informação, herdada dos filmes, cria uma leitura enviesada, onde eu observo a construção do mistério sabendo que ele é, em parte, uma armadilha narrativa.
“Às vezes, conhecer o final não estraga a história — apenas muda o lugar de onde a observamos.”
2. A partida: leitura, imagem e limites da imaginação
A descrição da partida de Quadribol é viva, dinâmica e cheia de detalhes. Ainda assim, confesso que esse talvez seja um dos poucos momentos em que imagino o filme funcionando melhor do que o livro. Há cenas que parecem pedir imagem, movimento, câmera, som.
Não é um defeito da escrita — é uma característica da mídia. Imagino que, quando chegar o momento de rever o filme, essa partida talvez seja um dos pontos em que a experiência cinematográfica ganhe vantagem. Especialmente considerando os efeitos especiais e o ritmo visual.
Grifinória vence. Harry captura o pomo de ouro. O capítulo cumpre seu papel de vitória, de afirmação, de celebração. Mas é logo depois disso que ele realmente se revela.
3. O cão, Flamel e o desenho do mistério
A revelação final do capítulo reorganiza várias peças do tabuleiro. O cão de três cabeças — até então apenas uma presença assustadora e misteriosa — pertence a Hagrid. Algo que, em retrospecto, faz todo sentido, mas que eu não havia antecipado conscientemente.
Ele não está ali por acaso. Ele protege algo. Algo ligado a Dumbledore. Algo ligado a Nicolas Flamel.
O nome Flamel já havia aparecido antes, quase como uma informação jogada de passagem. Agora, ele retorna carregado de significado. Um grande alquimista. Um nome que, por si só, já aponta para a ideia de transmutação, de algo precioso, raro, perigoso.
É nesse momento que o livro deixa claro: o que está escondido em Hogwarts não é um detalhe periférico. É o centro da história.
“Nada é apresentado por acaso. Algumas informações apenas esperam o momento certo para fazer sentido.”
4. Snape, a mordida e o que ainda não sabemos
Snape aparece mais uma vez envolto em mistério. A mordida do cão, o ferimento, a presença dele em locais onde não deveria estar. Tudo isso reforça a suspeita — ainda que, para mim, essa suspeita já venha contaminada pela memória do filme.
Não me lembro exatamente do que levou Snape até ali, nem por que ele foi mordido. Sei apenas que isso ainda será revelado. E gosto dessa sensação de saber que algo está vindo, mesmo sem lembrar exatamente como.
O livro entra, a partir daqui, em sua reta final com todos os elementos posicionados: as casas, as rivalidades, o trio, o antagonismo aparente, o objeto escondido, o guardião, o perigo iminente.
E Hogwarts se confirma, mais uma vez, como o lugar paradoxal que é: o mais seguro para esconder algo… justamente porque ninguém imagina o que realmente se esconde ali.
“Os lugares mais seguros não são os mais vigiados — são os mais subestimados.”
Capítulo 11 encerrado. A sensação agora é clara: as revelações finais estão próximas. E o livro, sem pressa, vai fechando o cerco ao redor de seu próprio mistério.


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