Gamertag

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Harry Potter e a Pedra Filosofal — Capítulo 4


A Chegada de Hagrid e o Dia em que Tudo Passa a Fazer Sentido

Projeto de leitura iniciado em 2026. Um capítulo por dia. Quando a verdade finalmente atravessa a porta.

Capítulo I — Um Capítulo que Termina com um Sorriso

Termino o Capítulo 4 com um sorriso no rosto. Não um sorriso de empolgação vazia, mas aquele sorriso silencioso de quando algo finalmente se encaixa.

Todo o capítulo gira em torno da chegada de Hagrid e da revelação da história de Harry. Não há grandes deslocamentos, não há múltiplos núcleos. Existe apenas um espaço apertado, uma cabana improvisada, uma família tentando se esconder — e a verdade batendo à porta.

“Há verdades que não chegam devagar. Elas arrombam.”

Capítulo II — O Tamanho Como Verdade do Mundo

Hagrid chega enorme. E isso não é um detalhe estético. É simbólico. Ele carrega uma das primeiras verdades duras do mundo: bullies são covardes.

Duda, acostumado a intimidar todos ao seu redor, encolhe. Tio Walter, que grita com todo mundo, perde a voz. A hierarquia muda no instante em que alguém maior entra na sala.

Esse momento é quase didático. Não no sentido moralista, mas no sentido cru: muitos abusos só existem porque não são confrontados.

“A violência costuma ser barulhenta apenas enquanto não encontra resistência.”

Hagrid não chega para negociar. Ele chega para interromper um ciclo.

Capítulo III — A Ignorância Como Violência

À medida que Hagrid conversa com Harry, sua irritação cresce. Não com o garoto, mas com a dimensão do que lhe foi roubado.

Harry não sabe sobre Hogwarts. Não sabe sobre magia. Não sabe sobre seus pais. Não sabe sobre si mesmo.

E isso dói.

A construção desse diálogo é brilhante porque nos coloca exatamente no lugar de Harry. Queremos saber mais. Queremos respostas. Queremos entender o que aconteceu, o que não aconteceu, o que vai acontecer.

“Quando alguém descobre que viveu uma mentira, cada detalhe do passado pede revisão.”

Capítulo IV — Quando o Passado Começa a Explicar o Presente

De repente, tudo começa a fazer sentido.

Os cortes de cabelo que nunca funcionam. O sumiço e o reaparecimento em outro ponto da escola. As reações de fúria dos tios sempre que algo estranho acontece.

Não era maldade gratuita. Era medo. Inveja. Ressentimento.

A revelação de que a tia viu a irmã aprender magia — e sentiu ciúme — é fundamental. Ela humaniza o ódio, sem justificá-lo. Mostra que aquilo nunca foi sobre Harry. Sempre foi sobre o que ele representava.

“Às vezes, odiamos nos outros aquilo que nunca tivemos coragem de desejar.”

Capítulo V — Um Espelho Incômodo

Em muitos momentos desse capítulo, me vi refletido em Harry. Não na magia, obviamente, mas na sensação.

A pergunta silenciosa: se eu sou tão bom nisso, se eu fui essa pessoa, por que passei por aquilo?

Essa dúvida atravessa a vida inteira. Da infância à maturidade. Situações em que você olha para si mesmo e pensa que deve estar errado — não porque fez algo errado, mas porque algo ruim aconteceu ao redor.

O livro toca nisso sem dizer explicitamente. Mas toca.

“Nem tudo que nos acontece é reflexo de quem somos.”

Capítulo VI — Hagrid: O Gigante Gentil

Hagrid é uma figura fascinante. Grande, assustador à primeira vista, quase grotesco — e ao mesmo tempo doce, cuidadoso, protetor.

O contraste é proposital. Ele parece perigoso, mas é amável. Ele parece bruto, mas é afetuoso. E isso o torna a figura perfeita para cuidar de Harry naquele momento.

Ele conheceu os pais. Ele trouxe o bebê. Ele é, de certa forma, um elo vivo entre o que Harry perdeu e o que está prestes a ganhar.

“Às vezes, quem mais assusta é quem melhor protege.”

Capítulo VII — A Sombra de Voldemort

A presença de Voldemort ainda é uma sombra. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu. Existe um mistério real ali.

Eu não sei se os filmes anteciparam essa revelação. Minha memória é confusa. Talvez eu tenha sido contaminado pelos filmes, porém a ordem, a cronologia me escapa.

Mas isso não estraga a experiência. Pelo contrário. O livro se sustenta por si.

Existe algo muito potente em saber que nem tudo está explicado — e talvez nem deva estar ainda.

Capítulo VIII — A Carta, o Nome e a Última Pergunta

O capítulo é rápido. Flui fácil. Todo focado naquele diálogo tenso e revelador dentro da cabana. Até que, finalmente, Harry lê a carta.

Hogwarts deixa de ser rumor. Deixa de ser insistência. Vira palavra escrita.

E eu gosto muito da expressão “trouxa”. Não apenas pelo humor, mas pelo que ela carrega. Não ser bruxo não é apenas não ter magia — é viver sem acesso a um mundo que existe, mas te foi negado.

“Talvez o verdadeiro feitiço seja acreditar que isso é tudo o que existe.”

E a última reflexão que esse capítulo me deixa é simples, quase infantil — e por isso mesmo poderosa:

Se eu receber uma carta de Hogwarts, eu deixo de ser trouxa?

Talvez não. Mas talvez eu passe a enxergar o mundo com outros olhos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

As Cartas de Hogwarts Que Não Param de Chegar

Sobre incômodo, insistência e a indústria de nos cansar até pagarmos por silêncio.

Capítulo I — Um Pensamento Recorrente

Há um pensamento que me acompanhou durante boa parte de 2025 e que voltou com força neste início de 2026. Um pensamento que, curiosamente, encontrou uma analogia perfeita justamente no dia em que li o Capítulo 3 de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

O capítulo das cartas. As cartas que não param. As cartas que insistem. As cartas que chegam apesar de todas as tentativas de bloqueio.

Relendo isso hoje, não consigo evitar a sensação de que J.K. Rowling foi, de certa forma, profética.

“Aquilo que insiste demais deixa de ser convite e vira invasão.”

Capítulo II — Quando Tudo se Torna Incômodo

Hoje, absolutamente tudo parece nos incomodar.

Cada ligação telefônica que recebo no celular é, para mim, uma versão moderna do tio Dursley recebendo uma carta de Hogwarts. Não há magia envolvida. Não há descoberta. Há apenas interrupção.

Algo que eu não pedi. Algo que eu não quero. Algo que insiste mesmo assim.

Vivemos uma cultura onde o incômodo virou modelo de negócio. E isso é assustador.

Capítulo III — Pagar para Não Ser Incomodado

As empresas, ano após ano, ficaram cada vez mais confortáveis em nos incomodar. Não de forma acidental, mas estratégica. O incômodo deixou de ser falha — virou ferramenta.

Hoje, você não paga por um serviço melhor. Você paga para parar de ser incomodado.

“O produto deixou de ser o serviço. O produto passou a ser o silêncio.”

Isso se espalha por todos os lados. Streaming, e-mail, celular, redes sociais. Tudo opera sob a mesma lógica: vamos cansar você até que pagar pareça um alívio.

Capítulo IV — O Gmail e a Memória da Internet Antiga

Outro dia, olhando meu Gmail, tive uma lembrança quase arqueológica. Sou um dinossauro da internet. Tenho uma conta Google de quando você precisava de convite para criar um e-mail.

Naquela época, o Google parecia revolucionário. O espaço de armazenamento era algo quase infinito. Sempre que você chegava perto do limite, ele aumentava. A mensagem implícita era clara: não se preocupe.

Hoje, essa mesma empresa usa o espaço como instrumento de pressão. Notificações, e-mails, alertas, avisos no celular. Um bombardeio constante.

Não para melhorar o serviço — mas para vender espaço.

“Quando algo que era tranquilizador vira ameaça, algo se quebrou.”

Capítulo V — YouTube, Streaming e a Nova TV Aberta

Vejo a mesma lógica no YouTube. As propagandas hoje são mais agressivas do que na TV aberta. Mais longas. Mais frequentes. Mais intrusivas.

Não é publicidade no sentido clássico. É desgaste. O objetivo não é te convencer — é te cansar.

O streaming, que nasceu como solução para a pirataria e para o excesso de anúncios, hoje se aproxima perigosamente do pior modelo possível: você paga e ainda assim é interrompido.

É, sem exagero, a pior geração de serviços que eu já vi.

Capítulo VI — Quando o Bom Serviço Parece Alienígena

Por contraste, quando uma empresa simplesmente entrega um bom serviço, isso soa quase como algo de outro mundo.

Posso citar o Steam. Ele te avisa de promoções relevantes, respeita seu tempo, não te liga, não te pressiona, não te interrompe.

Ele não tenta te cansar para vender. Ele tenta te convencer oferecendo algo que faça sentido.

“Oferecer algo bom deveria ser o padrão. Hoje, parece exceção.”

Capítulo VII — Os Dursleys Modernos

Em muitos dias, eu me sinto exatamente como um Dursley moderno. Recebendo ligações, mensagens, notificações e e-mails que eu não quero abrir.

Cartas de Hogwarts que não significam aventura — significam incômodo.

Essas ligações foram tão invasivas que inutilizaram o celular. Eu simplesmente não atendo mais. Quando alguém precisa falar comigo de verdade, precisa encontrar outro meio.

O telefone deixou de ser telefone.

“Quando tudo chama, nada importa.”

Capítulo VIII — O Fim do Telefone Fixo e a Ironia Final

Talvez seja exatamente por isso que os telefones fixos desapareceram. Eles não serviam mais para conversar — serviam apenas para incomodar.

Uma dúzia de empresas ligando, insistindo, perturbando. Como cartas mágicas que se multiplicam quanto mais você tenta ignorar.

A diferença é que, no livro, as cartas representam libertação. Na vida real, elas representam exaustão.

“Nem toda insistência é destino. Algumas são apenas ruído.”

E talvez o maior aprendizado disso tudo seja esse: nem toda carta merece ser aberta.

Harry Potter e a Pedra Filosofal — Capítulo 3


A Fuga das Cartas e o Desespero do Controle

Projeto de leitura iniciado em 2026. Um capítulo por dia. Quando a magia começa a insistir.

Capítulo I — O Primeiro Capítulo que Volta à Memória

O Capítulo 3 é, sem dúvida, o primeiro ponto da leitura em que a memória dos filmes começa a se manifestar com mais força. Não de forma nítida, não como cenas completas, mas como ecos. Sensações. Lembranças fragmentadas de algo que já foi visto, mas nunca plenamente absorvido.

Eu não lembro exatamente das cenas. Sei que assisti aos filmes em um período conturbado da minha vida, quando a atenção estava dispersa e a experiência era atravessada por muitas outras camadas emocionais. Ainda assim, a ideia das cartas chegando… isso ficou.

“Algumas lembranças não voltam como imagens. Voltam como sensação.”

Curiosamente, aquilo que eu lembrava não acontece exatamente aqui. A famosa cena da porta sendo aberta por Hagrid — isso ainda não é agora. O Capítulo 3 é outra coisa. É o caminho até ali.

Capítulo II — Cartas Que Não Aceitam Ser Ignoradas

Todo o capítulo gira em torno de uma ideia simples e genial: cartas que insistem. Cartas que chegam apesar de tudo. Cartas que sabem exatamente onde Harry está. Cartas que não respeitam o esforço desesperado dos Dursley em manter o controle.

O desespero do tio Walter é quase cômico. Ele tenta de tudo: esconder, bloquear, impedir, dormir na frente da porta, fechar a caixa de correio, reclamar que a carta chega junto com o leite. Quanto mais ele resiste, mais as cartas se multiplicam.

E há algo de profundamente simbólico nisso.

“Quanto mais se tenta abafar aquilo que é inevitável, mais barulho ele faz.”

As cartas não são apenas convites. Elas são uma força que se impõe contra o autoritarismo da normalidade. Um lembrete constante de que o controle dos Dursley nunca foi real.

Capítulo III — O Endereço Como Ato de Rebeldia

Um dos detalhes mais deliciosos do capítulo é a forma como as cartas evoluem. Primeiro, elas chegam endereçadas ao armário debaixo da escada. Depois, ao menor quarto da casa. Depois, ao hotel.

Isso não é apenas humor. É afronta. É a magia dizendo: eu sei exatamente onde você está tentando esconder isso.

Há algo de quase cruel — e ao mesmo tempo libertador — nessa precisão. A carta não aceita a narrativa que os Dursley tentam construir. Ela reconhece Harry como ele é e onde ele foi colocado.

“Nomear o lugar de alguém é reconhecer sua existência.”

Para alguém que sempre foi tratado como excesso, como resto, como problema, isso é um gesto poderoso. Mesmo que Harry ainda não compreenda completamente.

Capítulo IV — Humor, Crescente e Cinema

O Capítulo 3 é extremamente divertido de ler. Talvez o mais divertido até agora. Existe um ritmo crescente muito claro, quase exponencial, que faz o texto fluir com facilidade.

Fica muito fácil entender, lendo isso hoje, por que essa história funcionou tão bem no cinema. Há construções que são profundamente cinematográficas. Situações que pedem movimento, exagero, repetição.

A fuga das cartas é quase um desenho animado em live action. Um caos controlado. Um absurdo que cresce até se tornar inevitável.

“Algumas histórias pedem tela grande porque já nascem em movimento.”

Capítulo V — Um Conflito Que Vai Além da Magia

Em muitos momentos, lendo este capítulo, me peguei fazendo correlações pessoais. Não com magia, obviamente, mas com conflito geracional. Com pais conservadores. Com regras rígidas. Com o medo do que foge do controle.

Acredito que é aqui que a autora acerta em cheio. Porque, mesmo sem magia, quase todo mundo já viveu algo parecido: querer esconder quem alguém é. Fingir que algo não existe. Resistir a uma mudança que insiste em acontecer.

Harry Potter, nesse ponto, deixa de ser apenas fantasia. Ele vira espelho.

Encerramento — O Sorriso Antes da Porta Abrir

Eu termino o Capítulo 3 com um sorriso. Um sorriso genuíno de diversão. Mesmo sabendo o que vem a seguir. Mesmo sabendo que o aniversário de onze anos chega. Mesmo sabendo que a porta vai se abrir.

Esse spoiler não estragou minha leitura. Pelo contrário. Como muitas coisas ficaram nebulosas com o tempo, ainda existe surpresa suficiente para manter o encantamento.

“Saber o que vem não tira a graça de como se chega.”

Imaginar fugir de centenas de cartas mágicas, que se multiplicam quanto mais são ignoradas, é algo deliciosamente absurdo. E talvez seja exatamente por isso que funcione tão bem.

Até agora, este é o ponto alto da leitura. Amanhã, seguimos. Um capítulo por dia. E a magia, finalmente, bate à porta.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Harry Potter e a Pedra Filosofal — Capítulo 2


O Armário Debaixo da Escada e o Aprendizado da Violência

Projeto de leitura iniciado em 2026. Um capítulo por dia. Um olhar adulto sobre uma infância que começa confinada.

Capítulo I — O Salto no Tempo e a Casa que Aperta

O segundo capítulo começa com um salto temporal. Harry já não é mais um bebê deixado à porta. Ele agora é uma criança consciente — e isso muda completamente o peso da narrativa. Porque agora ele sente. Agora ele percebe. Agora ele entende, mesmo que não saiba explicar.

A imagem do armário debaixo da escada é forte. Muito forte. Automaticamente minha mente tenta traduzir isso para algo conhecido: aquelas escadas americanas com portinhas, quase sempre usadas como depósito, como armário de vassouras. Mesmo sabendo que a casa é britânica, o imaginário cinematográfico insiste em preencher os vazios.

“Toda casa tem um espaço esquecido. Às vezes, alguém cresce ali dentro.”

O que importa não é a arquitetura exata, mas o simbolismo. Harry não ocupa um quarto. Ele ocupa o resto. O espaço que sobra. O lugar que não foi feito para alguém viver, mas para ser escondido.

Capítulo II — Duda, o Bully Reconhecível

Duda é um personagem desconfortavelmente familiar. Todos nós conhecemos alguém assim. Mimado, violento, barulhento, acostumado a ter o mundo orbitando em torno de seus desejos. Ele não é apenas uma criança malcriada — ele é o reflexo direto de uma criação que nunca disse “não”.

O bullying aqui não é sutil. Ele é direto, físico, psicológico. E o mais perturbador é que ele não vem apenas do primo. Ele é reforçado pelos tios. Existe uma permissão tácita para que Harry seja maltratado. Uma autorização silenciosa que legitima a violência.

“O pior tipo de agressão é aquela que ninguém interrompe.”

O capítulo se torna mais indigesto exatamente por isso. Não é fantasia nesse ponto. É cotidiano. É uma infância sendo moldada sob humilhação constante.

Capítulo III — Magia Como Culpa

Algo que chama muito a atenção neste capítulo é o pavor absoluto que os Dursley têm da magia. Qualquer coisa fora do padrão é tratada como ameaça. E, ironicamente, Harry é punido por eventos que ele sequer compreende ou controla.

Cortes de cabelo que se desfazem sozinhos. Aparências que insistem em voltar ao estado original. Pequenos fenômenos que, para uma criança, só podem gerar confusão e medo. Ele não entende o que acontece. Só entende que será castigado.

“Quando alguém é punido por aquilo que não entende, aprende apenas a sentir culpa.”

Imagino o impacto disso na mente de alguém tão novo. A sensação constante de estar errado, mesmo quando não sabe por quê. A ideia de que existir já é um problema.

Capítulo IV — O Zoológico e a Primeira Brecha

A visita ao zoológico é, curiosamente, um dos momentos mais leves do capítulo — e também um dos mais simbólicos. É ali que algo diferente acontece. É ali que Harry fala com a cobra.

Eu não lembrava, antes de reler, do detalhe de que ele solta a cobra. Mas conforme li, a memória voltou. A cobra indo embora, agradecendo. É uma cena engraçada no livro, quase lúdica, apesar de que, se pensada fora da fantasia, seria algo bem mais sério.

Aqui, a magia não é punição. Ela é comunicação. É conexão. É talvez o primeiro momento em que Harry faz algo extraordinário e isso não resulta imediatamente em dor — ainda que, logo depois, venha o castigo.

“Às vezes, o primeiro sinal de quem somos aparece em silêncio, para não assustar.”

Capítulo V — Violência Doméstica Disfarçada de Normalidade

O capítulo inteiro carrega um peso difícil de ignorar. Ele é divertido em alguns momentos, sim, mas é um divertimento que convive com algo muito mais pesado: uma criação baseada em medo, castigo e exclusão.

Ficar trancado. Ser isolado. Ser responsabilizado por coisas que não controla. Tudo isso aparece de forma quase casual na narrativa, mas lido agora, com outros olhos, se torna impossível não pensar no impacto psicológico disso tudo.

É inevitável imaginar o quanto essa infância molda quem Harry vai se tornar. Não apenas como bruxo, mas como pessoa.

Encerramento — À Beira da Carta

O Capítulo 2 termina com a sensação de que algo está prestes a mudar. Para quem já conhece minimamente a história, sabemos que a carta de Hogwarts se aproxima. Existe uma expectativa no ar.

Mas, antes da libertação, o livro faz questão de nos manter aqui. Debaixo da escada. Dentro da casa que aperta. Presos à normalidade sufocante.

É um capítulo divertido, sim. Mas também é um capítulo duro. Um lembrete de que, antes da magia, há abandono. Antes do pertencimento, há exclusão.

Amanhã, seguimos. Um capítulo por dia. E uma infância que começa, finalmente, a rachar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Harry Potter e a Pedra Filosofal — Capítulo 1


Primeiras Impressões de um Encontro Tardio

Projeto de leitura iniciado em 2026. Um capítulo por dia. Um olhar adulto sobre uma história que chegou tarde — mas talvez no tempo certo.

Capítulo I — Começar Depois do Tempo

Começar a ler Harry Potter em 2026 não é um gesto inocente. Não é curiosidade adolescente, nem empolgação coletiva. É um movimento tardio, consciente, quase cauteloso.

Eu chego a esse livro depois dos filmes, depois do fenômeno cultural, depois das conversas, das camisetas, das referências espalhadas pelo mundo. Chego depois até de mim mesmo. E isso muda tudo. Porque ler agora não é descobrir — é revisitar algo que nunca foi realmente vivido.

“Algumas histórias não chegam quando queremos. Chegam quando estamos prontos para suportá-las.”

A proposta deste projeto é simples, mas exigente: um capítulo por dia, enquanto ele ainda está fresco na mente. Não para resumir, não para analisar tecnicamente, mas para entender o que isso provoca em mim agora. Este texto também servirá de base para algo futuro: quando o livro acabar, revisitar os filmes, quebrá-los, compará-los, cruzar sentimentos, memórias e impressões.

Capítulo II — O Capítulo Que o Filme Não Contou

A primeira surpresa do Capítulo 1 é perceber o quanto ele não pertence ao filme — ou, ao menos, não como eu lembrava. Há algo de extremamente literário nesse início. Um tempo que o cinema não tem. Um espaço de construção que não depende de impacto visual, mas de atmosfera.

O livro começa em festa. Uma festa estranha. Bruxos comemorando abertamente, distraídos demais para se esconderem dos trouxas. Corujas voando durante o dia. Pessoas vestidas de forma excêntrica. Sussurros que não se preocupam em ser ouvidos. Existe algo quase irresponsável nesse comportamento coletivo, como se o mundo tivesse suspendido suas regras por uma noite.

E talvez tenha suspendido mesmo.

“Quando algo muito grande acontece, o mundo costuma relaxar a vigilância.”

Esse início me chamou muito mais atenção do que eu esperava. Não pela grandiosidade do feito — Harry vencer Voldemort — mas pela forma como o universo reage a isso. Não é heroísmo. É alívio. É descuido. É celebração inconsequente.

Capítulo III — Os Dursleys e o Horror do Normal

A apresentação dos Dursleys é um dos pontos mais interessantes do capítulo. Eles não são apenas antipáticos. Eles são uma caricatura do medo do diferente. Pessoas que se orgulham de serem absolutamente normais. Pessoas que vigiam os vizinhos não por cuidado, mas por controle.

Existe algo de profundamente perturbador na normalidade extrema. E o livro deixa isso claro logo de início. Antes mesmo da magia, antes dos feitiços, o primeiro antagonismo da história é o cotidiano rígido, o desejo de que nada mude, de que nada fuja do padrão.

“O problema nunca foi o estranho. O problema é quem precisa que tudo permaneça igual.”

Saber que Harry será entregue justamente a esse tipo de família cria um desconforto imediato. Não porque eles são maus de forma explícita, mas porque representam um tipo de violência silenciosa, constante, cotidiana.

Capítulo IV — Vigílias, Corujas e a Noite da Entrega

A cena da professora — a bruxa-gato — vigiando a casa é um dos momentos mais lúdicos e ao mesmo tempo mais simbólicos do capítulo. Enquanto o mundo mágico comemora, alguém observa. Alguém espera. Alguém entende que nem tudo é festa.

Gosto muito desse contraste: enquanto há estrelas cadentes, corujas e celebração, há também silêncio, expectativa e vigilância. Como se o livro dissesse, desde o início, que toda grande vitória carrega uma consequência pesada.

“Toda celebração esconde alguém que ficou acordado para garantir que nada desmorone.”

A primeira aparição de Dumbledore é poderosa justamente por isso. Ele não entra em cena como um salvador exuberante. Ele entra como alguém que entende o peso do que está sendo feito. Existe autoridade ali, mas também melancolia.

Capítulo V — A Moto, o Hagrid e a Imaginação

A chegada de Hagrid com Harry na moto foi, para mim, o momento mais imagético do capítulo. Curiosamente, minha mente construiu essa cena de forma muito particular. Talvez contaminada por filmes dos anos 80, por motoqueiros solitários, por imagens de estrada e couro.

Na minha imaginação, Hagrid chega quase como um motoqueiro deslocado no tempo. Algo entre o bruto e o protetor. Não exatamente de couro, mas com uma presença que remete mais a um andarilho do que a um guardião mágico tradicional.

Fiquei curioso para rever essa cena no filme depois. Para comparar. Para perceber se minha imaginação será substituída ou apenas ajustada.

“Algumas cenas não pertencem ao livro nem ao filme. Pertencem à forma como nossa mente precisa delas.”

Capítulo VI — Um Começo em Festa e Esquecimento

O capítulo termina de forma curiosa. Sabemos tudo — e ao mesmo tempo, não sabemos nada. Sabemos que Voldemort caiu. Sabemos que os pais de Harry morreram. Mas não sabemos quem Harry será. E, mais importante: ele também não sabe.

Há algo de profundamente triste nesse encerramento. Um mundo inteiro comemora algo que a criança central dessa história nunca vai lembrar. Ele vence uma guerra antes mesmo de saber o que é um conflito.

“Algumas vitórias nascem grandes demais para quem as carrega.”

O livro começa com festa. Com barulho. Com magia espalhada pelo ar. Mas termina com uma criança deixada em uma porta, sem escolha, sem memória, sem consciência do peso que acabou de herdar.

Como início de história, é poderoso. Como primeiro contato consciente com esse universo, foi surpreendentemente agradável.

Encerramento — Primeiras Impressões

O Capítulo 1 foi extremamente agradável de ler. Mais do que isso: foi convidativo. Não no sentido de empolgação, mas no sentido de curiosidade tranquila. Um início que não grita, mas observa.

Começar Harry Potter agora não é sobre recuperar o tempo perdido. É sobre entender por que ele nunca fez sentido antes — e por que talvez faça agora.

Amanhã, o Capítulo 2. Um capítulo por dia. Uma história antiga, lida com olhos que já não são os mesmos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

2025, Sobre Tempo e Presença

O ano em que entendi que tempo não falta — ele apenas é escolhido.

Capítulo 1 – O que 2025 deixou claro

Encerrar um ano não é apenas trocar o número no calendário. É olhar para trás e reconhecer padrões que se repetiram vezes demais para serem ignorados.

2025 me deixou algumas certezas. Não muitas — mas profundas. E talvez a mais gritante delas seja sobre algo que todo mundo diz não ter: tempo.

Ou melhor: sobre como o tempo é usado como desculpa.

“Não existe falta de tempo. Existem escolhas bem claras.”

Capítulo 2 – Pessoas não têm falta de tempo

Durante muito tempo, eu acreditei na narrativa da falta de tempo. A vida é corrida, as responsabilidades são muitas, os dias passam rápido demais. Tudo isso é verdade.

Mas 2025 me ensinou algo mais específico: existem pessoas sem tempo para você.

E isso fica evidente de formas muito simples.

É aquela pessoa que demora vinte e quatro horas para responder uma mensagem, mas publica dezenas de stories no mesmo intervalo. É aquela pessoa que ignora um “bom dia” direto, mas faz questão de dar bom dia para uma multidão anônima.

Essa pessoa não quer falar com você. Ela quer falar com números. Com validação. Com alcance.

E está tudo certo. Cada um escolhe o que valoriza.

“Algumas pessoas não querem conversa. Querem plateia.”

Capítulo 3 – Presença não é proximidade física

Outra lição dolorosa de 2025 foi entender que, para algumas pessoas, presença é apenas física. Se você não está ali, ao alcance do toque, você é sempre adiado.

E mesmo quando está fisicamente perto, pode ser deixado de lado por um grupo mais interessante, um ambiente mais estimulante, algo que agrade mais naquele momento.

Essas pessoas não estão erradas. Mas também não são o tipo de vínculo que eu quero continuar cultivando.

Presença, para mim, passou a significar atenção, intenção e escolha.

“Estar perto não é o mesmo que estar junto.”

Capítulo 4 – Gente que só aparece na necessidade

Em 2025, percebi outro padrão com clareza desconfortável: pessoas que só tinham tempo quando precisavam de algo.

Quando havia uma demanda — física, emocional, psicológica, prática — o tempo surgia. A lembrança surgia. A disponibilidade surgia.

Essa foi uma lição dura. Porque ela escancara algo que eu precisei admitir: eu estava sendo útil demais.

E não no sentido saudável.

“Ser lembrado só na necessidade não é vínculo. É conveniência.”

Capítulo 5 – Eu não quero mais ser útil

Uma das decisões mais importantes que 2025 me forçou a tomar foi essa: eu não quero mais ser útil.

Não quero ser apoio circunstancial. Não quero ser o lugar onde as pessoas encostam quando tudo desmorona e esquecem quando tudo se ajeita.

Eu quero ser alguém que se ajuda. Que se preserva. Que escolhe melhor onde investe energia.

Isso não é egoísmo. É sobrevivência emocional.

Capítulo 6 – Gastar tempo, não sobrar tempo

Outra coisa ficou clara: conexões verdadeiras não acontecem no tempo que sobra.

Elas acontecem no tempo que se gasta.

Eu não quero mais relações feitas de restos de agenda. De encaixes apressados. De respostas atrasadas.

Quero conversas que aconteçam porque alguém quis estar ali. Seja presencialmente, numa ligação, numa chamada de vídeo, numa conversa virtual ou num encontro marcado.

“Quem quer, arranja tempo. Quem não quer, arranja desculpa.”

Capítulo 7 – Para ter pessoas presentes, é preciso abrir espaço

A conclusão mais difícil — e talvez a mais necessária — de 2025 foi entender que, para ter pessoas presentes, eu preciso me livrar das pessoas ausentes.

E isso é mais simples do que parece. Basta observar quem só aparece para pedir. Quem nunca pergunta. Quem nunca puxa conversa. Quem nunca permanece.

Não é sobre raiva. Não é sobre ressentimento. É sobre espaço.

Não cabe gente nova onde o lugar ainda está ocupado por ausências antigas.

“Às vezes, soltar não é perder. É finalmente abrir espaço.”

Capítulo 8 – O que levo para 2026

Eu termino 2025 com menos ilusões, mas com mais clareza.

Levo comigo a certeza de que tempo é escolha. Presença é decisão. E conexão é algo que só existe quando há reciprocidade.

Não quero mais pessoas que se lembrem de mim apenas quando precisam.

Quero pessoas que se lembrem. Simplesmente.

Esse foi o maior ensinamento de 2025. E é com ele que eu entro em 2026.